Por Antonio de Oliveira (*)
Ouvi, assisti e li tudo. Demorei alguns dias tentando deglutir. Não consegui. A frieza do oficial da Brigada Militar dizendo que naquele dia tinha acontecido uma vitória da sociedade, de dois a zero, me deixou desajeitado. A primeira coisa que me veio à cabeça foi uma constatação: sou contribuinte e pago o salário dele.
Daí para a frente, logo me vieram inúmeras dúvidas, se a minha contribuição ao Estado estava sendo bem empregada naquele caso em que um oficial comemorava a morte de dois seres humanos. E o turbilhão de dúvidas aumentou. Ele falava em vitória da sociedade. Mas que vitória ? Mas que sociedade ?
O saltitante “repórter”, na imagem da TV, parecia comandar um show, gritava que o agente penitenciário que tinha assassinado os dois homens era o herói do dia, que merecia medalhas. Meteu, com sua pouca prática, o microfone no rosto do agente, quase aos gritos, reafirmando que ele era um herói. Mas o que aparecia na tela era um homem grande, forte, mas apequenado, imensamente constrangido. Perturbado por ter tirado a vida de duas pessoas.
- …sim, foi a primeira vez”, disse o herói num fio de voz.
Ele nem sabia o que responder diante da provocação do “repórter” que andava em volta, sem saber o que fazer para melhorar seu espetáculo, seu show. Só faltou reclamar dos atores por não estarem correspondendo em suas interpretações. Ele queria mais ação. Mais sangue. Ao bom estilo bandido bom é bandido morto, a câmera corria a toda hora, bem de vagar, sobre os cadáveres dos dois homens abatidos no meio da rua.
Ainda bem que um policial civil, assustado, foi ao microfone e fez uma correção, dizendo que aquilo tudo ali era um péssimo exemplo, que as pessoas não deveriam agir daquela maneira em caso de assalto, que o agente fizera aquilo por que era um homem preparado, com curso para condução de prisioneiros de alta periculosidade.
E na minha cabeça vieram mais indagações: mas que herói ? Dois corpos estendidos no chão era uma vitória da sociedade ? Definitivamente, não. No meu entender era uma irreparável derrota. Era a mostra cabal de uma sociedade derrotada como tal. Sem solução para os seus problemas.
A não ser que eu entenda que aqueles dois não faziam parte da sociedade e que aquele oficial também não faz parte, está acima, como guardião e juiz de quem deve ser morto para que outros vivam em paz na tal sociedade, que ele tem dentro da sua cabeça, da sua cachola.
Como integrante da sociedade, se é que me permitem, eu rejeito vitórias deste tipo, porque eu não consigo ser feliz assim. Não quero que ninguém morra para que eu esteja seguro. E também não quero matar ninguém. Ou então esta sociedade, como está, não me serve mais. Mas ai, eu estaria desistindo da humanidade e isto eu também me nego a fazer.
Sendo assim, o que me resta é apelar às representações da sociedade, aos políticos e aos governantes para que abram o olho. Vejam o que está acontecendo na frente dos seus narizes e tomem atitudes e apliquem melhor, em favor da sociedade, o que recolhem de impostos. E não quero que comparem com Nova Iorque, etc, etc. Quero que comparem com o Brasil, com Porto Alegre, de meio século atrás. Só. Lembrem de como vivíamos há 50 anos, criem vergonha na cara e vão trabalhar.
Parem de empurrar com a barriga. Assumam imediatamente a construção de um sistema educacional decente, que ponha todas as crianças na escola e que forme cidadãos e não bandidos. Mandem às favas esta gente que vive defendendo o Estado mínimo, pois eles são os primeiros a assaltar o Estado quando seus negócios vão mal. Formem uma polícia de verdade para defender todos os cidadãos, sem necessidade de andar matando por ai para virar herói. Repudiamos heróis feitos assim.
Acima de tudo, parem de roubar, de serem corruptos, e empreguem o dinheiro público para o bem público. E façam as emissoras de rádio e de televisão cumprirem a Constituição, como concessões que são, com programação para uma sociedade decente, equilibrada.
É hora de o Estado entrar em campo para garantir uma vitória verdadeira. E um recado final ao meu oficial: pare de defender a morte como vitória, como solução para os problemas que o senhor está despreparado para resolver. E quero lembrá-lo de que, no Morro dos Macacos, no Rio, no momento em que encerro este texto, a sociedade está obtendo uma vitória por 25 a 8. O senhor está feliz com isto ? Com esta vitória ? Pois eu não quero heróis com as mãos banhadas em sangue.
(*) Jornalista

on Oct 22nd, 2009 at 4:20 pm
Beleza de texto!!! Precisamos nos indignar mais. Arrepia perceber, o quanto um empregado de empresa de comunicação assume a ideologia do patrão, de que pobre e excluído é bandido, portanto “merece” ser morto.
Os exemplos de criminalização de classe, raça/etnia, geração estão estampadas todos os dias nos meios de comunicação impressos e eletrônicos. De fato, me excluam dessa sociedade que defende a pena de morte. Sendo que, até nesses casos, existe um rito judicial a ser cumprido…
on Oct 22nd, 2009 at 5:31 pm
Sim, Beleza de texto!
Belo Ser Humano que escreveu esse Manifesto Pessoal e Social.
on Oct 22nd, 2009 at 5:31 pm
Excelente texto.
Já perguntei pro Marco como faço para mandar para minha rede de e-mail e ele me explicou mas não entendi.
Tem algum jeito mais simples?
on Oct 22nd, 2009 at 5:37 pm
Caro Jornalista,
Acredito que a polícia atende apenas à insegurança pública. A segurança pública é um estágio de paz e harmonia somente atingido por uma ação conjunta, Estado e sociedade. Quando estes atores falham, por incompetência ou opção, transformam a sua responsabilidade em atribuição da polícia. A tarefa que era de construção passou a ser de destruição. Ou será que a tarefa policial é outra que não a repressão? Será tratar as causas dos problemas ou as suas consequencias?
Ficou bastante cômodo subverter esta ordem, passando à polícia a responsabilidade de cuidar da consequencia como se estivesse tratando da causa. Como sendo ela um agente de segurança. É pura impropriedade e extrema minimização do Estado. Esta lamentável postura de um policial reflete o contexto desse sistema, que o convenceu que a polícia tem a ampla, completa e irrestrita responsabilidade pela segurança. Ora, ora, o que levaria um ser humano a acretitar no instituto da pena de morte senão a sua visão equivocada?
Parabéns pela oportuna e consistente manifestação.
on Oct 22nd, 2009 at 5:40 pm
Alguns programas de rádio e televisão, também algumas colunas de jornais, de TODOS os jornais deviam ter o seguinte aviso:
O Ministério do Bem Estar Social ADVERTE, estes comentários fazem mal a sociedade.
on Oct 22nd, 2009 at 5:56 pm
Morte nunca é vitória. Tudo que pensei escrito (e bem) pelo Antônio. Parabéns.
on Oct 22nd, 2009 at 7:28 pm
Concordo com a totalidade do texto.A violência, para a mídia, é espetáculo. Não assisto mais jornais e não leio os impressos, é um direito que me dou de não dar ipobe e dinheiro para esses crápulas midiáticos.
on Oct 22nd, 2009 at 7:45 pm
comemorar o que , esse idiota desse reporter imbecil , so pode ser de programa de baixaria de policialescos inuteis. é so pra isso que esse tipo de jornalismo serve . pra promover baixarias e sensacionalismo, mas nada . temos que combater os crimes sim seja rico ou seja pobre , mas dentro da lei . se é que existe lei, e nao precisa dessa imprensa nojenta e fajuta que nao serve pra nada , pra dar show.
on Oct 22nd, 2009 at 8:05 pm
Alexandre, clica em cima do título do artigo. Aparecerá na barra de endereços o link específico do texto. Aí é só copiar o link e mandar para sua rede de emails.
on Oct 22nd, 2009 at 8:35 pm
Concordo com todos os comentários acima,mas REALMENTE,antes eles do que eu ! Já fui assaltada e muiiito machucada.
Abraço no blog
on Oct 22nd, 2009 at 9:04 pm
A violência cria esse fenômeno da “guerra contra a bandidagem”. É como se houvesse uma catarse, uma sensação orgásmica da sociedade toda vez que um suspeito(ou bandido?) é morto. Que as massas reajam desse jeito é compreensível, já que ela não tem dinheiro para blindar seus carros(os que sequer tem um carro 1.0) nem morar em condomínios fechados. É essa massa que respira e vive a violência diária, aquela do assalto na parada do ônibus, do caminho a pé para o trabalho.
A classe média vive o drama do sequestros relâmpago, dos seguros caríssimos, dos assaltos a taxis, dos arrombamentos, e assim por diante. Ela também acaba entrando nessa catarse vingativa, nessa sensação de “ir a forra contra a bandidagem”. Ela sente falta da ditadura, quer pena de morte, acha que “bandido bom é bandido morto”.
O dilema é, “investir em repressão ou educar os jovens”. O dilema é falso, já que é preciso sim estancar a escalada da violência com políticas sociais fortes, de inclusão, emprego, renda, cultura e educação. Mas o tumor atual segue vivo, e para ele é preciso uma quimioterapia, mesmo com seus terríveis sintomas colaterais. Salários dignos a quem enfrenta a dureza das ruas todos os dias, treinamento adequado, apoio social as famílias dos policiais, equipamento, presídios que realmente reintegrem os que podem, e querem, ser reintegrados ao convívio social, e presídios realmente fechados aos que não existe mais nenhuma possibilidade de reabilitação. E inteligência, essa sim, a mais efetiva arma contra o crime, muito mais poderosa que armas de fogo.
E acima de tudo, uma mudança dessa maldita cultura guasca do “prendo e arrebento”, da borrachada, da corrupção policial e da malandragem do “faz que não dá nada”. Não sou contra cadeia, pelo contrário, sou a favor de cadeia dura, reabilitativa, não-ociosa e com dura disciplina interna.
E com “Seco” e os picaretas do Detran todos dividindo o mesmo CEP.
on Oct 22nd, 2009 at 10:37 pm
Nossa!
Me arrepiei com esse belíssimo texto.
on Oct 22nd, 2009 at 11:35 pm
Perfeito, está na hora de reagirmos a esse tipo de ação, não só de policiais, como da mídia que faz sensacionalismo da desgraça alheia.
on Oct 23rd, 2009 at 7:14 am
Gostei muito do texto.Lendo-o, lembrei-me de uma passagem em minha vida, quando servia o “o glorioso” exército brasileiro em plena ditadura Médici, por conta de ter raspado todo o cabelo quando faltava exatos dez dias para ir embora pra casa.Fui chamado a atenção pelo comando com uma a pergunta do motivo daquela raspagem.Disse-lhe que estava começando do zero, pelo menos no cabelo.Fui interpelado com a pergunta se seria eu daqueles que destruia o que não gostava para começar do zero, em que respondi laconicamente que sim.O oficial se retirou em silêncio.Em dez dias estava em casa, retornando a minha humilde casa de gente pobre e trabalhadora, cada vez mais odiando o autoritarismo, as imposições e as diferenças de classe. Qual a relação com o texto?Por enquanto experimentamos e amargamos a esculhambação patrocinada pelos de cima.É preciso que organizadamente os debaixo passem a ser protagonistas de um outro tipo de esculhambação.Aquela que remete para o zeramento dessa situação desastroza em que vive as massas , com a maioria podendo ter vez e voz, não ficando a reboque de agenda eleitoral que só legitima essa situação.
on Oct 23rd, 2009 at 10:57 am
Concordo plenamente com o jornalista quando diz que a mídia, principalmente a televisiva, está absolutamente perdida em função do dinheiro, pois precisa conseguir cada vez mais audiência a qualquer custo usando tragedias, catastrofes, mortes, sangue, escandalos sem nenhum tipo de freio. E só notar o close que é dado quando as pessoas choram na frente das cameras!
Segundo o jornalista aparecia na tela um homem grande, forte, mas apequenado, imensamente constrangido e perturbado por ter tirado a vida de duas pessoas. Mas ele matou para se defender! O texto não explicita que o preparado funcionário público do setor da segurança atirou contra dois homens quando estava sob a mira de arma de fogo dentro de seu carro! No contexto do escrito, ao passarmos pelos termos assassinato e assassino, imediatamente sentimos a condenação sumária do agente penitenciário e isso não está certo! Neste tipo de situação onde vidas são perdidas não existem heróis, jamais! Nas mesmas condições e sob as mesmas circunstâncias eu faria a mesma coisa, me defenderia!
Ponto negativo para o oficial da brigada, para o “reporter” e para o jornalismo de sangue que está entrando dentro das nossas casas sem ao menos pedir licença. A ação policial em casos similares será sempre violenta, aqui ou em Paris, e jamais pode ser mostrada como um filme de hollywood da forma que esta está acontecendo!
A violência é real e esta cada vez mais perto de todos nós. Como combater é a questão!
Agente penitenciário reage a tentativa de sequestro e mata dois em Porto Alegre (o globo):
http://tinyurl.com/globoG1
on Oct 25th, 2009 at 10:56 am
Texto extremamente inteligente, reforçando a necessidade da luta contínua por uma sociedade mais justa, rejeitando a morte como solução para a criminalidade. Parabéns ao Antonio de Oliveira pelo texto e ao Marco pela publicação. Seu site é 10.