As profundas divergências ideológicas, conceituais e estratégicas que tenho com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) não são obstáculo para continuar cobrando uma resposta para a morte de Elton Brum da Silva. Considero indigna qualquer outra posição que não seja essa. Antes de ser um militante, Elton era um cidadão riograndense e brasileiro, como qualquer outro. E é nessa condição que se deve exigir que o crime do qual foi vitima seja devidamente esclarecido, e o nome de seu verdadeiro algoz finalmente revelado.
Trinta e três dias se passaram e até agora nada. A cúpula da Segurança Pública do Estado, sob o comando da Governadora Yeda Rorato Crusius, continua cumprindo um roteiro pré-determinado, de acordo com seus interesses, e com resultados mais do que esperados, na linha já conhecida do atual Governo Estadual de fazer aquilo o que bem entende, sem considerar-se na obrigação de responder pelos seus atos perante quem quer que seja, principalmente frente a sociedade; postura essa que bem explica o vergonhoso momento que atravessamos.
No entendimento da Governadora e do seu grupo, a chegada ao poder por um processo eleitoral legítimo, é salvo-conduto para práticas de toda ordem, e contam com a sorte de ainda sentirem-se amparados pelo silêncio condescendente das ruas, pela cumplicidade de uma base política absolutamente comprometida com as mesmas práticas, por conhecidos segmentos de uma mídia vergonhosamente vendida; e que demonstra valer ainda menos do que tem recebido e por derradeiro, nesse caso, pela inacreditável submissão da polícia Estatal aos seus interesses e práticas. O assassinato de Elton, e a condução do fato até agora, é apenas um dos exemplos disso.
Trinta e três dias. E no meio do caminho, a ocupação de um prédio público, denúncias de depredação e furto. Prática, sem dúvida nenhuma, absolutamente condenável, inaceitável, e que deve ser severamente punida, com a responsabilização de todos os envolvidos; seja por ação ou omissão; sendo que essa última deve ser creditada também àqueles que deveriam zelar pelo patrimônio público, e não o fizeram, estando legalmente obrigados a tal.
Trinta e três dias. Cadernos achados no lixo, dando conta de estratégias nem tão secretas assim; ao estilo das “Cartas Brandi”, que para quem não sabe, foi um episódio ocorrido em 1954; em que supostas correspondências enviadas pelo deputado argentino Antonio Brandi a João Goulart, que no ano seguinte seria candidato a Vice-Presidente da República, foram apresentadas como a prova de uma conspiração para implantar no Brasil um regime similar ao encabeçado por Perón, na Argentina; o que posteriormente se constatou ser uma fraude sem qualquer sustentação.
As dissimulações e movimentos para tirar o foco do que realmente interessa: o nome do verdadeiro autor do assassinato de Elton Brum da Silva causa revolta; mas não surpresa. O que surpreende é a omissão daqueles que, legitimados a se posicionar, não o fazem. Mesmo amparados pelas prerrogativas legais que possuem, contentam-se com o discurso, tão somente. Não compreenderam, ou fingem não compreender, que o tempo, nesses casos, é um inimigo importante, e que as ações deveriam ter sido imediatas, e não o foram. Dias e dias mais do que suficientes para se construir, pelo establishment, uma versão consistente e aceitável de um assassinato covarde, se passaram; com muitas noites no meio.
Muitos têm lembrado que tive acesso, desde o primeiro dia, a detalhes que envolveram a morte de Elton, inclusive com o nome de seu verdadeiro assassino, e até agora não o revelei publicamente, muito embora o tenha feito a diversos parlamentares e autoridades federais envolvidas no caso. A resposta é simples. Comprometi-me a revelar o nome do autor do disparo, pelo que me foi denunciado, se houvesse uma acusação, unilateral, de parte da Brigada Militar, a um integrante de um escalão inferior, para isentar um oficial.
Mas o que tivemos foi uma confissão, realizada em uma madrugada, sem sequer a presença de um advogado, por um, até onde se sabe soldado da corporação, cujo nome até hoje não foi revelado. Muito prático para a Cúpula da Segurança. Trinta e três dias para montar a versão conveniente, com a participação, inclusive, do próprio pretenso autor, agora na condição de réu confesso. Trinta e três dias depois, e o que resta ainda para contrapor a versão oficial? Não sou ingênuo para crer que apenas a minha palavra seria suficiente para se sobrepor a tudo que foi construído desde então.
Trinta e três dias. Aqueles que têm um mínimo de decência, respeito ao próximo, à justiça e a lei, ainda esperam. O nome. Queremos o nome. Dêem-nos ao menos o nome. Mesmo que seja aquele resultado da versão oficial, e não de um compromisso com a verdade.


on Sep 24th, 2009 at 3:30 pm
Adão, promessa é dívida. Tens o dever de divulgar, pelo menos, se aquele que for apresentado como o autor do crime for realmente o culpado. É sabido que MPE, Polícia Civil, Brigada Militar, Secretaria da Segurança, Casa Civil e Governadora não merecem o menor crédito.
on Sep 24th, 2009 at 4:11 pm
Excelente o artigo de Adão Paiani. Discordo em tudo do MST(Métodos, políticas, ideológias, enfrentamentos e consequente desgaste), menos na necessidade de uma refroma agrária justa. Algo já feito por todo mundo civilizado, menos pelas mentes tacanhas do Brasil.
Quanto ao nome do brigadiano que matou Elton Brum da Silva, vou me acomodar bem no sofá. Esperar sentado já cansou….
on Sep 24th, 2009 at 4:26 pm
Parece que o desdobramento dessa história, agora, está nas mãos do Paiani. A BM não vai poder esconder, para sempre, o nome do acusado, ou do réu confesso. Em algum momento, isso terá que vir a público e, daí, será a vez do ex-ouvidor.
on Sep 24th, 2009 at 4:28 pm
e sobre o acobertamento do caso, que não é feiro só pela BM, leiam o texto do La Vieja: http://laviejabruja.blogspot.com/2009/09/polissemia.html
“O termo “hipocrisia” teria descrito adequadamente a indignação manifestada ontem por Rosane de Oliveira com o silêncio institucional sobre “a morte do colono”, mas mesmo assim La Vieja preferiu demonstrar o quanto ZH (i) é cúmplice desse silêncio, (ii) colaborou para que a pressão social pelo seu fim não tivesse repercussão alguma e, por fim, (iii) estimulou a mentalidade que tão bem o acolhe.”
on Sep 24th, 2009 at 4:34 pm
“silêncio condescendente das ruas” é e tb não é, pois há meses que movimentos organizados denunciam o gover-ninho YRC.
Agora, se não há maior indignação, isso se deve à desinformação promovida pela mídia corporativa. A cantoria da “Ford foi embora” existe até hj por isso. Como não há âncora, editorial que se posicione contra desmandos de YRC – muito bem qualificados por Paiani – a sociedade midiatizada não se mexe.
on Sep 24th, 2009 at 4:35 pm
Ops! Eu escrevi a frase acima!
on Sep 24th, 2009 at 6:30 pm
O jornal “Diário Popular”, de Pelotas, publicou, na edição impressa do dia 24/08/2009, página 10, nome completo, patente e função do PM que, segundo o jornal, teria sido o “autor do tiro que atingiu o militante pelas costas”. Não me consta que essa informação tenha sido corrigida ou contestada. Há impedimento legal para a publicação dessa informação?
on Sep 24th, 2009 at 11:44 pm
Alguém já afirmou “Não entender por que a ciência evolui tanto, ao passo que os preconceitos se mantém praticamente estáticos”. A reforma agrária no Brasil é extremamente injusta, defender o latifúndio além de imoral não tem mais aceitação social. Parabéns Paiani você está vivo e está mudando.
on Sep 25th, 2009 at 11:38 am
Fiquei sabendo atraves do do portal da Zero Hora e da radio Gaucha o nome do soldado que matou o colono sem terra, chama – se Alexandre Curto dos Santos.Ta na hora do Senhor Paiani dizer onome do oficila que matou covardemente o Elton.Então Senhor Paiani fale o nome ou sera fantasia?
on Sep 25th, 2009 at 11:40 am
MOSTRANDO A COBRA:
CITANDO SITE http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1§ion=Geral&newsID=a2665184.xml
“Alexandre Curto dos Santos está na Capital sob a proteção da Associação dos Cabos e Soldados da BM
Carlos Wagner e Cid Martins
Alexandre Curto dos Santos é o policial militar que admitiu ter sido o autor do tiro que matou o sem-terra Elton Brum da Silva, 44 anos, em 21 de agosto, em São Gabriel, na Campanha. A Brigada Militar não confirma oficialmente o nome. Hoje à tarde, Alexandre Abel, um dos advogados do policial, deverá revelar fatos novos a respeito do episódio.
Soldado do Pelotão de Operações Especiais do 6° RPMon, de Bagé, ele tem o nome mantido em sigilo pela Brigada Militar (BM), Polícia Civil e Ministério Público (MP) desde a morte, ocorrida durante operação de despejo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) por tropas da BM da Fazenda Southall.
Na manhã de hoje, Zero Hora e Rádio Gaúcha localizaram o paradeiro de Alexandre. Questionado se gostaria de dar a sua versão sobre o que aconteceu, ele respondeu o seguinte:
— Por determinação do comando, não posso falar.
Alexandre está em Porto Alegre sob a proteção da Associação dos Cabos e Soldados da BM. Segundo o presidente da associação, Leonel Lucas Lima, o estado emocional dele é muito critico e ele está recebendo tratamento psicológico. A blindagem ao redor do nome de Alexandre foi feita sob a alegação de que o sigilo o protegeria de uma possível retaliação do MST.
A sede da investigação é São Gabriel, onde o trabalho está sendo feito em uma parceria entre o MPE, a Corregedoria-Geral da BM e a Polícia Civil. As investigações foram concluídas e nos próximos dias o delegado Laurence Teixeira deverá entregar o relatório do seu inquérito à Justiça, provavelmente indiciando Alexandre por homicídio doloso (com intenção de matar).
O corregedor-geral da BM, coronel Paulo Rogério Machado Porto, deverá entregar o seu relatório na segunda-feira ao comandante-geral da corporação, coronel João Carlos Trindade Lopes.
ZERO HORA E RÁDIO GAÚCHA”
on Sep 25th, 2009 at 12:47 pm
Oi Marco
Eu gostei dessa passagem da reportagem da ZH:”A blindagem ao redor do nome de Alexandre foi feita sob a alegação de que o sigilo o protegeria de uma possível retaliação do MST.”
Eu acho que não é essa retaliação que esse soldado tem que temer…
Um abraço.
on Sep 25th, 2009 at 1:16 pm
Também acho, Giovani. abraço.
on Sep 25th, 2009 at 3:12 pm
Segundo o mestre do bloguismo de esgoto, Políbio Braga, o soldado alega que não carregou a arma com munição letal, transferindo assim para algum “Fantasma do Piratini” a reponsabilidade por uma suposta “troca misteriosa de munição”.
Isto está me cheirando a manobra para modificar o crime para culposo, que depois será devidamente enterrado pela Justiça Militar (coronel mendes) e MPE (thums).
Lúcio
on Sep 25th, 2009 at 11:57 pm
Céus, essa canalhada faz coisas que a gente nem se imagina. E esse soldado assume e ganha o que? vai ser promovido? Que que é isso, meu Deus?