As empresas de comunicação têm o hábito de se apresentarem como porta-vozes do interesse público. Em que medida uma empresa privada, cujo objetivo central é o lucro, pode ser porta-voz do interesse público? Essas empresas participam ativamente da vida política, econômica e cultural do país, assumindo posições, fazendo escolhas, pretendendo dizer à população como ela deve ver o mundo. No caso do Brasil, a história recente de muitas dessas empresas é marcada pelo apoio a violações constitucionais, à deposição de governantes eleitos pelo voto e pela cumplicidade com crimes cometidos pela ditadura militar. Até hoje nenhuma dessas empresas julgou necessário justificar seu posicionamento durante a ditadura. Muitas delas sequer usam hoje a expressão “ditadura militar” ao se referir aquele triste período da história brasileira, preferindo falar em “regime de exceção”. Agem como se suas escolhas (de apoiar a ditadura) e os benefícios obtidos com elas fossem também expressões do “interesse público”.
Apoiar o golpe militar que derrubou o governo Jango foi uma expressão do interesse público? Ser cúmplice de uma ditadura que pisoteou a Constituição brasileira, torturou e matou é credencial para se apresentar como defensor da liberdade? O silêncio dessas empresas diante dessas perguntas já é uma resposta. O que é importante destacar é que a semente do autoritarismo, da perversidade e da violência prossegue ativa, conforme se viu neste final de semana (e se vê praticamente todos os dias). A revista Época fez o que se espera da Globo, maior empresa midiática do país e um dos pilares de sustentação da ditadura militar: resgatou a agenda da Guerra Fria e destacou na capa o “passado de Dilma”. O ovo da serpente permanece presente na sociedade brasileira. O que deveria ser tema de orgulho para uma sociedade democrática é apresentado por uma das principais revistas do país como motivo de suspeita. Os editores de Época honram assim o passado autoritário e anti-democrático de sua empresa e nos mostram que ele está vivo e atuante.
De maneira similar, aqui no Rio Grande do Sul, o jornal Zero Hora publicou um editorial apoiando a decisão do TCU de questionar as indenizações que estão sendo pagas às vítimas de perseguição e maus tratos durante a ditadura, ou “regime de exceção”, como prefere a publicação. Trata-se, segundo a RBS, de defender um “princípio da razoabilidade”. “Ninguém tem direito a indenizações perdulárias ou a aposentadorias e pensões que extrapolam critérios de prudência, ponderação e equilíbrio”, diz o texto. Prudência, ponderação, equilíbrio e razoabilidade: foram esses os valores que levaram o jornal e sua empresa a cerrarem fileiras ao lado dos militares que rasgaram a Constituição brasileira? Quanto dinheiro os proprietários da RBS ganharam com esse apoio? Não seria razoável e ponderado defender que indenizassem a sociedade brasileira pelo desserviço que prestaram à democracia?
É cansativo, mas necessário relembrar. Sempre. Como a maioria da grande mídia brasileira, a empresa gaúcha apoiou o golpe que derrubou João Goulart. O jornal Zero Hora ocupou o lugar da Última Hora, fechado pelos militares por apoiar Jango. Esse foi o batismo de nascimento de ZH: a violência contra o Estado Democrático de Direito. Três dias depois da publicação do Ato Institucional n° 5 (13 de dezembro de 1968), ZH publicou matéria sobre o assunto afirmando que “o governo federal vem recebendo a solidariedade e o apoio dos diversos setores da vida nacional”. No dia 1° de setembro de 1969, o jornal publica um editorial intitulado “A preservação dos ideais”, exaltando a “autoridade e a irreversibilidade da Revolução”. A última frase editorial fala por si:
“Os interesses nacionais devem ser preservados a qualquer preço e acima de tudo”.
Interesses nacionais?
A expansão da empresa se consolidou em 1970, com a criação da RBS. A partir das boas relações estabelecidas com os governos da ditadura militar e da ação articulada com a Rede Globo, a RBS foi conseguindo novas concessões e diversificando seus negócios.
Como a revista Época, Zero Hora é fiel ao seu passado e exercita um de seus esportes favoritos: pisotear a memória do país e ofender a inteligência alheia. O editorial tenta ser ardiloso e defende, no início, as indenizações como decisão correta e justa. Mas logo os senões começam a desfilar: os exageros nas indenizações de Ziraldo, Lula, Jaguar e Carlos Lamarca, “outro caso aberrante segundo o procurador”. A pressão exercida por setores militares junto ao governo e ao Judiciário é convenientemente omitida pelo editorial que fala do “risco” de as indenizações se transformarem em algo como “uma bolsa-anistia”.
O presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Paulo Abrão Pires Junior, divulgou uma esclarecedora nota a respeito da decisão do TCU e das pressões que vem sendo exercidas contra o processo das indenizações. A capa da revista Época e o editorial de Zero Hora mostram que as empresas responsáveis por essas publicações permanecem impregnadas do autoritarismo que alimentou seu nascimento e expansão. É triste ver jornalistas emprestando sua pena para inimigos da democracia e da liberdade. Pois é exatamente disso que se trata. Esse é o conteúdo que habita a caixa preta de boa parte da imprensa brasileira.

on Aug 16th, 2010 at 1:58 pm
Repugnante! Me dá asco uma imprensa venal como a nossa! Se hoje eles desfrutam e abusam da liberdade de publicar e difamar a quem bem entendem é pq no passado havia pessoas como nossa digníssima Dilma combatendo o regime e em prol do reestabelecimento da democracia. Vão tentar de tudo para machar a imagem de Dilma, mas o povo já tem noção de quem são os seus verdadeiros inimigos.
on Aug 16th, 2010 at 3:17 pm
Eles começaram a detonar suas bombas pró-Serra.
Curiosamente, eles não recordam que Serra teve um passado de UNE e que foi exilado.
Quem vai ler Época serão os mesmos que já estão, há tempos, hipnotizados por esta cantilena da Direita.
Só os blogs levam adiante a tarefa de questionar e desmentir estas meias-verdades plantadas por editorialistas pelegos.
Envergonha-me, ex-estudante de Comunicação, ver no que virou esta imprensa brasileira…
Rick
on Aug 16th, 2010 at 3:18 pm
As coisas estão mudado, Marcão.
Fui no site da Época, sábado a tarde, e dos 19 comentarios que ali estavam, 18 eram a favor da Dilma.
Outra, o direitista Noblat está se queixando que tem muitos comentários agressivos contra seus post e que os está cortando. Censor confesso.
O fracasso do PSDB é o fracasso desta mídia, o Jornal Nacional que já teve 80% de audiência hoje só dá 33%. A Veja perdeu mais da metade de seus assinantes e O Globo, Folha e Estadão estão perdendo sua influência para a democrática internet. Vitória contra tudo e contra todos é melhor ainda. Dá-lhe Dilma.
on Aug 16th, 2010 at 3:19 pm
Isto é sinal do desespero. Quando não se tem mais argumentos contra os fatos – o povo apoia o governo e quer continuação – esse vendidos internos que trabalham para vendidos externos abusam desse recursos. Poderiam falar do passado do Serra e do deles mesmos, apoiando a ditadura para alferir ganhos e privilégios. Mas acima de tudo são covardes, escondem-se no manto da isenção. São os imparciais ativos.
on Aug 16th, 2010 at 4:06 pm
Posso estar enganado, mas me parece que aquele homem atrás, na foto, no espaço entre o Figueiredo e o Roberto Marinho, é o Nelson Marchesan ainda jovem, quando era um dos golden-boys da Arena. Nelson Marchesan, para os que não sabem, foi Deputado Biônico (que não precisavam concorrer, eram indicados pelo Governador da ditatura e “nomeados” pelo General de plantão na presidência. Depois, andou por partidos de direita, estando filiado ao PSDB quando morreu em um acidente de avião. É pai de um boçal que atualmente é deputado estadual.
on Aug 16th, 2010 at 4:16 pm
Ainda bem que Dilma teve passado… Imagina quem passa pela vida sem ter feito absolutamente NADA… Folha em BRANCO!
Por que não CUTUCAM o passado do Serra? da mídia entregadora que se mantem graças as AMIZADES de há muito? dos conchavos? Do balcão de trocas?
Isso vai dar no que já sabemos: TIRO NO PÉ… desespero sem tirar nem botar, estão atirando para todos os lados… PREVISÍVEL!
on Aug 16th, 2010 at 4:21 pm
Esses pelegos da ditadura não se cansam de tentar passar rasteira.Mas como estamos vendo, o povo, mesmo aqueles que assistem a Globo e a RBS sem perceber as manobrinhas, de algum jeito estão acreditando menos nas “verdades dessas sanguessugas”.Estou de camarote assistindo o esperneio dessas midiazinhas.A tática é sempre a mesma, então virou piada.
on Aug 16th, 2010 at 4:41 pm
Esses dias tava eu na academia, fazendo por donde retardar meu reumatismo que herdarei dos meus ascendentes, quando ouvi um papo sobre eleições. Falava uma professorinha para seu alunão ,francamente e sem descuido, sobre sua posição acerca do desempenho no debate dos presidenciáveis. O alunão (coroa como eu) elogiava o bem falante Serra, quando foi aparteado pela profe com a seguinte afirmação:”De fato o Serra falou tudo certinho. Quando expressa seu raciocínio vê-se que tem introdução, desenvolvimento e fechamento, e aí que levo medo. Ele me lembra muito o Maluf. O cara que sabe muito, não gagueja, os verbos sempre estão no tempo e na pessoa de forma correta, como era o Collor e o FHC. Parece fruto de muito treinamento, pois gente normal não faz daquele jeito”. Bem, acho que dá pra depreender que este é também um elemento considerável para o desprestígio crescenete de Serra e da ascenção de Dilma ,para além de seu forte apadrinhamento.
PS.:Não voto em Dilma.
on Aug 16th, 2010 at 4:58 pm
O Seu Delegado! O Nelson Marchesan, mandalete dos golpistas de 64 foi eleito todas a vezes que exerceu cargo de dep. federal.No Rs nunca faltou voto para facistas. Só existia a figura do senador biônico e do governador nomeado (interventor) e os prefeitos das capitais e de cidades consideradas estratégicas do ponto de vista da “seguranlça nacional”, também nomeados.E ele não morreu em acidente aéreo e sim fou acometido de um colapso cardíaco, como se chamava o enfarto naquele tempo quando visitava suas propriedades. Assim como tu ele era formado em direito e foi bancário , só que do BB.
on Aug 16th, 2010 at 5:48 pm
Excelente texto, Marco. Mais um.
“Em que medida uma empresa privada, cujo objetivo central é o lucro, pode ser porta-voz do interesse público?”. Esta é uma frase marcante e deve ser ponto de partida para uma discussão mais profunda sobre a nossa época. Época em que os neoliberais seguem tentando nos convencer de que o mercado – regido pelos interesses das grandes empresas privadas -, é tudo e que por isso devemos nos curvar a sua suposta “mao invisível”.
on Aug 16th, 2010 at 6:03 pm
E a coisa vai piorar. Tem mais dejetos a serem fabricados e lançados pelas mesmas usinas de lixo e pelos mesmos dedicados soldados do esgoto. Mas gostei da resposta na internet e no twitter; agora quero a minha camiseta da foto de Dilma, colorida, com um carimbo escrito: Obrigado, Dilma!
on Aug 16th, 2010 at 6:12 pm
DILMA lutou pela DEMOCRACIA e tem um passado que nos deixa orgulhosos! Principalmente, para nós, mulheres! Ela sobreviveu à tudo porque tinha uma missão pra cumprir: SER A PRIMEIRA MULHER PRESIDENTA DO BRASIL!!!!!
on Aug 16th, 2010 at 6:58 pm
Marco,
sobre o assunto, escrevi: http://sozinhofalando.blogspot.com/2010/08/o-nojo.html
Abraços
Ivan
on Aug 16th, 2010 at 9:23 pm
O filho é uma mala sim, foi meu colega de segundo-grau. Insuportável, chato, o protótipo do murrinha que “se acha”. Andava sempre a tiracolo do filho de um ex-presidente da CEEE que numa festa fui obrigado a jogar uma cadeira.
Mas sou justo, é o único que bota a boca contra os sucessivos aumentos do judiciário e MP enquanto professores, técnico-científicos, praças da brigada, etc, seguem no rabo de foguete dos salários baixos.
on Aug 17th, 2010 at 12:48 am
A grande mídia brasileira é inimiga de qualquer brasileiro que lute por um país mais justo. Nós devemos lutar contra esse “quarto poder”.