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“Civilização está ficando cega frente à natureza”

Entrevistei o geólogo Rualdo Menegat, professor do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia do Instituto de Geociências da Universidade Federal do RS, para o Adverso, da Associação dos Docentes da UFRGS. O tema original da entrevista girava em torno dos grandes terremotos que atingiram recentemente o Haiti e o Chile. Mas a conversa acabou indo bem além dos fenômenos em si e tratou da degradação da relação entre a civilização e a natureza. Para Menegat, o único fenômeno novo que esses terremotos estão mostrando é a progressiva cegueira da civilização humana em relação à natureza. Ele alerta que a humanidade está bordejando todos os limites perigosos do planeta Terra, aproximando-se cada vez mais de áreas de riscos, como bordas de vulcões e regiões altamente sísmicas.

“Estamos ocupando locais que, há 50 anos, não ocupávamos”, diz ainda Menegat. “Como as nossas cidades estão ficando gigantes e cegas, elas não enxergam o tamanho do precipício, a proporção do perigo desses locais que elas ocupam”. Porto Alegre não está livre desse fenômeno, adverte o professor da UFRGS. A ocupação desenfreada de morros e de áreas próximas a eles, por exemplo, está gerando zonas de riscos, com densidade populacional, que podem ser palco de tragédias futuras. Outro exemplo é a poluição do Guaíba. “Nós conseguimos infestar um importante corpo de água que é o Guaíba. Emporcalhamos a água que usamos para beber. Isso não é cegueira? Que ser vivo no planeta polui a própria água que bebe?”

Uma das razões dessa cegueira, sustenta, é que as sociedades contemporâneas não conseguem manter memórias dos fenômenos naturais, como mantinham os povos míticos, que eram capazes disso, justamente por causa do mito. “O nosso sistema cultural, por dar as costas tão violentamente à natureza, está sofrendo enormemente”. Essa civilização excessivamente urbana que esquece do meio ambiente, prossegue, está sofrendo e tem gente que chama isso de “vingança da natureza”. Mas o universo não é um ser animado que se vinga. O que ocorre é uma falência cultural da civilização que, por ser muito grande, tornou-se autônoma em relação à natureza, ou melhor, tornou-se cega à ela”. E a mídia, adverte o geólogo, contribui enormemente para isso, ao espetacularizar essas tragédias naturais.(A íntegra da entrevista)

Foto: Suzana Pires

3 Comentários on ““Civilização está ficando cega frente à natureza””

  1. #1 edu paiva
    on May 7th, 2010 at 7:44 pm

    Recomendo que quem se interessa por Porto Alegre ou Geografia compre o Atlas Ambiental da Porto Alegre, cuja produção foi coordenada pelo Prossor Menegat.

  2. #2 Mariah
    on May 7th, 2010 at 10:11 pm

    Acontece que para essa sociedade consumista e para esses governos medíocres (Fogaça/Yeda) só o dinheiro rápido e fácil interessa. Interesses econômicos acima de tudo. Veja o que a yeda fez com a Fepam.

  3. #3 zé bronquinha
    on May 8th, 2010 at 10:49 am

    Talvez falte na fala do professor Rualdo que é preciso se construir um novo padrão de vivência em nosso planeta, que é vivo sim, que não suporta os atuais índices de aglomeração humana e as ações pedratórias a que é submetido. É preciso que encontremos nos atuais padrões de produção e consumo, corroborada por uma mídia que cria falsas necessidades as causas principais do adoecimento de nosso planeta. Em suma. Nenhum defensor do capitalismo, nem mesmo os desenvolvimentistas travestidos de ambientalistas terão saídas eficazes para esse drama. Ficarão nas bordas e na superfície do problema, individualizando responsabilidades, jogando para o cidadão comum a tarefa de salvar o planeta, enquanto grandes corporações, na busca de valorização de suas ações, para tornar seus acionistas cada vez mais ricos e poderosos, continuarão, de forma acelerada a destruir a nossa grande e definitiva morada.

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