Sabe-se que, no jornal, a criação de manchetes de capa observa, num processo de defesa e ataque, alguns padrões de conteúdo. A barragem de fogo político e ideológico destina-se, quase sempre, ao Governo Lula. Sob o ataque das letras graúdas também costumam estar a base parlamentar do governo federal, os movimentos sociais, as propostas de superação da desigualdade, o Estado brasileiro, o próprio Brasil como um país fragilizado, indigno de confiança, os aliados do Governo Lula na América Latina, notadamente Hugo Chávez, Evo Morales, Fidel Castro, Rafael Correa. Aqui, tenta-se desconstruir o Brasil, Lula, seu governo, seus aliados, suas relações internacionais e seus projetos.
O afago benevolente vai para o Governo Yeda Crusius, o agronegócio, as papeleiras, o mercado e o Rio Grande. Aqui, ao inverso, a idéia é de construir o Grande Rio Grande mítico e empreendedor, cavalgando as propostas com o timbre do Piratini ou os planos de indústrias de se instalarem no Estado, muitas vezes montado apenas em intenções. Aqui, constrói-se uma quimera.
Alguém poderá dizer que não seria necessário dar-se a este trabalho já que a realidade nos informa disto suficientemente. Não deixará de ter certa razão. Mas custa apenas alguns minutos diários e uma dose de omeprazol para proteger as paredes do estômago. Além do mais, é bom escarafunchar estes escaninhos, saciar a curiosidade e perceber como se traduz em números e percentuais esta engrenagem de demolição e edificação de pessoas, partidos e poderes.
Provavelmente embalado pelo ócio de final de ano, comecei a registrar as capas sirostskianas no apagar das luzes de 2007, separando as manchetes em categorias. De pronto, descartei as vinculadas às investidas institucionais da RBS. No período, muitas capas de ZH foram dedicadas a si própria, ou seja, à agenda que implementou com sua campanha de trânsito. Neste movimento, os acidentes, as medidas das autoridades, as cifras de feridos e mortos são apropriados pela campanha e noticiados sob o logo e o slogan correspondentes. Coloquei de lado também àquelas que chamei de neutras. Somadas, as manchetes institucionais, auto-referenciadas, e as neutras são maioria absoluta no trimestre. São neutras – pelo menos dentro do proposto embora, de fato, nunca sejam neutras – geralmente as manchetes relacionadas às festas (Carnaval, Navegantes, Natal, Ano Novo), tragédias, meteorologia, ciência, polícia, esporte, etc.
E, de inhapa, 7,5% das manchetes ainda abordaram negativamente fatos relacionados aos aliados latino-americanos do Governo Lula. Esta é a mão que apedreja. Em contrapartida, a mão que afaga acariciou o Governo Yeda/Aliados/Rio Grande com 40% das manchetes positivas e somente 12,5% das negativas.
Como as principais forças que comandam os dois governos são antagônicas, pode-se dizer que ZH prestou um serviço ao governo estadual e aos seus aliados, seja ao enfocar seus temas favoravelmente, seja ao enfocar desfavoravelmente seus adversários, ao publicar praticamente 80% de suas manchetes políticas. Desfavoreceu o Governo Yeda e seus aliados em 20% de suas manchetes.
O mais extravagante de tudo é que, excluídas as manchetes referentes às atribulações do pessoal do aprisco da governadora na CPI do Detran, ZH não produziu uma só manchete claramente questionadora de alguma política do Governo Yeda ao longo de três meses. Zero de crítica. De modo que, na avaliação do jornal, a administração Yeda ronda a perfeição, pouco importando que no mundo real arraste-se com um desempenho constrangedor. De outra parte, o Governo Lula padece nas manchetes de ZH embora no mundo real obtenha a aprovação da grande maioria da população e a imagem do presidente seja ótima de acordo com todas as pesquisas de opinião.


on Apr 5th, 2008 at 11:30 pm
Excelente trabalho. É assim, empiricamente e com argumentos fundamentados, que se tira o véu que cobre a verdadeira face do Grupo RBS.
on Apr 6th, 2008 at 12:12 am
Por isso cancelei a assinatura deste panfleto ordinário.De vez em quando ainda mandam algum aqui pra casa na esperança que eu volte a assinar. Mas isso NUNCA, NEVER, JAMAIS irá acontecer. Inclusive já convenci amigos a deixar de assinar essa droga. Quanto à tv, agora assito Record News e ponto final. mariah
on Apr 6th, 2008 at 12:15 am
eu acho útil esse trabalho, marco, mas as vezes parece muita papagaiada.
não porque não seja verdade ou porque seja pouco relevante a merda da ZH, mas porque eu ouço a mesma história há anos, de muita gente, mas não parece haver uma só alternativa à Zero Hora.
Quanto custa comprar o Jornal do Comércio e uma tv prestes a falir? uma cooperativa de uns 100 ou 1000 jornalistas não conseguiria?
on Apr 6th, 2008 at 4:01 am
Cid Elias diz,
Penso que este tipo de trabalho é a melhor maneira de desmascarar a imprensa golpista que insiste em posar de isenta. O fato é que pesquisas, estatísticas, estudos que revelem, através de dados concretos e confiáveis, a gritante parcialidade da mídia nativa – escrita, falada ou o diabo que for – são raríssimos. Lembro que no calor das eleições de 2006, vi pela primeira vez uma pesquisa sobre o tema, batizada por alguém de “Tiro ao Lula”, feita pelo Observatório Brasileiro de Mídia. Incomodada e sem moral pra rebater o correto trabalho do OBM, a grande mídia fez “se fez de salame”. Pra termos uma idéia da inexistência destas pesquisas reveladoras, que ao meu ver são fundamentais quando se quer debater com pseudo-jornalistas, reaças e filhotes da dita _ _ _ _ SEM “achismos”, o OBM, de 2006 pra cá, não publicou mais nada. O outro instituto que tb estuda o tema, o DOXA/IUPERJ, ainda nem publicou a pesquisa mídia/eleições 2006! No site diz que está em “andamento”. Então, até podemos “ouvir” histórias sobre isso há anos, mas “ver de verdade”…
on Apr 6th, 2008 at 4:20 am
Os jornais todos,fazem o mesmo,”O SUL”,por exêmplo,é uma cópia da Fôlha de São Paulo,nas duas ou tres páginas em que as notícias são daqui do RS,a Yeda,é uma heroina “,esta arrumando a casa pois os outros governos anteriores não tiveram a sua coragem!”A mesma coisa com o Fogaça mostra êle,conduto Álvaro Chaves,suas declarações,as emissôras de rádio são piores que o jornal…Dá nojo!
on Apr 6th, 2008 at 7:24 am
Lucas, dificilmente, entro em debate com comentaristas, porque acho contraproducente. Mas eu me assusto um pouco, quando leio este tipo de coisa que escreveste, pois tens e não tens razão. Primeiro, porque não foi papagaiada o que o Ayrton escreveu, pois são raros os jornalistas, fora da academia, que tem esta preocupação em confirmar um fato com números. E ele não faz menção, nem chega à conclusão, de que precisamos de um jornal burguês, naquilo que o jornalismo tem como função primordial: informar as pessoas sobre os fatos como eles são. Não era essa a sua intenção com o artigo.
Segundo, porque ter uma opinião sobre a Zero Hora não tem nada a ver com a ausência deste jornal que, tens razão, deveria existir!
Agora, cooperativa de 100 ou mil jornalistas é para não existir jornal, muito menos tv alguma, não é mesmo? Num país, onde as leis sobre comunicação datam de 1962; outras nasceram letras mortas; outras nem foram regulamentadas, é muito “romântica” esta tua solução.
Estou convencida de que precisamos de uma política de estado para a aplicação de verbas governamentais em mídia. Enquanto a fatia gorda for para as empresas privadas de comunicação, a população que identifica a ZH como um panfleto de propaganda da direita, menos lugar onde exista jornalismo, ficará privada deste jornal com jornalismo na sua real acepção da palavra. A experiência do Diário do Sul é exemplo de jornalismo boicotado pela empresa da família Sirotsky. Durou em torno de 2 anos.
on Apr 6th, 2008 at 12:18 pm
Belo trabalho, Marco!
E vamos nos preparar que as próximas semanas prometem ser “daquelas”, sobretudo se, entre um “efeito dossiê” e outro (e não por mera coincidência, é claro), realmente começar a “pegar” essa onda para um terceiro mandato do Presidente Lula. Zêagá e sua turma vão vir com tudo e tudo mais ainda.
Como diria o meu dentista ateu: Oremos!
um abraço!
on Apr 6th, 2008 at 1:24 pm
Nada criativo o que vou dizer, muitos já devem ter dito, mas vale a pena… Que esperar de um jornal que tem o NADA no nome?
on Apr 6th, 2008 at 8:50 pm
Muito bom!
Uma das tarefas dos blogs de esquerda é desmontar a farsa do PIG.
Tarefa cumprida, por hoje.
Cristóvão Feil
on Apr 6th, 2008 at 9:53 pm
claudia,
ótimo, então ficaremos esperando o estado agir.
maravilhosa forma de rever o jogo da batata quente. “A culpa não é nossa, é do estado.” ou ainda uma belo motivo pra tomar o poder pra si: “assim que formos eleitos, resolveremos isso.”
voltando ao meu argumento, friso: é pouco útil ficar batendo na zero hora pelo simples fato deles terem o monopólio. Qualquer um que queira ler jornal acaba tendo que correr pra zero hora (já que os dois supostos concorrentes tem a mesma posição editorial mas de menor qualidade). Assim, que que adianta as pessoas saberem que a ZH é um panfleto se tudo que podem fazer é continuar comprando?
ainda, acho ótimo blogs como esse e o PUTZ, mas mesmo que tivéssemos 100 blogs dessa qualidade só atingiríamos um público restrito (crescente, é verdade, mas restrito).
outra coisa: alguém sabe qual a opção de jornal online? só existe a zerohora.com. Até no Piauí, com uma população bem menor e um poder aquisitivo ínfimo eles tem opções. Veja bem, aqui não é necessário grandes estruturas. Pagar um servidor (10 ou 20 dolares mensais) e juntar vários jornalistas. Ah sim, mas é mais fácil esperar o estado. Cômodo não?
on Apr 6th, 2008 at 9:55 pm
Os leitores de Zero Hora, dividem-se em dois grupos, a meu ver: 01) os que têm o costume de ir à banca e comprá-la (aí não se está inserido o caráter ideológico); 02) Os que que se afinam ideologicamente com ela ou ao Grupo RBS (ao direitismo). Isto está bem apanhado na pesquisa do Ayrton Centeno, utilizando-se das manchetes do “Pasquim da Azenha”, by Vieja Bruja.
on Apr 6th, 2008 at 10:04 pm
Ótima matéria, é sempre bom precisamos quantificar as coisas para não ficar só naquele papo de “acho que a RBS não é independente”, com esses números na mão acabasse a dúvida.
on Apr 7th, 2008 at 12:19 pm
soma-se a este teu artigo a materia publicada no dia 7/4 de educaçao, onde mostra as escolas publicas (nota no enem 54..)como primeira colocada em relaçao. Sendo que as privadas obtiveram nota no enem de 65 mas obtiveram o decimo lugar no pais. assim parece que as escolas publicas estao melhores, porem as notas da particulares sao bem maiores.
on Apr 7th, 2008 at 9:52 pm
eu não acredito em jornalismo financiado pelo estado. me desculpe claudia, acredito que isso precise ser melhor regulamentado para impedir que os governos troquem manchetes positivas por verba publicitária, com tem sido, especialmente aqui no Rio Grande do Sul. Mas depender disso para criar uma pluralidade midiática não me parece a saída…
on Apr 8th, 2008 at 12:01 pm
NOs idos dos anos 80, na FAMECOS, Escola de Comunicação da PUC-RS, aprendi esta técnica que constitui uma das armas que a Comunicação Comparada tem para sair do terreno do “achismo” para a cientificidade.
É bem verdade que, sempre, alguns tentavam empurrar a balela do jornalismo imparcial…
Com números a verdade ganha destaque é fica claro que a ideologia burguesa domina a Imprensa Gaúcha e brasileira.
Todo meu desprewzo pelo PIG.
Ricardo Mainieri