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Democracia, representação, participação e seus dilemas

 Hélio Paz escreve (comentário postado no texto de Paulo Muzell sobre a situação salarial dos funcionários da prefeitura de Porto Alegre):

“Sou mais libertário do que partidário e estou estudando meios de transformar a péssima democracia representativa em uma democracia participativa capaz de horizontalizar as relações políticas ao invés de delegar representantes que não satisfazem às demandas de seus supostamente representados junto a outros ciberativistas do país inteiro.

Infelizmente, a maioria das pessoas ainda crê em instituições burocráticas, clientelistas, paternalistas e fechadas em hierarquias excludentes. A esquerda partidarizada, apesar de bem menos do que a direita, também não deixa de ser excludente.

No entanto, enquanto o sistema vigente for este, o menos pior que há é o PT. Nesse ponto, as comparações com o resto são pequenas e pouco verossímeis em uma série de aspectos práticos e teóricos.

Lembro bem da imensa legião de municipários que se queixavam horrores do PT. A sangria e a tunga que estão levando agora não digo que seja merecida porque seria muito pequeno rir da desgraça alheia. Mas, quem sabe só assim, levando na cabeça, a dor e a lição de terem apoiado o que de pior existe na política gaúcha em todos os tempos possa servir para alguma coisa…

Tanto no âmbito municipal quanto no estadual, boa parte dos mesmos sindicatos que hoje lutam pelos justos direitos do funcionalismo e estão contra o desgoverno Fumaça-Yoda muito me surpreenderam anos atrás ao apoiarem Britto, Rigotto, Fogaça, Yeda após terem considerado o final de cada uma das administrações populares como pavoroso. Acho que Olívio teve um arrego nos três primeiros anos (tanto em POA como no RS) e o único onde poucos problemas ocorreram foi o governo de Raul. Tarso 1 e 2 e Verle sofreram mais.

Enfim… Talvez o brasileiro tenha se acostumado ao coitadismo e ao paternalismo tanto do estado como das empresas não-neoliberais. E o sindicalismo perdeu a unidade e o elan ao não compreender a dissociação entre espaço e tempo proporcionados pela internet, repleta de mídias sociais de resultados políticos sensacionais no exterior e ainda de resultados pífios no Brasil”.

8 Comentários on “Democracia, representação, participação e seus dilemas”

  1. #1 elektrofossile
    on Jul 10th, 2009 at 3:28 pm

    Segundo Houaiss, coitado é aquele que sofre coito.

  2. #2 Hélio Sassen Paz
    on Jul 10th, 2009 at 3:55 pm

    Marco,

    Muito obrigado pela citação. O prazer de ter trocado idéias contigo pessoalmente ocorreu muito menos vezes do que o necessário. E são necessários avanços significativos.

    Apesar da minha criação burguesa, também sou de esquerda e voto no PT porque é a menos pior das possibilidades da democracia representativa. Todavia, esse sistema político verticalizado, hierarquizado, mal fiscalizado, hiperdependente de lideranças, da exposição na mídia corporativa e de uma série de concessões pesadíssima, quando bem executado, infelizmente acaba por anular grande parte de seus avanços sociais – que não são poucos. Logo, esse modelo não tem mais como dar conta de uma sociedade que vive à luz da dissociação entre tempo e espaço proporcionada pelas mídias sociais (internet).

    Quase todos avanços do Governo Lula foram bons – exceto a exaltação da indústria automobilística, o biodiesel em detrimento dos alimentos vegetais e o endeusamento do combustível fóssil. Muitos deles, são excelentes em vários setores – inclusive em muitos dos quais ninguém tem tempo pra investigar. Todavia, apesar de 500 anos de desmandos e de todo processo que envolve interesses opostos ser muito lento, infelizmente, as soluções atuais dificilmente superam mais do que reles 10% das demandas diretas do cidadão, do eleitor, do excluído e também do incluído.

    Independentemente da ação da mídia corporativa e da alienação do círculo vicioso de trabalhar para ganhar pouco e limitar-se a saldar dívidas, na democracia participativa, os eleitores são, na sua maioria, inconscientes acerca da sua força de pressão. Em função desses fatores, ignoram a ordem e o peso de suas prioridades e possibilidades, apresentando uma enorme dificuldade de reivindicar.

    Via de regra, seus representantes são distantes demais e não os representa de fato: os eleitos em todas as esferas representam, acima de tudo, quem financiou suas respectivas campanhas. A falha é, definitivamente, de uma instância a qual todos seguimos e raramente contestamos: o nosso sistema de leis. Este refere-se a práticas de décadas verificadas em todo e qualquer partido de toda e qualquer ideologia e nos mais diversos contextos sociais, econômicos, políticos e culturais do mundo.

    É duro ser duro. Mas, às vezes, é necessário: embora não admita, a esquerda forjada nos sindicatos e nos partidos de resistência à ditadura é semianalfabeta digital. Ela não entende que depende da exposição midiática (a verdadeira ágora) para que as pessoas possam ser mobilizadas a participar de ações sociais, políticas e culturais no ambiente presencial (a praça). Portanto, perdeu a sua capacidade discursiva e didática.

    Ora, se a mídia corporativa é centralizadora e oligopolista, naturalmente que, sob o modelo econômico atual, é impossível que ela deixe de privilegiar os interesses da agenda de seus patrocinadores mais graúdos. É impossível que, por pertencer à mesma oligarquia, seus editores, pauteiros e principais repórteres sejam tão conservadores quanto os formadores de opinião especializados aos quais convidam para dar pitacos em todas as áreas do conhecimento. Não é que não se deva lutar pela democratização dos meios de comunicação. Muito pelo contrário: multiplicar comunidades do Ning, blogrings como o OPS, postar notícias e comentários investigativos e altamente críticos sobre corrupção, falta de ética e contestação do discurso da oposição é absolutamente fundamental. Porém, a mídia de massa não irá mudar nem que os jornais e as revistas percam dramaticamente a sua importância – não enquanto o seu modelo de financiamento depender desses interesses. Talvez isso nunca ocorra, mas, como a mídia corporativa é extremamente oportunista, pode ser que, no dia em que seus consumidores for de classe média e consumir menos o conteúdo massivo, ela acaba se tornando menos golpista. Enquanto isso, a produção midiática deverá ser incentivada ao máximo no caminho da TV digital, das rádios comunitárias e da internet.

    Todavia, durante todo o tempo em que acompanhei nosso querido grupo de blogueiros militantes, esperava que houvesse alguma transformação. Não a ponto de gerar uma reviravolta na eleição de Fogaça, mas que houvesse ao menos um significativo bafo na nuca do establishment. O discurso ora original, ora repetitivo mas voltado a nós de outras redes que ainda não possuíam laços com as fontes originais (p. ex. RS Urgente e Diário Gauche, os mais visitados e os únicos verdadeiramente especializados).

    Ao contrário do que se pensa, a juventude não é tapada. Ela apenas vive em um contexto no qual toda forma de dogma e de evangelização são sumariamente rechaçados. E, assim como a direita evangeliza em torno do Deus-mercado, do consumismo, da alienação e do preconceito, a esquerda evangeliza e aliena no sentido diametralmente oposto. De qualquer forma, a esquerda sempre tende a propor e a agir mais do que a direita. Porém, seguir os métodos institucionalizados à risca tornam o processo tão lento quanto contraditório e dependente de trocas de favores e da cópia de práticas condenáveis da direita.

    A internet apresenta a possibilidade de atrair a juventude através de um discurso que não pode JAMAIS ser centralizador, hierarquizado, evangelizador, doutrinador ou extenso demais. A linguagem pedagógica mais adequada aos tempos atuais refere-se à solução de demandas imediatas que não pode, de forma alguma, excluir os ricos, os idosos, as crianças e nem tampouco a iniciativa privada.

    Não se pode mais depender de uma organização repleta de regras e de leis, embora não se possa agir à margem da lei. Perde-se tempo demais discutindo pessoas ao invés de idéias. A noção de democracia na qual a esquerda acredita é a mesma noção que também a exclui da discussão e acaba por manter no poder formal institucionalizado o grosso da mesma casta de sempre. Enquanto os legisladores ainda forem oriundos de regimes oligárquicos e autoritários, tais práticas permanecerão ocorrendo.

    Portanto, a ruptura só se deu em termos de nomes e de estatutos bonitos no papel que são executados em apenas alguns pontos ou em uma intensidade muito aquém das demandas sociais.

    O OP, que começou muito bem, caiu no vício da política partidária institucionalizada, que é o de dar voz preferencial àqueles que são filiados ao partido e de rir da opinião contrária. Logo, terminou por imitar as piores práticas da direita. Portanto, o OP não é democracia participativa. Essa contradição do sistema ocorre em função de uma antiga necessidade de definir politicamente representantes perenes e não-especializados para a proposição e a implementação de causas que desconhece.

    Ao mesmo tempo em que defendo que técnicos integrados à economia e à cultura local sejam os formadores de opinião de suas respectivas comunidades, saliento que não defendo nem a tecnocracia institucionalizada de empresas e de órgãos públicos que defendem políticas rígidas que nem sempre vão de acordo às demandas locais, nem a tecnofilia de definir tudo exclusivamente pela técnica.

    Sugiro que tu dês uma olhada atenta em modelos bem-sucedidos que estão sendo testados ao redor do mundo de maneira institucionalizada, horizontal e apartidária que usam a internet como ágora e transformam-se em ações sociais e políticas que trabalham em conjunto mas não trocam favores com o Estado e com as corporações no rumo da sustentabilidade.

    Aliás, sustentabilidade é palavra semidesconhecida dentro do Governo Lula. Nisso, ele é tão igual aos demais: hipervaloriza o biodiesel e o combustível fóssil; financia latifundiários em detrimento da agricultura familiar; dá tudo o que a construção civil e os bancos querem; loteou a Amazônia entre grileiros, latifundiários e indústria farmacêutica internacional. Tudo isso diminui consideravelmente todos os demais avanços – a ponto de termos certeza de que dinheiro existe, mas a vontade política é pequena demais porque existe uma dependência desnecessária da chamada “governabilidade” forjada a partir de alianças com gente do mal que, na verdade, tem muito menos poder do que o PT imagina.

    Sugestões de leitura para compreender o mundo em que estamos:

    WE MEDIA (download gratuito)
    MULTIDÃO, Antonio Negri e Michael Hardt
    BLOG, Hugh Hewitt
    USES OF BLOGS, Axel Bruns e Joanne Jacobs
    O TEMPO DAS TRIBOS, Michel Maffesoli
    VIDA LÍQUIDA, Zygmunt Bauman
    EMERGÊNCIA, Steven Johnson
    LINKED, Albert-Laszló Barabási
    REDES SOCIAIS, Raquel Recuero (download gratuito)

    Links de quem age e propõe mudanças no sistema sem desrespeitar as leis vigentes:

    http://mobilemultitude.blogspot.com/2008/10/eleies-2008-em-qual-democracia-voc-vai.html – o prof. Júlio Valentim, jornalista capixaba e doutorando em Comunicação pela UFRJ, discute neste post seminal os vários tipos de democracia. Estou me aproximando do seu grupo de pesquisa para tentarmos trabalhar algo viável na prática.

    http://www.wiserearth.org/ – plataforma gratuita que agiliza o cruzamento de dados através de um filtro mais eficiente, capaz de aproximar mais rapidamente ativistas de interesses em comum no caminho da sustentabilidade

    http://coolmeia.ning.com/ – iniciativa de participação descentralizada e horizontalizada do endocrinologista Rafael Reinehr, que mora em Araanguá/SC. Um desenvolvedor voluntário está o ajudando a implantar a plataforma Wiser acima.

    []‘s,
    Hélio

  3. #3 Teresinha Carpes
    on Jul 11th, 2009 at 4:46 pm

    Querido Hélio,o Presidente Lula,jamais poderia,”Chutar o Pau da Barraca”,ou seja,jamais êle poderia aplicar a´”fórmula”,que toda vida êle pregou.Fique certo de uma coisa,o Presidente Lula,se pudesse êle faria,a reforma Agrária no grito,expulsaria estes canalhas desmatadores de todo o Brasil,pois aqui também tem desmatadores das multinacionais,mas êle cairia em menos de 12 meses,não poderia governar e sendo assim,não promoveria este crescimento espetacular do qual êle foi principal protagonista!!Portanto querido Hélio,sei que vc sabe de tudo o que eu na minha santa ignorância quiz dizer,não é?Te parabenizo,pelo Post,que o Marco te dedicou!Abs

  4. #4 Rafael Reinehr
    on Jul 11th, 2009 at 5:18 pm

    Hélio, interessante ter utilizado o termo Ágora aí no seu comentário, já que é justamente esse o nome que escolhemos para hospedar nossa plataforma Wiser.

    Começamos hoje a fase 2, que trata da tradução da plataforma e a adaptação da mesma aos objetivos iniciais da rede, de forma a organizar uma verdadeira Ágora dos tempos modernos, onde uma democracia mais próxima da ideal possa ser praticada. Algo que não se restrinja ao mundo virtual, mas que permeie nossas vidas e daqueles com os quais nos relacionamos.

    Obrigado pela citação. O trabalho vai de vento em popa e é bom ver que temos olhos atentos nos rondando.

  5. #5 Teresinha Carpes
    on Jul 11th, 2009 at 11:41 pm

    Marco,vc viu a armação dos tucanófobos,que distribuiram uma “Carta Aberta”,que teria sido atribida ao Lair Fest!Diz a carta,que não são dele as declarações que a Zero Hora publicou,que nunca atacou a dona Yeda Crusius(PSDB)até a assinatura do Lair Fest foi falsificada!O Advogado dele foi na policia,e o que adianta ir na polícia,tanto a civil,como a militar,é comandada por quem?Por este des-governo!O Advogado,disse que as declarações de Lair Fest,que foi publicado na ZH,foi verdadeiro,a falcidade toda,está nesta carta,que oos Tucanófobos,distribuiram para toda a imprensa!!!!!Que vrgonha!!E ainda fazem discursos contra o Sarney 24 horas por dia,tanto a imprensalona como os tucanos e os demais partidos aliados.

  6. #6 Neli
    on Jul 12th, 2009 at 8:36 pm

    Hélio,

    Considero auspiciosas, propositivas e éticas as tuas sinalizações que possibilitam intervenções sociais para democratizar a vida.

    No momento, gostaria de dizer em outras palavras a tua avaliação sobre o PT. Pois, ao adotar como referência alguns princípios teóricos da Sociologia de Norbert Elias, prefiro considerar que o PT é, ainda, a melhor das possibilidades da democracia participativa e representativa. É a melhor “configuração” partidária que a nossa sociedade conseguiu produzir, até hoje.
    Certamente, se conseguirmos aprimorar a natureza do ser humano, tendo como referência as tuas indicações, podemos qualificar e quantificar o processo civilizador.

  7. #7 Dora Freitas
    on Jul 13th, 2009 at 10:19 am

    Hélio. Que bom “ouvir” toda essa vertente de idéias e inconformidades com nossa vida em sociedade. Somente nos provocando e provocando outros, conseguiremos aperfeiçoar a inserção na vida que deve ser democrática. Mas, um questionamento tem me perseguido e, enfim não tenho resposta, qual seja, a sociedade na qual vivemos é formada por pessoas em sua grande maioria, vivendo de maneira isolada, sem viver a socialização necessária para saber quais as necessidades deste grupo. Então, como atuarão como membros efetivos, modificadores deste ambiente? Se não se reconhecem como usuários de muitos serviços públicos qual a motivação para agir? Não está faltando ao povo brasileiro a vontade de ser uma Nação? Aquela que tem anseios comuns? Ou hoje somos “nações” dentro de condomínio, nos bares, nos espetáculos, no uso da mídia, no consumo? Urge colocarmos em nossas conversas, uma lupa sobre esta rede que a convivência em sociedade é na realidade, para entendermos que ela está sem conexões. Essa compreensão para mim, é fundamental se quisermos um presente que respeite os diferentes dentro do Estado Democrático de Direito.

  8. #8 Denise Silva Nunes
    on May 16th, 2010 at 6:41 pm

    O Brasil enfrenta a crise da democracia representativa. Eu não quero tomar de preferência partidária, mas atualmente, e há bastante tempo, os nossos representantes não atendem às necessidades das mais essenciais à sobrevivência de qualquer ser humano. De um lado, a concentração de renda nas mãos de uma minoria, de outro a miséria e a inaceitável exclusão. Ainda, o esquecimento que paira na população e a crença no instrumento “o voto” como o único meio de exercer a cidadania, enquanto que temos outros instrumentos de participação e de intervenção popular, de forma direta ou indireta, como o plebiscito, referendo, iniciativa popular, participação no orçamento participativo do seu município, ação popular, associações sem fins lucrativos, em partidos políticos, iniciativa popular de lei, dentre outros, tão importantes para o nosso Estado Democrático de Direito. Faz-se necessário deixar o comodismo de lado e difundir a importância de participação de todos no exercício da democracia, para a construção de uma sociedade mais participativa, justa e igualitária!!!

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