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Para onde vai Porto Alegre?

Quem visita as páginas dos jornais de Porto Alegre já deve ter notado a grande quantidade de propaganda sobre grandes empreendimentos imobiliários na cidade. Entre eles, destaque para os condomínios horizontais destinados a famílias de alta renda, que prometem conforto, contato com a natureza e um grau de segurança que indica que algo vai mal na cidade. A promessa de segurança inclui serviços particulares de proteção e muros que separarão os futuros habitantes das mazelas da capital. Enquanto isso, quem caminha por bairros nobres da cidade, depara-se com um número aparentemente crescente de moradores de rua. Uma das características das áreas próximas a supermercados é o grande número de pessoas pedindo algumas moedas, um quilo de arroz, um litro de leite, um pão que seja. A rotina desse mercado da pobreza já alcança um deprimente grau de naturalização.

Esses movimentos paradoxais – aumento do número de condomínios fechados e de moradores de rua – apontam para o aprofundamento de uma fratura social na cidade. Sintomaticamente, alguns dos raros debates que conseguem sensibilizar ao menos uma parte da população de Porto Alegre têm a ver com projetos imobiliários. A recente consulta popular sobre o Pontal do Estaleiro é um exemplo disso. A participação na consulta foi bastante baixa, o que indica que a maioria da população não parece muito preocupada com o destino da cidade. Os meios de comunicação da capital também expressam esse clima de alienação e individualismo. De um lado, faturam com a publicidade de grandes projetos imobiliários. De outro, ignoram o contraste entre o aumento dos condomínios de luxo fechados e de moradores de rua. Não há nenhuma relação entre esses dois fenômenos?

A propósito do atual padrão de desenvolvimento em Porto Alegre, o leitor Lucas deixa uma ótima sugestão de leitura. Trata-se do livro “Cidade de Muros – Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo” (Edusp), uma análise das relações entre criminalidade, medo e desrespeito aos direitos dos cidadãos e as transformações urbanas na capital paulista. As conclusões da autora podem ser reconhecidas na maioria das grandes cidades brasileiras:

“Nos últimos anos, o aumento dramático da violência na cidade e o fracasso da polícia e da justiça em combatê-la teve sérias conseqüências: a privatização da segurança, o apoio a ações ilegais e violentas da polícia e a reclusão de parte da sociedade em verdadeiros encraves fortificados. O resultado é a fragmentação do espaço público, a valorização da desigualdade e o incentivo ao preconceito em relação a certos grupos sociais”.

Vídeo/Youtube: Porto Alegre é demais! É mesmo?

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12 Comments on “Para onde vai Porto Alegre?”

  1. #1 Luís
    on Nov 16th, 2009 at 8:36 am

    É apenas mais um sinal destes tempos de “revival” individualista e falta de norte político. Mesmo que a moda atual seja a acomodação - travestida de cooptação ou, no extremo oposto, sectarismo - a necessidade continua sendo muita sabedoria e trabalho…

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  2. #2 Lucas
    on Nov 16th, 2009 at 10:25 am

    “Cidade de Muros”, de Tereza Caldeira. Tese de doutoramento da autora. Imperdível leitura para compreender a apropriação de zonas periféricas pelo capital, os conluios com a municipalidade, o uso da propaganda e a segregação urbana causada por isso. É sobre São Paulo, mas cabe em qualquer cidade. abs

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    Marco Aurélio Weissheimer Reply:

    Muito obrigado pela ótima sugestão de leitura, Lucas. abraço.

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  3. #3 Álvaro Magalhães
    on Nov 16th, 2009 at 10:41 am

    Este é um dos tantos dilemas que são processos globais e recaem sobre os governos locais. Ter área para expansão urbana é ótimo para Porto Alegre, bem como ter equipamentos para abrigar sem-teto sejam (o que explica a concentração deles em algumas áreas). Mas esta segregação espacial e social é mesmo dramática. E, como especialistas chamam a atenção, a falta de planejamento metropolitano no Brasil aliada a fluxos migratórios significativos - em especial para as cidades litorâneas (de maioria negra) e Brasília - são elementos explosivos. A sorte nossa é que a população de Porto Alegre quase não cresce, ao contrário do olho grande sobre terras públicas da cidade, em especial da orla.

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  4. #4 Fernando
    on Nov 16th, 2009 at 11:03 am

    Primeiramente uma observação econômica. As pessoas, de todas as classes, estão aproveitando as facilidades de financiamentos para comprar imóveis que seriam proibitivos aos seus orçamentos até alguns anos atrás. Eu sou uma dessas pessoas, quando comprei o apartamento que moro ainda na planta em 2005, na Cid. Baixa. O Banco do Brasil, por exemplo, está financiando imóveis em condições extremamente favoráveis. Investir em imóveis e faturar com alugueis residenciais hoje não é mais o ótimo negócio de anos atrás. E o principal responsável pelo “boom” da construção civil, como pelo “boom” da venda de automóveis, é o governo federal. Pego o exemplo claro do que foi a redução do IPI, o que deixou as concessionárias de veículos abarrotadas de clientes.

    Agora uma observação filosófica. Li algo sobre “revival” individualista e “falta de norte político”. A vida do cidadão médio não tem norte político, a vida do cidadão médio é apolítica. Ela é política na revindicação, na observação, nunca na prática. Nenhum cidadão médio que tenha condições de fazer um investimento num imóvel, ou comprar um carro novo, ou fazer uma viagem deixa de faze-lo por posição política. A nova classe média que surgiu é quem mais gasta atualmente, se beneficiando de impostos reduzidos e quase indiferente aos juros altos. Essa pregação de “norte político” no cotidiano das pessoas é muito perigosa, pois flerta com o totalitarismo. A liberdade pressupõe direitos individuais amplos, desde que não prejudiquem os direitos da coletividade. É um direito inalienável do cidadão ser indiferente, consumista, materialista e até egoísta. Essa mesma liberdade que o protege, é a que permite que ele seja passivel de crítica, mas não sem perder a noção que julgar alguém por seus valores é algo muito preconceituoso.

    E parto da tese que o melhor é sempre o consumo. O consumo gera imposto, renda, emprego, faz a economia girar. Muito pior é pegar o dinheiro e simplesmente especular com ele no mercado, não gerando nada. Lembro da eterna crise do Japão com a “deflação”, onde o culto ao estoicismo engessou a economia japonesa que cada vez perde mais espaço para a vigorosa economia chinesa.

    Essa idéia que para se ser de esquerda é preciso viajar só para Cuba, Coréia do Norte e andar de ônibus me irrita profundamente. Ja contei aqui antes as dezenas de piadinhas que sou vítima, “tu é vermelinho Veuve Cliquot”, “comunista de Ecosport” e por aí vai. As piadas eu dou risada junto, mas vejo que esse preconceito é mais visível entre as próprias pessoas ditas de esquerda, do que nos engraçadinhos do Instituto Liberdade. Grã-finos que adoram TV a cabo pirateada.

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    Marco Aurélio Weissheimer Reply:

    Fernando, teu comentário afirma: “A liberdade pressupõe direitos individuais amplos, desde que não prejudiquem os direitos da coletividade”.

    E logo em seguida:

    “É um direito inalienável do cidadão ser indiferente, consumista, materialista e até egoísta”.

    Dadas essas duas afirmações, pergunto: é razoável pensar que a indiferença, o consumismo, o materialismo e o egoísmo podem prejudicar os direitos da coletividade???

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    Fernando Reply:

    Acho que ser egoísta, materialista e consumista é uma decisão de foro íntimo da pessoa. Se estes são os valores em que sua vida é regida, foi uma opção dela. Se para essa pessoa não são valores pobres e fracos, só nos resta respeitarmos a decisão soberana de alguém sobre sua vida. Sempre tendo o direito de crítica, mas nunca o direito de rotular, excluir ou patrulhar alguém por uma opção de vida. Quantos conservadores mantidos em formol berram contra a união civil dos homossexuais, como se eles tivessem algum direito de intervir na opção sexual e familiar de qualquer pessoa. De julgar o que é melhor ou pior para a visão deles de sociedade.

    Se alguém opta por morar em um condomínio fechado, é uma decisão dela, uma alternativa dela para sua existência. Eu posso achar chatíssimo morar num condomínio desses, alguém pode achar socialmente injusto e um terceiro achar o máximo.

    Eu tenho o direito de produzir todo lixo que eu achar necessário para a minha vida. Tenho a consciência de separar o seco do orgânico, mas não tenho o direito de pegar o meu lixo e despeja-lo no meio da Rua Luis Afonso. A coletividade não tem obrigação de viver em meio ao lixo que eu produzo e desepejo no meio da rua.

    O pecado mortal da esquerda é esse maldito flerte com o totalitarismo, como se até a opção de moradia de alguém tenha que ter um significado político. Não quero viver na sociedade de 1984, de George Orwell.

    [Reply]

    Heitor Reply:

    Fernando, levantar as causas dos problemas urbanos não é flertar com o totalitarismo. Os parisienses já sabem muito bem o mal que faz criar guetos para os imigrantes. E os londrinos agora estão descobrindo o que a desigualdade faz sumir a classe média do centro; ficam os muito ricos e os muito pobres.

    O gaúcho, que é muito afeito a suas tradições, também fica bastante combativo quanto confrontado com as conseqüências de suas ações. Se os muros estão tornando a cidade menos humana e mais propícia para a violência, qual o problema em levantar a questão?

    Se os gaúchos concluirem que querem manter tudo como está, que pelo menos o façam com informação. Que saibam quais são as consequências. Negar a informação e o debate é que é totalitarismo.

    Eu tenho que tirar do meu bolso dinheiro para a manutenção de portões, cercas elétricas, muros, guardas, etc. E no fim, isso tudo de pouco serve. Seria muito mais interessante que o dinheiro fosse usado para melhorar a cidade.

    Eu é que vivo sob o totalitarismo de um povo egoísta e inconsequente.

  5. #5 Lucrecyus
    on Nov 16th, 2009 at 11:38 am

    A quantidade de pessoas “morando” nas ruas de Porto Alegre realmente está cada vez maior e isso é perceptível para quem volta a capital depois de passar um tempo fora. O espaço urbano em Porto Alegre é muito caro e está cada vez mais nas mãos das grandes construtoras, é só olhar a zona sul e ver que os terrenos estão sendo adquiridos por empresas e a prefeitura perde a possibilidade de atrair investimentos. É o desmanche do espaço público.

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  6. #6 reolc
    on Nov 16th, 2009 at 1:16 pm

    Polícia Civil indicia oito por campanha contra Yeda

    http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u653047.shtml

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  7. #7 Remindo Sauim
    on Nov 16th, 2009 at 1:56 pm

    Duas coisas com que não esquento a cabeça são, o furor imobiliário e o aumento do número de carros nas ruas. O povo, a quem devemos servir e ouvir, quer é morar e ter seu carrinho. Agora, podiamos aproveitar a fase boa por que passam as construtoras e fazer uma lei: para cada 50 metro quadrado construído, as construtoras deviam construir mais 5 metros quadrados de habitação popular. Os quais seriam livres de impostos. Os projetos seriam doados pela prefeitura e poderiam ser erguidos em terrenos da própria prefeitura.

    [Reply]

  8. #8 Neli
    on Nov 16th, 2009 at 8:14 pm

    Quando, os cidadãos se transformam em meros consumidores e na falta de espírito público, passaram a eleger uma governança local, totalmente voltada para interesses mercadológicos. Como consequencia temos uma Porto Alegre por demais abandonada. Uma amostra é a Rua Angelo Crivellaro e no entorno, onde os resíduos da última chuva, lixo e barro, estão a impedir o livre deslocamento dos transeuntes. Além, da instituição de lixões, quer faça chuva ou faça sol, lá estão eles! Além, das calçadas esburacadas! Além, das ruas com sinais de transito apagadas! Além, da linha de onibus sucateada!
    Espero que para a próxima eleição para prefeito e governo de estado se apresentem candidatos estadistas e não apenas peças publicitárias.

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