Uma cidade, Encruzilhada do Sul. Uma monocultura, eucaliptos. Uma situação insustentável. Miséria, favelas, pobreza e desilusão que tende a piorar. Basta conhecer, observar e conversar com as pessoas, com os agricultores e as agricultoras familiares do município para perceber o que está em curso. A monocultura dos eucaliptos modificou a paisagem, a economia e principalmente a estrutura social do município. Indo lá, vendo e conversando, observamos que a invasão dos capitalistas está desequilibrando rapidamente a paisagem da região e a estrutura social e econômica da cidade.
Quem ainda não vendeu suas terrinhas e insiste em ficar, convive com as visitas dos desesperados animaizinhos que fogem da invasão. São mulitas, mão-pelada, gato-do-mato, ratões e capivaras famintos que devoram tudo que veem pela frente. As plantações, os maciços estão cada vez mais absorvendo a paisagem e desalojando tudo que ali existe. As matas ciliares estão cercadas e desprotegidas pela baixíssima possibilidade de alguém conferir se está dentro ou não da lei ambiental.
Falando em lei, a conversa é de que existem dois pesos e duas medidas. A dureza da lei ambiental para os agricultores e a moleza para os empresários da monocultura. Tudo remando a favor dos novos senhores da terra, da energia e da água. Tudo a favor para que os resistentes e teimosos agricultores tradicionais e os ecochatos abandonem suas terras e suas ideologias a favor do império.
O poder público propagandeando empregos de papel e sinalizando impostos que serão sonegados, apóia o projeto de olho nas contribuições de campanha. A adesão individual de alguns técnicos do poder público também é observada.
Uma invasão de poucos e grandes empresários que está sendo facilitada e apoiada estrategicamente pelo governo Yeda e por vários governantes municipais. Incentivando politicamente o plantio. Recebendo recursos das empresas. Facilitando créditos. Modificando o zoneamento ambiental da silvicultura. Desestruturando a Fepam e a Emater (Extensão Rural) e permitindo a prática do fato. Encontra-se em curso a maior ocupação de terra do Rio Grande do Sul por parte de um único grupo. Um verdadeiro império!
Uma verdadeira Encruzilhada ou quem sabe uma grande Cruzada rumo ao poder concentrado da energia, da água e da terra. É disso que estamos falando. A expansão de um único dono em mais de um milhão de hectares com a destruição de comunidades rurais, deslocamento de famílias inteiras para a favelação nas cidades e a concentração de poder. Esta nova situação vai influenciar por anos a vida da sociedade gaúcha. A mesma sociedade que é desrespeitosa com a luta de milhares pela Reforma Agrária abre as pernas para a invasão de uma única empresa que vai aumentar a violência das cidades.
A busca pela energia (pasta de celulose), a terra (poder estratégico) e água (Aquifero Guarani) faz com que a invasão tome conta de tudo rapidamente. Não há tempo a perder. Planta logo que o poder garante. Em nossas barbas, está se estruturando o maior império do século XXI. Uma dominação que vai influenciar gerações futuras. Que vai excluir milhões de pessoas e vai concentrar poder e capital para poucos. Uma dominação sem precedentes que trará a insustentabilidade do nosso Estado.
(*) Diretor do Semapi – Sindicato dos Empregados em Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas e de Fundações Estaduais do RS.


on Sep 29th, 2009 at 8:49 pm
Concordo em gênero, número e grau, menos em uma coisa: não tem aquífero Guaraní em Encruzilhada do Sul nem que a vaca tussa… Consultem os geólogos, por favor…
on Sep 30th, 2009 at 9:01 am
Como se a invasão fosse apenas em Encruzilhada do Sul…
on Sep 30th, 2009 at 9:34 am
Marco, uns quinze dias atrás eu viajei de são Luiz a Pelotas, por Dom Pedrito, e fiquei assustado. Na região de Cacequi, há imensas plantações de pinus e eucaliptos, já bem crescidas (e fazia só um ano que eu não passava ali). Da mesma forma, à esquerda da estrada, antes de chegar a Bagé, e dos dois lados, em Pinheiro Machado. Um verdadeiro crime. Em um determinado lugar, acho que em Cacequi (não tenho certeza), próximo ao Trevo, vi uma área, talvez de uns 5ha, totalmente degradada por tocos de eucaliptos, cuja árvore foi retirada, mas o toco e as raízes não há como retirar. E a terra vira uma areia … Dá pena de ver.
on Sep 30th, 2009 at 9:51 am
O povo votou e vota no conservadorismo, as pessoas não se dão conta que pau que bate em joão também bate em pedro.
O povo faz por merecer.
O Ney… queres dizer que o aquífero é mais profundo ou que o escudo cristalino meridional é mais antigo e ali não existia a mesma rocha porosa da serra geral, que ali forma uma ilha seca mesmo.
on Sep 30th, 2009 at 9:55 am
Aliás quem está entrando na região é a uva, com o pessoal de Bento se instalando, vinícola, turismo, tudo como em Bento.
Esse não seria um contraponto interessante, um modelo de aproveitamento e exploração da propriedade muito mais útil para a sociedade e lucrativo para os donos, para ser apontado.
Só que vinícola exige gestão, cultura, pesquisa, aprendizado, investimento pessoal e risco.
on Jul 6th, 2010 at 7:41 pm
Estou me formando este ano, tecnico em agropecuaria, compreendo e concordo com todas as suas afirmativas.
Do ponto de vista do produtor, ele não tem a intenção de destruir o meio-ambiente e sim manter a sua família,pela falta de oferta de mercado na produção de alimentos , que vendida é preço de “banana” .exemplo. milho, arroz,feijão,batata-doce,mandioca entre outras, além da falta de incentivo por parte das instituições do municipio. Me sinto de certa forma também responsável pela atual situação da agropecuaria desta cidade.
Vejo que será uma grande batalha em que alguns tecnicos ficaram acomodados atrás de grandes empresas a grande maioria e poucos lutaram pela sustentabilidade.
Este foi um resumo de uma longa conversa.
renato.jrmacedo@hotmail.com
entre em contato.
obrigado!