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O sentido histórico de uma candidatura

O primeiro programa de TV da candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República calou fundo. E a emoção que despertou não foi resultado de um truque de marketing. A excelência técnica, neste caso, foi submissa ao sentido histórico da candidatura. Entregou-se por inteiro, de joelhos – a qualidade de imagem, de edição, de som, de roteiro –, para narrar um pedaço da história recente do Brasil e para apresentar uma importante personagem dessa história. A imagem de abertura é simples e poderosa: uma estrada, um veículo e somos convidados a seguir em frente com as nossas crenças, paixões e compromissos. Essa jornada, no programa, não é uma invenção aleatória, mas sim um trajeto muito bem situado historicamente. Tem passado, presente e futuro. E estabelece nexos entre eles.

Há vários detalhes que devem ser destacados. Nos programas vitoriosos de Lula, em 2002 e 2006, a ditadura militar não foi tema no debate eleitoral. Agora, aparece já no primeiro programa de Dilma. Por duas razões. Os adversários de Dilma querem usar contra ela seu passado na luta armada contra a ditadura militar, apresentando-a como uma “terrorista”. O expediente, explicitado didaticamente na capa da revista Época, já depõe contra o candidato José Serra que, supostamente, também foi perseguido pela ditadura militar. Se não foi supostamente, ou seja, se foi de fato, não deveria jamais autorizar esse tipo de argumento autoritário e aliado do fascismo que governou o país por aproximadamente duas décadas. Mas o tiro da Época saiu pela culatra e ajudou a consolidar, na figura pública de Dilma, uma dimensão histórica que não era desejada por seus adversários (não deveria ser ao menos). A capa da revista vai, entre outras coisas, inundar o país com milhares de camisetas com o a fotografia de uma mulher que entregou-se de corpo e alma na luta em defesa da democracia. Então, ela não é apenas uma “gerentona linha dura”, sombra de Lula, sem história nem passado. A candidata não só tem passado, como o resgate desse passado parece incomodar o candidato Serra, ele também, supostamente, um resistente da ditadura.

Isso não é pouca coisa. Como tantos outros brasileiros e brasileiras valorosos, Dilma participou da resistência armada contra um regime criminoso que pisoteou a Constituição brasileira e depôs um presidente legitimamente eleito. E a palavra legitimidade adquire um sentido muito especial neste caso. A transição da ditadura para a democracia, como se sabe, ocorreu com muitos panos quentes e mediações. Muita coisa foi varrida para debaixo do tapete por exigência dos militares e seus aliados civis conservadores. E agora, uma filha da geração dos que lutaram contra a ditadura apresenta-se como candidata a disputar o posto mais alto da República. Mais ainda, como candidata a dar prosseguimento ao governo do presidente com a maior aprovação da história do país. Um presidente saído das fileiras do povo pobre, sindicalista, que também participou da luta contra o regime militar e ajudou a acelerar a transição para a democracia.

Dilma representa, portanto, a linha de continuidade de uma luta interrompida pelo golpe de 1964, retomada no processo de redemocratização e que hoje se materializa em um governo com aproximadamente 75% de aprovação popular. Ela representa também a possibilidade de outras retomadas para fazer avançar a democracia brasileira. Em outras palavras, é uma candidatura com sentido histórico bem definido, um sentido que remonta a um período anterior inclusive ao golpe militar de 1964. Quando Dilma diz que olha o mundo com um olhar mineiro e que pensa o mundo com um pensamento gaúcho, não está fazendo um gracejo regionalista, mas sim retomando uma referência histórica que remonta à primeira metade do século XX e que, ainda hoje, causa calafrios nas elites econômicas e políticas de São Paulo. Essas são algumas das razões pelas quais o programa de Dilma calou fundo. Ele fala da história do Brasil, de algumas das lutas mais caras (na dupla acepção da palavra, querida e custosa) do povo brasileiro, de vitórias e derrotas. Isso transparece em suas palavras e em seu olhar. Há verdade aí, não invenção de propaganda eleitoral. Ela viveu aquilo tudo e tem hoje a oportunidade de conduzir o Brasil nesta jornada, na estrada que nos leva todos para o futuro.

Passado, presente e futuro não são categorias isoladas e aleatórias. Um não existe sem outro. São diferentes posições que assumimos nesta estrada que aparece no programa. É um programa que cala tão mais fundo quanto mais percebemos os elos de ligação nesta jornada e a oportunidade histórica que essa eleição oferece de religar alguns fios dessa trama que, em função de algumas doloridas derrotas, acabaram ficando soltos pelo caminho.

19 Comentários on “O sentido histórico de uma candidatura”

  1. #1 Marcio Dreux
    on Aug 17th, 2010 at 7:15 pm

    Ótimo texto. Estou repassando a amigos.

  2. #2 Maurício Santos
    on Aug 17th, 2010 at 7:39 pm

    Que belo texto, Marco; nossa! Espero que a campanha seja assim daqui pra frente! Muita beleza, verdade e um projeto mutíssimo consistente apresentado com a força necessária.

  3. #3 Marcelo
    on Aug 17th, 2010 at 8:25 pm

    A figura dela estilo guerrilheira está ótima, parece até que saiu da equipe dela.

  4. #4 adroaldo
    on Aug 17th, 2010 at 8:32 pm

    Marco, parabéns. Não poderia haver análise melhor.

  5. #5 Valdir
    on Aug 17th, 2010 at 9:23 pm

    A Dilma era bonita pra caramba. Tipo de guria que eu gosto.

  6. #6 Mariah
    on Aug 17th, 2010 at 9:48 pm

    Análise maravilhosa. Esta imagem da Dilma vai suplantar a do Che. Acho que o programa fez o que tinha que fazer, pra quem ainda não sabia, ficou sabendo que ELA é a candidata do LULA. Lula/Dilma duas faces de uma mesma moeda.

  7. #7 Messias Franca de Macedo
    on Aug 17th, 2010 at 9:52 pm

    … Após o programa eleitoral de hoje à noite na TV, a vantagem de Dilma Brasileira Rousseff [A Magnífica] já está em, pelo menos, 20% na próxima pesquisa Vox Populi…

    BRASIL
    Bahia, Feira de Santana
    Messias Franca de Macedo

  8. #8 Dilson
    on Aug 17th, 2010 at 11:55 pm

    O marqueteiro da Dilma é melhor do que o do Zé.

    A favela cenográfica do programa do Zé nos leva a pensar no caráter artificial da campanha dele.

    A Dilma (e o Lula também),aparecendo em vastas paisagens naturais,cuidadosa edição,planos amplos e movimentação de câmera foram mais agradáveis e inspiradores.

    Foi covardia.

  9. #9 Claudia Teixeira
    on Aug 18th, 2010 at 8:53 am

    Marco, emocionante.
    A pedido do meu filho, vou imprimir para ele apresentar em sala, tarefa da aula de História, um grande abraço,
    Claudia

  10. #10 Remindo Sauim
    on Aug 18th, 2010 at 9:28 am

    Marcão, já te elogiei no Vi o Mundo. Acho que o Zé deu outro tiro no pé ao botar a Elba Ramalho (ou carbono dela) cantando com sotaque do nordeste e diversos nordestinos dando depoimentos. Os paulistas tradicionais, que são quem ainda apoiam o Serra, odeiam nosso irmãos lá de cima. É muito burro este Zé! Vai dar DILMA no 1º turno com mais 60%.

  11. #11 ralf oliveira
    on Aug 18th, 2010 at 9:51 am

    Sem pieguice . . . esta ótimo assim ! Parabéns Marco.

  12. #12 rose
    on Aug 18th, 2010 at 10:21 am

    Marco,

    mais uma vez parabéns! Bom de ler, de repassar, de mostrar e de gritar…’olha que mulher incrível será nossa presidenta!’
    Tua sensibilidade Marco, tua inspiração e teu olhar são um presente pra estes que te lêem.
    Sobre o programa eleitoral, bom demais! Aquele diálogo entre Dilma e Lula, um no Chuí e o outro em Porto Velho…bah! O programa inteiro prende a atenção, empolga, agita os sentimentos. Me fez lembrar aquela maravilhosa campanha Olívio que tomou todo o Rio Grande!
    Abração

  13. #13 silvia
    on Aug 18th, 2010 at 10:41 am

    Parabéns Marcos, análise perfeita.

  14. #14 Ronaldo Aquino
    on Aug 18th, 2010 at 10:49 am

    Quem sabe um dia eu escreva assim! Parabéns pelo texto. É tocante. Minha mãe se emocionou ontem ao assistir a propaganda de Dilma!

  15. #15 Fernando
    on Aug 18th, 2010 at 1:12 pm

    É insuportável essa mania da imprensa brasileira de imparcialidade, da “vida por todos os lados”. Carta Capital é a única e mísera exceção. De um lado a histeria convservadora de que todos são vendidos com milhões em publicidade oficial e sua paranóia conspirativa. Do outro a esquerda que acredita que todo jornalista que trabalha para alguém, ou seja, tem um patrão, é vendido. Nesse caso o único orgão de imprensa independente é o Coorjornal.

    É hora da imprensa botar no editorial, “nosso candidato é tal”, e fim de papo, como Mino Carta fez. Quem lê o Washington Post e assiste a NBC nos Estados Unidos sabe que está vendo uma opinião liberal, democrata, mais a esquerda. Quem lê o Wall Street Journal e assiste a FOX sabe que vê uma mídia conservadora, de direita.

    Foi típico de quem não entende muito do que se passa lá fora quem chiou contra a capa da revista Time com a menina afegã. A Time é perseguida diariamente pelos conservadores sob a acusação de ser um antro de democratas traidores que pretende destruir os Estados Unidos.
    Ted Turner, dono da CNN, é patrulhado sob a acusação de ser a favor de um governo mundial que reduziria a soberania dos Estados Unidos.

    E assim vai mundo afora, o francês que pega o Le Monde sabe o que esta lendo, e não é a mesma coisa do Le Figaro. Os jornais italianos tradicionalmente abrem seu voto no primeiro dia de campanha oficial.

    Essa babaquice isenta, como se todos nós fossemos eunucos mentais, é o fim da picada em matéria de empulhação. Aí quando a Época, que por sinal é uma revista que não me atrai em nada, faz uma matéria dessas seus editores tem a “carinha” de vir a público dizer que não é nada disso do que se esta pensando, que eles são isentos. Ah, vão cachimbar formiga!

  16. #16 Messias Franca de Macedo
    on Aug 18th, 2010 at 5:05 pm

    [DATA VENIA]

    A favela é falsa e a Elba Ramalho também.
    Serra mente até no jingle
    Publicado em 18/08/2010
    Em http://www.conversaafiada.com.br – ínclito e impávido jornalista Paulo Henrique Amorim

    Elba Ramalho nega participação em jingle do programa eleitoral de Serra
    quarta-feira, 18 de agosto de 2010
    em http://osamigosdopresidentelula.blogspot.com/

    FALA MATUTO ‘BANANIENSE’!

    “PERAÍ”!: este estropício do José (S)erra já está extrapolando por demais da conta! Explico: ontem à noite, fiquei puto da vida “ao ouvir a voz de Elba Ramalho” no pífio programa do PSDB!…
    … Elba Ramalho, parceira de Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Chico César, Amelinha… Realmente, nordestina e conhecedora das raízes e da saga do seu povo, não poderia compactuar com o candidato da [antinacionalista] coligação ‘Contra o Brasil Nós Podemos MAIS’!
    Pensei, até, em quebrar os meus discos de vinil da cantora!…

    [ADEMAIS, o(a) artista está sempre ao lado do povo! Eu falei artista, na acepção da palavra!]

    … Felizmente, agora, irei ouviu-los novamente…

    Com a palavra a doutora Coureau!…

    República de Nós Bananas
    Bahia, Feira de Santana
    Messias Franca de Macedo

  17. #17 Jorge Ferreira
    on Aug 18th, 2010 at 7:42 pm

    Sugestão de matéria para a Época:

    A história e as estórias de Zé Bicão

    Era uma vez um Zé.
    Dizia que tinha sonhos e liderava jovens que queriam transformar o mundo, combater as injustiças e desigualdades.
    Zé e muitos jovens foram levados a correr o mundo, pois barra por aqui estava muito pesada. Outros ficaram, resistindo como podiam. Uns morreram, outros foram presos e levaram um “pau” danado.
    Os tempos ruins passaram. Quando o Zé voltou se juntou com alguns bicudos e outros abutres centenários da política brasileira. Era outro Zé. Aquelas lutas já não eram mais suas. Deixou que seus novos amigos fizessem o que sempre souberam fazer ao longo de 500 anos: rifar o país, sua riqueza, seu povo. Não falou nada.
    Com o apoio dos novos amigos, o Zé, que não se sabe se é economista ou engenheiro, quis chegar ao topo. Não convenceu. O povo estava cansado do chefe dele. Estava mais pobre, sem emprego, devendo um dinheirão pros FMI da vida, na bancarrota. Coitado do Zé letrado (engenheiro, economista ou sei lá o quê) levou uma surra eleitoral de um operário formado na escola da vida, das lutas.
    Oito anos se passaram. O operário deu um show de governo, muito mais que o príncipe que o antecedeu. O povo ganhou emprego, melhorou de vida. O País enriqueceu, pagou as dívidas, mostrou ao mundo com se enfrenta uma crise braba e tá pronto para virar uma potência, cheia de riquezas que despertam mais ainda a cobiça dos grandões.
    E lá vem o Zé de novo, agora contra uma companheira das antigas lutas. Guerreira. Uma das que levou “um pau danado” enquanto o Zé tava fora. Braço direito (e esquerdo também) do operário que (inédito) tem seu governo aprovado por mais de 150 milhões de brasileiros.
    Mas esse Zé bicudo está sem ninho pra pousar. Se pousa no ombro do homem pra derrubar a adversária, cai. Se tenta bicar o homem cai também. Tem um tal de PIG que tenta soprar o Zé de tudo quanto é jeito, cada semana uma novidade. Mas quem não tem vôo próprio e não sabe como bater as asas, não adianta, nem assim ele vai, cai.
    A última do Zé é a propaganda, tá bicando até o nome do operário pra tirar uma casquinha.
    Olha Zé o teu problema é outro: credibilidade. De líder da garotada dos anos 60 ao cara que concordou com quem fez tudo ao contrário, tu quebrou as asas e perdeu o pouso. Virou o Zé Bicão nessa festa que não é a tua.

  18. #18 Messias Franca de Macedo
    on Aug 19th, 2010 at 2:23 am

    ENTENDA O QUE É ‘INDESCENTE’!
    #############################

    JORNALISMO INDECENTE DA REVISTA VEJA GOLPEIA FALA DE TUCANO
    QUARTA-FEIRA, 18 DE AGOSTO DE 2010

    São 18:45h, hora oficial do Brasil. A *obscenidade está no portal da revista Veja, postada desde 12:23h.
    * O tucano [José Serra preferiu não responder às provocações, e afirmou que é necessário “moradia descente(!)...
    FONTE: http://cloacanews.blogspot.com/

    A FONTE ‘INDESCENTE’ está aqui: http://veja.abril.com.br/blog/eleicoes/sem-categoria/segundo-bloco-marina-eleva-o-tom-pela-primeira-vez/

    NOTA JORNALÍSTICA: na matéria do folhetim golpista ‘Veja’, o trecho acima representa uma espécie de contraponto providencial (sic) à seguinte fala da candidata Marina Silva – menção feita durante o debate e reverberada nesta mesma matéria:
    “O senhor [José Serra] mostrou ontem em seu programa de TV uma favela virtual, quando temos uma favela tão real como a que eu visitei hoje”. Para Marina, falta saneamento de qualidade para milhões de brasileiros e, na opinião da verde, é preciso agir rápido para combater o problema.”

    RESCALDO: moradia ‘descente’ para o PIG e o seu representante da vez, deve ser traduzida pelas casas e barracos que deslizam das encostas sob as chuvas da província de SUMPAULO “do DEMotucano (S)erra”!

    PASSA A RÉGUA, MATUTO ‘BANANIENSE’!: Esta ‘ellite’ é muito ‘indescente’, siô!

    República Desta Mérdia Nativa MENTEcapta
    Bahia, Feira de Santana
    Messias Franca de Macedo

  19. #19 arnaldo
    on Aug 19th, 2010 at 9:36 am

    excelente o texto do Marco Aurélio Weissheimer, no nível do programa .Dá gosto ler.

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