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Eduardo Galeano: "Quem deu a Israel o direito de negar todos os direitos?"

Eduardo Galeano (*)

Este artigo é dedicado a meus amigos judeus assassinados pelas ditaduras latinoamericanas que Israel assessorou.

Para justificar-se, o terrorismo de estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe pretextos. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo seus autores quer acabar com os terroristas, acabará por multiplicá-los.

Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu tudo. Nem sequer têm direito a eleger seus governantes. Quando votam em quem não devem votar são castigados. Gaza está sendo castigada. Converteu-se em uma armadilha sem saída, desde que o Hamas ganhou limpamente as eleições em 2006. Algo parecido havia ocorrido em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador. Banhados em sangue, os salvadorenhos expiaram sua má conduta e, desde então, viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem.

São filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com desajeitada pontaria sobre as terras que foram palestinas e que a ocupação israelense usurpou. E o desespero, à margem da loucura suicida, é a mãe das bravatas que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está negando, há muitos anos, o direito à existência da Palestina.

Já resta pouca Palestina. Passo a passo, Israel está apagando-a do mapa. Os colonos invadem, e atrás deles os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam a pilhagem, em legítima defesa.

Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu a Polônia para evitar que a Polônia invadisse a Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo. Em cada uma de suas guerras defensivas, Israel devorou outro pedaço da Palestina, e os almoços seguem. O apetite devorador se justifica pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinos à espreita.

Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, que burla as leis internacionais, e é também o único país que legalizou a tortura de prisioneiros.

Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está executando a matança de Gaza? O governo espanhol não conseguiu bombardear impunemente ao País Basco para acabar com o ETA, nem o governo britânico pôde arrasar a Irlanda para liquidar o IRA. Por acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade? Ou essa luz verde provém da potência manda chuva que tem em Israel o mais incondicional de seus vassalos?

O exército israelense, o mais moderno e sofisticado mundo, sabe a quem mata. Não mata por engano. Mata por horror. As vítimas civis são chamadas de “danos colaterais”, segundo o dicionário de outras guerras imperiais. Em Gaza, de cada dez “danos colaterais”, três são crianças. E somam aos milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está ensaiando com êxito nesta operação de limpeza étnica.

E como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. Para cada cem palestinos mortos, um israelense. Gente perigosa, adverte outro bombardeio, a cargo dos meios massivos de manipulação, que nos convidam a crer que uma vida israelense vale tanto quanto cem vidas palestinas. E esses meios também nos convidam a acreditar que são humanitárias as duzentas bombas atômicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irã foi a que aniquilou Hiroshima e Nagasaki.

A chamada “comunidade internacional”, existe? É algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? É algo mais que o nome artístico que os Estados Unidos adotam quando fazem teatro?

Diante da tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial se ilumina uma vez mais. Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, as posturas ambíguas, rendem tributo à sagrada impunidade.

Diante da tragédia de Gaza, os países árabes lavam as mãos. Como sempre. E como sempre, os países europeus esfregam as mãos. A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama alguma que outra lágrima, enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. Porque a caçada de judeus foi sempre um costume europeu, mas há meio século essa dívida histórica está sendo cobrada dos palestinas, que também são semitas e que nunca foram, nem são, antisemitas. Eles estão pagando, com sangue constante e sonoro, uma conta alheia.

(*) Texto publicado originalmente no jornal Brecha. (Tradução: Katarina Peixoto)

15 Comentários on “Eduardo Galeano: "Quem deu a Israel o direito de negar todos os direitos?"”

  1. #1 Anonymous
    on Jan 17th, 2009 at 9:07 pm

    Israel, toda a coalizão q ajudou os EUA e a Inglaterra no Iraque (mais de 40 países), no Afeganistão (mais de 40 países tb, mtos sem tradição imperialista como a Suécia), enfim, todos estes governos deveriam enfrentar um TPI. TODOS! Toda a coalizão capitalista. Ñ basta apenas demonizar Bush, Blair, Aznar e o atual (e os passados) governos israelenses.

    Inclusive as tropas da ONU no Haiti, lideradas pelo Brasil, cometeram atrocidades.

    Todos os assassinos dos povos deveriam enfrentar um TPI!

    (Jorge Nogueira)

  2. #2 Anonymous
    on Jan 17th, 2009 at 9:25 pm

    Caros,

    Extra! Urgente! Atentado ao delegado Protógenes! Dantas e quadrilha tentam assassinar o delegado federal! Vejam no blog do Igor: http://alexeievitchromanov.zip.net

  3. #3 Anonymous
    on Jan 18th, 2009 at 12:13 am

    Pela CNN, ontem à noite, num famoso programa ao vivo de uma TV israelense, durante uma entrevista por telefone com um famoso médico palestino, Dr. Abul (?), por quem os israelenses sempre tiveram grande simpatia e admiração, houve um ataque israelense à sua equipe médica, que acabou sendo transmitida inesperadamente, e todo o desespero do Dr. Abul foi ao ar.

    Parece que houve um grande impacto na percepção do povo israelense.

    O ataque foi à sua casa e matou três de suas filhas.
    O âncora tenta consolar o médico dizendo que talvez o Exército israelense possa ajudá-lo. É incrível! O médico pergunta, aos prantos, quem deu a ordem que matou sua família e qual o motivo.

    http://www.jewlicious.com/2009/0…-niece-in-gaza/

  4. #4 Sabóia Jr.
    on Jan 18th, 2009 at 10:32 am

    Qua Alah Jeovah tenha piedade de nossa desumanidade. Cada um de nós é também responsável por essa carnificina, sim somos culpados, nós permitimos, nós nos calamos. Estamos sujos de sangue, do sangue de inocentes, do sangue de crianças indefesas.Oh, Senhor, livra-nos da nossa vergonha, Oh Senhor pedimos teu perdão, tua compaixão, somos pequenos, somos impotentes, somos cumplices.
    Perdoa a nossa indiferença, perdoa as nossas vãs justificativas, perdoa por permitirmos essas atrocidades!
    Sallam Aleikum

  5. #5 Tupamaro
    on Jan 18th, 2009 at 1:53 pm

    Magistral e magnífico o artigo de Galeano, disse tudo e um pouco mais!
    O seguinte parágrafo deve ser emoldurado: “Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está executando a matança de Gaza? O governo espanhol não conseguiu bombardear impunemente ao País Basco para acabar com o ETA, nem o governo britânico pôde arrasar a Irlanda para liquidar o IRA. Por acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade? Ou essa luz verde provém da potência manda chuva que tem em Israel o mais incondicional de seus vassalos?”

    Eu já havia feito comentário semelhante (logicamente, não com o talento de Galeano) no Diário Gauche, que m s duarte (La Vieja Bruja) não entendeu, talvez, justamente, pela falta de claridade que Galeano expressou:
    “Por acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade?”.

  6. #6 IRR
    on Jan 18th, 2009 at 3:26 pm

    Eu vou lhes falar agora um pouco sobre números.
    Em 1982, durante um ataque de Israel no sul do Líbano para conquistar e expandir mais ainda seu território, Israel matou 20000 pessoas apenas entre junho e setembro.
    Durante toda a história do sionismo, que vem desde 120 anos atrás quando Edmond Rothschild começou a financiar os primeiros kibuts a Palestina, jutando atentado bomba, terrorismo, soldados mortos em todas as guerras, etc, etc etc, morreram 21.182 israelitas “colonos judeus europeus, (sionistas)”.
    Imagem Realidade do Conflito Israel-Palestina, Norman Finkelstein – filho de sobreviventes dos campo de concentração nazista em Auschwitz.

    Será que alguém consegue entender a dimensão disto?

    Essa política de Israel é bem antiga, foi assim que eles conseguiram roubar mais da metade do território Palestino dentre 1917 até 1948, através do terror. As pessoas fugiam de suas casas para o mais longe possível e Israel se apossava de sua terras. Os palestinos escolhem morrer como um mártir, não porque é bonito de se ver, ou pq é um extremista segundo a imprensa (des-informadora) ocidental, mas por causa que aprenderam a ficar em suas terras e lutar até a última gota de sangue por ela, mesmo se for apenas com um chinelinho de dedo e algumas pedrinhas na mão, mesmo sem caças, tanques, helicopteros, bulldozers, lança-chamas, bombas-fosforo, colete a prova de balas, etc, etc, etc; quando muito, com foguetes caseiros “Qassam” de grupos PARA-MILITARES que mal são capazes de derrubar uma parede.

    Guerra? Que Guerra? Quem está se defendendo de quem? Quem está tentando sobreviver?

  7. #7 Anonymous
    on Jan 18th, 2009 at 4:03 pm

    Anônimo das 22:13: o link não funciona.

  8. #8 Anonymous
    on Jan 18th, 2009 at 4:12 pm

    Sabóia Jr.: utilizar-se de pensamento contaminado por qualquer religião somente entorpece a percepção e a lucidez frente a qaulquer realidade. Discordo de que somos todos responsáveis. Isso é sensacionalismo, é chantagem.

  9. #9 Nelson Antônio Fazenda
    on Jan 19th, 2009 at 2:03 am

    É redudância afirmar que o texto do Galeano é magnífico. Como sempre, ele expõe as coisas de uma forma tão clara que, simplesmente, não deixa espaço para réplica.
    Aliás, estou lendo seu último livro, Espelhos. É do mesmo nível de As Caras e as Máscaras, O Século do Vento, De Pernas Pro Ar e outros: espetacular.

  10. #10 ORSAIA
    on Jan 19th, 2009 at 3:15 pm

    A MÍDIA BRASILEIRA É BRASILEIRA OU SIONISTA ??

  11. #11 Simone
    on Jan 19th, 2009 at 7:40 pm

    Se tivesse que votar numa enquete, minha opção seria:A mídia brasileira é sionista! Vocês viram em algum jornal uma análise digna do que significa o cessar-fogo unilateral? Alguém leu sobre a possibilidade de utilização de fósforo branco nas armas utilizadas por Israel?
    Bom..GAleano foi mais uma vez espetacular…Não só porque de forma clara e inequívoca apontou todas as razões que tornam o Estado de IASrael um inimigo da Humanidade, mas porque cobra dos países árabes e da Europa a concordância silenciosa com este massacre.
    Simone Fadel
    PS: Sr Marco Aurélio Weissheimer daqui do Rio um grupo de alunos meus da geografia (UERJ)alugaram um “busão”e também estão se preparando para ir ao Fórum. São jovens cheios de vontade de encontrar palavras e ações para a construção de uma sociedade justa! Como dever de casa terão que fazer uma entrevista com o Sr que espero possa atendê-los! rsrssrs

    Simone FADEL

  12. #12 Barone
    on Jan 19th, 2009 at 8:39 pm

    Maravilhoso o artigo. Mais lúcido impossível.

  13. #13 Anonymous
    on Jan 20th, 2009 at 1:04 am

    Jorge Nogueira

    É verdade: “Inclusive as tropas da ONU no Haiti, lideradas pelo Brasil, cometeram atrocidades.”
    Eu também costumo dizer isso. E daqui a pouco o embaixador fascista de Israel vai nos jogar isso na cara. Eu jogaria.
    Olhando para o q Israel faz na Palestina, é um bom momento para refletirmos sobre o q estamos fazendo no Haiti.
    Não adianta patrocinarmos maratonas diplomáticas no oriente médio, pedindo paz, quando tbém estamos fazendo nosso “massacrezinho” no Haiti.
    Abaixo com fascismo, em todas as suas variantes, inclusive a verde- amarela. O Haiti ñ precisa dos jagunços fardados do Brasil e sim de médicos, educadores e ajuda econômoca maciça fornecida pelos EUA, q é o responsável direto pelo atual estado de coisas no paupérrimo Haiti.

    Eugênio

  14. #14 Youssouf
    on Jan 20th, 2009 at 11:09 pm

    Israel , desde há muito tempo, é um estado fora-da-lei, dispensa qualquer aprovação e faz o que bem entende no Oriente Médio. Aproveitou o vazio de poder nos EUA para massacrar em Gaza, quando conseguir se refazer , o monstro sionista ataca e destrói tudo novamente …..

  15. #15 vicenzo Borgia
    on Jul 2nd, 2010 at 4:13 pm

    OPINIÃO

    Com respeito à matéria publicada em 17/01/ 2009, intitulada “Quem deu a Israel o direito de negar direitos” torna-se imprescindível esclarecer aos leitores deste SINPRO fatos e dados relativos às posições defendidas pelo escritor Eduardo Galeano.

    O Estado de Israel foi fundado em 1948, após o Plano de Partilha elaborado pela ONU, sob a presidência do embaixador brasileiro Oswaldo Aranha, que dividiu a região, então sob domínio britânico, em Estados árabes e judeus, embora os primeiros tenham rejeitado o plano. Tal recusa impediu a constituição de um estado independente e soberano palestino, de maneira a fomentar
    conflitos entre Israel, palestinos e nações árabes vizinhas. Desde a fundação desse Estado, houve guerras com o Egito, a Jordânia, a Síria e o Líbano. Entretanto, ainda que tivessem assinados armistícios, a tensão na região não diminuiu.

    Devido a constantes ataques de seus vizinhos, Israel ocupou a península do Sinai, a Cisjordânia, a faixa de Gaza, as Colinas de Golã, o sul do Líbano. Mas, em 1979, Egito e Israel selaram um acordo de paz, e os israelenses retiraram-se do Sinai em 1982. Disputas territoriais com a Jordânia foram resolvidas em 1994. Seis anos depois, Israel retirou-se unilateralmente do sul do Líbano.

    Em 1993, foi assinado o Acordo de Oslo, que deu início ao processo
    de paz com os palestinos. Pelo acordo, a faixa de Gaza e a Cisjordânia passariam a ser território administrado pela ANP – Autoridade Nacional Palestina. Em 2005, Israel retirou suas tropas e colonos judeus – sob protestos destes – da faixa de Gaza.

    Apesar da devolução da faixa de Gaza e de partes da Cisjordânia para o controle palestino, um acordo de status final ainda precisa ser estabelecido. Para isso, será preciso resolver os principais pontos de discórdia, que são: Jerusalém como capital indivisível do Estado de Israel, assim como o destino de refugiados palestinos e colonos em assentamentos judeus.

    Em janeiro de 2006, as relações entre Israel e a Autoridade Nacional palestina foram congeladas quando houve a eleição do Hamas para liderar o Conselho Legislativo Palestino.

    O Hamas é um partido político terrorista que se nega à negociação diplomática, cuja carta de fundação prevê a destruição do Estado de Israel.

    Não é verdade a afirmação do sr Galeano quando afirma que os palestinos “não podem nem respirar sem permissão”. A inverdade se revela quando se verifica o tamanho do arsenal de guerra adquirido pelos palestinos, e suas constantes investidas sobre o território israelense. Igualmente, não é verdade quando o autor afirma que os “palestinos perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu tudo”. Ele parece se esquecer que lhes foi oferecido uma partilha justa e democrática com a decisão votada em plenário da ONU.

    Há que se lembrar a todos que a população palestina tem aumentado significativamente desde a fundação do Estado de Israel. Há mais dinheiro entrando nos territórios palestinos do que Europa recebeu no pós guerra com a ajuda financeira do Plano Marshall. Arafat morreu milionário. Em 2003, pouco antes de falecer, seu nome foi citado na lista de Revista Forbes como um dos políticos mais ricos do mundo. Há sete anos atrás, a sua fortuna era estimada em 300 milhões de dólares. É fato notório que o seu enriquecimento estava associado à corrupção de sua administração.

    Também é falsa a afirmação de que é vedado aos palestinos o direito de escolha de seus governantes. O sr Galeano parece desconhecer a existência de Muhamad Abbas, líder eleito para ser o líder da Autoridade Palestina. Assim, é flagrante a contradição quando ele diz que os palestinos “votam em quem não devem votar”, e por isso são punidos. Ele se esquece de dizer que Gaza sofreu bloqueio em conseqüência do lançamento constante de foguetes ao território israelense.

    A comparação feita entre o conflito israelense e palestino com a vitória do partido Comunista nas eleições de 1932 em El Salvador é um disparate, ou reflete uma visão bastante equivocada, senão aparentemente ingênua de fatos históricos. O bloqueio à Gaza não é uma “expiação”, assim como é simplório o seu argumento de que as ditaduras militares de direita que se seguiram à eleição salvadorenha se devem ao fato de que os salvadorenhos são submissos impenitentes a mandos e desmandos externos e internos. Seu argumento deveria se estender, com a mesma medida, às ditaduras militares de esquerda na Venezuela e em Cuba.

    Galeano parece acreditar em uma espécie de predestinação ou fatalidade inerente a alguns povos quando lança a retórica : “a democracia é um luxo que nem todos merecem”. Ora, os regimes democráticos não são um luxo para poucos. E não significa que aqueles que não lutam pelas liberdades democráticas sejam “filhos da impotência”. Prova disso, é a perseverança daqueles terroristas que expõem a população civil a bombardeios anunciados, e os instiga a fabricar foguetes caseiros, desviando a opinião mundial para o caráter “artesanal e frágil” do arsenal de guerra fornecido aos palestinos, como se não houvesse grande quantidade de mísseis Skuds lançados nas terras israelenses.

    Não parece ser apenas um erro de nomenclatura quando o autor parece advogar em nome das facções terroristas, nomeando os seus membros como “militantes” de uma causa que parece inflamar todo o mundo com desmesurada ira, sem que se olhe as recentes atrocidades, recentemente cometidas na Ásia, África e Oriente.

    Galeano insiste em deslegitimar as decisões da ONU quando se refere ao Estado de Israel como se seu território fosse uma “usurpação” de terras que pertenceriam historicamente aos palestinos. Ora, sem saber bem o que diz, ele deveria estudar a história da região para emitir opinião sobre posse e direito das terras.

    Sua retórica não faz alusão às ideologias corruptas de governantes, quando se prevalecem de discursos religiosos fundamentalistas de ayatolás que induzem a população ao desespero e à loucura suicida. Ele se esquece do pesado financiamento da indústria armamentícia que sustenta bravatas em nome de interesses exclusivamente empresariais de lucro. Ora, os homens bomba não são bravatas senão se pensarmos naqueles covardes que incitam jovens ao suicídio, mas que jamais cometeriam tais atos a si mesmos.

    Não se pode dizer que o Hezbollah e os Fedaym sejam bravatas. Galeano se esquece da pesada ajuda dos países soviéticos quando apoiaram o Egito e a Síria contra Israel. O atentado que houve aos atletas israelenses nas Olimpíadas de 1972 em Munique pelo Fatah certamente não foi nenhuma bravata.

    Porém, nada é mais absurdo quando Galeano inverte toda a história, que ele não conhece, quando afirma que Israel nega a existência da Palestina. Ele se refere ao extermínio dos palestinos enquanto o povo palestino é acolhido e tratado nos hospitais israelenses!

    Muitos israelenses e muitos judeus em todo o mundo são contrários às invasões das terras. Entretanto, que dizer das invasões de palestinos ao território israelense?
    Seria providencial se Galeano se indagasse por que Arafat recusou um Estado com 90% das reivindicações palestinas, anos atrás?

    De fato, não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Exemplo notório de tal afirmação é a guerra árabe contínua contra Israel. Nasser dizia que estava se defendendo. Na Síria, a dinastia dos Assad também dizia isso. Enquanto Galeano defende os palestinos, do Irã, o ditador Ahmadinejad declara defender o mundo contra o sionismo. Enfim, Galeano consegue mostrar que a guerra é bastante desigual. Mas seus argumentos serviriam para justificar a ação de
    Hitler quando invadiu a Polônia com a desculpa de que era intenção da Polônia invadir a Alemanha? Nesse momento, seria também providencial que todos se lembrassem do apoio dado à Hitler pelo líder árabe da Palestina, Houssaini. Tio de Arafat, Houssaini apoiou a divisão muçulmana da Gestapo, criando a Divisão Handshar, que aterrorizou os Bálcãs.

    Razões para invasões históricas não faltam. Após o atentado terrorista às Torres Gêmeas, Bush invadiu o Iraque para evitar que este invadisse o mundo. Da mesma maneira, em 2006, o Hezbollah invadiu Israel para lutar contra o perigo sionista.

    Para diminuir o direito de defesa de Israel, Galeano se lembra apenas das conquistas mas se esquece de dizer que Israel capturou o Sinai do Egito, em 1967, um território maior que o próprio país. E o devolveu em troca de paz com o Egito.

    A existência de Israel não se deve apenas aos “títulos de propriedade que a Bíblia outorgou” mas, sim, pelo direito concedido pelas Nações a um povo que sofreu dois mil anos de exílio, perseguição, e matanças na diáspora.

    Não é verdade que “Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, e que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, que zomba do direito internacional, e é também o único país que legalizou a tortura dos prisioneiros”. Como provar tal afirmação com fatos e dados? Galeano se esquece dos acordos de devolução de prisioneiros enquanto o soldado israelense Shalit continua nas mãos dos terroristas, ou quando Israel devolveu prisioneiros vivos para receber cadáveres em troca.

    É bastante recomendável que Galeano pesquise melhor as fontes de onde tira as suas referências, antes de adiantar conclusões equivocadas aos seus leitores.
    Ele se refere à “matança” em Gaza, sem se referir, hora nenhuma, aos números de mortos nos conflitos em relação ao percentual de habitantes/ ano. Certamente, ele teria que relativizar o termo se pensasse nos números de mortos e feridos em acidentes de trabalho ou de trânsito no Brasil, se não pensasse no número de assassinatos cometidos na guerra do tráfico em toda a América Latina.

    Para envenenar ainda mais a sua retórica, Galeano cita aliados de Israel como “servos”. Sua indagação se “a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade” resvala para a infâmia.

    Guerras são sempre desumanas. Mas não são ações desumanas quando terroristas islâmicos tratam crianças mulheres, assim como a população civil, como escudos? Conviria lembrar que, para não atingir inocentes civis, Israel é o único país do mundo que avisa onde e quando vai bombardear, exatamente por que sabe dos custos humanos que tal ação terrorista visa. Talvez é neste aspecto crucial que Galeano tenha razão: acreditar que uma vida israelense vale muito mais do que os terroristas crêem que valham cem vidas palestinas.

    É lamentável dizer que Galeano está redondamente equivocado quando se refere “à indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações bombásticas, as posturas ambíguas”. Nada disso é fato, quando toda a mídia mundial ocupa boa parte do noticiário diário, atenta ao menor movimento sobre o que acontece em Israel – país que possui extensão regional equivalente ao estado de Sergipe no Brasil. Nestas horas, todos os problemas do mundo parecem diminuir de proporção, e subitamente são enfiados debaixo do tapete, como que “rendendo tributo” ao que Galeano denomina de “sagrada impunidade”.

    Sim, e nisso, por fim, Galeano tem toda a razão: diante da tragédia de Gaza – e eu incluo, a trágica história do povo de Israel -, os países árabes lavam suas mãos. Ele diz: “Como sempre. E como sempre, os países europeus esfregam as mãos. A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama uma ou outra lágrima enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. Porque a caça aos judeus foi sempre um costume europeu”.

    O sr Galeano termina o seu texto com o pior disparate. Se há dívida história pelos sucessivos massacres cometidos contra o povo judeu, ela não se refere apenas aos seis milhões de judeus barbaramente assassinados nos campos de concentração nazistas, e nem mesmo à completa omissão do mundo ocidental, há meio século atrás. Ele erra quando afirma que o conflito em Gaza se deve a essa dívida histórica “alheia” cobrada aos palestinos.

    Mais do que uma sucessão de erros flagrantes de raciocínio sobre dados históricos, a versão que Galeano reflete opinião virulenta e tendenciosa que incita a discórdia, prega a perseguição anti semita, e nada contribui ao esclarecimento da questão.

    Vicenzo Borgia

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