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Chicago, RS


Sátiro-Hupper

Adão Paiani (*)

Longe do Rio Grande, a notícia da execução do Secretário de Saúde de Porto Alegre, ex-Vice Prefeito da capital dos gaúchos, Eliseu Santos, choca, mas não surpreende. É somente mais um episódio de uma saga que vem assolando o Estado de forma avassaladora; em especial nos últimos quatro anos. Um desdobramento natural de tudo aquilo que temos presenciado e que muitos têm procurado alertar às cabeças ainda pensantes dessa terra, sem grande sucesso. Pelo menos por enquanto.

Uma coisa é certa: nunca, em momento algum da nossa história, os gaúchos puderam presenciar situações tão desavergonhadamente explícitas de banditismo político como as que vemos agora. Sejamos francos; ninguém, em sã consciência, pode ter a pretensão de encontrar, para o mais recente assassinato, outro motivo que não seja um acerto de contas típico de quadrilhas mafiosas; como as que assolavam Chicago, nos anos 30 do século passado. E a analogia não se resume a isso.

Vivemos um processo acelerado de degradação político-institucional que atacou as estruturas do Estado, através de uma quadrilha especializada e constituída empresarialmente para saquear os cofres públicos e que, consciente da impunidade, garantida pela extensa rede de relacionamento de seus agentes; hoje dá as cartas no Rio Grande. E não se preocupa mais em blefar.

Essa quadrilha, da qual fazem parte elementos facilmente identificados; onipresentes nas diferentes esferas de poder e em todos os episódios de sangria dos cofres públicos, denunciados nos últimos anos, têm a seu favor uma bem calculada morosidade na ação daqueles a quem caberia coibir esse tipo de prática.

Contam também com a apatia de parcela significativa da população, anestesiada por uma mídia cúmplice, que comprova seu grau de infiltração tentacular e invasiva. Uma verdadeira cleptocracia; com a qual poucos segmentos da sociedade riograndense não estão comprometidos. Essa é a realidade, a qual somente poderá ser superada na medida em que compreendermos seus mecanismos e, a partir daí, a combatermos.

As balas que vararam o corpo do Secretário da Saúde de Porto Alegre, na saída de uma Igreja, na frente de sua mulher e filha, são a versão cruenta de outras que tem atravessado, impunemente, o que resta da consciência cívica de um povo. Seja sob a forma de uma CPI da Corrupção, impedida de apurar denúncias graves de desvios de dinheiro público; na manutenção e prestigiamento, dentro da administração pública, de agentes notoriamente envolvidos com irregularidades e na impunidade generalizada observada em todas essas situações.

O crime da Rua Hoffmann somente se concebe num ambiente em que todos os limites foram ultrapassados. Onde se presencia a lentidão de uma Justiça em julgar e responsabilizar as aves de rapina do erário, que mesmo denunciados, continuam a flanar, solenes, tanto em cerimônias públicas quanto nas colunas sociais.

Onde dirigente de instituição financeira pública, apontado por irregularidades, aguarda o salvo conduto de uma indicação a vaga de Magistrado. Onde as estruturas da segurança pública são utilizadas com finalidades políticas, monitorando, perseguindo e coagindo tanto aliados de ocasião como adversários políticos. Onde as ações legislativas são pautadas pela cumplicidade com aqueles a quem deveria fiscalizar; e por uma covardia explícita, somente justificada pelo medo dos próprios pecados praticados.

Onde o dirigente máximo de Tribunal responsável por fiscalizar as contas do Estado, flagrado em conversas indecentemente comprometedoras, sai ileso para a aposentadoria. Onde membro do Legislativo, indicado ao mesmo Tribunal; mesmo tendo demonstrado tanto absoluta incapacidade técnica quanto falta de condições morais para tal, assume vaga de Consiglieri da mesma corte. Tutti in Famiglia.

Somente em um canto de mundo onde coisas assim sejam possíveis é que se admite o assassinato, em via pública de grande movimento, mesmo naquele horário, de uma autoridade. Somente a certeza absoluta de impunidade é capaz de justificar ato tão audacioso.

Às vésperas de um processo eleitoral, o que se espera, mais do que promessas vãs, típicas da politicagem tradicional, é quem vai ter a coragem suficiente de enfrentar e derrotar esse establishment criminoso e resgatar ao menos o pouco da vergonha que ainda nos resta. Sem o que, vamos continuar com a notória fanfarronice gaudéria, decantando nossas duvidosas virtudes, vestindo nossas pilchas esfarrapadas.

Ou encontramos alguém com coragem suficiente de ser nosso Eliot Ness, ou é melhor nos acostumarmos com execuções em via pública, restaurantes, barbearias. Como na Chicago de Al Capone.

(*) Advogado

21 Comentários on “Chicago, RS”

  1. #1 Francisco G.
    on Feb 27th, 2010 at 10:49 pm

    Ou isso, ou foi latrocínio mesmo…

  2. #2 Cloaca News
    on Feb 28th, 2010 at 12:11 am

    Parafraseando um velho capitão da indústria paulista: o Paiani é muito bom, apesar de ser demo.

  3. #3 elektrofossile
    on Feb 28th, 2010 at 12:56 am

    Com o “Embaixador” do RS em Brasília e com o Empresário de Fumageria, em Goiás, a Famiglia foi “repressiva”, preventiva ou vingativa. Com o Secretário da Saúde de PoA, a Famiglia, creio eu, foi didática: eles avisaram = ó, se vazar mais alguma coisa, dá nisso.

    O “Embaixador” estava por dar um depoimento à PF. Já o Secretário – conforme noticiou MW – deu depoimento e, imediatamente, foi fulminado. À queima roupa. Querem algo mais didático do que isso?

    Ou estou muito errado ?

  4. #4 mano
    on Feb 28th, 2010 at 1:02 am

    O bode expiatório sabe de todos os segredos e pecados da “comunidade”.É deixado à própria sorte, vagando pelo ermo deserto, jogado como uma oferenda às feras. Seu sacrifício liberta os demais de temores e pecados velados. Não sabem que o matará e não sentem remorsos. Apenas liberaram-no para aproveitar a vida bruta como ela é.

  5. #5 amauri
    on Feb 28th, 2010 at 6:03 am

    excelente texto Paiani ! E o que tu achas da situação de Flavio Vaz Neto?
    Dentro de pouco tempo completará 1000 dias do escandalo do DETRAN e até hoje a sindicancia da Procuradoria Geral do Estado não terminou.
    Ah! Tem mais!Alguma noticia da inspeção no Banrisul e Daer que o TCE faria depois da gravação Feijó-Busato?
    A imprensa daqui passou anos dizendo que eramos melhores que os demais Estado.Ridicularizavam os politicos Nordestinos.
    Hoje temos um ex-Presidente do TCE indiciado.2 ex-presidentes da AL Indiciados.Procurador de Estado indicado.vários deputados indiciados.
    Eu só faria um reparo no titulo.Colocaria MACEIO,RS.
    Desde a morte de Marcelo Cavalcanti que se “suicidou” eu tenho me lembrado muito do PC Farias.

  6. #6 Panoramix
    on Feb 28th, 2010 at 9:05 am

    Excelente artigo que pode perfeitamente ser colocado ao lado deste:

    “Os estágios do crime organizado no Estado”

    http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/02/28/os-estagios-do-crime-organizado-no-estado/#more-49850

    De onde pinço o seguinte:

    “4º Estágio.

    A corrupção é descoberta e está prestes a ser abortada no início da sua ação nefasta, mas o corrupto tem medo da ação dos poderes da polícia e da justiça. Ai o que acontece: o corrupto mata, assassina para impedir o avanço da limpeza que o vai pegar e , provavelmente, leva-lo para a cadeia. Esse é o estágio do RS e do assassinato do seu Secretário de Saúde. Vale notar que é no RS que isso acontece não por acaso: o RS já tinha passado por todos os estágios anteriores e, parafraseando o Barão de Itararé, de onde se espera tudo é de lá que vai sair tudo mesmo, inclusive o novo.
    Quantos estágios ainda vamos viver para termos um país mais honesto???”

  7. #7 Cristiane Bernardes
    on Feb 28th, 2010 at 10:36 am

    Realmente, a única figura que vem à cabeça depois disso é a de Al Capone.
    A bandidagem política no RS chegou ao limite do aceitável. Nem estão mais preocupados em enconder as maracutaias. Agora, começou a queima de arquivo.
    Mas não será supreendente se, daqui alguns meses, a Polícia Civil concluir que foi mesmo “latrocínio”. Nada mais me surpreende neste Estado.

  8. #8 G. de Fillippo
    on Feb 28th, 2010 at 11:08 am

    Cretinice a da ZH de hoje, como sempre: ‘Mistério da Rua Hoffman”.

    Mistério qual, cara pálida?

    Todos sabemos o que ocorre. O resto são detalhes, paisagens.

  9. #9 marcos
    on Feb 28th, 2010 at 11:09 am

    Não nos preocupemos, segundo Rosane de Oliveira e a RBS tudo segue calmo e normal na estância de são pedro !

  10. #10 Sueli-Porto Alegre
    on Feb 28th, 2010 at 11:41 am

    A Chicago dos anos 30 e a Camorra ainda existem aqui,mas só se dão conta quando sai na mídia.
    Existem em todos os “pontos” da capital !!!

    abraço no blog

  11. #11 Zé bRONQUINHA
    on Feb 28th, 2010 at 1:28 pm

    Um delegado afirma a grande possibilidade do secretário assassinado ter atirado primeiro. A viúva do secretário afirma em depoimento que os tais assassinos não avisaram que se tratava de assalto. Conclusão óbvia:O secretário que tinha motivos para andar armado reconheceu os assassinos e previu os acontecimentos e se antecipou. Como não era preparado para este tipo de embate tombou. Se deixar para apolícia cicil o inquérito será político e não vai dar em nada.

  12. #12 mineiro
    on Feb 28th, 2010 at 8:51 pm

    como que eles vai coibir , a justça faz parte tambem.

  13. #13 Flavio
    on Feb 28th, 2010 at 10:25 pm

    Vai dar em latrocínicio essa história! ;)

  14. #14 Ivo Moreno Neto
    on Feb 28th, 2010 at 11:40 pm

    Conversando com a minha irmã:
    - E morreu o Eliseu.
    - Quem? O Padilha?

  15. #15 Katarina Peixoto
    on Mar 1st, 2010 at 9:16 am

    Texto muito bom. De fato, o acontecimento do ápice do levante da direita gaúcha tem acumulado cadáveres produzidos via execução impune. Até agora são três, sendo que há a possibilidade de um quarto, cujo suicídio não foi esclarecido – e não é o rapaz afogado, sic, no Paranoá, não. Só anoto criticamente que não parece certo que a maioria dos “segmentos” da sociedade esteja imersa nesse banditismo. A maioria dos segmentos do stablishment do empobrecimento e brutalização gaúchos, sim. Mas esses, como se sabe, são sempre uma minoria…

  16. #16 Moses
    on Mar 1st, 2010 at 9:57 am

    O Satiro poderia ter dado o crédito sobre o logo do Liquida o Rio Grande.

  17. #17 Adão Paiani
    on Mar 1st, 2010 at 7:06 pm

    Caro Amauri;

    Situações como as que mencionas, de Vaz Neto, do Banrisul; e ainda de Ricardo Lied, Walna Vilarins, Marcelo Cavalcante; e outras que conhecemos bem; expõe claramente o grau de deterioração moral a que chegou o establishment guasca e a cumplicidade desses com o crime.

    Ou aproveitamos o ano eleitoral para apoiar quem esteja determinado a varrer essa corja do nosso meio ou vamos todos sucumbir.

    Isso deve superar toda e qualquer diferença ideológica e unir as pessoas decentes dessa terra.

    Abraço,

    Paiani

  18. #18 Adão Paiani
    on Mar 1st, 2010 at 7:08 pm

    Grato, Cloaca. Entendo isso como o elogio dentro do possível.

    Abraço!

    Paiani

  19. #19 Adão Paiani
    on Mar 1st, 2010 at 7:14 pm

    Grato, Katarina, pela análise do texto.

    Os segmentos a que me refiro são justamente aqueles majoritária e historicamente comprometidos com o erro, a miséria, o atraso e, agora, com os crimes de uma cleptocracia que insiste em nos dominar, amparados pela omissão e indiferença.

    Abraço!

    Paiani

  20. #20 Cloaca News
    on Mar 1st, 2010 at 9:54 pm

    Caro Paiani: temos uma ENORME admiração pela sua integridade e pela maneira brilhante como expõe suas ideias. E, também, pela sua elegância.

  21. #21 Carlos Ribeiro
    on Jun 13th, 2010 at 6:53 pm

    O texto é brilhante. Acredito que não apenas Porto Alegre esteja atravessando esta era de trevas, mas vejo que este quadro de criminalização da política esteja se popularizando em Porto Alegre.

    Situações semelhantes já aconteciam há muitos anos em outros lugares do Brasil, e tendo em vista a banalização da impunidade, os “capones” estejam se sentindo mais à vontade para agir. Apenas isso.

    Trata-se da volta do coronelismo, tão arraigado na cultura latino-americana. Coronelismo esse praticado sem rodeios tanto pela “esquerda” quanto pela “direita”.

    Abraços.

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