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Shoá e resistência

Por Adão Paiani

Shoá, ou Shoa, é uma palavra íidiche que significa, literalmente, calamidade. Vem sendo cada vez mais utilizada como sinônimo de holocausto, uma vez que essa última terminologia, teologicamente, nos remete aos sacrifícios bíblicos feitos pelos antigos judeus a Deus e, evidentemente, por essa perspectiva, não é a mais adequada para descrever o regime e genocídio que vitimou, além dos judeus, também milhões de outras pessoas que de alguma forma significassem risco ao nazismo e seu projeto de sociedade.

No ano em que se recorda o início da segunda guerra mundial é oportuno analisar e tirar lições dos fatos que levaram ao surgimento e consolidação nazista dentro de um Estado democrático; e como tudo poderia ter sido evitado se, no momento certo, a ascensão de Hitler, seus asseclas e seus métodos de manipulação midiática da sociedade germânica houvessem encontrado resistência dentro da própria nação alemã.

Tivesse sido a Shoá combatida desde o início, por uma resistência legítima, se teria evitado que a serpente gerada pelo ovo da maldade, da mentira e da insanidade crescesse e devorasse a todos em sua volta. A falta de coragem para agir, ante um falso dilema de se garantir a governabilidade de um Estado frente a problemas históricos, fortaleceu, legitimou e liberou um regime sórdido e seus agentes que, na visão de Eli Wiesel, eram a maldade em seu estado mais puro.

Manipuladores de mentes, almas, corações, consciências; os nazistas, tendo Joseph Goebbels como um poderoso ministro da propaganda, aproveitaram-se da fragilidade moral do povo alemão, abatidos pela derrota de 1918 e pela tragédia econômica que se seguiu, para impor seu projeto totalitário, beneficiados em seu início pela apatia cúmplice de toda uma sociedade.

A leitura dos exemplos históricos, por distantes que estejam de nossa realidade, é importante para que se entenda o quanto a reação dos cidadãos à uma determinada situação, e não o seu silêncio, é que determina seu destino. As experiências acumuladas pela história humana não se perdem, e podem ser aproveitadas em diferentes situações; não necessariamente análogas; e latitudes.

A resistência de um povo à prepotência, à arrogância, aos abusos, à mentira e aos desmandos de um governo; mesmo aquele democraticamente eleito; e a todo o establishment que o mantêm; mais do que um direito, é um dever para com as gerações futuras e garantia de sua sobrevivência.

O sufrágio dos cidadãos não deve ser carta branca para um grupo que recebe a delegação do poder originário, fazer o que bem entende. Obviamente que, dado o grau maior ou menor de amadurecimento de uma democracia e qualificação ética dos quadros políticos que esse grupo venha a trazer para dentro da máquina pública, isso pode acontecer. O que diferencia é como o povo reage a esse aparelhamento, quando esse grupo deixa de agir como quadro partidário, dentro de um jogo democrático, e passa a agir como quadrilha ou bando.

O estabelecimento de limites se dá, primeiro, pelos órgãos e mecanismos que o próprio Estado dispõe para exercer internamente um papel controlador e fiscalizatório. Quando esses se mostram ineficientes, ou mesmo comprometidos com o oposto que se espera deles; imagina-se que o socorro venha do sistema de pesos e contrapesos que os poderes exercem entre si.

Mas quando tudo isso falha, dado o grau de organização empresarial para rapinar a coisa pública, o pára-quedas que resta é justamente aquele em que os cidadãos organizados tomam a si essa responsabilidade. É a resistência moral de uma sociedade organizada. Mas para isso é necessário superar a ignorância e a apatia; e atuar e se fazer ouvir, principalmente quando aqueles a quem foi entregue o papel representativo e fiscalizatório se negam a fazê-lo. E isso só se consegue despertando do torpor, jogando de lado a preguiça e cumprindo com o papel, este sim, indelegável, que um povo tem de escrever o próprio destino.

A maior ameaça à democracia é o desleixo cívico e moral que faz aceitar, sem resistência, a imposição de valores deturpados por uma mídia comprometida com o assalto às estruturas estatais. É quando essa tenta impor que mentira é verdade, promiscuidade é pureza, corrupção é ética; e que deixar de questionar uma gestão pública é garantia de governabilidade, indispensável à estabilidade política de um Estado. O verdadeiro perigo é justamente, a manutenção de um status quo criminoso e corrompido. E é aí que, ao mesmo tempo em que tudo difere, muito pode aproximar períodos históricos e realidades diferentes.

Nossa shoá, nossa calamidade, hoje, é o assalto cotidiano que se presencia às estruturas públicas; e ainda a blindagem midiática desavergonhada a grupos políticos e econômicos que agem como verdadeiras aves de rapina sobre o patrimônio de todos. A nossa resistência é o dever moral de se levantar contra tudo isso, pela reação e mobilização popular. Assistir a tudo passivamente é colaborar para o esgaçamento moral do tecido social e abrir caminho para qualquer coisa que possa vir depois disso. O silêncio é omissão. A omissão é cumplicidade. E a cumplicidade embala e choca o ovo da serpente.

Há que se reagir. Enquanto ainda há tempo.

Ilustração: Francisco Goya, “O sono da razão produz monstros”

15 Comentários on “Shoá e resistência”

  1. #1 Moses
    on Oct 28th, 2009 at 12:40 pm

    Fantástico!

  2. #2 el barto
    on Oct 28th, 2009 at 1:11 pm

    então que esse povo tome vergonha na cara em 2010 e mande pra lata de lixo esses pilantras que tomaram de assalto o estado em 2007, bem como seus comparsas na al (base aliada), picaretas que se vendem por 30 dinheiros e meia duzia de carguinhos pros seus cupinchas, lacaios e apaniguados.

  3. #3 Luis Armidoro
    on Oct 28th, 2009 at 1:48 pm

    Caros Marcos e amigos do sul

    O Fascismo começou a se impor justamente no estado onde moro (SP), onde uma caricatura de furer, impõe sua vontade à administração pública.Lembrem-se sempre do que acontece em SP:

    * Privatizações em massa (sem citerio, sem estudos adequados; apenas para fazer valer o apelido de “fóssil vivo do neoliberalismo” queo psdb carrega)

    * confronto com qualquer movimento social que ouse discordar das diretrizes do furer (e tome porrada em estudantes, policiais, professores)

    * Confinamente em guetos (favelas) dos indesejáveis, que perioduicamente são submetidos a raids praticados pela SS (ou PM)

    * Sucateamento da maquina pública, com investimentos zero. Apenas o que será vendido recebe investimentos.

    * Queda generalizada do indice de qualidade de vida (pior educação, pior saúde, ausência de segurança, crescimento exponencial de furtos e roubos ao patrimônio).

    Se este cara for eleito presidente do Brasil, ele vai vendar espaços na bandeira nacional para anunciantes

  4. #4 mano
    on Oct 28th, 2009 at 1:49 pm

    Não mentir, não matar e não roubar. Se conseguirmos estabelecer tais comportamentos poderemos falar em Ética. Se não … fica tudo como está, um estado de calamidade pública.

  5. #5 Vicente
    on Oct 28th, 2009 at 2:41 pm

    Mas vem cá tchê, esse senhor não é aquele que sabe quem é o oficial assassino do trabalhador rural e que por não revelar o criminoso é cúmplice da condenação de um soldado inocente???
    Ou ele tava brincando quando disse aquilo?

  6. #6 elektrofossile
    on Oct 28th, 2009 at 3:16 pm

    De plano, dou como correta a preocupação do Dr. Paiani. É dever também cívico e republicano resistir e levantar-se contra o descalabro e a petulância que se alastra sobre o Estado. Passividade, neste momento, com certeza levaria à irreversibilidade do estado das coisas. Conheço a expressão do “Ovo da Serpente” de Ingmar Bergamann, cineasta e dramaturgo sueco, ao tratar do nazismo. No Brasil existe sentença tramitada em julgado no STF sobre o revisionismo histórico que pretende negar a Shoa.

    Apenas ressalto que a pesquisa histórica sobre o período fascista europeu avançou significativamente nos últimos anos. Sabemos que o anti-semitismo grassava por toda a Europa, vejam o caso Dreyfus na França ou os pogroms russos. A própria Igreja Católica incentivou sentimentos antissemitas e a reconquista espanhola eliminou qualquer sinal semita da península ibérica. Sabemos também que houve uma profunda crise política na Alemanha que antecede 1933, evidenciada por cinco eleições em apenas um ano, provocando uma radicalização crescente tanto à direita como à esquerda, e uma elite política cada vez mais “omissa”. Aproveitaram-se os nazistas desta instabilidade e com métodos de extrema violência intimidaram seus oponentes (já antes do incêndio do Parlamento). Também sabemos que os grandes trustes da siderurgia e da mineração franceses e ingleses despejaram rios de dinheiro nos cofres nazistas, temerosos de que o PC Alemão (Rosa Luxemburg e sucessores) tomassem o poder e, assim, derrubassem a última cidadela de resistência ao perigo vermelho na Europa. A tibieza moral não é tanto do povo alemão como da classe dirigente (latifundiários, industialistas, elite política, …).

    Mas a situação atual se aproxima cada vez mais desta descrita acima. O desespero do reacionarismo faz com que este adote táticas de ataque cada vez mais sanguinários e irracionais (PL 154, Édson Brum, tentativa de cassar o mandato do Raul, toda a roubalheira aos cofres do RS mas não só esses: SP!, organização de milícias clandestinas que atacam punks, negros, judeus, …). Já algumas vezes alertei sobre esse recente movimento da História nos comentários desse blog. Há que resistir fortemente a esta tendência e alertar todos cidadãos ainda sensíveis e ainda sensatos a irmanarmos nessa luta.

  7. #7 Eugênio
    on Oct 28th, 2009 at 8:53 pm

    Essa ilusão já se viveu no passado. Muitos “homens de bem”, como esses de agora, apostaram no nazismo como uma contramedida à ameaça “vermelha”. Acreditavam, piamente, que poderiam usar o fascismo e controlá-lo ao seu bel prazer para, depois dele, se descartar. Mas o fascismo provou que tinha vontade própria e devorou seus financiadores. Parece, que não aprenderam nada, principalmente, certos senhores da mídia. Estamos, novamente, pavimentando o caminho para uma nova shoá. E quem pavimenta são, justamente, aqueles que deveriam fazer de tudo para extirpar, de vez, essa ameaça que nos ronda.

  8. #8 Jorge Loeffler
    on Oct 29th, 2009 at 1:54 am

    Belíssima análise de nossa triste situação. Nada a reparar exceto a razão que levou o povo alemão a dar ouvidos ao débil mental Hitler que foram as condições em que se deu a rendição da Alemanha ao final da guera de 1914/18, em que o povo alemão ficou literalmente tolhido em sua liberdade econômica, uma verdadeira camisa de força.

  9. #9 Sueli- Porto Alegre
    on Oct 29th, 2009 at 8:09 am

    Concordo com o Vicente…Estranho ,né?

    Abraço no blog

  10. #10 Adão Paiani
    on Oct 29th, 2009 at 8:23 am

    Vicente, muito oportuno teu questionamento.

    Para se defender alguém, essa pessoa precisa querer e colaborar em favor de sua própria defesa.

    O soldado decidiu assumir o cometimento de um crime e virou réu confesso. No entanto eu e ele sabemos quem foi o verdadeiro autor.

    Não me parece que tenha sido forçado a assumir, mas convencido. Os argumentos a gente bem pode imaginar, mas a notícia de hoje na imprensa dá uma pista.

    O Juiz de São Gabriel recebeu a denúncia do MP na forma menos gravosa, ou seja, homicídio simples, pena de seis a vinte anos; e não na forma qualificada, doze a trinta.

    Se decidir falar a verdade, eu serei o primeiro a estar lá, ao lado dele; repondo a verdade no seu devido lugar e dando o apoio necessário. E ele sabe disso porque foi dito a ele.

    Mas fica difícil sair em defesa de alguém que está fazendo o jogo do sistema.

    A ele deve ter sido prometido muita coisa. E, até agora, ele não teve prejuízo nenhum; vai ter um júri absolutamente favorável e está em liberdade. Para ele não está mal. Quem morreu foi o Elton.

    Mas isso é assunto para o próximo artigo.

    Paiani

  11. #11 Adão Paiani
    on Oct 29th, 2009 at 8:27 am

    Sueli, minha resposta ao questionamento do Vicente é extensiva a ti.

    Paiani

  12. #12 DANIEL
    on Oct 29th, 2009 at 9:55 am

    É DE ASSOMBRAR ESSA COISA TODA!! ONDE ESTÁ A JUSTIÇA PARA CONTER ÊSSES QUADRILHEIROS !! PARASITAS, ESCARNECEDORES E VÍBORAS QUE TRAMAM A MALDADE DEBOCHANDO DE NÓS CONTRIBUITES !! SÓ A JUSTIÇA DE DEUS E A PORTA É ESTREITA!! BOM DIA !!

  13. #13 Sílvio Alexandre
    on Oct 29th, 2009 at 3:01 pm

    Caro Paiani:
    esta briguinha entre Dem e PSDB aqui no estado é uma virgula na unidade nacional entre esses partidos vendilhões da pátria.

    Vais concorrer a deputado estadual pelo DEM???

  14. #14 Teresinha Carpes
    on Oct 29th, 2009 at 5:56 pm

    Silvio Alexandre,vc quer atingir a quem?Ao Doutor Paiani?Que interesse vc tem em fazer esta pergunta?Admiro o DR Paiani,por sua coragem e honradez,quizera eu,que tivesse mais de cem Paianis por todo o Brasi,principalmente aqui no RS,São Paulo,Minas Gerais,e etc…

  15. #15 Vicente
    on Nov 4th, 2009 at 4:36 pm

    Não sou especialista em questões jurídicas. Deixe-me ver se eu entendi:
    então desde que um crime tenha uma boa tramóia, em que um bode expiatório e um bandido estejam de acordo, mesmo que se saiba que um assassino ficará solto com isso devemos então sermos coniventes e deixar tudo como está? Mas aí não se está fazendo parte da tramóia?
    É possível expandir esse raciocínio para outros exemplos, como casos de corrupção?

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