Katarina Peixoto escreve: “A governadora do estado do Rio Grande do Sul vive nas trevas. É difícil não se constranger com um simples cumprimento que ela tenta comunicar, tamanha incapacidade de dizer alguma coisa a respeito de algo que não seja ela mesma. E ela mesma não consegue nem dar bom dia com clareza. No emaranhado de uma espécie bizarra de egotrip, ela consegue dizer alguma verdade, porém. Um escritor já disse certa feita que o louco perde tudo, menos a razão. E a razão, mesmo nas trevas, impõe-se, contra a governadora. Isto é, contra as trevas.
Imagine que alguém na rua pára e diz: “Bom dia! E que lindo dia, o primeiro sem horário de verão deste ano. Amo o horário de verão, o dia mais longo, a noite mais curta, o calor. Amo tanta coisa…Acordei com a garganta meio ‘pegada’, o corpo me indicando que ainda não consegui ‘pegar leve’”. Ou, que abra uma carta onde esse conjunto de frases estão dispostas assim, simplesmente, numa espécie de denúncia do próprio estado mental. Um adolescente que tenha estudado a regra básica para qualquer discurso, que é o Princípio de Não-Contradição teria entendido o quê, diante desse conjunto de enunciados calamitosamente reunidos?
A única coisa verdadeira é o que diz como que “por acidente”: a governadora não consegue “pegar leve”, isto é, não consegue descansar. Nas trevas não deve haver descanso, mesmo. Quando dizer bom dia se torna um fardo para o entendimento, a “garganta” sofre. Vai ver é isso.
E então, como se respondendo a uma pergunta imaginada, presta um depoimento a respeito da iniciativa de ser governadora do estado. Depoimento em que associa motivações a reações, como se as manifestações críticas ao seu governo fossem ataques a uma idéia ou a um projeto, abstratamente. Aliás, não deixa de ser sintomática a descrição do “projeto” de governo por ela reiterado: “Como você tanto acompanha, o projeto tem cara sim, é bonito, coletivo, construtivo, respeitoso, doador”.
Mais uma vez, a razão cobra seu preço: só mesmo a inversão completa do significado de um governo pode tornar inaceitável que seja atacado. Quando o que é racional está escondido num universo de trevas e confusão, coisas mais fundamentais estão em falta. A vergonha, por exemplo. O Estado é o que não se definiu ao nascer, nas palavras de Yeda, e o povo é o que ela ama, não o que odeia, ela que é “meio caudilha”, como fosse esse perfil algo virtuoso.
É diante desse universalismo todo que cartazes de sindicatos dos servidores públicos estaduais se tornam dantescos. Quando se está nas trevas, só se pode contar com o dantesco, diz a razão obnubilada pelo governo da governadora.
Um mandatário fazer-se de vítima de manifestações políticas e usar a própria família para tanto não pode ser levado a sério. Ainda mais quando essa utilização serve para priorizar, sobre gente da família e servidores públicos, isto é, serviços públicos investidos em cidadãos habilitados via concurso, idéias. Ou melhor: “intensa necessidade de comunicação, pela vida como ela é para cada um, por fazer política, que é bom fazer quando se tem ética, responsabilidade, sem medo da mudança, de estar à frente do batalhão, porque confio em cada dia, e vivo sem ficar na janela vendo a banda passar esperando a sorte, esperando a morte… como diz a música”. Que constrangimento deve ser ler isto tudo, para alguém que tem seriedade e faz parte deste governo ou desta gestão no estado. Não é possível que esse discurso venha de alguém que é arrolada como testemunha de Flávio Vaz Neto. Não é razoável tamanho desprezo pela realidade. Trevas.
Depois a governadora informa que já tem provas, dadas pelo MP estadual, de que pode morar onde mora. Agora que, rastreados todos os cheques, “a casa é limpa!”. Assim sendo, cabe perguntar: por que será que foi preciso o MP informasse que ela podia morar onde está morando, tendo comprado uma casa depois da eleição? Será que é só porque o governo é lindo, bonito, coletivo e doador?
Como a realidade está lá fora das trevas mentais da governadora, ela finalmente assume sua vida – e mandato – como fosse um filme. Um, não, dois, vividos, nas palavras da governadora, “mesmo com o alucinante caráter deste nosso governo”. Injuriando dois bons filmes, Yeda os usa para se pôr em respectivos papéis de vítimas que supostamente seriam correlatos do seu filme pessoal ou governamental – a distinção não foi precisada.
A injúria ao O Escafandro e a Borboleta é mais grave e ardilosa. Não apenas porque também ali a governadora se põe num papel de vítima do destino – o personagem do filme sofre um derrame. O caráter ardiloso, não necessariamente alucinante da comparação, vem diante do fato que teria posto a governadora no “escafandro”: a “famigerada Operação Rodin”.
Nenhum derrame cerebral torna uma investigação da Polícia Federal famigerada. E não é preciso derreter o cérebro para tomar polícia como adversário. É preciso ser criminoso, e convicto.
Com efeito, só muito republicanismo, austeridade, universalismo e espírito público, afinal de contas, pode se referir no cinema a fim de dizer coisa tão fina e elegante como: “ Mas não desisto, não vou entregar prus ôme de jeito nenhum, amigo e cumpanhêro”.
Uma palavra, ainda, sobre a enganação da carta ser pública e não privada, e publicada: Insulto. A única coisa verdadeira que se diz, mais uma vez, como que “por acidente”, não vascular cerebral. Um acidente investigativo, famigerado. Constrangedor”.


on Feb 17th, 2009 at 10:55 pm
Katarina, parabéns pela leitura da bendita carta até o fim. Preciso rever meus conceitos: enfrentar a repulsa que esta mulher me dá, a fim de somar na desconstrução do discurso arrogante desta criatura [Luft tb?] eleita por 54% dos votos do eleitorado gaudério.
Pena eu não ser psiquiatra para entrar na seara do que é realidade e do que é desejo para aquela bisca.
Abraço!
on Feb 17th, 2009 at 11:27 pm
pensei no Leopoldo Rassier, se revirando na cova e no cansaço que teve Deus – ou melhor, Deos, o Luciano Deos do GAD – escevrer a pataquada. em tempo: me parecia que tocava o tema de love story ao fundo mixado com RAÇA NEGRA (piada interna). AZARRÔ, Katarina.
on Feb 17th, 2009 at 11:43 pm
será que não tem um jeito de fazer um laudo psiquiátrico e mandar essa doida para uma internação???
on Feb 18th, 2009 at 3:51 am
Na Paraíba não deve ter papeleira comprando o MPE. Estão ensinando ao Brasil como se age com ética e se cassa a tucanada.
on Feb 18th, 2009 at 9:39 am
Muito bom, Katarina. A senhora governadora é mesmo de amargar. Ainda temos 22 meses para suportar esse medievo.
on Feb 18th, 2009 at 9:48 am
Katarina, que belo texto, que bela interpretação. Mas, sabes?, acho que o texto enviado ao Santana (este sim, famigerado) foi escrito a 4 mãos, como diz o Feil. É muito típico de Lya Luft, muito típico.
on Feb 18th, 2009 at 12:14 pm
acho que é caso de impeachment dessa trololó por declarada incapacidade mental. é muito barbitúrico na cabecinha de ervilha.
on Feb 18th, 2009 at 2:30 pm
Parabéns, Katarina, acho que o esforço de ler com atenção aquele troço todo deveria valer prêmio! Que servicinho nojento e mal-feito esse, hein? Dá para ver todos os arremates e alinhavos! Os políticos estadunidenses gostam muito de photo-ops, mas qualquer foto da governatriz causa rejeição generalizada; terá a RBS (re-?)inventado então a letter-op?
Vejamos:
- Uma carta escrita a mão é fácil de identificar como tal: está escrita a mão. Consumir um parágrafo explicando isso ao leitor entrega todo o ouro de cara.
- A tal “carta” não aborda nenhum tema pessoal, é claramente pública desde o início. Nem precisava da canastrice do destinatário para esclarecer isso.
- A governatriz, naquele drama todo da empresa de comunicação “prestando favor desinteressado” versus primeiro-damo, decidiu assumir pessoalmente a comunicação. Terá sido isso a primeira etapa? Será que as longas férias da governatriz serviram para destilar esse desatino? Certamente, não houve um segundo de auto-avaliação crítica no dito giro. Ela voltou ainda mais convicta de que… hum, deve ser de algo… o que era mesmo? Ah, de que a sua administração é alta, bonita e inteligente!
Por trás da loucura não há método.
on Feb 18th, 2009 at 2:59 pm
Excelente o texto, Katarina! Dá uma boa medida do verdadeiro “teatro do absurdo” que se encontra a política gaúcha com as crises que essa despreparada vem acumulando!
on Feb 18th, 2009 at 3:55 pm
Li um comentário no ‘Nova Corja’ a respeito, que lembra do “amigo Paulo Santana”, referindo-se ao tempo em que Yoda esteve no Ministéio do Planejamento. É do leitor F. Mello, e diz/transcreve:
“(…)
Quando ela foi demitida do Ministério do Planejamento, e não teve uma saída suave, assim como “uma vela que se apagou” …
- O “querido amigo” Paulo Sant´Ana em 7 de maio de 1993, assim se referiu ao episódio:
‘… Esta flutuação da ministra Yeda Crusius por Brasília, sem pasta, sem planejamento, sem norte, um vazio administrativo a rondar-lhe os passos hesitantes, é um cartaz eloquentemente negativo do governo.
Somente a irresponsabilidade e o despreparo governamental explicam a colocação de Yeda Crusius no Ministério do Planejamento. Se a gente for contar aos netos, na passagem do século, eles não acreditarão: fizeram um plano econômico, anunciado com impacto à nação, sem consultar a ministra do Planejamento. Mas se ela não planeja, o que faz?
(…)
E por aí vai…
Poly
on Feb 18th, 2009 at 4:46 pm
Olhando para esse retrato da Yeda, lembrei-me que o CPERS pode resolver o problema dos out-door, colocando a cara da Dra.Zira no lugar do da governadora (Dra.zira da série Planeta dos macacos), pedindo, é claro, desculpas a todos os primatas da face da terra, até porque a Zira sempre foi “do bem”.
on Feb 18th, 2009 at 6:52 pm
Parece que ela tá com a cabeça metida numa pantalha.
Jacaré.
on Feb 19th, 2009 at 12:47 am
Enquanto todos nós tiramos a impostora prá louca ela se diverte e, espertamente, trama a releição. A campanha do CPERS e demais sindicatos erra ao não denunciar os veículos da mídia que a todo momento dão suporte ao desgoverno do RS ! NO PASARÁN !!!!!!!!