O massacre diário protagonizado por nossos bravos motoristas é tema de freqüentes editoriais indignados com a violência no trânsito. Indignados, hipócritas e inúteis. A indignação, é claro, fica por conta da legítima revolta contra mortes absolutamente estúpidas, vítimas de imprudência e imperícia. Já a hipocrisia é a marca da íntima parceria entre as indústrias automobilística e midiática. Os mesmos meios de comunicação que produzem os tais editoriais indignados e fazem campanhas de conscientização pela segurança no trânsito faturam milhões de reais todos os anos com propagandas que, freqüentemente, fazem a apologia da velocidade, da potência, do individualismo e da erotização do automóvel. Talvez essa não seja a causa principal das mortes, mas o culto erótico-religioso ao automóvel não ajuda muito no florescimento da prudência.
O Rio Grande do Sul atingiu esta semana a marca dos mil mortos no trânsito. Façanha atingida apenas no ano de 2010. A essa altura, o recorde macabro já foi quebrado. Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra, não é mesmo. O povo culto e politizado do Rio Grande dando mais um exemplo ao país. E tome editoriais bradando por urgentes providências das autoridades. É o mesmo Estado que assistiu, há alguns anos, a uma intensa campanha contra os “pardais faturadores”. Virou tema de campanha, encarnado pelo deputado Luiz Fernando Zachia (PMDB), ganhando muita repercussão e simpatia na mídia nativa. Hoje, diante da crescente carnificina nas estradas, não se fala mais em pardal faturador. Quem está faturando são as oficinas de ferro velho e as funerárias.
Vivemos assolados por perplexidades inúteis. Meu Deus, quantas mortes no trânsito! Quando isso vai parar? Vai parar (ou diminuir), como parou (diminuiu) em outros países que adotaram uma rígida legislação de trânsito e não tiveram contra si campanhas midiáticas criticando a “fúria arrecadatória” e punitiva do Estado. Quem viaja pelas estradas do Rio Grande do Sul tem a oportunidade de assistir a regulares demonstrações de imprudência e irresponsabilidade. Ultrapassagens em lugares proibidos, excesso de velocidade, pneus carecas, etc. O cardápio do terror é variado. Muitas vezes, são os mesmos homens e mulheres de bens que, mais tarde, já em suas casas (quando chegam) manifestam toda sua indignação contra a corrupção dos políticos e contra a decadência de valores morais.
A hipocrisia tem vários braços. As mesmas empresas de comunicação que faturam milhões de reais todos os anos em publicidade de automóveis, que saúdam as fábricas de automóveis como expressão da modernidade, que não fazem uma campanha sequer valorizando a importância do transporte público (a não ser em anos eleitorais para retomar a eterna promessa do metrô) em detrimento do transporte individual, lançam periodicamente campanhas de conscientização para os motoristas. E as mortes seguem acontecendo, denunciando a inutilidade e o fracasso desse tipo de programa. O número de veículos individuais nas cidades não pára de crescer. Jornais, rádios e TVs seguem faturando seus milhões em publicidade e, volta e meia, quando o número de mortos “sobe demais”, publicam um editorial de alerta e preparam uma nova campanha. Enquanto isso, a violência no trânsito custa R$ 28 bilhões por ano ao país. Isso para não falar do “custo” em vidas, que é incalculável. É uma indústria da morte, mais uma, que se apresenta como expressão de desejo, potência e poder. Para derrotá-la, será preciso muito mais do que repetir perplexidades inúteis.

on Aug 14th, 2010 at 6:25 pm
O número de vezes que minha TV por assinatura exibe Velozes e Furiosos 1,2,3,4 chega a ser escandaloso!
CArla Angeli
on Aug 14th, 2010 at 6:37 pm
Não custa lembrar que só leva multa quem infringe alguma regra de trânsito. Quem reclama da “indústria da multa” está adotando a típica postura brasileira de achar que as leis são para os outros. Será que as pessoas realmente querem resolver o problema, ou, no fundo, a maioria dos motoristas não acha melhor ficar como está, para poder quebrar leis impunemente?
Quer dizer, acham melhor até o momento em que perdem algum ente querido num acidente. Aí, começam a fazer campanha pela consciência no trânsito.
on Aug 14th, 2010 at 6:48 pm
Acho que brigar contra os carros é luta perdida, o que devemos fazer é conseguir que os veículos dentro das cidades não trafeguem a mais de 40 km por hora, nesta velocidade você chega ao aeroporto, saindo da Zona Sul em 30 minutos. Faixas de segurança não resolvem, de segurança não tem nada, a solução são passarelas e túneis por vias muito movimentadas. A 40 km por hora, o choque entre dois carros equipados com itens como airbags e portas com barras de segurança causam apenas danos materias. Também acho que comportamento no trânsito deveria ser ensinado nas escolas e que em vez de multas, fossem apreendidas as carteiras e os veículos por tempos de 30 dias até não poder mais dirigir, dependendo da gravidade ou reincidência nas infrações.
on Aug 14th, 2010 at 7:16 pm
Nossos parlamentares não querem que mude nada na legislação de transito muito pelo contrario querem abrandar. Existe projeto até para parcelar as multa. O uso do etilometro virou piada, pega só os coitados que desconhecem a lei. O judiciario trabalha para não punir ninguem é só fazer um levantamento e ver quanto foram punidos por dirigir embriagado. Trabalho diretamente com o assunto e de mais de 90% dos motoristas que levei para a delegacia acabaram sendo arquivados os processo judiciais sem punição alguma. Concordo plenamente com o artigo.
on Aug 14th, 2010 at 7:34 pm
Concurdo com o Träsel e o Remindo. Primeiro, por que não conseguimos cumprir as mais básicas e civilizadas leis de trânsito? O Remindo tem razão quando fala que é luta perdidada.
Vejo muita gente cruzando a Free-Way no verão nos seus flamantes V6, 2.0 16V, etc, a mais de 140 Km/h, e quando essas pessoas viajam para o exterior e lá alugam um carro se transformam em cordeiros, em verdadeiros exemplos de civilidade no trânsito. Mas assim que botam o pé no Salgado Filho, se acham nas 500 Milhas de Indianapolis. 36 horas antes, sei lá, em Madri, paravam em faixas de segurança, davam a preferência, etc. Depois que descem em Poa, salve-se quem puder.
Temos um governo federal que favorece a aquisição de carros, que reduz o IPI sobre os carros e aposta na nova class média para aquecer ainda mais a economia. Infelizmente nossas cidades não comportam tamanha explosão de carros. Aliás, vale o mesmo para a construção civil, é o setor que mais emprega atualmente e tem havido falta de operários, mestres de obra e até engenheiros.
Uma vez fiz o teste de esticar o braço para atravessar a rua, resultado, quase me deceparam o braço na esquina da República com a Lima e Silva.
Os carros matam? Claro que sim. Mas não seria mais correto educar os motoristas e punir severamente os psicopatas do volante do que restringir o uso do carro?
on Aug 14th, 2010 at 7:46 pm
Toda a vez que vejo nas ruas de PoA automóveis em excessiva velocidade, não respeitando calçada, semáforo, faixa de segurança, penso que isso ocorre porque não há fiscalização, e que há uma total ausência do poder publico, que não quer fiscalizar e nem se encomodar. Um povo que aceita que as autoridades não fiscalizem também é conivente.
on Aug 14th, 2010 at 7:54 pm
Também é interessante que, no mais das vezes, os espertos da mídia defendem a prevalência da educação sobre a punição (como se a punição não fosse a forma mais adequada de educar adultos) pela simples razão de que a “educação” que defendem só pode ocorrer por meio de campanhas, pagas pelo Estado.
Numa boa, é um acinte o Estado gastar dinheiro “educando” pessoas que já foram habilitadas, ou seja, provaram que têm condições de dirigir. Fico imaginando se os cirurgiões ou os pilotos da aviação comercial, igualmente habilitados pelo Estado, passassem a fazer o que os motoristas fazem, se a “imprensa” passaria a defender o tal “educar antes de punir”.
on Aug 14th, 2010 at 10:10 pm
Muito bom, Marco! Parabéns pelo post!
on Aug 15th, 2010 at 10:07 am
Acho que seria de bom alvitre se a mídia fosse submetida a uma espécie de “liberdade assistida” – palavra da moda. Seus diretores poderiam ganhar uma viagem para Miami.
on Aug 15th, 2010 at 1:01 pm
Caro Marco,
É revoltante o tratamento dado pelo mídia comercial sobre temas como esse. Ontem, na TV Record, em um programa chamado “Tudo a ver”, um matéria falava dos acidentes por motos. A crítica do especialista, um psicanalista, ainda que verdadeira, só olhava para a questão do indivíduo que busca emoções fortes e risco de vida, sem considerar o papel do conjunto de valores que o tema. As soluções apresentadas sugeriam o aumento de aulas de auto-escola aos interessados em ter carteira na categoria A. É uma bobagem.
A questão é profunda e complexa. De um lado, as possibilidades de geração de prazer são potencializadas permanentemente por meio de “inovação” na produção e incentivo insistente ao consumo, de outro lado, são oferecidas novas formas de repressão social e psicológica.
Na questão dos veículos, são tantas as formas de “reforço” do ideal do carro que nem consigo listar, mas lá vão alguns: campeonatos de corrida “esportivos”, propagandas de postos de gasolina, programa sobre carros potentes e de luxo, revista especializadas, propagandas de carro, que reforçam os esteórotipos de gênero que reproduzem a necessidade de afirmação de potência sexual, que encontram um grande campo de exploração, uma vez que as masculinidades estão em transformação, inclusive por meio do consumo, mas os homens buscam se ancorar em consumos tipicamente masculinos. É uma tragédia que continuará, infelizmente, enquanto formos dominados pelo circuito TV – Shopping – musculação.
Eu agradeço por compartilhares essa reflexão conosco, porque eu estava sentindo necessidade de ler algo com sentido nesse tema. Grande abraço!
on Aug 15th, 2010 at 1:33 pm
Boa análise e também os comentários. Um ponto que também merece destaque citado pelo autor é a questão de valorizar o transporte público. Essa ideia, além de representar uma alternativa à ideologia de mercado e individualista, traz à tona a própria questão da mentalidade dos cidadãos gaúchos, uma mentalidade que necessita claramente voltar-se mais ao coletivo.
on Aug 15th, 2010 at 10:15 pm
Não tem que pagar multa, todo o delito de trânsito deveria ser punido com cadeia, desde da mais “simples” infração até a mais pesada. Essa questão de pagar multa fica muito fácil. E o infrator reincidente (seja por qualquer tipo de multa) deveria perder pra sempre o direito de conduzir um veículo. Mas…
on Aug 23rd, 2010 at 8:45 am
é uma pouca vergonha
on Aug 23rd, 2010 at 9:05 am
Achei o texto muito interessante,e me ajudou muito em um trabalho da escola.
on Aug 23rd, 2010 at 9:08 am
adorei*-*
me ajudou muito na trabalho da escola
on Aug 23rd, 2010 at 10:07 am
Quase ninguem respeita as leis no Brasil, algumas pessoas querem se aparecer e acaban fazendo acidentes enormes por ai!!!
on Aug 23rd, 2010 at 10:08 am
Concordo plenamente com o texto, depois de ler tirei a conclusão de que nossos motoristas estão cada vez mais imprudentes!
on Aug 23rd, 2010 at 10:22 am
muitas pessoas estao morrendo cada vez mais cedo porque nao estao respeitando o transito as leis que foram criadas.
on Oct 14th, 2011 at 6:12 pm
Não queremos que as coisas fiquem como estão !!!
e a “indústria das multas” é real,a não ser para pessoas fora da realidade que acreditam estar sendo politicamente corretos !!!
No Brasil as multas não tem a menor finalidade de educar, mas sim o único objetivo de faturar e encher os bolsos de políticos corruptos.
Quer um exemplo ?
imaginem uma rua onde era permitido a conversão à direita e foi modificada tornando-se contra mão e não deu tempo de ser sinalizada. Fato comum em qualquer centro urbano…
Sabe o que o Detran faz ???
Implanta sensores e coloca “guardas” para multarem em vez de informar e advertir, e so depois multar.
Milhões de reais são gastos com a implantação,muitas vezes sem qualquer necessidade, de sensores eletrônicos e lombadas, para arrecadar mais verba que, em vez de ser revertida para pavimentação de ruas e agilização dos fluxos, é,como de costume, perdida por o ralo da corrupção
Assim, senhor “freud falsificado” procure analizar as coisas como Marx,ou seja, de forma que contemple os “dois lados da moeda” e não se restringir ao seu mundinho cor de rosa e achar que está falando a verdade plena e absoluta.
on Oct 18th, 2011 at 3:18 pm
Senhores donos das razões!
O ser humano ñ precisa andar de armadura ,pois,já vivemos anestesiados pelas consequências de fatalidades no trânsito.
Muitos de nós temos parentes ou mesmo já fomos vítimas de acidentes causado pelo transito.Vemos que isso ocasiona por conta de ñ termos leis significativas e,sem dizer que,o nosso país,é um país em que a impunidade,é meramente subjetiva,ou seja,é amiga do mercenarismo.O número de habilitados crescem,com os veículos também.Isso reflete,mo qual o périgo, se torna muito mais constante.Os números de desqualificados por imcompetências das leis que abrange os sentidos,faz com que,isso faça gerar renda para seus propósito mas ñ reconhecem tais périgo.Somos de carne e osso.Esperamos que todos posam pensar que também são.Nunca esperem que um dia ñ serão vítimas das suas próprias leis,ou seja das suas próprias conspirações.