De Bruno Lima Rocha, do site Estratégia e Análise:
Este artigo exemplifica o conceito de intervenção “econômica” condicionando a soberania da política. Se trata do pedido de antecipação da segunda parcela do empréstimo do Banco Mundial, através do Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BIRD), para o estado do Rio Grande do Sul (RS). Para liberar o recurso, o economista senegalês Makhtar Diop, representante do órgão, exige “reformas”.
A situação é simples embora, no meu ponto de vista, intolerável. O RS sob o comando de dois economistas neoclássicos, a governadora Yeda Crusius e o então secretario da Fazenda, Aod Cunha, contraíra US$ 1,1 bi junto ao BIRD, em setembro de 2008. O empréstimo vem em parcelas, cuja segunda parte é da ordem de US$ 450 milhões. A contrapartida contraída pelo governo estadual é acatar as normativas do Banco. No momento, a agenda do BIRD para os rio-grandenses condiciona esta verba a duas ações. Uma é a criação de um novo regime previdenciário estadual, obviamente tratando-se de previdência complementar. Outra exigência é a reestruturação das carreiras dos trabalhadores do serviço público. Dentro desta reestruturação contam elementos da administração privada, como avaliação das chefias por critérios de “produtividade”. Ambas as mudanças precisam do aval da Assembléia Legislativa, onde o Piratini tem maioria.
Para passar o dinheiro, o BIRD exige o gerencialismo como norma de Estado. Isso é simplesmente uma intervenção externa contra a soberania popular. Quando um “técnico” condiciona a decisão política, a democracia perde espaço, dando margens para decisões de outro tipo. Convenhamos. Quando os deputados votam em defesa de interesses próprios já é um escândalo de indignação. Agora, quando uma mudança de regime de trabalho, de funcionamento interno do Estado, ocorre não por decisão da sociedade, mas por exigência de um órgão de financiamento externo, como se caracteriza isso? Não tenho nenhuma dúvida em caracterizar estas exigências como intervenção do Banco Mundial no Rio Grande.
A situação se agrava ao recordar que o empréstimo com o BIRD tinha como motivação primeira servir de lastro para alongar a dívida do estado com a União. São três absurdos. O primeiro é contrair dívida externa para uma relação entre níveis de governo do mesmo país. O segundo é julgar “normal” cumprir exigências do Banco Mundial para executar parcelas de um empréstimo desnecessário. O terceiro é condicionar o funcionamento do Estado como ente político para satisfazer a intervenção “técnica”. Voltando às raízes da política do pago, se isso não é “entreguismo vende pátria”, então é o quê?


on Apr 19th, 2009 at 3:12 am
Entreguismo vende pátria é o jeito tucano e seus aliados de submissão ao capital financeiro. Existe algum estado brasileiro que se transformou em senzala do BIRD, além do Rio Grande do Sul?
Nada mada mais me vincula ao rs. Estou brasileira. E nada mais.
Nelly
on Apr 19th, 2009 at 11:05 am
O PT ajudou neste processo todo com o BIRD! Mantega e Arno Augustin inclusive posaram na foto com Yeda! O Senado e a Assembleia Legislativa foram unanimes na aprovação! O que sobrou?
on Apr 19th, 2009 at 12:32 pm
As duas ações:
A criação de um novo regime previdenciário estadual;
Reestruturação das carreiras dos trabalhadores do serviço público.
Parece-me que as duas ações, atingem emcheio os servidores públicos, mas eles merecem, eles elegeram esta “governadora” e os deputados da base de yeda. Na próxima eleição vão pensar melhor antes de votar em QUALQUER UM.
on Apr 19th, 2009 at 2:20 pm
Olhando para esta gente aliada da D.Yeda, penso que enxertaram “cláusulas”.
Existem formas diferentes de chegarmos a um objetivo.
A situação econômica do RS é/era grave. Muito grave!
A elite gaúcha é reacionária.
A troca pura e simples do contrato/dívida foi com juros menores.
Qualquer pessoa física faria.
O problema é a política que aplicam para resolver.
Dizer que economia é uma ciência exata é reduzir a importância na vida de cada um(a).
Economia requer um olhar mais político e humano e é aí que a “porca torce o rabo”.
on Apr 19th, 2009 at 3:21 pm
panoramix está certo. PT é cúmplice da cagada. Houve corrida de papagaios de pirata vermelhos voando para o sul em direção a foto. Tenho cópias. E, Nelly, não puxa a brasa pro teu assado, tá?
A véia é triste, ninguém merece. Mas o PT?!? Vocês aqui do blog são bem informados. Podem, se quiserem, fazer um excelente jornalismo. Mas ‘menas’ torcida, tá?
on Apr 19th, 2009 at 8:46 pm
Foi uma coisa que sempre se evitou, por cautela, jogar em cima da mesa.
Tucano vende tudo, se dizia.
Mas não é só isso. Vende para quem pagar mais e adora se forem dar para estrangeiros. Se mijam de arrepios se for para estrangeiro.
Isso antigamente se chamava de traição, mas é uma ficha antiga, cheia de um rancor cego, de uma ignorância bruta, uma idéia que pode ser voltar para qualquer um que a utilize e engolir quem começar a brincar com ela.
Fossem os milicos algo mais do que paus mandados da plutocracia, eles não teriam chiado muito antes que se vendesse estatais nacionais para estrangeiros.
on Apr 20th, 2009 at 1:00 am
É muito deprimente sabermos que o Governo Lula, e mesmo gente que se diz da esquerda do PT, deram o aval a esta aberração. O motivo seria um acordo de cúpula com a tucanada? Possivelmente.
Estamos esperando (já sentados) uma explicação para isso.
Não faz muito tempo, o senador Aloisio Mercadante fazia, na minha opinião, uma afirmação absurda. Dizia ele que o PT e o PSDB, juntos, têm muito a contribuir para a democracia no Brasil. Entregar o futuro do povo ao Banco Mundial é democrático, cara pálida?
on Apr 20th, 2009 at 1:00 am
É muito deprimente sabermos que o Governo Lula, e mesmo gente que se diz da esquerda do PT, deram o aval a esta aberração. O motivo seria um acordo de cúpula com a tucanada? Possivelmente.
Estamos esperando (já sentados) uma explicação para isso.
Não faz muito tempo, o senador Aloisio Mercadante fazia, na minha opinião, uma afirmação absurda. Dizia ele que o PT e o PSDB, juntos, têm muito a contribuir para a democracia no Brasil. Entregar o futuro do povo ao Banco Mundial é democrático, cara pálida?
on Apr 20th, 2009 at 1:07 am
Se a contração do empréstimo nas condições exigidas pelo BIRD foi aprovada pelo legislativo (não faço ideia), não há o que fazer, significa que a sociedade organizada aprovou, incluindo o PT.
on Apr 20th, 2009 at 1:32 am
Nacionalismo retrógrado. Coisa mais demodee. Parecem viúvas do Brizola.
on Apr 20th, 2009 at 7:17 pm
Nacionalismo retrógrado, meu caro Watson? Pois, então, dê uma lida no artigo escrito pelo Professor de Teoria Económica na Universidade de Missouri–Kansas City, EUA, Michael Hudson. Hudson escreveu, sobre a tentativa da Coca-Cola, de comprar o maior fornecedor de suco de frutas da China, o seguinte:
“A companhia Coca-Cola recentemente tentou comprar o maior produtor e distribuidor de sumo de frutas da China. A China já possui aproximadamente US$2 milhões de milhões (trillion) em títulos dos EUA a mais do que precisa ou pode utilizar, visto que o Governo dos Estados Unidos recusa-se a deixá-la que compre companhias significativas nos EUA. Se a compra estado-unidense tivesse sido permitida, isto teria confrontado a China com um dilema: A Opção 1 seria deixar a venda consumar-se e aceitar pagamento em dólares, reinvestindo-os no que o Tesouro dos EUA lhes diz, em títulos do Tesouro que rendem cerca de 1%. A China assumiria uma perda capital sobre isto quando as taxas de juros dos EUA ascendessem ou quando o dólar declinasse pois os Estados Unidos estão insistindo isoladamente em políticas expansionistas keynesianas numa tentativa de permitir às companhias dos EUA que arquem com o seu fardo de dívidas.”
Todo o artigo mostra bem o contrário: o nacionalismo está muito vivo e com grande tendência a exacerbar-se.
Aliás, alguém poderia me dizer onde estaríamos agora se tivéssemos feito como a Argentina, que privatizou tudo o que podia.
Imagine a M… em que estaríamos mergulhados caso tivéssemos, abandonando qualquer resquício de nacionalismo, privatizado também o BB, a CEF, a Petrobrás, por exemplo, como queriam o especialistas neoliberais – pós-graduados, doutorados, mestrados.