Quem lê as mais de mil páginas da ação de improbidade movida pelo Ministério Público Federal contra Yeda e outros oito figurões, além de obter muitas informações sobre a fraude, não escapa de ficar estarrecido. Seja pela forma rebaixada com que se davam as comunicações entre os denunciados, seja pelos adjetivos preconceituosos e/ou depreciativos com que são tratados deputados, secretários de Estado e a própria governadora, seja pela desfaçatez dos envolvidos que agiam com a convicção da impunidade, seja pelas informações novas que vão surgindo no decorrer da leitura.
Quando se fala, por exemplo, na carta que Lair Ferst escreveu à Yeda para contar detalhes da fraude do Detran e que teria Marcelo Cavalcante como emissário, o debate, invariavelmente, é se a governadora recebeu, ou não, a missiva. O assunto surgiu no ano passado, durante a CPI do Detran. Marcelo não foi à CPI mas, à imprensa, declarou que não havia entregue a carta à governadora. Já nas conversas que gravou com Lair Ferst e cujo teor está nas páginas da ação de improbidade, Marcelo diz o contrário, ou seja, que entregou, sim, a carta à Yeda.
Contudo, nesta história toda, um detalhe fundamental tem passado despercebido: nas conversas com Marcelo, o próprio Lair garante que entregou pessoalmente à carta à governadora. Zero Hora chegou a publicar o trecho da conversa mas a matéria do jornal chama a atenção para a contradição de Marcelo e, em momento algum, ressalta ou sequer comenta a declaração de Lair nas linhas finais do trecho reproduzido acima.
A leitura atenta da ação pode, ainda, revelar muito mais. Foi num rodapé de uma das mil e poucas páginas, por exemplo, que a jornalista Vivian Eichler, de Zero Hora, descobriu um estranhíssimo empréstimo de 90 mil reais que a toda poderosa assessora Walna Meneses fez à governadora Yeda em 2007. O que parecia apenas uma nota de pé de página fez voltar à tona um dos temas que mais incomodam a governadora: a compra da mansão em que ela mora na rua Araruama, até hoje muito mal explicada. Ocorre que na tentativa de justificar o empréstimo da assessora, o atual advogado de Yeda, Fábio Medina, afirmou que o dinheiro teria sido usado para “agilizar a compra da casa” o que contradisse completamente a versão anterior apresentada pelo outro defensor da governadora, Paulo Olímpio de Souza.
A notinha em letra miúda na parte inferior de uma página da ação do MPF, transformou-se, então, numa reportagem de página inteira no jornal com direito à suíte no dia seguinte. Nos meios de imprensa, diria-se que “o assunto rendeu”. Mas rendeu, também, na política. O empréstimo e a contradição dos advogados somaram-se à declaração feita por Marcelo Cavalcante (o ex-assessor de Yeda que apareceu morto em Brasília) de que a mansão custara 1 milhão de reais e não 750 mil como alega a governadora. Reunidas, estas evidências sustentam o pedido da bancada do PT ao Ministério Público Estadual para que seja reaberta a investigação sobre a compra da mansão de Yeda.
Fica a sugestão: uma boa forma de formar a própria opinião sobre o que está acontecendo no Rio Grande do Sul e se descontaminar das muitas versões dos advogados de defesa dos réus ou mesmo as dos partidos políticos, é sentar-se diante do computador e ler as mais de mil páginas da ação da improbidade do MPF contra Yeda e outros oito figurões. Mas esteja preparado: casos de leitores que sentiram fortes náuseas e acessos repentinos de raiva já foram constatados. (Maneco)

on Aug 19th, 2009 at 7:54 pm
Consegui ler apenas 220 páginas e realmente Marco ,senti náuseas e parei, indignada com a desfaçatez dessa máfia que tomou conta do RS, há mais de 20 anos. São sempre os mesmos – Brito, Padilha, José Otavio, Zachia, entre tantos, que claro, imaginavam que a impunidade reinante os abrigaria de denúncias por parte do grupo. Um verdadeiro horror!!! O que me deixa mais irritada é a cara de pau dos aliados e comentários de alguns CC´s querendo comparar ao mensalão e dólar na cueca. Isso chama a atenção em todos os blog´s. É sempre a mesma desculpa. Que eu saiba, no dito mensalão não houve dinheiro público e mto menos roubo, APENAS CAIXA DOIS, mas a RBS adora relembrar, como se isso justificasse a corrupção na província. E o Simon, continua calado, AQUI NA TERRINHA!!!
on Aug 19th, 2009 at 8:44 pm
Só isso já bastaria para a Yeda sair algemada do Piratini. Quanta lama quanta corrupçao. Aliás, como cantavam os manifestantes em frente ao palácio: Yeda, que papelão, no teu governo só tem corrupção!!! Se atiraram com muita sede ao pote Yeda e sua quadrilha.
on Aug 19th, 2009 at 9:12 pm
È importantissimo que mais e mais gaúchos conheçam os dialogos contidos nas aç~oes do MPF, VAMOS FAZER UMA CORRENTE……
on Aug 19th, 2009 at 9:59 pm
São apenas factoides, ilações e indícios, não há fatos novos, só assuntos requentados. Vejam a tranquilidade do nosso grande pedro simon no senado de dedo em riste acusando Lula, sarney e collor. O assunto é senado não adianta pautar para yeda, tudo deve ser direcionado para o presidente do congresso, Dilma e Lula, tá lá no cronograma eleitoral estabelecido pelo Partido da Imprensa Única! Só nos resta a AL, pois após tudo que virá a tona na tardia CPI, ficará difícil não remover esta quadrilha acampada no piratini!
on Aug 19th, 2009 at 10:30 pm
Sim, é fundametal, para o bem da verdade, ler e ouvir as falas desses protagonistas, que usam e abusam dos espaços públicos, como privadas, ao próprio nível da sua existência.
on Aug 19th, 2009 at 11:04 pm
Coffy “Brucutu” é relator da CPI da Roubalheira. Boa sorte, Stella !!!
http://coffyrodrigues.blogspot.com/
on Aug 20th, 2009 at 9:32 am
Caro Marco,
Eu estou lendo a inicial da peça do MPF e de pronto duas coisas podemos concluir: 1ª) houve desvio de recursos públicos no Detran, 2ª) a governadora não só não agiu para desmontar a quadrilha, como tentou se locupletar também. É o que se desprende de toda esta nojeira.
Te confesso que realmente as vezes da raiva e uma louca vontade de submeter os indiciados ao paredão.
José Luís
on Aug 20th, 2009 at 11:43 am
Maneco, por falar em nojo, descobrimos a cor da imprensa (PIG) brasileira. É verde!
on Aug 20th, 2009 at 1:12 pm
Viste que nenhum, NENHUM jornal gaúcho publicou MANCHETES sobre o arquivamento das denúncias contra o Arthur Virgílio?
E que hoje, a bancada da oposição decidiu não ingressar com um recurso contra o arquivamento das denúncias contra o Sarney, para não trazer novamente as denúncias contra o seu integrante?
PUBLICA ALGO AÍ!!!
E aqui na terrinha, ninguém fala nada sobre a entrega das estredas pedageadas? Quer dizer que utilizaram o dinheiro das concessões, e agora querem passar as dívidas para o Lula? E o DUPLICA RS?
Sugestões de pauta!
on Aug 20th, 2009 at 1:43 pm
Marco,
Na sociedade midiatizada, o que não é veiculado na mídia corporativa, não é notícia. O ponto-de-vista que não é veiculado na mídia corporativa, ou é ridicularizado, ou é desconhecido. E aquilo que a sociedade desconhece, não lhe faz falta.
A questão nacional pode ser contada a partir de pelo menos dois vieses diferentes:
1) AGENDA DE MANUTENÇÃO DO STATUS QUO: Sarney aliado de Lula; lembranças do Mensalão lulo-petista e omissão do mensalão tucano; defesas ou ataques generalizados ao PMDB; redução do peso das conquistas sociais e econômicas e dos investimentos em infraestrutura do atual governo; não-investigação da censura midiática de Aécio em MG, da corrupção de Yeda no RS e de zilhões de processos contra o Gov. Serra na AL-SP; criminalização dos movimentos sociais; supervalorização da importância do agronegócio; preocupação excessiva com a macroeconomia; exageros quanto à violência urbana e às questões da saúde; real interesse com a sustentabilidade verifica-se predominantemente na TV por assinatura e na internet;
2) AGENDA CIDADÃ: educação, microeconomia, agricultura familiar, voluntariado, serviço social, questões pontuais comunitárias; sustentabilidade; tornar problemas do PSDB em MG, SP e RS capas de jornal e manchetes de telejornais de veiculação nacional.
O calcanhar de Aquiles do modelo político e econômico representado a partir da mídia corporativa é o seu desencaixe em relação às questões comunitárias e a quase ausência de pautas voltadas para o conservador de classe média não-conservador. Isso não é devidamente explorado na blogosfera, já que falta assistentes sociais, advogados de esquerda e médicos comunitários blogando. Ao mesmo tempo, o alcance de ambientalistas deveria ser mais pessoal e coloquial, não institucional.
Conteúdo e massa crítica existem. Porém, não se utiliza um discurso suficientemente capaz de comunicar a uma população predominantemente jovem, urbana e de classe média. O jornalismo engajado de esquerda peca pelo preconceito com a publicidade e pela minimização da importância da cultura do consumo (ou do consumismo, que seja).
Outra falha de comunicação refere-se à ignorância da esquerda em relação ao design. A estética, a funcionalidade e o branding, isto é, a gestão de marca. Não adianta apenas escrever e crer que está sendo verdadeiro e incisivo ao mesmo tempo quando a sociedade mdiatizada está totalmente envolta na cultura de “uma imagem vale mais do que mil palavras”.
Além disso, ignora-se tanto a percepção de que vivemos em um sistema aberto e auto-regulado como a consciência de que tudo funciona em rede e que nada pode ser ignorado, pois tudo interfere em tudo.
Por fim, conscientização e informação não são sinônimos de evangelização nem de complexidade discursiva: as pessoas podem, sim, aprender a participar e a ser solidárias a partir de um chamamento bem diferente do panfletário, que foi o que predominou durante a época da ditadura militar. Não é preciso ensinar filosofia, psicologia nem sociologia através da teoria e do uso de autores. A sociedade analfabeta funcional de todos os bolsos e de todos os credos não vai se mover a partir de discursos acadêmicos.
As pessoas querem discutir política, sim. Elas são sérias. E a gurizada não é “tapada”: porém, é preciso pensar que não se está comunicando para massas mas, sim, para indivíduos completamente diferentes que, quando convém, organizam-se ESPONTÂNEA e HORIZONTALMENTE, isto é, sem seguir partidos, igrejas, empresas nem um líder carismático ou político. O que interessa é ter suas demandas atendidas.
Porém, o discurso precisa ser mais irreverente e menos denso, trazendo a verdade a partir da brincadeira, do chiste, da charge, da piada. Afinal de contas, tudo o que é lúdico chama mais a atenção. E mais: o lúdico se espalha de maneira viral.
Em função dessas contradições e ignorâncias, creio que muito pouco irá mudar no RS. A crença na democracia representativa é a garantia da manutenção do poder nas mãos dos de sempre.
Acho que o cerne de toda e qualquer discussão deve privilegiar a mudança da lei e não a simples exigência do cumprimento da lei: http://www.trezentos.blog.br/?p=2193
[]‘s,
Hélio