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Um tiro, muitos gatilhos

Por Ayrton Centeno

Outros tiros continuam viajando para encontrar suas presas. E muitos outros irão se juntar a eles. Aquele que se refestelou na carne e no sangue de Élton, 44 anos, dois filhos, deixou de viajar. Nas redações, muitas mãos têm resíduos de pólvora.

O tiro que partiu da boca da espingarda 12 rumo ao corpo do sem terra Élton Brum da Silva foi disparado muito antes da manhã triste de inverno no coração da Campanha gaúcha. A bala começou a voar em tempos pretéritos, antes até do também triste governo de Yeda Crusius ser inaugurado com a governadora desfraldando invertida a bandeira do Rio Grande do Sul na sacada do Palácio Piratini. E o lema estampado no brasão “Liberdade, Igualdade, Humanidade”, que vai beber na fonte da Revolução Francesa e dos direitos fundamentais do homem, ficou de cabeça para baixo. Era um mau presságio.

O tiro com sua bala vem viajando, na verdade, desde décadas mas apressou-se nos últimos anos. Seu apetite tornou-se mais urgente. A nomeação de um militar com o perfil psicológico do coronel Paulo Roberto Mendes para o comando da Brigada Militar garantiu-lhe um impulso extra. Esta figura extemporânea aportou no governo - curiosamente de um partido que se diz social e democrata - um duplo ódio às manifestações da sociedade na democracia. Tudo bem, as palavras são, com freqüência, um biombo atrás do qual se perpetram os crimes mais hediondos contra o seu sentido original e a social-democracia em questão é somente uma alegoria no nosso carnaval político, a comissão de frente da direita no Brasil. Mas, convenhamos, seria uma demonstração de elegância protocolar que, ao menos, as aparências fossem mantidas. Nada disso. Sob a égide do PSDB, a bala passou a voar mais celeremente em busca do seu alimento.

O tiro aligeirou-se mas ainda zanzava a procura de seu alvo. Durante seu reinado, Mendes, o Bravo, destruiu acampamentos e seus soldados não menos bravamente despejaram terra nas panelas de comida que alimentariam homens, mulheres e crianças. Fez sangrar manifestantes, do campo e da cidade, até ser despachado para uma sinecura no Tribunal Militar do Estado, uma instituição fora de tempo e lugar, altamente merecedora do oficial de notável saber jurídico que passou a integrá-la.

O tiro que tanto espaço percorrera para saciar sua fome achou, enfim, seu repasto na dia 21 de agosto, ao se encontrar com Élton. Mendes partira mas outro coronel, Lauro Binsfield, ficou na linha de frente da repressão. Denunciado à Organização dos Estados Americanos (OEA) por violação dos direitos humanos, foi mantido, mesmo assim, à testa das operações de guerra da BM no campo.

O tiro, peculiarmente, não foi deflagrado por apenas uma arma. Ele cumpriu seu fado sinistro porque muitos dedos apertaram muitos gatilhos. É ilusório pensar que o disparo só pertence a quem apontou a espingarda para desferí-lo.

O tiro não surgiu necessariamente como tiro. Nasceu, por exemplo, do entendimento de que a questão social é um caso de polícia e assim tem que ser tratada. Nasceu de uma caneta correndo sua tinta sobre o decreto de uma nomeação.

O tiro também partiu dos microfones, dos teclados, dos teleprompters. Da voz do dono e dos aquários. Brotou de uma ação ou mesmo de uma omissão. Na mídia, são muitos os dedos e os gatilhos que foram apertados. Uma imprensa para a qual a democracia não fosse somente uma palavra-biombo questionaria, por exemplo, a entrega do bastão do aparelho repressor a alguém desprovido das mínimas condições para empunhá-lo. Em vez disso, o que se viu foi um constrangedor capachismo dedicado à criação de mitologias reacionárias para afagar os sentimentos mais mesquinhos da classe média. Mas há torpezas piores. O fuzilamento sumário do MST nas manchetes, matérias, fotos, editoriais, artigos construiu um rancor belicoso no imaginário social contra famílias que reivindicam um pedaço de terra. E ocultou que os países importantes do mundo realizaram sua reforma agrária ainda no século 19 ou nos meados do século passado, medida que as elites brasileiras, até recorrendo ao golpe como aconteceu em 1964, impediram desde sempre.

O tiro viajou como outros viajaram no passado. Um dos filmes mais odiosos jamais feitos, O Eterno Judeu, de Franz Hippler, estreou em 1940, em Berlim, perante uma platéia sofisticada: artistas, cientistas, damas da sociedade e a fina flor do partido nazista. Na montagem alternam-se as cenas dos judeus, mostrados como preguiçosos, sujos e indignos, com moscas numa parede. É preciso convencer as pessoas de que aquilo é uma praga e precisa ser exterminada – mais tarde, um pesticida, o Ziklon B, será empregado na solução final. A arte de Hippler prepara o holocausto. Alguém dirá: mas esta é uma comparação extremada, vivemos em uma democracia! Sim, é verdade, apesar do coronel Binsfield. Mas não se pretende aqui, supor equivalentes a época, as partes, o tamanho da violência. O interesse está no processo. Quando a intenção é destruir o adversário – e isto se faz de diversas formas, como ao superexpor seus erros e/ou sonegar suas virtudes, usando do poder devastador dos conglomerados de mídia — o modus operandi é similar., Se o objetivo final, conscientemente ou não, é negar a humanidade do outro, tudo é possível. Porque o outro, então, está fora da proteção do arcabouço jurídico. Não é gente. E o passo seguinte pode ser sua eliminação, física inclusive.

Outros tiros continuam viajando para encontrar suas presas. E muitos outros irão se juntar a eles. Aquele que se refestelou na carne e no sangue de Élton, 44 anos, dois filhos, deixou de viajar. Nas redações, muitas mãos têm resíduos de pólvora.

Foto: Eduardo Seidl

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17 Comments on “Um tiro, muitos gatilhos”

  1. #1 Sueli- Porto Alegre
    on Aug 22nd, 2009 at 10:08 pm

    Muita gente mastiga alface,legumes e etc… com gosto e molho de sangue,e nem sabe…
    Abraço no blog

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  2. #2 Rogério de Brum
    on Aug 22nd, 2009 at 10:37 pm

    Magnífico o texto!!Quanto canalhas da classe média defedem este prende e arrebenta que dura décadas!!Esta classe média que pensa que é rica vomitaria de horror ao ver a foto aqui estampada, com perfurações nas costas do Elton.Nossa classe média é o Capitão ASTIZ, da guerra da Malvinas, bem como o mendes(minúsculo mesmo) QUE TORTURAVA E MATAVA NA REPRESSÃO ARGENTINA E NAS MALVINAS NÃO DISPAROU UM ÚNICO TIRO E ENTREGOU-SE.Quantos pousam na rede buda suja de democratas atrás de seus teclados e não passam de um bostas, pois o que uma rede bunda suja pode produzir??BOSTAS ORA!!Estou cansado.

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  3. #3 Claudia Cardoso
    on Aug 22nd, 2009 at 11:33 pm

    Bravo, Ayrton!

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  4. #4 Nelson Antônio Fazenda
    on Aug 22nd, 2009 at 11:59 pm

    Sem dúvida, um texto magnífico.

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  5. #5 panoramix
    on Aug 23rd, 2009 at 12:15 am

    Não sei se ainda estamos atordoados pelo acontecido, mas a reação em relação a este crime bárbaro, inclusive da nossa parte, parece pífia. Não foi um marginal, um traficante ou um bandido assassinado. Naquele dia frio foi morto covardemente um trabalhador que lutava por melhores condições, um pobre sem terra que teve coragem de se opor ao exercito de yeda. Acho que ainda não caiu a ficha, ainda estamos embasbacados e não conseguimos medir o tamanho do crime cometido, como diz o texto, a várias mãos! Onde estamos é quentinho, temos nosso cachorrinho enroscado na sua casinha, o MSN nos aproxima, então aquele fato ocorrido no campo frio ao toque da madrugada, estratégia herdada da caserna - atacar ao amanhecer, parece longe, muito longe da nossa vidinha classe média, principalmente se levarmos em conta também que uma mídia podre e vendida insiste em colocar “eles”, nossos irmãos brasileiros, como adversários! É muito mais fácil viver assim, virando a cara!

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  6. #6 Denise
    on Aug 23rd, 2009 at 1:54 am

    E essas mesmas mãos, sujas de pólvora, ainda tem os dedos de pau de reproduzirem, sem questionar, obviamente, o dito de que a “orientação” era não usar armas de fogo. Desde quando comandos militares, como a BM, recebem orientação… Recebem ordens, e ponto. Então não interessa se foi joão ou joaquim quem disparou. Foi mais que assassinato, foi fuzilamento, covarde e sujo como a gente essa que ocupa o Piratini com a ajuda daqueles mesmos dedos azeitados em óleo de peroba e pouca estrutura.

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  7. #7 RAFAEL
    on Aug 23rd, 2009 at 3:42 am

    A lamentavel historia se repete a 500 anos vamos contando a morte dos brasileiros que se negam a viver como escravos desta elite corrupta e covarde.

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  8. #8 Paula Vieira
    on Aug 23rd, 2009 at 9:38 am

    Belo texto, triste realidade.

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  9. #9 slvia
    on Aug 23rd, 2009 at 9:52 am

    Essa matéria deveria ser o editorial do jornal Zero Hora, com letras garrafais.. mas claro, nunca veremos isso em suas páginas.

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  10. #10 fio de água
    on Aug 23rd, 2009 at 12:42 pm

    Há centenas de microfones e teleprompters com resíduos de pólvora. Terão de enfrentar o amor invencível de milhares de homens e mulheres que não traíram a sim mesmos. Os de alma intacta. Os que sobreviveram aos anos de chumbo sem dobrar a espinha. Os indispensáveis de que falava Bertold Bretch. E os que todos os dias, dos roçados, das escolas, das fábricas, dos remotos arrabaldes onde um orvalho de sonhos vai condensando em gotas, surgem, como tênues fios de água, tributários do rio que irá virar torrente. O ódio matou Elton Brum da Silva. Mas é o ódio de poucos contra o amor de muitos. O sonho sobrevive. As idéias não se matam. Há microfones e teleprompters com resíduos de pólvora… E de sangue. Porém, todos sabemos que a história nunca foi derrotada. Nas entranhas da pátria, inexorável, germina um grão de trigo. O seu nome era Elton. Nós, o chamamos companheiro

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  11. #11 marcos
    on Aug 23rd, 2009 at 1:26 pm

    Àqueles que ousam reivindicar e levantar a voz contra a elite corrupta e safada que se apoderou do RS, o governicho quadrilheiro reserva uma execução fria ao amanhecer ! Este é o Rio Grande dos dias de hoje !

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  12. #12 marcos
    on Aug 23rd, 2009 at 1:34 pm

    Na África do Sul, na luta contra o apartheid, quando de uma execução covarde como esta , a palavra de ordem era ( corrijam meu inglês, se estiver errado) : Don’t mourn, Mobilize ! Don’t mourn,Mobilize! ( não lamente, mobilize-se). Não precisamos ensinar os Sem-Terra , eles já estão calejados de não lamentar, estão sempre mobilizados,precisamos nós sim seguir esta palavra de ordem : Don’t mourn, mobilize !

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  13. #13 mauro
    on Aug 23rd, 2009 at 7:29 pm

    até quando??? viva a luta dos sem terra que nã se dobram, Élton Brum da Silva presente na luta.

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  14. #14 miguel grazziotin
    on Aug 23rd, 2009 at 7:39 pm

    Peço licença parareprodzirno eu blog.
    Texto perfeito.

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  15. #15 Eduardo
    on Aug 23rd, 2009 at 8:49 pm

    Dale Ayrton, baitas palavras.
    Teve um erro que precedeu o da bandeira.
    Yeda foi para o segundo turno por uma migração tática equivocada dos eleitores do Rigotto, que temiam a disputa com Olívio.
    Falta saber qual erro (ou de quem) seria capaz de derrubar YEDA, A ERRANTE.
    Parabéns pelo texto, força e coragem para todos.

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  16. #16 Luís Augusto Farinatti
    on Aug 24th, 2009 at 11:09 am

    O texto está espetacular. Emocionante, erudito e digno de uma luta secular.
    Avante!

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  17. #17 ralf oliveira
    on Aug 24th, 2009 at 1:18 pm

    Aqui, com a boca manchada por um molho forte, mandioca e vazio de panela, me refeste-lo com teu brilhante texto, arre vida . . . arre morte . . . homem que do campo saiu, residente de um fundão de fazenda, onde minha mãe teve de dividir não só os produtos do campo com seu “patrão”, que minha memória reluta em esquecer, mas que considerando a relatividade do tempo, assombra o menino de Roque Gonzales . . .

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