A cúpula da Segurança Pública do Rio Grande do Sul parece haver se esquecido da máxima “bandido é bandido, polícia é polícia”. O mínimo que a sociedade espera é que os papéis não se confundam. Ao anunciar na manhã desta quinta-feira que irá apresentar um soldado da corporação como o autor do tiro que matou o trabalhador rural Elton Brum da Silva, a Brigada Militar rende-se a práticas comuns dentre aqueles a quem tem o dever legal e constitucional de combater.
É regra, e do conhecimento de todos, que dentro de determinadas estruturas, como o sistema prisional, por exemplo, alguém que não tem muito a perder assumir delitos que não cometeu, para livrar a cara de alguma “liderança”. Previsivelmente, o “autor” da morte do sem terra pertence ao nível mais sofrido da tropa; alguém que expõe diariamente sua vida em troca de oitocentos reais por mês. Não é um oficial graduado, mas um soldado. Verdade conveniente. Versão oficial. Caso encerrado.
Falo com conhecimento de causa. Sou filho de um soldado brigadiano, e passei minha infância praticamente dentro de um quartel da corporação. Ali aprendi, mesmo mal, a jogar bola e a fazer estilingue de forquilha; e a “bóia” do “rancho” até que era boa. Conheço muito bem a Brigada Militar e achava que determinadas práticas tinham ficado no passado. Mas estava enganado. Nada muda. Nada.
A demora não surpreende. Uma semana para criar uma versão convincente. Uma versão palatável, rapidamente digerida pela grande mídia, e comprada por quem não tem como saber exatamente o que aconteceu. Mas não por quem sabe. Mais fácil de explicar do que a autoria por um oficial. É só mais um Zé, quem sabe até um Silva, como o morto. E morto não fala. E esse, mesmo que falasse, estava de costas, também não iria ajudar muito.
“Assume aí, meu, assume que vai ser melhor pra ti. Depois a gente ajeita. Não vai dar nada, tu vai ser julgado lá mesmo, ninguém vai te condenar, e se tu tivé que puxá uma cana, vai sê pouquinho. A gente te segura, mano. Quebra essa que tu não vai te arrepender.” Fácil de imaginar, um diálogo desses. Mas se alguém pensa que pode ter acontecido dentro do Central, da PASC, PEJ ou em um barraco da Vila Bom Jesus, no Fragata ou no Camobi, deve rever seus conceitos.
Quem matou Elton Brum da Silva foi um Oficial da Brigada Militar do Estado, atirando pelas costas, num entrevero, depois de uma discussão. Se os cavalos do Regimento de Polícia Montada de Livramento pudessem falar, seria essa a sua versão. Mas a que vale, mesmo, é a oficial. E essa, meus amigos, já está escrita. E devidamente ensaiada.
(*) Advogado, ex-ouvidor agrário do Estado e ex-ouvidor da Secretaria de Segurança Pública.


on Aug 27th, 2009 at 2:44 pm
pro Lasier, o soldado não é ASSASSINO, é DESASTRADO. pode?????
on Aug 27th, 2009 at 3:10 pm
Mas é para isso, colega Paiani, que existem as hierarquias nas instituições militares: para que sejam derramadas as glórias nos comandantes e a infâmia sobre os comandados.
Sempre foi, é e sempre será assim.
O bode expiatório da BM até que está demorando muito a surgir…
on Aug 27th, 2009 at 3:16 pm
Arranjaram um soldado-herói para livrar a cara do “coroné”.
Com isso ele ganha uns dias de cana e é absolvido pelo Cel. Mendes.
Enquanto isso a família ganha uma cesta básica mensal e ele é promovido á cabo…
Só faltava dizerem que o sem-terra apontou a arma para as costas e suicidou-se…
A BM voltou aos tempos da ditadura…
on Aug 27th, 2009 at 3:38 pm
Tá, mas e o Paiani não pode dizer o nome do santo, só pode anunciar o milagre?
on Aug 27th, 2009 at 3:49 pm
Vamos abrir investigações paralelas. Vamos interrogar os sem-terra que estavam por perto. Paiani, fala pelo amor de Deus! Diz o nome do cafageste assassino.
on Aug 27th, 2009 at 3:51 pm
o deputado que assessoro, Raul Pont, citou esse post na tribuna, hoje.
on Aug 27th, 2009 at 3:51 pm
Em artigo anterior desta semana o Adão Paiani afirmou que sabia o nome do atirador, e revelaria o nome se algum soldado fosse apresentado como o autor do disparo. Agora é a hora, mermão!
on Aug 27th, 2009 at 4:00 pm
Concordo com o Paiani , é uma triste certeza.
Pergunta que não quer calar:
Quem distribui os cartuchos e os coloca nas armas?
Aquele cartucho “vermelho” letal…quem teve acesso no almoxarifado?
Será que somente uma arma possuía o tal cartucho? (não acredito)
O Paiani poderia nos explicar: quem distribui as armas e a munição para os brigadianos?
Também não consigo acreditar nas “autoridades” , que apontarão o “culpado”.
Tem muitos GATOS nesta TUBA!
on Aug 27th, 2009 at 4:09 pm
Parece que a BM está seguindo os passos da PM do governador José Serra. Cacete nos pobres. E se ainda por cima forem negros, sai de baixo.
A grande mídia também está proibida (acordo entre Serra e as chefias) de usar tres simples letrinhas juntas: PCC. Ele continua muito ativo por aquí. Todos sabem, mas nada é dito ou publicado.
on Aug 27th, 2009 at 4:47 pm
Licença para matar ! Este é o lema da briosa nos governos tucanos, seja em SP, seja no RS…..a sociedade organizada precisa urgente de mobilização ! Abaixo o terrorismo de estado !
on Aug 27th, 2009 at 5:01 pm
O certo mesmo é que o mandante chama-se Yeda Rorato Cruzius. O dever dela era o de determinar que não fossem usadas armas de fogo. Se não o fez, é culposo, se autorizou, é doloso. E se ela provar cabalmente (só cabalmente, como quer o PIG) que não houve autorização, que expressamente ordenou que não fossem usadas armas de fogo, aí sim podemos dizer definitivamente que a vaca foi pro brejo, levando corda e cerca. E que algum deus nos ajude…
on Aug 27th, 2009 at 5:12 pm
A decadência do RS me faz lembrar o coronelismo no nordeste do século XIX, aonde vamos parar?
on Aug 28th, 2009 at 1:16 am
não vamos parar gaúcho. já estamos na lata do lixo da governadora.
on Aug 28th, 2009 at 7:13 am
É a chance de terminarmos com as polícias militares. E de também de a sociedade tratar os movimentos sociais como crime.
on Aug 28th, 2009 at 10:51 pm
A notícia da morte do agricultor Sem-Terra,uns 5 dias após,já estavam noticiando que mais de 10 brigadianos tinham estes cartuchos e este mesmo tipo de arma!!!
on Sep 3rd, 2009 at 1:29 am
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