Coluna de Juremir Machado da Silva, publicada hoje no Correio do Povo:
Tempo de matar cavalos
Meu avô era um sábio analfabeto. Certas coisas ele não compreendia: as mulheres que via na televisão bronzeando-se ao sol do meio-dia e homens cansando cavalos inutilmente. Antes de os cientistas darem o alerta ele já conhecia os perigos do sol para a pele dos humanos e para o fôlegos dos animais. Meu pai seguia a mesma lei: no verão, não se encilhava cavalo das 11 horas da manhã até quatro e meia da tarde. Salvo extrema necessidade. Por isso, levantavam muito cedo. As principais lides campeiras tinham de ser feitas antes de o sol ganhar o alto do céu. Andar a cavalo sem necessidade no calor era para eles coisa de gente da cidade. Pior do que isso, era algo condenável. Bárbaro.
As notícias de que dois cavalos morreram na tal cavalgada do mar horrorizariam meu avô e meu pai. Eles adoravam cavalos. Cuidavam deles com muito carinho. Veriam nessa exibição de cavaleiros urbanos, num dos verões mais quentes dos últimos tempos, um exibicionismo despropositado, uma falta de conhecimento escandalosa e uma maldade intolerável com os bichos. Para quê? Mais espantoso é o lema da brincadeira deste ano: “mulheres a cavalo pelo Rio Grande”. Um gaúcho verdadeiro, da campanha, diria com algum deboche: parem com isso, soltem os cavalos pelo Rio Grande. Com um solaço desses só há uma coisa a fazer: ficar mateando ou sesteando embaixo de um cinamomo. O resto é frescura de gente maturranga.
A secretária da Cultura, Mônica Leal, está contribuindo para maltratar cavalos na beira do mar. Ela é entusiasta desse tipo de ação cultural. Enquanto ela ajuda a estafar cavalos, sentindo-se uma nova Anita, a cultura do Rio Grande do Sul estrebucha. A sala de cinema Norberto Lubisco foi fechada. Tem cinema no shopping. Voltaire Schilling, um dos nossos intelectuais mais brilhantes e tradicionais, foi demitido da direção do Memorial do Rio Grande do Sul. Parece que ele não tinha o que conversar com a chefe. Afinal, não é de andar a cavalo na praia com sol quente. A casa está caindo, os cavalos morrendo, o circo pegando fogo. Mas a secretária Mônica Leal está firme na montaria. Sempre. Ela é dura na queda. Corresponde a todos os clichês imagináveis.
Agora, entre nós, há sem dúvida um ponto obscuro, um elemento que exige investigação séria: por que mesmo Mônica Leal tornou-se secretária da Cultura? É um tempo estranho este. Quando não há mais necessidade alguma de movimento, todos querem se deslocar. Especialmente pelos meios mais anacrônicos. Pode haver algo mais excitante do que permanecer no lombo de um cavalo, com o sol a pino, até o bicho morrer? Tudo isso em nome da tradição! Os franceses do século XVIII usavam perucas empoadas. O Ministério da Cultura da França devia lutar pela recuperação dessa tradição eliminada pela modernidade. Vou comprar um cavalo para matar na próxima cavalgada.

on Feb 25th, 2010 at 9:26 am
Proponho que a bruaca seja encilhada e caminhe de Cidreira a Capão da Canoa, , sem celular, levando a tradição do Rio Grande no peito. Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra…..
on Feb 25th, 2010 at 9:40 am
Um rapaz, aqui no blog, falou das barbaridades cometidas nestas Cavalgadas do Mar.
Esta (indi)gestão estadual levou ao top list da Cultura do RS, estas manifestações arcaicas e, por que não dizer, desumanas.
Parece que a única entrada possível são as portas dos CTG. Onde está a divulgação dos curtas gaúchos, dos jovens escritores pelo IEL, do teatro questionador e artes afins?
Juremir faz bem em denunciar, é um jornalista que respeito.
A mim me resta rezar para que este (des)governo termine seus dias e seja uma página virada na História do RS.
Rick
on Feb 25th, 2010 at 9:55 am
Esse R(b)S tá mesmo perdido com essa gente. Primeiro mandam uma equipe para Ijuí para combater a epidemia de Dengue, com 6 ou 7 veículos, e quando chegam lá constatam que o inseticida estava com a validade vencida. A explicação é que tinha sido comprado par o surto de 2007 e não foi usado. É sinal de que aqui só se combate os focos de mosquito quando tem doença. Provavelmente o tal de DEFICIT ZERO determinou que não se fizesse prevenção em 2008. Depois a Abelha Abobalhada publica uma matéria sob um suposto escândalo envolvendo o Zé Dirceu e no mesmo dia todos os jornais do centro do país viram que foi uma notícia fabricada. Mas a abelhaca mal intencionada e mandalete não é capaz de se retratar. E hoje o abobado mor da página 3 foi se desculpar com essa estória da cavalgada do mar e das bostas de cavalo mandando chamar o Lula para tirra o povo da merda. É por causa dessa gente que se criam as Yedas e os Fogaças. Aqui os mediocres mal intencionados viram estrelas das páginas de jornais e programas de televisão. Capachildos do chefe.
on Feb 25th, 2010 at 10:02 am
Maravilhoso o artigo do Juremir, disse tudo!
Vivemos no RS sob a ideologia do gauchismo, os gaúchos modernos, muitos mauricinhos, herdaram terras mas não a dignidade do verdadeiro homem do campo.
Essa turma é aquela que fica “monitorando” o movimento dos sem terra de suas ricas caminhonetes cabine-dupla, cara de bundão desocupado preocupado com uma massa de famintos que ameaça à sagrada propriedade.
Respeitar a natureza e os animais é para qualquer gaúcho de verdade uma obrigação, um dever “cívico” com o pago e com seus habitantes.
Vivemos dias tristes no RS.
Cumprimentos!
on Feb 25th, 2010 at 10:22 am
Contrariando em parte o Nei Lisboa em suas críticas a cultura “gaudérica”, pois gosto da “grossaiada” do Mano Lima, Pedro Ortaça e das preciosidades do Jaime Caetano Braum, concordo, contudo ,no geral sobre a estupidez do gauderismo das SUW 4X4 tunadas e de cabine dupla, que tem a cara do autoritarismo dos homens da casa grande, que devem quase tudo ao Banco do Brasil e nunca pagam. Agora deram pra matar cavalos.Que beleza. A peonada bem que “perciza” dos matungo pra campereá , já os “lanudo” do latifúndio só andam nas “nave” japonesa, porisso quando cavalgam pra mídia maltratam seus manga-larga.
on Feb 25th, 2010 at 10:37 am
Com relação à Mônica Leal, tudo faz sentido: “é uma cavalgadura montando em outra”!
on Feb 25th, 2010 at 10:46 am
Sonhar não custa nada: para tirar o RS da merda, como quer o Túlio, só se o Lula concorresse ao Governo do Estado.
on Feb 25th, 2010 at 10:54 am
O Sr. Tulio Milman é insuperável.Sobrou para o Lula a história da cavalgada´”É hora de cobrar promessas antigas”.É o maior jornalista chapa-branca da atualidade.Este trofeu ninguem tira do Milman.No auge dos escandalos do Detran quando gravações eram mostradas todos os dias, o jornalista com cara de mocinho dizia todos : ” Não tem nenhuma gravação com a VOZ DA YEDA”.Diversos assessores diretos apareciam nos audios….mas “NÃO TINHA A VOZ DA YEDA”.Ele é uma mistura de José Barrionuevo com Rosane de Oliveira>não é jornalista político solta farpas sobre politicos do PT.Não é jornalista esportivo e vive dando pitaco nos futebol.Se a internet ficar fora do ar uma semana, este tal iforme especial sai do ar.
on Feb 25th, 2010 at 11:02 am
Nunca é demais lembrar: Monica Leal foi indicada unica e exclusivamente por ser amiga da governadora – segunda a própria.
Aliás, foi hilária a entrevista dada por Monica no programa Frente a Frente, da Ivete Brandalise, logo que saiu a sua indicação. Quando a Ivete lhe perguntou “o que lhe dava tesão”, ela disse: “Ai, Ivete… Eu sou uma mulher casada, católica praticamente, mãe…”. Aí Ivete teve que explicitar para a mula a conotação de “tesão”…
on Feb 25th, 2010 at 12:26 pm
Se esta gente trata assim o “melhor amigo do gaúcho”, imaginem como devem tratar os que não lhes são próximos. O Rio Grande que o diga. Quanto aos cavalos, não é por acaso que músicas com preciosidades como “gosto de fazer um potro se cortar nas minhas chilenas” ou “mulher prá mim é como redomão / maneador nas patas e pelego na cara” fazem o maior sucesso no meio tradicionalista, onde parece não serem muito bem vindos nem o cavalo nem a mulher.
on Feb 25th, 2010 at 1:19 pm
Esse Tulio Milman é o “Mauricinho Abobalhado” não tem massa cinzenta, só divulga abobrinhas que coleta da internet pensando que agrada e é original, não tem o menor espirito critico e segue rigorosamente os manuais da RBS, chega a encher o saco te tão vazilina.
on Feb 25th, 2010 at 2:05 pm
O texto do Juremir é excelente. Colocou esses gaúchosboys nos seus devidos lugares. O problema é levaremos gerações para (se…) livrarmo-nos desses verdadeiros pangarés de bombachas. Incrível a falta de reflexão dos “rio grandenses” acerca desse gauchismo estrábico e fundamentalista.
on Feb 25th, 2010 at 2:31 pm
Esses acontecimentos já não me causam tanta surpresa, aqui em Caxias, a prefeitura, diga-se Sartori, estão cortando o pouco de mata que ainda existe na área urbana: Na calada da noite desmataram uma área grande dentro dos pavilhões da Festa da Uva, só para fazer um parque de rodeios e agradar os “tradicionalistas” (que não querem sair do centro), e assim ganhar alguns votinhos. E ainda tivemos que aguentar os comentários babacas do tradicionalista vice-prefeito Alceu Barbosa, que meia dúzia de árvores não iam prejudicar os passárinhos. E a dita “opinião pública” ficou caladinha.
Essa ditadura do tradicionalismo, que sufoca e engessa a cultura do Rio Grande Sul, como se essa fosse a única. Confundindo história, folclore com tradicionalismo. Estão encustrado em tudo que orgão público.
Viva o esta laico!
on Feb 25th, 2010 at 2:35 pm
Pequena correção: Viva o estado laico!
on Feb 25th, 2010 at 2:40 pm
Alguém já reparou quem são os patrocinadores da tal “Cavalgada do Mar”? Pois são a CEEE, Banrisul, Sulgás, Governo do Estado do RS, etc, todos entes públicos. O convescote, portanto, ainda é financiado pelo contribuinte gaúcho, aquele mesmo que se julga o mais politizado do Brasil e adora o Túlio Millmann!!!
on Feb 25th, 2010 at 3:00 pm
Muito bom este texto mesmo! E também lembrando a polêmica entrevista que Nei Lisboa concedeu ao guasco jornaleco ZH, agora em janeiro… é para fazer o gaúcho refletir sobre o seu tradicionalismo.
O tradicionalismo gaúcho é muito exacerbado, beira o exagero em suas músicas, sempre cultuando uma guerra farrapa (mortes), a submissão da mulher e um machismo ridículo! Nos dias de hoje este tipo de pensamento é, no mínimo, ultrapassado e preconceituoso que precisa ser revisto!
Vivemos tempos nebulosos no Rio Grande!!!
on Feb 25th, 2010 at 3:47 pm
É muita coragem para fazer!
on Feb 25th, 2010 at 3:50 pm
Cortar árvores não prejudica os passarinhos porque já colocaram os bichinhos na panela!
on Feb 25th, 2010 at 3:51 pm
Lí a página do Túlio Maravilha, conforme apontado pelos comentaristas. Que chacrinha! Lá o ladrão não rouba, a polícia não prende, o rato mia e o gato late. Quanta meiguice. Até me assustei com a qualidade estatística de seus escritos que nunca havia lido. Vou deixar assim, se mexer, fede. Vou começar a catar coco de cachorro com a página três, fará um bem para o ego dele.
on Feb 25th, 2010 at 4:30 pm
Vejam só, ela ainda tem um blog para disseminar a cultura.Hahahahahahahah
http://monicalealrs.blogspot.com/2010/02/qualificacao-da-cinemateca-paulo-amorim.html
on Feb 25th, 2010 at 4:38 pm
Gente, que fim levou a Califórnia da Canção Nativa? Ali apareciam belas composições e a tradição era o respeito a vida , ao trabalho e às pessoas de bem, quem não conhece que procure e disponibilize aos mais jovens. God, eu era feliz e não sabia…
on Feb 25th, 2010 at 4:48 pm
No blog desta pessoa tem mais link relacionado com Israel do que os ligados a cultura gaúcha…
on Feb 25th, 2010 at 10:28 pm
Õ Marcelo (10.37 am), favor néh, respeite os cavalos!!! Não os compare com essa besta da Monica Leal. Isto é ofensa das grandes!Cavalo tem dignidade.
Maria Hein
on Feb 26th, 2010 at 8:00 am
Pérola mesmo é o comenetário do presidente da Fundação Cultural – CULTURAL, ouviram, CULTURAL – Cavalgada do Mar: “Cavalo é que nem mulher, se a gente não trata bem leva guampa”. Acho que ele não deve generalizar, que circunscreva o seu entendimento aos limites da sua propriedade familiar.
on Feb 26th, 2010 at 9:19 am
Será que a gente pode comprar também um(a) governador(a) para matar na próxima cavalgada?
on Feb 26th, 2010 at 10:44 am
Sabe, pessoal, há horas que venho cismando com essa “cavalgada”. Então, aqui na minha casinha em Capão, passei a me reunir com os meus vizinhos para observar a passagem dos milhares de cavalos à beira-mar. Já vi 3 vezes, e a partir da segunda vez comecei a contar os cavalos. Foi ano passado, e havia 720 cavalos. Umas 3 ou 4 carroças, mais ou menos com umas 4 pessoas cada. Quando passou, fiquei esperando o resto. E fiquei, e fiquei, e nada. Hoje, dia 25 de fevereiro, contei novamente. Havia 530 cavalos e 3 ou 4 carroças. Ou seja, diminuiu. Meus vizinhos ficaram pasmos. Quinhentos cavalos é 1/8 do que está sendo alardeado pela imprensa. O “líder” dessa empreitada declarou que este ano havia 4 mil cavaleiros, e que esse evento já era o segundo maior do estado.
Estou esperando a passagem dos restantes 3.500 cavalos até agora.
Bem feito, quem manda acreditar em uma imprensa vendida que tem interesses escusos até na previsão do tempo?
on Feb 26th, 2010 at 10:10 pm
E agora, que moral os gaúchos tem para falar daquela importante tradição do povo catarinense, “Farra do boi”.
O tradicionalismo guasca criou a farra do cavalo!
on Feb 26th, 2010 at 10:28 pm
Já tinha lido o texto do Juremir no Correio do Povo. Tá muito bom! A jumenta não achou nada mais importante pra fazer depois que foi ridicularizada com sua primeira proposta “cultural” para o RS: fazer bailes de debutantes… é trágico, ridículo, deprimente, ver a cultura nas mãos de criatura tão ignorante. O RS vive tempo de trevas.