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O atraso se mudou para Davos

Belém vive, de um modo muito peculiar, o ambiente que Porto Alegre conheceu em 2001, quando recebeu pela primeira vez o Fórum Social Mundial. Há, por certo, diferenças importantes. Uma delas não é um detalhe: o mundo mudou. Quando o FSM nasceu, como contraponto ao Fórum Econômico Mundial de Davos, a globalização ainda era cantada em prosa e verso e, seus críticos, taxados de anacrônicos, inimigos da tecnologia e malucos. Na época, o então presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a escrever um artigo chamando os organizadores e participantes do Fórum de “ludistas” (numa alusão ao movimento dos trabalhadores ingleses no início do século XIX, que destruíam máquinas por temer perderem o emprego para elas).

Os supostos avanços da globalização dos mercados eram apresentados como inevitáveis e necessários para a prosperidade das nações. Oito anos depois, os mantras neoliberais não só perderam força como estão cobertos hoje por pesadas nuvens de suspeição e descrédito. De 2001 a 2009, o otimismo e a euforia dos mercados transformaram-se em angústia e lamento.

Há, portanto, um ambiente de novidade que cerca o FSM 2009. O mundo mudou, afinal. E há uma grande novidade também para os paraenses que recebem pela primeira vez o Fórum. Pelos hotéis, ruas e restaurantes de Belém, começa-se a ouvir o inglês, o francês, o alemão, entre outras línguas. Essa polifonia, porém, não chega a ser novidade em um Estado em que se falam 60 idiomas. A Amazônia poliglota vai se encontrar com as outras línguas e pedaços do mundo. E vice-versa.

Vozes conservadoras da cidade, assim como ocorreu em Porto Alegre, em 2001, falam na possibilidade do caos tomar conta de Belém. Há, sem dúvida, uma dimensão caótica no FSM, mas se trata de um caos extremamente criativo. Uma das maiores expressões dessa criatividade é a capacidade que o Fórum teve, desde 2001, de antecipar diagnósticos e análises que acabaram sendo confirmadas pela realidade. O descontrole dos mercados, a enlouquecida e enlouquecedora livre circulação do capital financeiro, a destruição ambiental pela mercantilizaçao do mundo, a crise energética e a crescente militarização da agenda política das nações são alguns exemplos.

Belém terá a oportunidade de presenciar e formular algumas das primeiras grandes sínteses da esquerda mundial sobre as crises que marcam o início de 2009: crises econômica, política, ambiental e energética. E isso num ambiente mundial bastante diferente daquele que marcou o nascimento do Fórum. Essa novidade, por si só, já representa um grande desafio para o movimento que, ao recusar as políticas e princípios da globalização neoliberal, lançou idéias e propostas que hoje já não recebem o rótulo de anacrônicas. O anacronismo, hoje, se mudou para as montanhas frias de Davos.

9 Comentários on “O atraso se mudou para Davos”

  1. #1 Milton Ribeiro
    on Jan 22nd, 2009 at 9:24 am

    Excelente introdução.

  2. #2 msilvaduarte
    on Jan 22nd, 2009 at 11:14 am

    Belíssima introdução, Marco.

    Abraços.

  3. #3 Omar
    on Jan 22nd, 2009 at 12:25 pm

    Já vi que Belém (como diziam que dizia um divertido jogador de futebol gaúcho:”terra onde o menino Jesus nasceu”) inspirou o blogueiro.
    Desejo boa sorte e bom trabalho.

  4. #4 mariorangelgeografo.blogspot.com
    on Jan 22nd, 2009 at 12:47 pm

    Olá Marco, fico feliz de saber que Belém está vivendo, como Porto Alegre, o clima criativo do FSM. lembro-me de tudo que foi discutido por aqui, e penso que não será diferente em Belém. Boa estada e nos mantenha informados.

  5. #5 marcelo
    on Jan 22nd, 2009 at 1:55 pm

    Perfeito.

  6. #6 Ary
    on Jan 22nd, 2009 at 3:35 pm

    Marco: você disse a quê foi!

  7. #7 Dialógico
    on Jan 22nd, 2009 at 7:46 pm

    Tomara que as discussões do FSM remetam ao futuro das esquerdas como projeto político humanizador, por isso, necessário. Pelo que se percebe, o capitalismo está se reorganizando e as esquerdas perdidas como cego em tiroteio.

    Abraço,

    Claudia.

  8. #8 Sara
    on Jan 22nd, 2009 at 11:10 pm

    Perfeito Marco, sabemos bem o que aconteceu conosco que somos aqueles que participaram e estudaram muito durante os FSM de Poa. A unica coisa que me deixa triste é que Belém é muito longe e nesta aula não vou poder participar e aprender.

  9. #9 Anonymous
    on Jan 27th, 2009 at 5:05 pm

    E nesta semana o jornal inglês The Guardian traz uma lista com 25 responsáveis pela crise, Greenspan encabeçando…postei em:
    http://rogeriojordao.wordpress.com/
    abs,
    Rogério Jordão

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