Os acusados de integrar a quadrilha que roubou o Detran repetem o mesmo mantra quando defrontados com os áudios das interceptações telefônicas realizadas com autorização judicial: são falas retiradas de um contexto mais amplo. Uma das coisas que mais chama a atenção de quem ouve essas conversas, no entanto, é que os protagonistas, quase todos eles importantes agentes políticos do governo Yeda Crusius, sempre falam em linguagem cifrada e nunca falam de temas de governo, de políticas públicas ou de debates políticos. Nas conversas cifradas, freqüentemente, há alguém se preparando para entregar algo a alguém. Esse algo varia: ora é um parecer jurídico, ora é uma escritura, ora são fotos, ora são documentos, nunca especificados. E, quando se trata de valores, a numerologia é criativa: sete zero, sete um, d mais quinze, d mais vinte…
Quanto mais a conversa é cifrada, mais espetacular é a versão dos acusados. José Otávio Germano recorre às eleições no Conselho do Grêmio. Luiz Fernando Zachia, a um debate sobre aumento do ICMS. O Casa Civil, como é referido por Antonio Dorneu Maciel, precisará de muita imaginação para enquadrar o diálogo abaixo em um “contexto de governo”:
Dorneu Maciel: O Casa Civil me ligou. Eu disse pra ele, não esquenta, não veio. A hora que o homem me entregar a escritura, eu pessoalmente, tu sabe, vem pra mim, vai pra ti…Eu meio que chutei ele assim. Mas esse podemos mandar tomar banho. O outro é que é xarope. Já avisou ele?
Vaz Netto: Não.
Dorneu Maciel: Então avisa, pra ele não ficar nervoso. Segunda ele vai viajar, tu vai ver quantas vezes ele vai te ligar (risos).
Vaz Netto: Ai, que espetáculo! (risos)

on Sep 15th, 2009 at 3:14 pm
Estes elementos só se reconhecem num contexto: o criminal.
on Sep 15th, 2009 at 3:21 pm
Sei de um cara que foi mandado tomar banho no Paranoá e nunca mais voltou. Será?
on Sep 15th, 2009 at 10:29 pm
Linguagem de criminoso é assim, toda cifrada, em código. Mas criminoso burro, sempre deixa vestígios. Cadeia neles.