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Governos foram a coisa mais parecida com "outro mundo possível" em Belém

O Fórum Social Mundial de Belém chegou ao fim. Estamos todos exaustos. E um sentimento de exaustão parece acompanhar também o processo do Fórum. Antes de mais nada, é preciso reconhecer e destacar o esforço e o trabalho do povo do Pará, do governo do Estado e dos organizadores do evento para receber as milhares de pessoas que vieram até Belém. Todo esse esforço, no entanto, foi prejudicado por uma decisão organizativa do FSM: a de optar pela total descentralização das atividades, todas elas autogestionadas. Não havia nenhum debate proposto pelo próprio FSM. A recusa dos organizadores do fórum em assumir um papel de sujeito político (ao menos para propor alguns debates) cobrou seu preço. O resultado foi uma grande desorganização e fragmentação. O excesso de informação acaba virando desinformação. Encontrar o local de uma atividade tornou-se, muitas vezes, numa loteria. Mudanças de locais e de horários foram comuns prejudicando o acompanhamento do evento.

Apesar disso, não faltou ânimo e vontade de participar dos debates sobre a crise econômica mundial, a situação do povo palestino, dos povos indígenas da Amazônia, a crise ambiental e centenas de outros temas. Essa diversidade, que é uma das marcas do FSM, acabou expondo uma fragilidade do processo como um todo: no momento em que o mundo atravessa uma grave crise econômica, cujas proporções podem ganhar contornos dramáticos ao longo deste ano, a falta de foco e de definição de estratégias articuladas entre as centenas de organizações que participam do Fórum faz com que muita gente deixe Belém com um sentimento de cansaço. O FSM é, acima de tudo, um ponto de encontro e de troca de experiências, dizem os defensores do atual modelo. Mas ele é, na verdade, muito mais do que isso, conforme o próprio slogan do movimento altermundista: “Outro Mundo é Possível”.
Trata-se de um problema que acompanha o fórum desde o início. Mas agora adquire um sentido mais grave. O mundo mudou. Não é mais aquele que marcou o surgimento do FSM em 2001, quando este apresentou-se como um contraponto ao fórum de Davos. E essa mudança hoje tem a cara de uma crise que ameaça jogar no desemprego milhões de pessoas nos próximos meses. E que tem também a cara da guerra, como se viu recentemente em Gaza. Ao final do FSM de Belém, no entanto, decide-se que o próximo encontro ocorrerá apenas daqui a dois anos, em 2011, em algum país da África. Algumas marchas, campanhas e dias de protesto são marcados, repetindo procedimentos já adotados em anos anteriores.

Infelizmente, os debates sobre qual será a próxima sede do fórum ganham tanta (ou mais) importância quanto a agenda estratégica do movimento para o futuro próximo. Algumas ONGs e intelectuais europeus reclamaram da hegemonia latino-americana e da presença de cinco presidentes em Belém (Lula, Chávez, Evo Morales, Rafael Correa e Fernando Lugo). Essa presença, aliás, foi o momento mais importante do FSM pois materializou as mudanças políticas no continente e também o caminho para enfrentar a turbulência instalada no cenário global: a ordem é aprofundar a integração. Os movimentos sociais latinoamericanos defendem (com razão) que é na América Latina que aconteceram as mudanças sociais mais significativas nos últimos anos. Todas elas, é importante assinalar, marcadas pela chegada ao poder. E é a partir desse poder político, construído e alimentado por intensa mobilização social, que se torna possível construir políticas públicas universais.

O grupo que controla hoje a organização do FSM é avesso ao poder político, menos é claro o poder dentro da organização do FSM. Incrivelmente, o trio de brasileiros Chico Whitaker, Oded Grajew e Candido Grzibowsky segue freqüentando (majoritariamente) as entrevistas coletivas do evento, oito anos depois; não havia nenhum representante dos povos indígenas da Amazônia na coletiva de abertura do fórum. Por que a composição dessas mesas não é ela também diversificada? Muita coisa boa aconteceu em Belém, mas diante da gravidade da conjuntura econômica internacional, não parece razoável fazer um balanço do evento, saudando mais uma vez, e sobretudo, a diversidade, o colorido e alegria dos participantes. Tudo isso é ótimo, mas insuficiente diante dos objetivos que animaram o surgimento deste movimento e do que está ocorrendo no mundo hoje.

Ao final da primeira edição do fórum, em 2001, François Houtart alertava para o risco do FSM se tornar uma feira de alternativas. Em 2001, também, dizia-se que o fórum era um processo, não um evento. Pois bem, chegamos a 2009 e o processo está cada vez mais com cara de evento, de feira de alternativas. O tipo de debate criado em torno da definição do local e da data do próximo evento é um forte indício disso. A decisão de realizar um novo encontro somente daqui a dois anos é outro. Dependendo da evolução dos acontecimentos em 2009 e 2010, o FSM corre o sério risco de se tornar irrelevante politicamente. A política, como a natureza, tem aversão ao vácuo. Fosse mesmo um processo, não correria o risco de se reunir apenas daqui a dois anos, independentemente do que ocorra no mundo neste período. Pelo que se viu em Belém, mais do que nunca, diante da crise, chegou a hora dos governos. Seus representantes foram a coisa mais parecida com um “outro mundo possível” que se viu em Belém.

Fotos: Eduardo Seidl

9 Comentários on “Governos foram a coisa mais parecida com "outro mundo possível" em Belém”

  1. #1 Anonymous
    on Feb 2nd, 2009 at 1:25 pm

    Se fosse uma feira em Hannover, a RBS teria mandado um enviado, mas como Belém do Pará é muito longe …

  2. #2 Jean Scharlau
    on Feb 2nd, 2009 at 2:34 pm

    Francas, corajosas, lúcidas e necessárias tuas observações, Marco.

    Tenho a impressão, já desde outros Fóruns, de que a organização do “evento” não consegue dimensionar adequadamente, e menos ainda potencializar, a participação dos chefes de Estado. Será que domina a direção o mesmo sentimento de “artistas” de sucesso que acham natural e presumível a presença de poderosos na platéia? Que vêm, divertem-se e vão embora?

  3. #3 Anonymous
    on Feb 2nd, 2009 at 5:03 pm

    A minha opinião é de que se a maioria dos chefes de estado fazendo,fizessem para que nós tivesse o mundo que sonhamos, com justiça e igualdade,o FSM nem precisaria existir e ir a Belem seria sómente para passear, e conhecer um dos lugares mais lindos de nosso país, sabem porquê? ainda acho que UM NOVO BRASIL É POSSÍVEL,acho que o Lula,e a maioria dos Petistas esqueceram o que aprenderam em POA, mas eu não!!!!!!!!!!

  4. #4 Jackson
    on Feb 2nd, 2009 at 8:35 pm

    Belíssima análise!!

  5. #5 Fernando
    on Feb 3rd, 2009 at 2:03 am

    Excelente análise do FSM, Marco! Parabéns!

  6. #6 Anonymous
    on Feb 3rd, 2009 at 11:24 am

    Boa Análise Marco…

    quem não opta pela direção acaba por ser dirigido…penso que o fsm deveria ter feito o balanço dos últimos oito fóruns e se adequado a atual conjuntura que foi em menor e maior grau prevista lá atrás em 2001…
    pensavamos lá que duas coisas poderiam acontecer uma como um desejo e a outra como uma expectativa crítica….o desejo era que as esquerdas governassem a América Latina se não em todo em boa parte – isto hoje é realidade!…a segunda expectativa crítica era que o capitalismo em sua etapa de globalização e de predomínio do mercado entraria em crise por desregulamentação e falta de fiscalização na ciranda financeira….

    e o Fórum Social Mundial não diz nada sobre isto…esta é a pauta real…

    para nós aqui no sul – no rs é tempo de m,ascara neoliberal…com a falência completa do modelo deles a RBS agora reforça o ataque ao serviço público e aos direitos dos trabalhadores….e as vozes contrárias são poucas…tudo se passa como se ainda estivessemos em 1995 e o neoliberalismo fosse o programa da promessa de futuro melhor…este é um outro ponto importante…a derrota real do neoliberalismo só vai ocorrer quando forem derrotados não só na realidade dos fatos, mas também no terreno das idéias e no espaço público….

  7. #7 Luís
    on Feb 3rd, 2009 at 12:56 pm

    Concordando com a análise, complemento com a minha visão de que o desafio do FSM é o das esquerdas em geral, diante de um sistema capitalista globalizado e mais ou menos centralizado, cujo último mote renovador foi o recém-falecido neoliberalismo, sob a condução-mor do reaganismo-bushismo, auxiliado pelos Brittos do mundo, sob o bênção dos Simons que não tem projeto próprio.
    É claro que o neoliberalismo pode estar “morto” por ter esgotado a capacidade de renovação da economia, de revitalização capitalista, de liderança ideológica, mas ainda está longe de sair de cena, visto que grandes porções do sistema permanecerão atrelados a ele à espera da nova “onda” – porque o sistema quer e se perpetua.

    Resta, às esquerdas, superar o ranço sectário sem esquecer seus compromissos históricos. Em outras palavras, é preciso construir maiorias políticas… e para isto é preciso fazer política, sem falsos moralismos, mantendo uma sólida prática política.
    Não é, e nunca foi, tarefa fácil… mas cansei de sectarismo e masturbações políticas… são tão “úteis” quanto o que pretendem criticar.

  8. #8 Anonymous
    on Feb 4th, 2009 at 12:17 am

    Excelente trabalho. Saramago diria: um ensaio sobre a lucidez. Ainda penso que o Forum é um evento em processo que sempre semeia sementes que acabam germinanado em outros espaços-tempos.
    É incrível mas a América Latina levou mais de quinhentos anos para formar a mesa dos governantes que estão na foto, a qual indica que um outro mundo é possível.
    E ainda corremos o risco do retrocesso, que é o caso da cidade de Porto Alegre e do RS, berço do FSM, onde hoje proliferam os “morangos mofados”.
    Caio

  9. #9 Jean Scharlau
    on Feb 7th, 2009 at 12:36 am

    “Lutas muito importantes não estão presentes no Fórum Social Mundial”

    Entrevista com o economista e historiador egípcio Samir Amin

    “Me inquieta muito esse eco que obtêm [no FSM] muitas ONGs do Norte que, na verdade, não são mais que antenas repetidoras do pensamento dominante”.

    Samir Amin é, de alguma forma, o elo perdido entre o atual movimento altermundista e os movimentos de libertação dos anos cinquenta. Aos seus 78 anos, este egípcio tem estado em ambos, como teórico e construindo soluções. O economista e historiador se destaca como o teórico que mais radicalmente tem analisado as formas euro-estadunidenses de dominação. Hoje, o diretor do Fórum do Terceiro Mundo de Dakar é um dos coordenadores do Fórum Mundial das Alternativas, olha para o Fórum Social Mundial celebrado em Belém com uma crítica construtiva: Tem que se re politizar o Fórum e “construir a convergência na diversidade”. Senão, adverte, estes fóruns correm o risco de converte-se numa “antena repetidora do discurso dominante”.

    Você sustenta que os fóruns sociais correm ricos, digamos, de corte narcísico…

    Como eu desejo que esta onda de libertação seja exitosa, seja real, que não se transforma em pura retórica, temos que ser muito severos conosco. Não basta falar que o liberalismo é um absurdo socialmente, ecologicamente e politicamente. Não basta denúncias. Não basta levar adiante batalhas defensivas. As frentes da globalização capitalista são numerosas. Devemos combater ofensivamente, coisa que exige uma perspectiva. Essa perspectiva não pode ser a unificação de movimentos, mas sim deve ser a convergência.

    Hoje não é o caso?

    Não. Hoje estão segmentadas. Combatem os ataques do sistema, mas não propõem alternativas realizáveis. Temos caído em objetivos de natureza moral, geral, em um plano “a favor de um mundo melhor e mais justo”. Teremos que definir o que é um mundo melhor e mais justo e as estratégias políticas para por-lo em prática! Acredito que agora temos que levantar as questões das estratégicas políticas. Não necessariamente unificar-se em uma organização, mas sim construir uma convergência dentro da diversidade. Frentes diversas, referências culturais diversas, objetivos de transformação diversos, formas de luta diversos, sim… Mas a questão política é central e tem que atravessar tudo isso.

    Os fóruns sociais não se atrevem?

    Esse é um ponto negativo da segunda leva dos movimentos sociais em sua versão atual: o medo da política. Por que? Porque a política tem decepcionado muito. A socialdemocracia tornou-se liberal-capitalista. O comunismo tornou-se autocracia, em certas ocasiões criminoso. O prjeto de libertação do Terceiro Mundo de Bandung tornou-se uma coleção de autocracias medíocres… por isso, os movimentos sociais decidiram abandonar a política. Mas isso é impossível. Abandonar a política equivale a resignar-se a não transformar o mundo.

    Você fala também do risco das ONGs ricas do Norte monopolizarem o discurso nos fóruns sociais.

    Sim. Me inquieta muito esse eco que obtêm muitas ONGs do Norte que, na verdade, não são mais que antenas repetidoras do pensamento dominante. Simpáticas, reformistas, cheias de boas intenções e de respostas piedosas, mas nada mais. Estão bem representadas nos fóruns sociais mundiais porque é muito caro ir até eles, organizar-se. Vou dar um exemplo. No Egito, atualmente, tem um movimento social camponês imenso, que tem reunido milhões de manifestantes para frear a contra-reforma agrária planejada pelo governo. Não apareceu em nenhum fórum social mundial. Primeiro porque não tem dinheiro pra ir. Segundo, porque ninguém lhe daria esse dinheiro para ir. Terceiro, porque nem eles mesmos são conscientes de que poderia ser importante ir.

    Para você, deve-se abrir os fóruns para os partidos políticos?

    Sim. São atores, inclusive as vezes atores capazes de conservar o poder para transformar.. Não é possível continuar negando-se ao contato, ao choque, ao debate, à exigência e inclusive à polêmica com os partidos para formular programas. É hipócrita, por parte das ONGs apolíticas, essa recusa ao contato com o político. De que vivem as ONGs gigantescas do Norte? De subvenções públicas e de fundações, sobretudo norte-americanas. Nem uma nem outra são independentes. Temos que opor à essas ONGs pseudo-apolíticas, outra politização autêntica.

    Talvez a a melhor dinâmica não não esteja nos fóruns, senão fora…

    Sem ir tão longe, eu acredito que a América Latina está semeando um caminho com sinais positivos. Está demonstrando que a mudança também pode começar por vitórias populares no poder político, saldadas com transformações. Sejam quais sejam as evoluções futuras, as vitórias de Lula, de Chávez, de Morales e de Correa mostram essa possibilidade de vitória popular.

    Impossível no Norte?

    Complicado, mas não impossível. O capitalismo atual é oligárquico, no sentido estrito da palavra, no sentido de oligarquia ao estilo russo. São um punhado de oligarcas, em escala planetária, não mais que seis mil pessoas, que concentram a riqueza de todos. O objetivo de isolar essa oligarquia pode reunir todas as forças progressistas, humanistas e simplesmente democratas para fazer frente às forças que querem a regressão. Ai você tem uma base social possível para a vitória popular: isolar a oligarquia mundial. Cuidado: no entanto não é uma base eleitoral, mais instável, mas sim uma ampla base social.

    Você é pessimista a respeito dos fóruns e otimista quanto a força do que ocorre fora.

    De alguma maneira, sim. Os grupos que levaram Chávez ao poder não estavam nos fóruns sociais; o movimento indígena boliviano também não. Pense no Partido Comunista Maoísta do Nepal, que também não está nos fóruns. Fez frente a uma tirania e ganhou a guerra de libertação. Os erros que cometeram depois são outro problema, mas está claro que têm contribuído para libertar um povo. Lutas muito importantes no mundo não estão presentes no Fórum social Mundial.

    O original em espanhol se encontra no Rebelion e a tradução em português é gentileza de Antonio Arles
    Postado por é http://historiaemprojetos.blogspot.com/

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