Por Cristóvão Feil, do Diário Gauche
Na quinta-feira passada, na hora da tormenta destruidora, me refugiei num porão. Explico: no subsolo da Fundação de Economia e Estatística (FEE) funciona o auditório da mesma. Fui assistir às palestras de dois estudiosos do Rio Grande do Sul: os economistas Pedro Cezar Dutra Fonseca e Luiz Roberto Pecoits Targa. Não perdi o meu tempo. O tema da conversa foi “República, Revolução Burguesa e Desenvolvimentismo: o Rio Grande do Sul e o Brasil antes e depois de 1930″.
Os dois autores sustentam – no que eu concordo inteiramente – que no Rio Grande do Sul estava a vanguarda do processo de modernização do Brasil a partir de 1930. A revolução burguesa ocorreu no RS, em termos clássicos, e serviu de “laboratório” para que depois Getúlio Vargas propiciasse as condições objetivas e subjetivas para a modernização brasileira. O castilhismo-borgismo, tripulando o ideário comtista-positivista, promove a revolução no Sul, varrendo do poder os interesses pequenos e atrasados do regime agropastorial de exportação, configurado no modelo de exploração do latifúndio da Campanha sul-rio-grandense, subordinado ao circuito de mercado internacional sem nenhum dinamismo e – pior – decadente.
Implantam um regime republicano, autoritário e de intenso fomento à diversificação da base produtiva, bem como a estratificação das classes sociais. Gravam de impostos o latifúndio, estimulam a pequena propriedade, a indústria, o comércio de mercadorias, seja através da encampação das ferrovias (em mãos de belgas e norte-americanos), a criação do porto de Rio Grande, a criação do Banrisul (levado a efeito por Vargas em 1928), o reconhecimento dos direitos dos trabalhadores, especialmente depois das greves de 1917, quando Borges negocia com os grevistas e admite as suas reivindicações.
A experiência sulina inspira Vargas a partir de 1930. O país se institucionaliza, reconhece direitos civis e trabalhistas, se industrializa e cresce muito. Da década de 1930 até a década de 1980, num longo ciclo virtuoso de desenvolvimentismo, o Brasil é o país que mais cresce no mundo. Os dados comprovam. A política delfiniana, influentes fatores internacionais e o início da financeirização da vida social – nas décadas de 80 e 90 – interrompem a corrida produtivista brasileira. A partir do segundo governo Lula, esse ciclo volta – lentamente – a ser retomado, mas ainda não se poderia afirmar – dizem os palestrantes – de forma segura, que estamos experimentando um novo desenvolvimentismo no Brasil.
Já o Rio Grande do Sul – eles não disseram, digo-o eu – nunca mais teve uma elite política capaz de criar condições históricas para modificar o curso dos acontecimentos e colocar a região no ciclo virtuoso do desenvolvimento sustentável, sem autoritarismo, democrático, participativo e que possa servir – novamente – de modelo para o país.
Com o yedismo de fracassos, parece que milhares de corvos edgar-alan-poetas nos espreitam do alto do Piratini e num coro sombrio, compassado e cavo repetem à náusea:
- Nunca mais! Nunca mais! Nunca mais!
P.S: O debate político-eleitoral de 2010 no RS – se houver debate político ano que vem – deve, a meu modesto juízo, incorporar essa questão, a saber: o que houve com o estado nestes últimos governos que não consegue mais ser modelo para nada, a não ser para a vergonha e o opróbrio de seus governantes e líderes regionais?
P.S. do P.S: o pensamento acadêmico brasileiro – hegemonizado pelos intelecas da USP – nunca admitiram essas verdades proferidas por Fonseca/Targa. O sociólogo Fernando Henrique Cardoso – só para ilustrar com exemplo singular – estudou o escravagismo no RS, objeto de sua tese, e jamais se deu conta de que aqui houve o desdobramento de um processo de revolução burguesa. Salvo Alfredo Bosi (in “Dialética da Colonização”) se ignora autor fora do RS que tenha reconhecido valor revolucionário no castilhismo-borgismo sul-rio-grandense.

on Nov 24th, 2009 at 12:00 pm
Bravo, Cristóvão, bravíssimo. Só um reparo: o ciclo de crescimento de 30 a 80 pode ter sido virtuoso, quanto a um aspecto, mas o grau de desigualdade gerado nesse período não me parece virtuoso, pelo menos no restante do país. A desigualdade não foi invenção de Delfim, embora tenha por ele e pela ditadura fortemente aprofundados.
on Nov 24th, 2009 at 2:10 pm
Katarina, os economista ortodoxos chamam de ciclo virtuoso ao período de crescimento econômico. A variável “menos desigualdade” não é considerada. Há crescimento, logo é virtuoso. Ponto.
Vc. está certíssima. Mas os ortodoxos de Chicago e do pensamento austríaco não consideram a dimensão da justiça social.
Abç.
CF