Myspace button
Submarino.com.br
Marco Weissheimer Rotating Header Image

O alerta que vem da Argentina

O alerta lançado pelos intelectuais argentinos (ver nota abaixo) deveria ser ouvido com muita atenção pelos governos dos países citados. A guinada à esquerda que marca a história recente da América Latina já foi objeto de muitos textos e discursos entusiasmados. Esse entusiasmo, porém, pode favorecer um clima de desatenção com alguns fatos que vêm acontecendo no período recente. A direita latino-americana não engoliu e não engolirá passivamente as derrotas que sofreu nos últimos anos. Por maiores que tenham sido, é importante lembrar que, de modo geral, essas derrotas se deram fundamentalmente no plano eleitoral. Um amplo conjunto de estruturas de concentração de poder político e econômico seguem na mão desses setores.

O fato de terem sofrido pesadas derrotas eleitorais e políticas não significa que estão mortos. Pelo contrário, há vários exemplos que indicam uma contra-ofensiva em andamento:

A mobilização dos ruralistas argentinos contra o governo de Cristina Kirchner, recorrendo a táticas como bloqueio de estradas e interrupção do abastecimento de alimentos; as propostas autonomistas na Bolívia, que querem retirar do governo de Evo Morales qualquer capacidade de gestão sobre os departamentos mais ricos do país; o racismo explícito que acompanha esses movimentos na Bolívia; racismo este que também se manifesta na Venezuela contra Chávez e, de um modo um pouco mais dissimulado, no Brasil, em torno do debate das cotas e da demarcação das reservas indígenas; a crescente tentativa de criminalização de movimentos sociais e dos governos da Bolívia, da Venezuela e do Equador.

Há uma batalha simbólica, mais ou menos subterrânea, sendo travada nestes países. O manifesto dos intelectuais argentinos chama a atenção para isso. Está em curso, diz a carta, “um debate pelas heranças e biografias econômicas, sociais, culturais e militantes que tem como um de seus pontos centrais a questão da memória articulada na política de direitos humanos e que transita pelas tensões e conflitos da experiência histórica, inseparável dos modos de se posicionar diante de cada problema que está em jogo hoje”.

Debates e lutas sobre heranças e valores costumam ser de longo prazo. Por essa razão, não podem ser enfrentados com uma lógica pragmática que tem como horizonte sempre (e apenas) a próxima eleição. A advertência feita pelos intelectuais argentinos (de que há uma luta que não está sendo feita) encontra eco nas palavras do historiador Russel Jacoby, no livro “O Fim da Utopia – Política e Cultura na era da Apatia” (publicado no Brasil pela Record):

“Somos cada vez mais insistentemente convidados a escolher entre o status quo ou algo pior que ele. Não parece haver outras opções (…) Não há alternativas. É esta a sabedoria do nosso tempo, uma era de exaustão e recuos políticos. Há uma certa tendência cultural para bater em retirada. O problema não é a derrota, mas o desânimo e a dissimulação intelectual, fingir que cada passo para trás ou para o lado significa dez passos à frente”.

O alerta está dado. Depois, ninguém poderá dizer que foi pego de surpresa pelo curso dos acontecimentos.

5 Comentários on “O alerta que vem da Argentina”

  1. #1 Denise
    on May 19th, 2008 at 1:40 am

    Discordo no miúdo em alguns detelhes: Kirchner e sua mulher só foram eleitos por incompetência da esquerda que, no momento crítico em que vivia a Argentina quando da primeira eleição, não soube se articular em torno de um nome. Não creio que eles signifiquem – embora se esforcem e tentem passar essa impressão – o mesmo que significa um Morales, um Chaves ou um Lula, pois não estão dispostos – e se estivessem o teriam feito no primeiro governo em vez de mascarar índices e fazer acordos esdrúxulos com atacadistas e produtores – a romprer com o peronismo que sempre lhes deu sustentação. Lula nunca rompeu, mas fez com que muita gente boa, de trabalho, passase a ter dignidade. Chavez rompeu com muita coisa, mas manteve a essencia de seu discurso e conseguiu elevar padrão de vida da grande maioria dos venezuelanos. Não é a toa que eleião após eleição se mantém… e bem. Morales é muito recente e não sabemos no que vai dar, mas não creio que consiga se sedimentar no poder tanto tempo, pois parece carecer, entre outras coisas, dessa habilidade e carisma que inspiram e sustentam Lula e Chavez. O caso argentino é uma coisa a parte. O casal está mais prá D. Ruth e D. FH que para Mariza e Lula. São latifundiários na província de Santa Cruz, ou seja, a eles tampouco interessa nada que signifique rompimento com estruturas que sempre os sustentaram, assim como ao seu partido. E os trabalhadores urbanos – não esqueçamos que mais de cinquenta por cento da população argentina vive no conurbano bonairense – estão sendo favelizados, a educação decresce, a saúde também… . Se fosse no Brasil de sempre, isso não significaria muita coisa, mas para os padrões argentinos, ver D. Cristininha ao tanto da moda enquanto os filhos não são atendidos nos centros de excelência, ou ter que faltar ao “laburo” por “paros del subte” ou dos professores, gera muito descontentamento que nem o melhor espetáculo conseguirá conter. Ou seja, a meu ver, podem até os oligarcas se revoltarem, mas se a coisa estivesse bem do outro lado da via isso não faria nenhuma diferença. No caso faz, e muita!!!!!

  2. #2 Anonymous
    on May 19th, 2008 at 1:59 pm

    Não precisamos ir longe, tem um cidadão no blog abaixo pregando claramente um golpe de estado, inclusive enviando email sobre uma intervençao que está saíndo do forno:
    http://alertatotal.blogspot.com/

  3. #3 Anonymous
    on May 19th, 2008 at 3:02 pm

    Quando se fala em esquerda hoje, invariavelmente, Lula não está incluído, ou como diz Chávez “não se preocupe que os EUA não vai derrubá-lo”.

    Entretanto, ainda assim entendo que o Brasil está mais próximo da esquerda, do que com FHC e sua “social-democracia” da Oscar Freire e jardins ou Vieira Souto.

    Na América Latina, a direitosa não desfalecerá nunca, como já dizia o dístico da velha e rancorosa UDN: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”. Entenda-se aí,liberdade, como a deles. Noves fora, ou nos acautelamos, ou teremos problemas sérios, pois vivemos ciclicamente o retorno dos golpistas (em méida, esses ciclos demoram de 30 a 40 anos).

    armando do prado

  4. #4 Ricardo Mainieri
    on May 19th, 2008 at 5:26 pm

    Com o advento de governos ungidos pelas urnas, com um posicionamento ideológico de centro-esquerda ou esquerda, países latino-americanos, em menor ou maior escala, deixaram fluir uma mostra de idéias anti-oligárquicas e anti-americanas.
    No entanto, este alarde acabou provocando uma revolução subterrânea, aparente ou mais dissimulada, dos setores que detém os meios de produção e se articulam com o vasto cartel multinacional e seus ideários políticos de Estado Mínimo.
    Não me surpreende os golpistas venezuelanos, nem os agropecuaristas da Argentina e os autonomistas bolivianos. Todos se unem na defesa de suas propriedades e de seus interesses.
    A Direita nunca está morta. É uma Fenix insaciável, esperando o momento certo de emergir nos céus da Pátria…

    Ricardo Mainieri

  5. #5 Adalberto
    on May 20th, 2008 at 5:55 pm

    Eu particularmente sou contra esse tom de alarmismo que se tenta propagar, pois um país que se diga verdadeiramente democrático preserva e respeita as mais variadas correntes políticas sejam elas de direita ou de esquerda, isso é o dever ser, mas infelizmente a realidade latino-americana tem se provado contrário a essa lógica, onde vemos partidos de e movimentos de esquerda querendo se impor como portadores da verdade suprema, lançando mão de meios nada democráticos para atingir seus fins, oras, ter uma opinião própria a respeito de uma determinada questão não quer dizer que a pessoa odeie quem tem opinião diferente! O que se percebe é que a esquerda não sabe conviver com quem tem opinião divergente dos dogmas que o socialismo apregoa. As discussões deveriam se restringir tão somente ao terreno das idéias, nada de violência, a violência e imposição de idéias é algo condenável e inaceitável para que possamos construir um estado democrático de direito. Se a esquerda quiser provar que é verdadeiramente democrática, terá que se limpar do estigma que mancha o passado da mesma e aceitar que as novas idéias serão o princípio norteador do Brasil e não os dogmas maniqueístas que outrora permeavam os debates são a solução para os problemas que afetam o Brasil.

Deixe um comentário