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O mundo está ficando difícil para ser humano

Por Flávio Koutzii

Mesmo assim, estes dias têm sido espetaculares: a ação do presidente do Brasil. A iniciativa da diplomacia brasileira. O atrevimento de arriscar um caminho, que talvez possa evitar a guerra. A altivez de ter independência na política externa, servindo ao Brasil e também ao mundo é uma página extraordinária da nossa história.

A dimensão fica mais nítida pela trágica e grotesca reação da grande imprensa brasileira: não apóiam, não exaltam, não valorizam, não contextualizam, desde uma perspectiva brasileira, só olham do ponto de vista da América do Norte, da Hillary, dos novos falcões americanos – uma nova transgenia democrata-republicana. É o “dark side of the moon” de Obama.

Para todos que acham que não houve golpe militar em Honduras, é natural achar que o Brasil não deve “atrapalhar” a preparação da nova invasão, desta vez no Irã, e muito menos podem aceitar uma iniciativa, que vejam só, pode ajudar a paz. E dificultar a diplomacia de guerra cada vez mais acelerada dos EUA.

A imprensa brasileira – seus jornais, rádios e tevês – já não sabem bem o que são, embora saibam muito bem o que fazem. São a gripe suína do pensamento nacional. Ficaram histéricos, mas não se dão conta, nem ouvem a estridência de seus gritos. E, na verdade, já não se sabe pelo que gritam, nesses dias espetaculares, se pelos resultados da política internacional de Lula, se pelo avanço e ultrapassagem de Dilma em relação a Serra, ou se porque seus ataques, cada vez mais intensos, produzem cada vez menos efeito.

Vale a pena observar algumas manifestações desta imprensa:

No dia 19 de maio, no Jornal da Noite, William Wack recorre a uma retrospectiva histórica, onde relembra com apoio de fotos e filmes, Nasser, Nehru, Tito como experiências de independência terceiro-mundista, que já aconteceram e não deram certo, para explicar que essa é a descendência, em 2010, da política de Lula. Ou, trocando em miúdos, toda busca de autonomia, independência nacional, construção de nação que aqueles episódios testemunharam são congenitamente equivocados. O único DNA “bom” é o DNA da obediência, do colonizado, do obediente, e toda revolta deve ser condenada.

Outro exemplo é a pergunta interativa feita no tradicional programa de debates Conversas Cruzadas, da RBS TV, sobre o tema: se o Irã iria cumprir o acordo. É uma pergunta legítima, mas típica do enfoque preferencial da produção desse programa, nem em sonhos, cogitam de fazer uma pergunta que começasse, não examinando as consequências futuras, mas os significados do gesto recente: o novo peso do Brasil na política internacional.

Perderam a noção, o sentido da grandeza, a percepção da história, o significado do gesto, o valor e o peso do Brasil, a noção da Pátria, os interesses do Mundo e da Paz.

Se fazem amnésicos, não lembram nem da história recente: as invasões das “cruzadas Bush”, dos movimentos evidentes do conservadorismo americano para invadir o Irã.

E também não se lembram do passado, pois querem eternizar as condições que fizeram das grandes nações coloniais e dos grandes países industrias do século XX os dominadores e senhores da Terra. Aliás, no mesmo jornal da Noite citado, há uma passagem que claramente indica como insensato atrevimento querer alterar a “ordem natural” das coisas. Quem tem riqueza, armas, poder, tecnologia, terá cada vez mais. Quem não tem, obedecerá cada vez mais.

É disto que se trata e é isto que Lula e o Brasil enfrentam com sensibilidade e realismo, tentando romper estes limites protegendo ao mesmo tempo a possibilidade do entendimento e da Paz. Não é para qualquer um.

13 Comentários on “O mundo está ficando difícil para ser humano”

  1. #1 Carla Y Teixeira
    on May 21st, 2010 at 4:50 pm

    Brilhante!
    Carla Y Teixeira

  2. #2 Eduardo
    on May 21st, 2010 at 5:38 pm

    Excelente.

  3. #3 silvia
    on May 21st, 2010 at 6:12 pm

    Nossa!!!! Falou exatamente o que penso, fantástico, tocou fundo na ferida. Obama, quem é Obama?

  4. #4 ralf oliveira
    on May 21st, 2010 at 6:46 pm

    Que grata surpresa neste fim de tarde ! grande Flávio ! contribuindo com a memória . . . de longa data o conservadorismo brasileiro parece beijar a mão do hegemônico “tio sam” !

  5. #5 miguel grazziotin
    on May 21st, 2010 at 7:43 pm

    Um singelo exemplo do pensamento neoliberal
    SERRA E A VISÃO DO PSDB PARA SOLUCIONAR A POBREZA NACIONAL

    http://miguelgrazziotinonline.blogspot.com/#ixzz0obi5mZfQ

  6. #6 Elisabete Otero
    on May 21st, 2010 at 8:01 pm

    Os textos do Flávio são assim, favorecem antigas comprensões e criam novas.
    Muito bom !

  7. #7 vanpoars
    on May 21st, 2010 at 8:22 pm

    Deputado, é bom tê-lo conosco novamente, com suas idéias, claras, sensatas e,sempre de fácil entendimento! Aqui e no “SUL21″, seja bemvindo!

  8. #8 Mariah
    on May 21st, 2010 at 8:48 pm

    Depois dessa o LUla já merece o prêmio Nobel da Paz! Tenho certeza que é disso que a imprensa mesquinha e tacanha está com medo…

  9. #9
    on May 21st, 2010 at 8:59 pm

    Marco, que surpresa boa! Flavio como sempre lúcido, coerente e fazendo aquilo que ele sabe como ninguém, o resgate historico. Aliás, justiça seja feita: tu também fazes isso com a mesma lucidez. É por causa de pessoas como tu e o Flavio, que ainda confio na humanidade. Faço votos que esta seja a primeira, de varias “presenças” do Flávio no “rsurgente”. Um grande abraço, Lú.

  10. #10 Maria Lucia
    on May 21st, 2010 at 11:35 pm

    Como sempre, o Flávio fazendo análises brilhantes.
    E que saudade da nossa velha “Esquerda Democrática”…

  11. #11 Eugênio
    on May 22nd, 2010 at 5:49 pm

    A pergunta deveria ser “os EUA cumprirão o acordo”?

  12. #12 Teresinha Carpes Tarso e Dilma!!!
    on May 22nd, 2010 at 11:11 pm

    Gente,este ex-deputado além de ético,tem uma cabeça previlegiada,inteligencia aliada ao humanismo,tuda haver com o Flávio Koutzii!Este seria uma escolha brilhante,q o Presidente Lula faria para o TCU,o Flávio!

  13. #13 Neli
    on May 22nd, 2010 at 11:48 pm

    O Flávio e suas intervenções sociológicas e cheias de luzes e de ética que impulsionam o processo civilizador.

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