Entendo importante a manifestação do cineasta Jorge Furtado, na entrevista ao Sul 21; discordo dela em alguns aspectos, mas concordo no fundamento da crítica. Nossa realidade atual não permite que possamos nos considerar exemplo positivo para rincão nenhum desse país; ao contrário. Importamos mazelas que julgávamos exclusividade de outros Brasis, e ainda tivemos a capacidade de aprimorá-las.
No entanto, convém lembrar que a valorização do nosso legado cultural; luso, hispânico, com todas as nuances dadas pela imigração posterior e pela raiz ameríndia e africana; iniciada pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho representou, na sua origem, uma resposta ao colonialismo cultural do pós-guerra; que nos colocava num patamar de inferioridade frente ao american way of life que nos enfiavam goela a baixo.
Historicamente, o movimento foi importante para resgatar a base sobre a qual, bem ou mal, se construiu nossa sociedade. Apesar de todas as críticas que possamos ter aos valores e à tradição que nos foram legados, eles são as bases de nossa identidade. E seria injusto avaliar essa herança cultural por uma perspectiva histórica descontextualizada.
Ocorre que esses mesmos valores foram apropriados por uma pseudo-elite, atrasada e reacionária e que apenas faz de conta valorizar o passado de lutas desse povo meridional, usando em seu proveito somente os aspectos que lhe convêm. E que não se dá ao trabalho, por não interessar ao seu projeto, de buscar inspiração nos exemplos libertários de um Bento Gonçalves da Silva, de Giuseppe Garibaldi, Antônio de Souza Neto ou Luigi Rossetti. Interessa-lhes tão somente o culto asséptico a um passado idealizado; como se lá não houvesse exemplos de revolta e insubmissão que deveriam ser seguidos ainda hoje.
Isso pode perfeitamente ser observado, atualmente, no apoio de segmentos importantes do tradicionalismo a um grupo hegemônico que ainda têm a pretensão de querer governar o Rio Grande e seu povo como se fosse uma estância do século XIX. Esse gauchismo de bravatas e fachada só consegue enxergar o que existe de ruim do Mampituba para cima, ignorando coisas iguais ou piores que acontecem por aqui; e com isso só consegue desconstruir a identidade de um povo.
Rasgando os bons exemplos do passado, transformam as pilchas que vestem em meras alegorias, sem o valor e fundamento que realmente deveriam ter; contentando-se com cavalgadas, desfiles, músicas e poesias, onde o auto-elogio fácil, geralmente de gosto pra lá de duvidoso, beira com facilidade o ridículo.
as isso não pode servir de motivo para deixarmos, dentre outras coisas, de cantar, com emoção e respeito, um hino de letra e música simples e tocante, motivo de admiração por todos os que nos visitam, e que diz muito da herança verdadeira que recebemos. É algo que nos cabe preservar, e transformar na base sólida do futuro que queremos construir para o povo riograndense.
(*) Advogado


on May 13th, 2010 at 7:33 am
Ainda ontem repassava a limpo algumas anotações antigas, dentre as quais uma assim: ” …era preciso combater a cultura do trabalho fabril, salariado e independente (e perigosamente potente em termos de organização) trazidos para cá pelos imigrantes da Europa. Precisava-se dar combate a tudo que não fosse terra inútil e gado farto, herança de uma pampa pobre (para o colonato) e altamente concentrada e rica (para o fazendeiro/pecuarista). Não foi a toa que a maior parte dos CTG’s que surgiram ganharam força nas regiões justamente ocupadas pela força imigrante, alemã e italiana.”
Será…?
on May 14th, 2010 at 10:28 am
Esse Paiani é um barato. Primeiro ele integra o Governo Yeda, depois de expurgado, passa a nominá-lo cleptocracia, um termo feliz para designar a administração tucana. Na condição de Ouvidor da Segurança Pública fez ouvidos de mercador todo o tempo que a instituição neadhertal Brigada Militar aterrorizava os miseráveis acampados nas beiras de estrada, os professores em greve ou qualquer outra manifestação. Ou será que perdemos a memória? Agora quer me convencer que Bento Gonçalves, o maior abigetário que este estado já teve, era um exemplo de liberal.
Será que é alguma coisa na água?
on May 15th, 2010 at 1:08 pm
Prezado Luciano:
É justamente a isso que me refiro quando falo em assepsia da história. Ela e seus personagens nada têm de asséptico ou ascético, ou seja, não são seres limpos, puros e virtuosos na essência; mas homens e mulheres envolvidos pelas profundas contradições inerentes à condição humana.
É irrelevante avaliar Bento Gonçalves por uma suposta condição de abigeatário, mas pela coragem de haver liderado um movimento que, mesmo tendo como base a elite rural e escravista ao qual pertencia, e motivada em sua origem por interesses econômicos contrariados (como de resto o foram a própria revolução americana, os movimentos de independência da América espanhola e a Inconfidência Mineira, ocorridos poucos anos antes), teve a coragem de se contrapor a um Império escravocrata e com uma força bélica e política infinitamente superior.
E não dá pra esquecer que, terminada a revolução, recolheu-se, pobre e doente, à estância do amigo Gomes de Freitas, em Guaíba, onde morreu pouco mais de dois anos depois do acordo de paz, desapossado dos bens eventualmente mal havidos.
Assim como seria injusto avaliar Garibaldi, modelo de comandante libertário e republicano do século XIX, pela decisão de ceder à realpolitik e aceitar a monarquia como preço a pagar pela unificação da Itália.
Na lista de contradições e seus autores tem exemplos prá todos os gostos.
O homem é ele e suas circunstâncias. E com a licença de Ortega y Gasset eu acrescentaria suas contradições; porque disso eu entendo bem. O que nos remete necessariamente ao início de tua crítica.
Saudação fraterna!
on May 16th, 2010 at 2:41 pm
- Chamar Bento Gonçalves de libertário soa ingênuo.
- O início do tradicionalismo gaúcho até pode ter na sua origem uma reação à expansão da cultura norte-americana pelo mundo, assim como se observou em outros estados brasileiros e outros locais do mundo (Ruben Oliven trata disso em “A parte e o todo”, da Editora Vozes). Mas esta origem não atenua em nada os malefícios causados por uma organização arcaica, preconceituosa, xenófoba, autoritária e ufanista como o MTG.
- dizer que os valores e a tradição que “nos foram legados” são a base de nossa identidade significa admitir que há apenas UMA identidade e, ao mesmo tempo, sugere que identidade é algo estático, cristalizado. Identidade é movimento, processo, tensionamento.
- custo a entender as críticas ao governo Yeda e ao seu entorno vindo de alguém que fez parte deste governo. Difícil não saber do que se tratava este projeto de governo ainda no tempo da campanha eleitoral. Se não concordava, que não endossasse o projeto, que não aceitasse cargo, que não compactuasse.
- qual o “valor e fundamento” que as pilchas deveriam ter? Já foi dito: na origem, a bombacha não têm nada de gaúcho. Chegou ao Prata porque, com o fim da Guerra da Crimeia, os ingleses não sabiam o que fazer com os “pantalones turcos” que produziram para vender na região conflagrada e acabaram encalhados (Tau Golin em “A ideologia do gauchismo”, editora Tchê). Sem falar que, depois de adotada no Pampa, peão não usava esses trajes.
- sobre a “emoção e respeito” com que deve ser cantado o Hino Rio-grandense. Não sentes nenhum constrangimento em bradar “sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”? E falas, ainda em relação ao hino, que ele diz muito da “herança verdadeira que recebemos”. Que herança verdadeira é esta? Isso me chama a fundamentalismo, uma visão essencialista da história e da tradição, o que acaba por reforçar os exageros que este texto pretende criticar.
- sobre tradição e temas correlatos, seria interessante ler Eric Hobsbawm.
on May 17th, 2010 at 1:58 pm
Caro Vitor:
Vou me permitir o contraponto.
Analisar de uma forma ingênua e romântica a história geralmente é tão desastroso quanto observar o contexto de determinado período; e a forma como esse interferiu na ação de seus agentes históricos; com o olhar da nossa época.
Bento Gonçalves realmente não poderia ser classificado como um libertário na acepção plena do termo, como assim também não o poderiam os demais caudilhos que lutaram para livrar a América latina do domínio espanhol (que é com quem mais podemos aproximar e comparar as lideranças farroupilhas).
A origem de Bento, inclusive, era a regra; basta lembrarmos que Bolívar era de uma família aristocrata basca, e San Martin da velha elite espanhola do vice-reinado do Prata. Mas negar a relevância do seu papel dentro daquelas circunstâncias históricas é no mínimo uma análise desfocada.
Se de um lado havia uma elite rural (ou criolla, como nas colônias hispânicas), ressentida com a falta de poder (que permaneceu centralizado depois da independência da mesma forma que nos trezentos anos anteriores) e inconformada com os prejuízos causados por uma política econômica e fiscal de uma Corte distante, autoritária e espoliadora; do outro estava um Império cuja própria existência na América era uma excrescência.
Eu, particularmente, não teria dificuldade em escolher um lado pelo qual lutar.
Quanto à forma de organização do MTG, essa deriva justamente da apropriação dos valores que ele defendia no início e sua transformação em ideário reacionário por uma elite idem; o que não invalida de todo seus méritos.
Quanto à base de nossa identidade, sem dúvida que ela não se sustenta apenas sobre uma base luso-hispânico-platina, mas também com igual influência, de forma mais ou menos visível, da imigração e da cultura autóctone e africana; em um processo de miscigenação étnico-cultural em pleno desenvolvimento, dinâmico, e que ainda não sabemos no que vai dar. E tudo isso, é sim, queiramos ou não, a nossa herança.
Quanto a participar de um governo mesmo sem concordar na íntegra com seu projeto somente pode ser compreendido dentro da perspectiva de que muitas vezes é mais produtivo e eficiente transformar a sociedade e suas estruturas de poder de dentro para fora, ocupando espaços; coisa que o próprio Lênin admitia. A grande questão é saber até onde ir, respeitar o limite da própria consciência, entendendo o momento certo de entrar e sair.
Já a pilcha, por óbvio, é a representação mais ou menos fiel da indumentária de um determinador período histórico, e não se restringe à bombacha (os pantalones turcos), mas remete também ao chiripá e as botas garrão de potro, dentre outras coisas; usadas pelos primeiros gaúchos, e antes deles pelos índios.
É importante como forma de tornar visível e reforçar, pela imagem, uma identidade cultural que ainda está em construção; e não vejo nada de bizarro nisso. Mas se a questão é ser iconoclasta, vamos abolir o chimarrão.
Quanto às façanhas de que fala o hino, eu me envergonharia de, ao negá-lo, capitular ao processo de apropriação elitista, para considerá-lo apenas como referência a essas mesmas elites ou analogia com o período triste que estamos vivendo. A herança referida é justamente aquela, legada por homens e mulheres, anônimos, que construíram essa terra, lutando contra o atraso, a prepotência e a vilania de seus dirigentes.
Mas o bom da divergência de idéias é a possibilidade de se fazer um debate de qualidade, como esse. E, por essa oportunidade, só posso agradecer tua manifestação.
Grande abraço!