O historiador inglês Edward H. Carr disse que a história é um diálogo sem fim entre o presente e o passado. Animado por essa idéia o jornalista argentino Carlos Abel Suárez, integrante do Comitê de Redação de Sin Permiso, escreveu um artigo sobre como a historiografia tradicional construiu vários mitos ao redor do processo da independência da Argentina. Ele apresenta elementos para a construção de uma história dos derrotados e massacrados, os de sempre no caso da América Latina: índios, negros, mestiços, mulatos…
Nos conflitos internos e externos, os negros, os índios, mestiços e mulatos sempre foram bucha de canhão. Em 1810, por exemplo, havia uma paridade entre homens e mulheres negras na Argentina. Em 1822, os homens negros adultos tinham desaparecido. No primeiro censo moderno da República Argentina, em 1868, os africanos e seus descendentes representavam apenas 9% da população total de Buenos Aires. Após a primeira epidemia de febre amarela, no censo de 1887, restaram só 1,8%.
O grande empreendimento de ampliar o domínio sobre as planícies do Pamapa, desalojando os povos originários, começou com Juan Manuel Rosas em 1833 e culminou com Julio Roca, nos 80, relata Suárez.
Os procedimentos, a hipocrisia, o grau de brutalidade e as justificações não diferem em demasia dos processos de dominação territorial na América do Norte e em outras partes. Em poucas décadas, a perversidade do capital exterminou, por exemplo, os onas ou selk ‘nam, que tinham levado uns 12 000 anos para chegar do estreito de Bering até a Ilha Grande da Terra do Fogo, onde pensaram que tinham encontrado seu lugar no mundo. Nos últimos anos do século XIX foram exterminados, de maneira planejada. Primeiro pagavam por uma orelha, mas quando os pagadores advertiram que alguns índios andavam sem orelhas, tinha de se levar toda a cabeça para receber o pagamento. E esses genocídios, escamoteados ou banalizados no relato oficial da história argentina, não terminaram com a entrada no século XX.
A íntegra do artigo está na Carta Maior.
Foto: Trabalhadores rebeldes presos para identificação na Patagônia, no início do século XX (autoria desconhecida).


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