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De Kohlberg para Coronel Mendes

No dia 26 de outubro, Marcos Rolim publicou um artigo em Zero Hora, intitulado “Vocação”, que tratava sobre as virtudes que um policial deve ter. No dia 28, dois dias depois e aparentando rápida erudição, o comandante da Brigada Militar do RS, coronel Paulo Roberto Mendes, vestiu a carapuça e publicou uma resposta ao artigo de Rolim (“Brigada Militar: Vocacionada pela lei”). Publicamos abaixo a resposta de Rolim a este artigo que não será publicada no jornal por se tratar de uma tréplica. Os outros artigos podem ser acessados na página do autor. Segue o artigo:

Kohlberg@edu.us para Cel.Mendes@bm.rs.gov.br

“Mortos não acessam emails, eu sei. Falamos através de nossos amigos, entretanto. Minha tese de doutorado, apresentada na Universidade de Chicago, em 1958, tratou do raciocínio moral dos adolescentes e procurou demonstrar que os seres humanos atravessam estágios distintos de formação de suas consciências morais. Piaget já havia sustentado, em seu Jugement Morale Chez les Enfants, a universalidade da psicogênese em diferentes fases da infância; uma contribuição genial sobre a qual me apoiei. Nunca fui militar, mas vi de perto o que uma noção moral centrada no apego à ordem é capaz de produzir. Antes de meu doutoramento, integrei como voluntário a tripulação de um navio mercante norte-americano que conduziu ao Estado de Israel dezenas de judeus sobreviventes dos campos de concentração. Aquela gente, Coronel, havia sido massacrada pela ordem, para a qual os nazistas preparam a devida base legal. Nos campos, não havia espaço para reclamações, mas se elas ocorriam, os Kapos se encarregavam de acabar com a “bagunça”.

Em minha teoria, sustentei que há 3 níveis de moralidade (pré-convencional, convencional e pós-convencional), cada um deles marcado por dois estágios. No primeiro estágio, temos o senso moral orientado pela obediência, quando a criança evita certas condutas por receio da punição; no 2º estágio, prevalece uma orientação egocêntrica e as ações tidas como “corretas” são aquelas que satisfazem à criança; no 3º estágio, as condutas são orientadas pelo objetivo de agradar os demais, segundo os estereótipos sociais; no 4º, a orientação moral é a de manter a ordem e a autoridade. O 5º e o 6º estágios são os mais avançados e estabelecem, respectivamente: a) uma orientação contratualista – o que se firma, por exemplo, nos procedimentos democráticos e, b) a orientação por princípios éticos universais, o que assinala o primado da consciência individual e da noção de “dever moral”.

Os direitos humanos habitam este 6º estágio de moralidade, Coronel. Se as pessoas não são capazes de orientar suas condutas com base em princípios universais; se estão, por exemplo, como muitos adultos, no 4º estágio, correm o risco de, em nome da lei, serem simplesmente injustas. Pior: se confrontados com regras arbitrárias ou manifestamente estúpidas, tendem a segui-las como burocratas zelosos. O fenômeno é ainda mais comum nas estruturas rigidamente disciplinadas e não foi por acaso que Adolf Eichmann estruturou sua defesa em Jerusalém invocando o “dever de obediência” e que o lema da SS era “Mein Ehre heißt Treue” (“Minha honra é a lealdade”).

Nunca propus o “caos social” e a idéia de um 6º estágio de moralidade expressa minha confiança em possibilidades generosas da agência humana como a construção do que denominei “Comunidade Justa”, projeto para o qual dediquei anos de minha vida, com experiências exitosas em escolas e em uma prisão. Eventualmente, dado seu animador interesse por minha obra, posso lhe explicar em detalhes a idéia toda. Por hora, asseguro-lhe que, em uma Comunidade Justa, a porta de um banco vale menos que o braço de um bancário e carros de som nunca são motivos para bombas de gás e balas de borracha”.

Best regards, L.K.

14 Comentários on “De Kohlberg para Coronel Mendes”

  1. #1 Fabrício Nunes
    on Oct 30th, 2008 at 9:40 pm

    O coronel Mendes jamais vai entender que um braço de bancário vale mais do que o próprio banco. Nem admitir que manifestantes critiquem o establishment que ele sustenta.
    Isso porque ele acabou de teorizar sem o saber uma espécie de “sétimo nível” a partir do estudo de Kohlberg: o nível da intolerância máxima com as demandas sociais reprimidas pela necessidade de lucro – ou da manutenção dos seus patamares – do rentismo.
    Se os excluídos lançam mão legitimamente dos conceitos do “sexto nível”, Mendes prontamente responde.
    As milícias do sistema, afinal de contas, não estão aí para isso mesmo?
    Marcos Rolim, a propósito – e em que pesem possíveis discordãncias que possamos manter com ele -, anda fazendo uma falta danada, não é verdade?

  2. #2 Ary da Silva Martini
    on Oct 30th, 2008 at 9:54 pm

    Usando uma expressão da qual o coronel MendeSS gosta muito: “Matou a pau, Kohlberg”! O e-mail deve ir com cópia para yedacasanova@engov.com.br. MendeSS nivela os manifestantes no estágio um.

  3. #3 mariorangelgeografo.blogspot.com
    on Oct 30th, 2008 at 10:30 pm

    Somente havia ouvido falar do artigo do Cel. MendeSS, nem me importei de lê-lo pois, se ouvi-lo jé é ruim, poir ser ler o que ele escreve.

    Qundo li este post, fui a págida do Roilin e, de sobresalto, me deparo com algo muito bem escrito e estudado minuciosamente. Claro e cristalino: foi um texto de “encomenda”. Quem sabe escrito por um Puggina da vida…

    Mas o que me vêm a mente, é que, o artigo, tenta justificar a violência pelas forças públicas, invocando o “contrato social” e a “ordem”.

    Violência como desculpa para conter o protesto e descontentamento perante o que nos é clocado, toda uma situação de desalento com os rumos do RS.

  4. #4 Germano Leite
    on Oct 30th, 2008 at 11:36 pm

    Manifestações de protesto são uma forma legítima – e, muitas vezes, ultima ratio – para se fazer ouvir e conseguir um nível mínimo de diálogo com relação ao exercício de um direito repetidamente negado por governantes despreparados e/ou mal-intencionados.

    Se o coronel defende a lei e a ordem, por acaso mandaria seus obedientes cachorros atacar manifestantes que clamam por receber créditos de precatórios – direito legítimo, com trânsito em julgado, mas negado há duas longas décadas,num calote vergonhoso, ilegal e covarde?

    A ordem, coronel, implica em cumprir decisões judiciais. E isso vale também – ou melhor, principalmente – para os governantes, escolhidos por nós e guindados aos cargos para, teoricamente, nos servir.

    obs.: Comprar palavras difíceis, para um texto claramente “emprestado”, não é suficiente se a essência deste é tacanha e autoritária.

  5. #5 claudia cardoso
    on Oct 31st, 2008 at 1:41 am

    Nos dedos, como se dizia há 500 anos atrás…

  6. #6 daniela
    on Oct 31st, 2008 at 2:24 am

    Sou bancária em Caxias do Sul e quando vi as fotos de meus amigos apanhando em nome da “ordem” fiquei chocada. Hoje, ao ler a resposta dada por Rolim ao coronel M. não consigo conter as lágrimas. Como pode um ser, que se diz humano, insistir em tentar reeditar em nosso estado práticas como as do nasismo e dizer que o faz em nome da ordem? Por que não admite seu despreparo, seu desequilíbrio, sua arbitrariedade e tira seu time de campo?
    Parabéns Rolim por sintetizar tão lucidamente uma escala de valores em um país democrático e com cidadãos livres! Parabéns Marco Aurélio por nos dar esta oportunidade!

  7. #7 Cloaca News
    on Oct 31st, 2008 at 2:30 am

    Tem blog novo na praça. É o CLOACA NEWS, com “as últimas do jornalismo de esgoto”. Marquem em seus favoritos. Ratões e sabujos, tremei!!!

    http://cloacanews.blogspot.com/

  8. #8 zealfredo
    on Oct 31st, 2008 at 2:52 am

    Bah! Fantástico (duplamente fantástico para dizer a verdade) este “e-mail”.

  9. #9 Simão Bacamarte
    on Oct 31st, 2008 at 12:31 pm

    De Cel. Mendes para Kohlberg

    Caro Kohlberg

    Embora eu não tenha entendido patavina, e mesmo se entendesse estaria cagando, muito me interessa a parte sobre bombas e balas de borracha. Já que elas não são permitidas, que tal varas de bambu, como no sudoeste asiático? Digo, só um pouco, quando começar a ficar vermelho eu paro. Ui. Cheguei a ficar arrepiado.

  10. #10 el barto
    on Oct 31st, 2008 at 1:29 pm

    poodlezinho boçal e fanfarrão da destrambelhada barbitúrica…

  11. #11 Katarina Peixoto
    on Oct 31st, 2008 at 3:40 pm

    Apesar de ter cá minhas dúvidas se idade é documento e se o conhecimento salva ou implica evolução, não dá para não louvar o esforço do Rolim em trazer luz para as trevas. E o correlato esforço do Coronel, nem a um zilhão de km louvável, em barbarizar. Trevas e mais trevas. Esse senhor me dá náusea.

  12. #12 Anonymous
    on Nov 1st, 2008 at 7:24 pm

    Sobre “Vocação” na referida página de Rolin, os comandantes não se deram conta que na seleção, os possíveis futuros policiais estão sendo recrutados para servir a população e não mata-la “obedecendo ordens” de comandantes insanos. Se fosse para escolher soldados para a guerra, ainda assim teria que conscientizá-os para agir apenas contra soldados adversários ou armados e não contra população sivil desarmada(inclusive mulheres, velhos e crianças). Seria melhor que esses desiquilibrados tivessem se inscritos para ir lutar no Iraque e no Afganistão em nome de uma “implantação” de uma sociedade “sivilizada” naquela região”. Cá entre nós, duvido que eles se comprometeriam. É que o adversário atira de volta, e esse risco eles não são bobos de correr. Melhor é atacar população civil, professores, mulheres e adolescentes e aí “implantar” a sua valentia em nome “da segurança”(?) pública. Pobre deles.

  13. #13 Anonymous
    on Nov 2nd, 2008 at 12:06 am

    Marcos Rolim, fantástico. Pena que a capangada da Yeda dificilmente vai conseguir ler e se ler, dificilmente vai entender um texto como este.Um governo que não está nem aí para a questão social, que não tem moral, só com polícia e cacetete para impor seu modo fascista de governar.marli

  14. #14 Anonymous
    on Nov 3rd, 2008 at 12:24 am

    ” que o adversário atira de volta, e esse risco eles não são bobos de correr. Melhor é atacar população civil, professores, mulheres e adolescentes e aí “implantar” a sua valentia em nome “da segurança”(?) pública. Pobre deles.”

    Não concordo com violência, agora falar que não colocamos nossa vida em risco, quanta asneira, antes de se basear somente em determindados casos, trabalhe um dia conosco, mesmo aqui, um local “calmo” como Lajeado, você não sabe o que é o dia-a-dia de um policial, vai atrás, e vai conhecer colegas com cicatrizes no rosto, de tiros que levaram, quem sabe até defendendo um parente seu. Novamente repito, sou totalmente contra atos violentos, mas vai ficar em uma barreira, tentando impedir invasões, tentando controlar uma multidão que teoricamente estão atrás de seus direitos, e com certeza merecidos, mas, fica um segundo escutando desaforos desnecessários, deboches, e violência, todo mundo gosta de se fazer de inocente, e digo, quem quer respeito, primeiro tem que se fazer respeitar,

    Quando morre um soldado, não se vê falar em direitos humanos, o que é pior, são capazes de tornar ídolo, um meliante como o Seco, são capazes de achar justificativas para atos de criminosos. A polícia é como a sociedade deseja. Qual é a polícia que você deseja???
    Nós somos a sociedade, surgimos dela, não somos seres que vieram de outro planeta.

    Como policial, tudo isso dá um desânimo muito grande, de que vale deixar minha família em casa, para ir defender a sua???? Se nunca consegue nos valorizar, se ao mínimo erro, todos são sacrificados, com a falta de consideração!!!

    Agora, concordo, “pobre de nós”, temos que ter força para seguirmos em frente com algo que acreditamos valer a pena!

    PM

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