Por Flávio Aguiar – Especial para o RS Urgente
Nos últimos tempos tenho lido algumas manifestações sobre um suposto “isolamento” do Rio Grande do Sul do resto do país.
Eu entendo esse sentimento. Mas não concordo com ele.
Entendo até que há algo de atávico nele. Todos os gaúchos e todas as gaúchas, quer queiram ou não, carregam dentro de si a estância herdada de uma “república frustrada”. “Nosso passado nos condena”, para parafrasear título de filme conhecido (pelo menos pelos cinéfilos de antanho: “Meu passado me condena”, 1961 (GB), direção de Basil Dearden, com Dirk Bogarde).
Além disso, que eu saiba, o Rio Grande do Sul é o único estado brasileiro que tem ruínas como foco de peregrinação identitária – as Missões. Isso não é pouco: para “vir a ser” completamente, ter de visitar (como o muçulmano vai a Meca) o que foi destruído para que existíssemos. Para resolver esse caso, só uns seis séculos de análise, o analista do Veríssimo que o diga. Ainda faltam uns três e meio.
Mas isso é o passado. No presente, leio essa sensação de isolamento como uma percepção disfórica – deprê – da situação política atual do nosso estado, desgovernado por uma administração estadual incompetente, trapalhona, isso para dizer o mínimo e não entrar em expressões que poderiam me levar e este site do Marco Aurélio às barras dos tribunais – também para não falar de outras barras. O Brasil – tampouco sem euforias maníacas – vive um momento privilegiado de sua história: a miséria marcha para o fim, ainda que de modo lento e gradual demais, mas parece que seguro; a pobreza recua, a classe média aumenta e apesar dos corvos de outras aves de agouro de plantão, nosso governo nos levou a uma posição privilegiada nos fóruns internacionais. Enquanto isso, nós, gaúchos (mesmo os espraiados pelo mundo, como eu), ficamos chupando o dedo no cantinho, às voltas com uma administração que nos deslustra.
Pois é, entendo, mas não concordo. Acho necessário um esforço individual e coletivo para sacudir essa poeira dos ombros e dos olhos. Afinal, temos uma tradição de pertença ao mundo também muito grande e enraizada – e, por favor, não estou me referindo ao fato das duas Misses Universo brasileiras serem gaúchas nem ao fato dos nossos arqui-rivais futebolísticos terem conseguido faturar o campeonato mundial interclubes, para manter o equilíbrio pampiano.
Refiro-me a outra coisa, “um não sei que de não sei como”, um certo sentimento íntimo que pode, por exemplo, ser ilustrado pela quantidade de diplomatas que tivemos em nossa história, gente como Raul Bopp, Vianna Moog, Joaquim Francisco de Assis Brasil. O “Almirante Negro” da Revolta da Armada nasceu aqui, quero dizer aí (estou em Berlim). O Barão de Itararé também. O verdadeiro criador da antes famigerada e hoje incensada CLT – que nada tem de fascista – foi o Lindolfo Collor, que se inspirou no que de melhor havia na legislação trabalhista mundial (basta ler os artigos do professor Alfredo Bosi a respeito). Lembremos que Erico Veríssimo, premido por uma sensação de isolamento em Washington, não conseguia espaço íntimo para escrever O arquipélago. Daí decide fazer uma viagem “para reencontrar-se com sua identidade”. E vai… ao México, dando origem ao livro homônimo, um dos clássicos da literatura de viagem, e tornando-se um dos primeiros brasileiros a de fato cruzar a linha do Tordesilhas e ir ao encontro do sentimento de pertencermos à América Latina. E nem falei da Anita Garibaldi e dos italianos que aqui lutaram pela liberdade.
Levamos dentro do peito, desde sempre, ao lado do coração em forma de cuia, uma fronteira – e a disposição de cruzá-la. Hoje em dia não mais em guerras estúpidas, mas sim para encontros e o reconhecimento criativo das diferenças e desencontros também.
No plano coletivo, não vão longe os dias em que Porto Alegre, a nossa capital, tornou-se – e o será para sempre – a “capital do século XXI”, berço que foi do Fórum Social Mundial. Hoje se pode discutir os destinos, a pertinência, o formato do FSM. Mas ninguém poderá negar o impacto que esse processo – o FSM – teve na articulação mundial de um pensamento alternativo à pretendida hegemonia do pensamento único e do império dos mercados como panacéia universal. Só isso já devia inspirar uma penca de teses de doutorado, em todos os campos das humanidades. Fomos onde renasceu das próprias cinzas a luta contra as desumanidades do século XX e XXI.
Agora, para que o passado – remoto ou imediato – venha em nosso socorro, é necessário descortinar e liberar o futuro. Ir ao encontro da sua construção reativando as forças das nossas tradições libertárias, contra as também existentes tradições nossas de conchavos reacionários e antipovo, e lutando para termos uma administração pública que possa nos representar de igual para igual em qualquer canto do mundo. O Brasil hoje passeia pelo mundo de cabeça em pé. O nosso Rio Grande do Sul, como parte do Brasil que é, poderá acompanhar e promover desde si esse gesto.
Como residente no estrangeiro, não poderei votar para o governo do estado, só para presidente do Brasil. Mas no fundo, bem no fundo do coração/cuia que carrego comigo, estarei fazendo um voto – uma espécie de reza laica – para que o Rio Grande do Sul vote certo e eleja o Tarso, além de uma boa bancada para as peleias que virão. Afinal, como o mundo, “um outro Rio Grande é possível”, e desde sempre ele existiu. Não morreu. Está trancado nas nossas gavetas. É só abri-las.
(*) Flávio Aguiar nasceu em 1947, em Porto Alegre. Mora em Berlim e é colaborador da Revista do Brasil e da Carta Maior. Fez mestrado e doutorado em Teoria Literária na USP e foi professor de Literatura Brasileira dessa universidade de 1973 a 2006. No período da ditadura, foi editor de Cultura do jornal “Movimento”. Foi diretor de TV e editor-chefe da página Carta Maior, com a qual continua a colaborar. Autor, organizador e colaborador de dezenas de livros, ganhou três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Conheça o blog do Velho Mundo, que Flávio mantém na Rede Brasil Atual.