Paulo Muzell
Os dois lamentáveis acidentes ocorridos há poucos dias em Porto Alegre – o do estudante eletrocutado numa parada de ônibus e o do motoqueiro vítima de uma obra viária mal sinalizada – suscitaram, como não poderia deixar de ser, justificada indignação da população e, a seguir, um acirrado debate na mídia e na opinião pública sobre causas e responsabilidades. O prefeito que recém assumira começou muito mal: deu uma primeira entrevista sobre o episódio “parada de ônibus” e foi em seguida desmentido pelo seu secretário de Transportes que apresentou uma outra versão do fato. Começou um jogo de empurra-empurra CEEE-Prefeitura em torno de competências. O prefeito errou novamente: inocentou seu secretário – na verdade maior o responsável pelas ações da Prefeitura no setor,- botando a culpa nos funcionários de carreira, que teriam se omitido no diagnóstico e nas ações corretivas não tomadas. Fácil, o chefe “lava as mãos” e a culpa é de um anônimo, o cara lá da “ponta“, do quinto escalão, que teria se omitido e que deve ser punido. Depois, embora tardiamente, Fortunati se deu conta, voltou atrás, assumiu os erros e responsabilidades.
Na verdade estes e outros lamentáveis episódios ocorridos ou que venham a ocorrer na cidade são conseqüência de um evidente abandono de que é vítima Porto Alegre nesse obscuro período Fogaça/Fortunati. Se olharmos com atenção os anuários estatísticos da Prefeitura dos últimos anos, veremos que há flagrante redução no número de servidores concursados ativos e um despropositado crescimento do número de estagiários e de CCs, os cargos de confiança. Só nos primeiros quatro anos (o último anuário é de dezembro de 2008) o número de funcionários diminuiu em 1.300, o de CCs cresceu 80% e o de estagiários praticamente duplicou, são hoje mais de 3.200 nas Secretarias e autarquias, caracterizando um processo de aparelhamento e desprofissionalização do serviço público municipal. A coleta de lixo diminuiu, idem os serviços de varrição e capina, reduziu-se sensivelmente a construção e conservação de vias, a manutenção do sistema de coleta pluvial é um desastre, temos uma cidade mais escura, esburacada e mal sinalizada. A taxa de investimento reduziu-se quase à metade, do investimento previsto nas leis orçamentárias foram aplicados meros 38% entre 2005 e 2009. O OP agoniza, as plenárias regionais decidem apenas 8% do investimento total do orçamento; o número de demandas atendidas reduziu-se sensivelmente.
Se consultarmos o SDO – Sistema de Despesa Orçamentária da Prefeitura – veremos que o projeto “Qualificação das Paradas de Ônibus” do programa Cidade Acessível teve em 2008 execução zero, não saiu do papel. Em 2009 constava e novamente teve execução zero. Em 2010 desistiram, o projeto foi excluído da programação. Falta de recursos: certamente não. De janeiro de 2008 a abril de 2010 a SMT gastou 1 milhão, 851 mil reais em publicidade.
Há carência de fiscais na SMOV e na SMIC, faltam profissionais na área de saúde – é o Conselho Municipal quem afirma e mostra os números; diminuiu, também, o número de professores nas escolas municipais. Os salários do funcionalismo pioraram, o treinamento praticamente inexiste. Aumenta a terceirização, gastou-se em pagamento de serviços no ano passado 135 milhões a mais do que em 2004. Cabe repetir a pergunta: por que certos governos gostam tanto de privatizar e contratar serviços?
Uma gestão descuidada enfeia a cidade, diminui os investimentos e as obras, piora os serviços prestados à população. E o descaso, quando levado ao extremo, gera tragédias.


on Apr 24th, 2010 at 12:03 am
O acidente ocorrido com o motociclista na zona sul foi causado por um reparo realizado por uma empresa terceirizada e, pasmem, fiscalizado e liberado por OUTRA empresa terceirizada. Isso mesmo! Até fiscalização de obras estão terceirizando no DMAE.
on Apr 24th, 2010 at 9:55 am
Relembrar é preciso. Atuação da RBS nas eleições de 2002, ver em http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/as-pesquisas-da-rbs-em-2002.html
on Apr 24th, 2010 at 12:55 pm
Edai, vai continuar acontecendo acidentes e matando pessoas eletrocutadas.
Pergunto. Estes equipamentos não teriam que ter proteção, contra contato acidental, tipo (aterramento das massas e DR)?
Quanta incopetencia!
on Apr 24th, 2010 at 1:29 pm
Se andamos pela cidade vemos a precariedade do asfalto… Eu ficava pensando como o pessoal não reclamava muito, os de classe alta. E achei a resposta… o pessoal que vota no Fogaça anda de pick up gigantona ou nesses carrões com cara de carro militar anfíbio…
então, só quem sente os retalhos dos buracos aqui e ali é só quem anda de carrinho classe média… e sente todos solavancos. Mais uma vez, os caras da grana saem ganhando… pois tem grana e andam melhor… 4 x4
Azar do povao e da classe média, de onibus e caminhão, de carro de classe média….
on Apr 24th, 2010 at 3:15 pm
Marco: complemento o comentário do servidor do DMAE com dados da execução orçamentária do DMAE em 2009: foram gastos com a folha de pessoal mais encargos sociais 105 milhões de reais e em despesas correntes (básicamente serviços de terceiros de contratados a pessoas jurídicas e físicas) 109 milhões. Ou seja, os serviços de terceiros superaram a folha de pessoal. Um abraço
Paulo Muzell
on Apr 24th, 2010 at 7:38 pm
É bom lembrar que o Fogaça só se elegeu por que disse que ia manter o que estava bom e mudar o que era preciso. Com isso ele reconhecia que os protoalegrenses estavam satisfeitos com a Administração Popular. E agora já sepassaram 6 anos de fogaça, e só agora a população está despertando do pesadelo em que se encontra a cidade. Além da imundice e do sucateamento de todos os serviços públicos, temos uma furia arrecadadora de multas pela EPTC. Não sei como eles conseguem registrar multas até em engarrafamentos na Av. Ipiranga, pois foi o que acontenceu comigo. O permitido era 60 km, e eu consegui chegar a 67km( ao menos é o que está registrado na notificação), o que foi o suficiente para receber uma multa. E parece que a maioria das multas em POA são desse nível. Será que o Zaquia tem algo a dizer sobre isso?
Será que o fogaça não tem vergonha de se apresentar como candidato a governador do Estado. Aliás, ele só aparece em fotos nos jornais da rbs só em períodos eleitorais, como novidade, depois quando consegue se eleger some do mada.
on Apr 25th, 2010 at 7:16 pm
Obrigado pelo complemento, Paulo. abraço.
on Apr 25th, 2010 at 9:12 pm
O Estado Minímo é isto. Não ter fiscalização em nenhuma área. A orgia empresarial tomando conta do dinheiro público, mamando nas tetas de quem eles mesmos criticam. O Estado contando com seus próprios funcionários, na área da saúde, educação, habitação, infraestruturas(água/esgosto/luz/lixo) e transportes coletivos, a população será mais bem servida e respeitada. A fiscalização em todas e quaisquer obras públicas e na disciplina que deve reger as atividades comerciais/industriais, trará um enorme benefício à toda a sociedade, tanto em recursos arrecadados e não desviados, como na sua qualidade de vida.
on Apr 26th, 2010 at 8:24 am
E o dinheiro das publicidades nas paradas de onibus vai pra onde?