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“Não é mais possível pensar o desenvolvimento do RS desvinculado de um projeto de país”

O Brasil terá uma grande oportunidade em 2010 de discutir um projeto de longo prazo para o país. Será uma oportunidade singular no ciclo de 24 anos de redemocratização, pós-ditadura militar. Neste período, os momentos eleitorais foram contaminados por debates conjunturais determinados pelos sérios constrangimentos econômicos internos e externos vividos pelo país. Agora, estão dadas as condições para discutir o Brasil que queremos e não apenas questões conjunturais. A avaliação é de Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), que abriu hoje pela manhã, no Hotel Embaixador, o ciclo de seminários Diálogos RS – Para Pensar o Rio Grande do Sul, uma promoção do PT gaúcho e da Fundação Perseu Abramo.

Pochmann veio a Porto Alegre para falar sobre “Desenvolvimento regional e local, o desafio da sustentabilidade ambiental, dos sistemas locais de produção e do trabalho”. Ele iniciou sua intervenção contextualizando o tema no atual período histórico que vive o país. “É importante lembrar que o Brasil ainda não tem uma tradição democrática. Em 500 anos de história, não temos 50 anos de democracia”. No período da redemocratização, acrescentou, o debate sobre o modelo de desenvolvimento se deu com o Brasil numa situação muito enfraquecida e periférica em relação ao capitalismo central. “Hoje, queremos assumir uma condição de liderança no cenário global e não ser um mero replicador de políticas definidas no exterior. Não avançaremos na marcha da insensatez que caracteriza o atual modelo destruidor do meio ambiente”.

O presidente do IPEA apresentou três elementos para orientar esse debate:

1. Economia do Conhecimento: cerca de 70% dos postos de trabalho gerados atualmente já são de trabalho imaterial. Está em curso um crescimento dos ativos vinculados ao trabalho imaterial, onde as pessoas não têm horários nem locais fixos de atuação. É um novo tipo de riqueza que está surgindo.

2. Sustentabilidade ambiental: não podemos mais imaginar que o novo padrão de desenvolvimento se dará repetindo o passado. Esse debate precisa levar em conta as características próprias de cada um dos seis biomas brasileiros: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. E deve considerar também o processo de inovação tecnológica que altera profundamente nossa relação com o meio ambiente. Pochmann chamou a atenção ainda para a relação entre as mudanças climáticas e os impactos que já estamos assistindo quanto ao uso de recursos hídricos e à produção de alimentos. “A se manter a tendência atual de mudanças climáticas, em pouco tempo o café só poderá ser produzido no Rio Grande do Sul”, exemplificou.

3. Nova demografia: Em 2030, deveremos ser 207 milhões de brasileiros (um número menor do que as expectativas projetadas anos atrás). Em 2040, seguindo a tendência atual, seremos 205 milhões. Considerando essa diminuição, cabe perguntar: interessa ao Brasil conter a população? Estamos vivendo um processo de envelhecimento populacional e de queda na taxa de fecundidade. Em 1992, tínhamos 34% da população até 15 anos de idade. Em 2008, esse número caiu para 24% e, em 2030, deverá ser de apenas 12%. Além disso, presenciamos também uma nova revolução sexual, com um descolamento da reprodução do sexo. Com as novas técnicas de fecundação, não é mais necessário ter sexo para se ter filhos. Também constatamos hoje um aumento da expectativa de vida dos brasileiros que, em alguns anos, poderá se aproximar dos 100 anos. Já temos hoje cerca de 3 milhões de pessoas com mais de 80 anos no Brasil. Esses dados indicam que estamos passando por um processo de mudanças dramáticas nas famílias brasileiras, com importantes conseqüências econômicas, sociais, culturais e educacionais.

Pochmann considera esses elementos fundamentais para fazer o debate sobre desenvolvimento regional. E essa avaliação já aponta para uma de suas teses centrais a respeito do tema: não é mais possível que um Estado pense uma política de desenvolvimento local desvinculada da vertente nacional. A guerra fiscal, exemplificou, muito praticada no país nas últimas décadas, é uma equação de soma zero. “Isso não é projeto de país”. (continua)

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

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3 Comentários on ““Não é mais possível pensar o desenvolvimento do RS desvinculado de um projeto de país””

  1. #1 Guilherme
    on Nov 7th, 2009 at 8:42 pm

    Considero Marcio Pochmann um dos acadêmicos brasileiros, de elevada importância seja pela firmeza na defesa de suas teses seja pela disposição de participar do debate sobre o país.Diria incansável e determinado.
    Seu trabalho ganha maior importância quando reune a teoria e a praxis. Sem receio de se expor perante seus alunos e sociedade.
    Afora as qualidades descritas, Marcio Pochmann é filho legítimo do pampa.
    Se o Rio Grande do Sul ouvisse mais seus filhos, não estaria na condição que se encontra.

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  2. #2 claudia cardoso
    on Nov 8th, 2009 at 1:38 am

    A frase “não podemos ser governados pelos mortos” é a melhor definição para a possibilidade de criarmos projetos de estado que a nova conjuntura mundial exige da gente, que não nega as experiências do passado, mas busca superá-las na dinâmica da vida.

    Lamentei a ausência das mulheres e da juventude numa atividade como essa. E gostaria de ter ouvido mais o Porchman. A metodologia de ter comentaristas escolhidos anteriornente, no lugar das perguntas do público, pode ser prática do ponto de vista organizacional, mas se perdeu a oportunidade de participação do grupo, que proporcionaria mais tempo de fala por parte do painelista.

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  3. #3 Remindo Sauim
    on Nov 8th, 2009 at 8:56 pm

    Os americanos entraram nessa do trabalho imaterial, exportaram suas fábricas para México, Colômbia, China e outros países com salários mais baixos. O que aconteceu? Com o encolhimento da economia americana encolheram os trabalhos imateriais e os materiais estão no terceiro mundo. E esta outra das 500 corporações? Se quebrar uma com todo este poderio, quebram muitos países. Estas idéias são meio parecidas com as do Britto, que foi onde começou a derrocada do nosso Estado. A Globalização era uma maravilha, até que o dólar começou a valer menos. Nossos empresários a vinte anos transferem também nossos empregos para o Nordeste. Nada contra esta transferência, afinal Nordeste também é Brasil, mas todos estes empresários em algum momento foram alavancados com dinheiro público, e depois viraram as costas a quem os alimentou. A Yeda é só a cereja estragada nesta desgraça em que virou o Estado.

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