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Com quem fala a RBS?

Por Ayrton Centeno

Um aviso: as linhas abaixo não carregam uma resposta para a pergunta acima. Neste balcão temos perplexidades em oferta mas estamos em falta de respostas nos estoques. Este monólogo aqui, antes de virar texto, começou com a pergunta do título depois que o autor andou observando o retorno diário do leitorado de Zero Hora.

Se ZH fala mesmo é com aquela turma que fala com ela está muito mal arranjada. O tom predominante das cartas dos leitores aninhadas na página 2, algumas graciosamente enfeitadas com a foto do autor, é de uma intolerância caricatural. Lula é o grande malfeitor de suas vidas, tarefa na qual é ajudado por Chávez, Evo, Zelaya, o PT, os movimentos sociais. Enfurecem-se com as cotas raciais, a olimpíada no Rio, a bolsa-família, a copa do mundo, o Cpers, os direitos humanos, as obras do PAC, a aprovação do presidente, o Enem, a crise que virou marolinha. Parecem digitar com agulhas – enfiadas pelo MST – sob suas unhas.

O resultado é um poço de ressentimentos, uma gororoba caldeada em desinformação, mesquinhez e preconceito. Talvez isto seja irrelevante. São, afinal, os leitores exercendo seu sacrossanto direito de dizer o que pensam ao diário que lhes dá o que pensar. Mas é também a safra que o jornal dos Sirotsky colhe a cada dia. E só se colhe o que se semeia. E o problema, para ZH, começa aí. Todas as sondagens, de todos os institutos, dizem que Lula é extremamente popular. E quem o detesta ou detesta seu governo não chega aos dois dígitos, rondando os 8%. Logo, o diálogo mais harmonioso de ZH ocorre com os leitores deste perfil. Porque será que os 92% restantes não se dispõem tanto a dar seu pitaco na seção de cartas? Tem mais o que fazer? Não lêem mais o jornal? São perguntas perturbadoras para quem adota o slogan “a vida por todos os lados” e que precisa, muito, de leitores, prato predileto dos anunciantes.

Na mesma toada, um episódio singular envolvendo outro veículo do grupo deveria, ao menos, provocar pruridos nas polpas de quem se senta no trono do poder midiático. Soube que, no programa Conversas Cruzadas, da TVCom, perguntou-se aos telespectadores se se identificavam mais com políticos de direita, de centro ou de esquerda. Deu direita com 45%, seguida pelo centro com 30% e a esquerda na rabeira com 25%. É um percentual notável quando se sabe que, no Brasil, a direita é a paixão que não ousa dizer o seu nome. Está fechada por dentro no próprio bunker. Ninguém assume a direita ao ponto de partidos de direita ou centro-direita afirmarem-se “progressistas”, “democratas”, “social-democratas” ou até “socialistas”… Porém quase a metade da audiência que interagiu arrojou-se nesta audácia mesmo que anônima.

Claro que, aqui também, é uma colheita, induzida pelo esforço histórico da pauta de CC&Lasier. É, de novo, a RBS levando um papo com a patota dos 8%. É de ficar matutando o que passa pela cabeça de quem decide essas coisas na corporação. Será que acha bom? Ou desconfia que estes dois indicativos não são tão desejáveis? De qualquer jeito, a RBS não pode ignorar que desperta amores brutos. Para tirar proveito da situação poderia explorar este nicho e lucrar algum - que é o que interessa. Consta que foi Noam Chomsky quem redefiniu o negócio da imprensa na era dos mercados. Seu produto não é a venda de informações aos leitores mas a venda dos leitores aos anunciantes. Casando o útil com o desagradável, a RBS poderia persuadir seus anunciantes a vender aos seus leitores - aqueles mais interativos - antiácidos, antidepressivos, talvez escopetas.

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17 Comentários on “Com quem fala a RBS?”

  1. #1 Hélio Sassen Paz
    on Oct 31st, 2009 at 10:46 am

    Marco,

    Depois de tantos anos acompanhando a mídia corporativa e a classe média urbana, tendo a crer que a preocupação com o meio impresso é quase irrelevante por uma série de motivos. Os mais importantes seriam os seguintes:

    - Mídia impressa não é concessão pública: logo, à exceção dos crimes de calúnia, difamação, injúria e assemelhados, por menor que seja o embasamento técnico, prático e teórico acerca de qualquer assunto noticiado, por menos honesto e por menos jornalístico que esse procedimento seja, jornais e revistas podem manipular à vontade aquilo que publicam. Afinal de contas, é permitida a livre expressão pela Constituição Federal. Ao mesmo tempo, por que as pessoas que se sentem ofendidas por esses meios não pedem direito de resposta, se este direito também está assegurado na Constituição Federal?!

    - É preciso admitir que, por menor que seja a circulação e o alcance de veículos cuja agenda seja contrária à hegemônica, eles também publicam meias-verdades. Logo, está provado que existe liberdade de expressão. O que não existe é qualidade tecnoestética e financeira e nem uma divisão que contemple todas as editorias. Logo, o conteúdo meramente classista, político e econômico que quase não contempla arte, esporte e outros mostra que o papel desses veículos é minoritário por essa opção de nicho. Editorialmente, não há um objetivo de informação de massa;

    - Apesar da amoralidade da concentração dos meios de comunicação de massa no Brasil nas mãos de apenas oito corporações e diversas afiliadas (muitas delas nas mãos de parlamentares), à exceção de aberrações como o Diário Gaúcho, o Extra e o Diário de São Paulo, a esmagadora maioria dos jornais é comprada pela classe média urbana. Sendo esse extrato da sociedade o mais conservador, para não perder um volume substancial de audiência e de anunciantes de supetão, o teor do conteúdo joga para a torcida. Trocando em miúdos: conteúdo moralista, conservador e por vezes até reacionário para um público que age e pensa dessa forma. Esse conteúdo não atinge a quem pensa diferente;

    - Pior antes do que agora, mas - pasmem - o Governo Lula está sendo responsável pelo aumento do conservadorismo: à medida que aumenta o contingente de brasileiros na classe média, as pessoas vão-se tornando mais conservadoras, mais consumistas e ainda mais simplistas acerca da sociedade da qual fazem parte. Como o Brasil é um país onde as leis para a democratização dos meios de comunicação não são obedecidas e como temos um alto índice de analfabetismo funcional, o letramento tardio está trazendo não para a internet mas, sim, para os jornais aquele público que estava excluído até bem pouco tempo. Enquanto a maioria dos jornais em papel está quebrando nos EUA (só não digo “graças a deus” porque sou ateu), aqui a RBS montou um novo parque gráfico porque sabe disso.

    - O Governo subsidia o papel para jornais e revistas. Só que, ao mesmo tempo em que subsidia para o PIG, subsidia para todos. Logo, como o país precisa ser mais letrado e como a liberdade de expressão está garantida pela CF, não pode cortar o subsídio para quem omite, mente ou distorce - até porque a esquerda, mesmo que em uma proporção muito menor, também o faz. Ruim com o subsídio, pior sem ele. Do contrário, pode-se perder até mesmo a Caros Amigos e a Carta Capital (mais a segunda do que a primeira, as únicas revistas de circulação nacional de conteúdo genérico que prestam);

    - As análises do discurso e os comentários sobre a agenda da mídia corporativa impressa nacional podem e devem SEMPRE ser feitas. A crítica, as demonstrações e as comprovações da picaretagem do seu trabalho e de seus financiadores devem sempre ser denunciados. TODAVIA, a preocupação com as concessões e com uma regulamentação séria acerca do conteúdo de rádios e TVs (concessões públicas) deveria ser anos-luz maior.

    Então, Zero Hora e Correio do Povo precisam ser bombardeados de direitos de resposta, pois o público deles dificilmente lê outra coisa e os veículos minoritários de classe não são massivos. O conteúdo dos jornais não faz a cabeça de quem pensa diferente: quem já é conservador os procura naturalmente. É preciso mudar a educação desde a base, introduzindo interpretação dos produtos midiáticos na escola.

    Pelo menos é isso o que eu penso: não se ataca a causa mas, sim, meras consequências.

    []’s,
    Hélio

    [Reply]

  2. #2 Rogério de Brum
    on Oct 31st, 2009 at 10:52 am

    Identificaste perfeitamente p/ quem eles falam.Onde trabalho, no final do expediente sempre sobra um jornal(são 3 porcarias) e o que tu menciona o porteiro de vez em quando me dá , tu sabe que não consigo mais ler, me dá nauseas, ele só vem p/ casa pois tenho um cachorro e preciso “forrar” o canto dele, pois está é a utilidade do jornal.Uma outra coisa tem passado pela minha cabeças nos últimos dias, a rádio poderia usar uma nova chamada(será este o nome) G… a FONTE DA MANIPULAÇÃO”.E o público deles, deve ter um corsa financiado(eu não tenho carro pois sou duro mesmo, empregado, trabalhador, mais um número na folha de pgto), acham lindo ter ficado duas horas na fila do restaurante da hora que eles pregam, o MST é o ó-vou no super e compro carne, p/ que esse movimento??- e assim caminha o RS…O brabo é que o Tarso não vai bater de frente é tudo pelo poder.Não vamos pensar que vai sair a Yoda e o PT vai abraçar alguma coisa, estes se entregaram também.

    [Reply]

  3. #3 Hélio Sassen Paz
    on Oct 31st, 2009 at 10:56 am

    Marco,

    Um outro detalhe: a TVCOM é assistida por meia dúzia de gatos pingados - os mesmos idosos e os mesmos empresários e funcionários puxa-sacos que assistem Guerrilheiros da Notícia e por aí afora. Então, grande m… que os 1000 otários que ligam para responder a enquetes reativas (que não são nem pesquisas e tampouco interativas) respondam que 45% são de direita. Entendes? Não existe nenhum embasamento técnico ou teórico que legitimize essa proporção em um universo de 10 milhões de gaúchos (embora eu creia que os números são parecidos não por causa da RBS ou dos racistas da serra e dos latifundiários, mas porque o caldo cultural bovino induz a isso).

    O Conversas Cruzadas só serve pra ter uma repercussão midiatizada pelos veículos e programas de maior abrangência que não são de nicho que a RBS possui: Jornal do Almoço e aquele monte de nabas da Rádio Gaúcha. Então, quem acredita nele já pensa como eles.

    Por que os convidados de esquerda nunca levaram consigo para acompanhar o programa nos bastidores um advogado que garantisse que o debate deve ter tempo igual para todos os participantes e que não se pode convidar mais gente de um lado do que do outro? Além disso, falta competência na hora da exposição, pois o pessoal de esquerda não leva dados fornecidos pelas suas assessorias técnicas.

    Se os debatedores de esquerda fizerem contra-perguntas contemplando uma agenda popular e diferenciada na lata do Lasier Martins, o programa perde a razão de existir. Logo, se o Conversas Cruzadas é um problema, ao virar monólogo, ele morre.

    Parto do princípio de que, mesmo de maneira civilizada, todo mundo quer impor a sua razão, a sua versão e as suas crenças. Se não for por uma proporção desleal nem no grito, que o seja desvirtuando o formato do programa, que é falho em si.

    []’s,
    Hélio

    [Reply]

  4. #4 Sílvio Freitas
    on Oct 31st, 2009 at 10:58 am

    Nada um texto enxuto, objetivo e lógico, para iniciar o feriadão. Parabéns Ayrton. A direçao da rbs e a editoria da zh deveria lê-lo.

    [Reply]

    Sílvio Freitas Reply:

    faltou “como” Nada como…

    [Reply]

  5. #5 Jeferson
    on Oct 31st, 2009 at 1:29 pm

    Também os comentários no site da Zero Hora são bastante autoritários, preconceituosos, grosseiros, estúpidos, muitas vezes inacreditáveis. Mas, não vamos olhar apenas para a direita: muitas vezes diversos bondosos esquerdistas nesse blog postam comentários preconceituosos e grosseiros, escritos a partir de um ponto de vista que não coloca em dúvida seus próprios argumentos. Há que se tomar cuidado: os discursos intolerantes acabam legitimando ações intolerantes.

    [Reply]

  6. #6 Néia
    on Oct 31st, 2009 at 3:07 pm

    Muito bom! É uma mirada bastante interessante. Parabéns Ayrton!

    [Reply]

  7. #7 Blergh
    on Oct 31st, 2009 at 4:59 pm

    Bingo! A médio prazo vão se dar conta do grande tiro no pé… De BAZUCA!

    [Reply]

  8. #8 marcos
    on Oct 31st, 2009 at 9:56 pm

    A rede fala dos seus, pelos seus e para os seus ! Fora disto, não pauta opinião nenhuma, a não ser àquela dos de sempre; ou seja, quando a moça liga para oferecer assinatura, é divertido ouvir os argumentos de que eles falam para todos, que são democráticos, plurais, etc….Estão sentindo a queda nas vendas de jornal mas se mantém pela publicidade oficial e anunciantes . Até quando ?

    [Reply]

  9. #9 Teresinha Carpes
    on Oct 31st, 2009 at 11:09 pm

    Estou enojada até do Lauro Quadros,êle esta se saindo pior,do os seus colegas!As enquetes dele,é uma veradeira armadilha,contra todo o PT e entre os Petistas,o querido Presidente Lula,o mair e melhor Presidente de todos os tempos!!!!

    [Reply]

  10. #10 Haroldo
    on Nov 1st, 2009 at 8:11 am

    Lamento ter que discordar do artigo e dizer o óbvio, mas é claro que ZH mira e acerta na MAIORIA da população do RS. Se fossem só 8%, não comporiam os gigantescos 1,5 milhão de leitores diários do jornal (número proporcionalmente altíssimo) nem teriam derrotado o PT duas eleições seguidas para eleger dois mediocres.

    [Reply]

  11. #11 Roberto
    on Nov 1st, 2009 at 2:20 pm

    A última vez que eu soube a tiragem da Zero Hora era em torno de 170 mil exemplares, não adianta forçar a barra e dizer que cada exemplar destes é lido por nove pessoas. Não creio nem mesmo que os 170 mil exemplares sejam lidos no todo, se pensarmos em quem compra por causa dos classificados no domingo e quem compra pq seu time ganhou o jogo da rodada do campeonato.
    Me lembro que começaram a falar em número de leitores quando o correio do povo começou a circular gratuitamente e depois cobrando valores baixos pela assinatura, não podiam mais usar o termo tiragem, então criaram um outro termo em que seus resultados não tem lógica, se um jornal tem maior tiragem e tamanho menor, tem muito mais chances de ser lido, já que eu leio meu exemplar em 30 minutos e depois mando adiante.
    Quanto ao Lauro Quadros ele é aquele que sempre procura um nicho de mercado, quando o PT cresceu e apareceu em Porto Alegre era óbvio que surgiria alguém que se colocasse em posição de angariar a simpatia dos tantos votos e dos tantos militantes que não encontravam voz na grande mídia.

    [Reply]

  12. #12 NILTON
    on Nov 1st, 2009 at 4:16 pm

    Excelente.

    [Reply]

  13. #13 mineiro
    on Nov 1st, 2009 at 4:46 pm

    a melhor coisa que o povo do rs pode fazer é parar de ler este lixo , assim nao estressa e nao fica alienado, e por tabela vamos acabar com a credibilidade dessa imprensa golpista , marron e nojenta. é so fazer isso e eles vao ficar doido.

    [Reply]

  14. #14 marli
    on Nov 2nd, 2009 at 9:53 pm

    precisamos retomar a campanha Zero Fora! eu faço isso todos os dias. Quando encontro alguém que compra essa porcaria mostro o quanto esse jornaleco é vagabundo. Já tive êxito em várias vezes.

    [Reply]

    claudia cardoso Reply:

    Bom saber, Marli, que tens êxito nas tuas intervenções! :-)
    Como originária do movimento Zero Fora, esses depoimentos alegram!

    [Reply]

  15. #15 Cristiane
    on Nov 6th, 2009 at 8:37 am

    Apesar de concordar com os comentaristas anteriores sobre o fato de que não são muitos os que se dispõem a comentar nas páginas de ZH - o que é um real alívio! -, esse tipo de manifestação nazi-fascista, jogado ao léu na internet, sempre me assusta.
    Especialmente pelo anonimato que os protege.
    Acho, como o Tarantino, em seu último filme, que eles deveriam trazer a suástica tatuada bem na testa, pra gente poder identificar de cara com quem está falando.
    E me assusta também o radicalismo desse povo, que detesta tudo que tenha a mínima relação com o Brasil: Nordeste, Rio de Janeiro, Copa do Mundo, Bolsa Família, Lula, etc.
    Parece que o RS, cada vez mais, se distancia do resto do Brasil. Inclusive nos horripilantes índices de desenvolvimento (ou sub?) da última década. O País inteiro cresce, sustenta uma economia que não dá espaço para a crise, enquanto o RS murcha, encolhe, fica pra trás, apegado a uma nostalgia besta que insiste em simplificar os problemas econômicos, políticos e morais do Estado numa ridícula oposição entre “chimangos X maragatos”, “gremistas X colorados”, “petistas X anti-petistas”.
    O pior é perceber que esta simplificação, por mais que seja estúpida, continua pautando os eleitores gaúchos nas sucessivas eleições, sempre plebiscitárias, sempre norteadas por falsos argumentos, e sempre divididas entre o bem e o mal. A cada ano representado por diferentes facções.
    Como gaúcha, esse quadro de deterioração da política local e de crescimento da direita - sim, porque eles já adquiriram novamente a coragem de manifestação pública, mesmo que pela internet, algo que pegava mal há 20 anos atrás, logo depois do fim da Ditadura - para mim é entristecedor.

    [Reply]

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