Voltei a Porto Alegre na migração que coincide com a Feira e os jacarandás, pato sabido que eu sou, para participar de alguns eventos na última sexta-feira, ligados a livros meus e ao filme da Ana Luiza Azevedo, Antes que o Mundo Acabe. E me ficou a sensação, forte, de que precisamos fazer algo urgentemente a respeito da Feira. Eu realmente acredito que as coisas, todas, precisam mudar, mesmo que seja ocupar o mesmo espaço que sempre ocuparam, porque os espaços evoluem, e as pessoas mudam, não é mesmo?
A nossa Feira é algo muito especial na nossa vida, mas a Casa Masson também era, lembram? O footing na rua da Praia era o centro da nossa vida. O Jockey foi absolutamente importante. O bonde era o meio de transporte preferido de todos, pelo menos dos que podiam pagar, creio.
A Feira do Livro de Porto Alegre se diferencia das outras, porque os nossos iluminados livreiros que a criaram, 50 anos atrás, apontaram numa coisa e acertaram noutra. Eles queriam uma Feira de Livros e criaram uma Feira de Gente. Foi ali que se formou o amor pela Feira, para as gerações desde então. Ali nos acostumamos a ver os nossos escritores em carne e osso, a conversar com eles e desmistificar o que em outros lugares segue sendo mito.
Mas, se a Feira do Livro é, na verdade, uma Feira de Gente, ela precisa levar em conta o fator humano, acima de tudo, e gente é um bicho estranho. Eu imagino que mesmo que a gente estivesse diante de uma maravilha absoluta, numa espaçonave chegando em Júpiter e na janelinha, após algumas horas extasiados diante daquilo a gente iria começar a querer outras coisas pra ver, um outro ângulo, uma nova experiência.
Depois de cinquenta anos olhando para a Feira, eu sinto que ela precisa evoluir, se tornar outra coisa, mudar em mais do que o local da área de alimentação. Querem ver? Eu fui e vi crianças pobres, de escolas de áreas difíceis, imagino, andando pra lá e pra cá com uma mascarazinha de papel que devia ser brinde de algum patrocinador. O que aconteceu ali de importante? Elas ganharam um passeio até o centro, andaram pra lá e pra cá e eu olhei e ouvi e não vi nada de relevante acontecendo com elas. Vi a orquestra, bem legal, que se apresenta na praça e sabem o que havia diante dela? Dois bonecos-propaganda de um patrocinador dançando na frente da orquestra. Que vocês acham disso? Parece legal, ou parece mesmo uma quermessezinha daquelas?
Os meus encontros com leitores foram ótimos, mas os melhores aconteceram em uma escola de uma área dura da cidade, onde os alunos fizeram um trabalho comovente sobre a realidade deles, a partir do que viram em um livro meu, de fotografias. Elas saíram para olhar e fotografar e isso fez toda a diferença para quem vive cercado por uma realidade quase incompreensível. Ou seja, a literatura fazendo a sua parte, virando leitura intensa e orgânica, mas fora da Feira. Na Feira tive uma ótima conversa com alunos de escolas que viram o filme e queriam debater com o autor do livro porque também o tinham lido. Isso, sim, é relevante e aponta caminhos.
Eu acho que o modelo de Passo Fundo é vencedor, nesse sentido, na relação com as escolas. Que venham à Feira, mas que todos leiam e se preparem antes, para tudo ser pra valer. Assim, a vinda faz sentido, e quem quiser vir a passeio, com os pais, avós, que venha, como sempre.
E acho que o restante da Feira poderia se dividir em duas partes: na coisa local, dos muitos e muitos autores de Porto Alegre, de ficção e não-ficção, contentes na sua condição de autor, autografando um livro na praça. Isso, por mim, não muda jamais. E, com uma curadoria anual, ou em parceria com as grandes universidades que temos, um grande evento que pense e mostre caminhos sobre o que acontece com a nossa realidade e a nossa narrativa, e não apenas a gaúcha. O Rio Grande é muito maior do que ele mesmo, não é? Que isso seja mais praticado, é o que eu penso.
Eu realmente acho que estamos entre os melhores leitores do Brasil. Somos mais acostumados e críticos. Temos a coisa do debate no sangue. Eu gostaria, simplesmente, que a Feira se tornasse, nesse século 21, o grande catalisador dessa energia, em vez de ser as duas semanas em que montamos barraquinhas na praça e celebramos o nosso passado.
Temos um novo governo, certamente inclinado para a Cultura como nenhum outro. Temos um novo Secretário que é homem dos livros. Temos uma bela tradição, e belos espaços.Temos a Casa de Cultura às traças, louca por uso. Temos o Memorial ali ao lado do Margs, idem. Temos o Banco do Brasil querendo abrir novos CCBB. A Caixa idem. Temos o que precisa, bastando, agora, a vontade. Então, temos tudo que precisa, eu acho.
Foto: Bruno Alencastro


on Nov 9th, 2010 at 1:38 am
Ótimo, Marcelo. O melhor que lembro de ter lido sobre a Feira do Livro em 15 anos (que passando de 15 anos eu nem lembro de mais nada mesmo). Parabéns. Conta com meu apoio a esta tua brilhante e acertada interpretação dos fatos.
Obrigado, Marco, por ter apresentado a prenda aqui na tua barraca.
on Nov 9th, 2010 at 7:30 am
Conheci Marcelo, nos idos dos anos oitenta.
Sempre ligado ao ambiente da cultura de Porto Alegre, mesmo residindo em São Paulo, mantém contato com os acontecimentos da terra natal.
Sua análise sobre a Feira e o panorama cultural da cidade é correto. Porto Alegre desaprendeu o trato com a dinâmica cultural.
Por isso, ressalto um evento, na cidade de Bento Gonçalves, que há 17 anos promove intercâmbio entre autores, escolas, grupos da terceira idade e demais leitores. Os livros dos autores são lidos, encenados e discutidos nas escolas do município. Muito interativo e gratificante!
Em referência a cultura porto-alegrense em geral, penso que o Poder Público se distanciou demais dela.
Primeiro colocando pessoas não afeitas ao meio para dirigir as entidades culturais. Depois, promovendo a cessão do Auditório Araújo Viana a grupo privado, o despejo da OSPA de seu tradicional teatro, o esvaziamento do processo de descentralização cultural nas áreas do Orçamento Participativo e tantas outras coisas que assistimos nestes últimos anos.
Espero que o novo governo tenha um olhar mais direcionado à Cultura e suas manifestações.
Pois, como está, é digno de indignação.
on Nov 9th, 2010 at 7:43 am
Perfeito, Marcelo!
Faz muito tempo que não vou à Feira. Quando vejo as matérias sobre Passo Fundo e sobre a Flip, morro de inveja.
Não sei bem o que o novo governo poderá fazer quanto a isto, já que a Câmara tem autonomia.
O que espero é que a Secretaria da Cultura retome o rumo que perdeu há muito tempo.
É urgente que as suas instituições (Casa de Cultura, Memorial, Discoteca Pública, museus e etc…) saibam para que servem!
on Nov 9th, 2010 at 8:05 am
E temos a cidade inteira, que pode virar uma feira do livro a céu aberto o ano inteiro, com projetos como Livro Livre, Livro de Rua ou outros assim.
Participei, de 5 a 7 de novembro, da Primeira Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre, que aconteceu na Azenha. Exemplo de como um evento instigante pode acontecer mesmo com pouco (ou nenhum) dinheiro: http://simplicissimo.com.br/colunas-ativas/frases-de-amor-flatos-com-fedor/primeira-feira-do-livro-anarquista-de-porto-alegre
Boa crítica. As mudanças urgem.
on Nov 9th, 2010 at 10:35 am
Muito bem Marcelo. Foi ótimo você levantar esse debate. Sem o saudosismo fácil eu como vc vimos a feira onde as pessoas se encontravam no centro da praça. Lá tinha um bar que vendia aquela cerveja honesta, churros e pipoca. Lá tinha autores circulando em meio as pessoas. E estas tinham prazer de mostrar suas pilhas de livros recem adquirados. As pessoas tinham contato direto com seus autores. Hoje tudo é mediado. Os autores paçaram a frequentar as alas vips regadas a champs. Parte do público vai a feira, ganha seu brinde e vai embora. Os espaços de convívio aprazíveis estão cada vez mais distantes. E os poucos que tem são distantes. Não se trata aqui de defender o bar no meio da praça,mas sim do convívio mais aprazível. Queria muito, por exemplo, assistir em meio a praça, sentada na grama sob as árvores floridas, os autores falando de seus livros. É uma chatice assisti-los naquelas salas fechadas da CEEE, enquanto o dia trascorre lindo lá fora. Pode parecer bobagem mas é essa feira que gostaria. Abraços e obrigado pelo texto
on Nov 9th, 2010 at 7:32 pm
[...] li o título “A Feira precisa mudar”, do Marcelo Carneiro da Cunha, postado no RS Urgente, pensei de cara que sim, tem que mudar mesmo, os livros são muito caros – isso sem falar na [...]
on Nov 9th, 2010 at 8:41 pm
Marcelo,
Concordo até com seus vírgulas no texto, a feira precisa nos acompanhar, e tinha um ônibus cheio de crianças de Candelária, e resolvi falar com elas, e perguntei o que elas estavam fazendo, e falaram que haviam visitado o Zoológico e a Feira do livro, e aí perguntei se haviam comprado algum livro e todos disseram que não, e aí perguntei mas porque se vieram a feira e me responderam: Fomos obrigados a vir e não gostamos nada Feira…Crinaças de 10 a 12 anos. Fiquei chocada e sem palavras, eu que amo ler…Mas vi que para eles a feira não funcionou…Quase chorei…haaaaaaaaaaaaaaa, lembra do Heart, o Holandes, fui eu que hospedei ele.
on Nov 9th, 2010 at 11:48 pm
Bah! PoA tá virado num trapo! Na Cultura, então …
Araújo Vianna fechado há quase meia década. A Biblioteca Pública do Estado, idem. A Usina do Gasômetro, privatizada.
A Descentralização da Cultura: desmontada (o OP tb). O Festival de Música de Porto Alegre, cadê?
Prá não ser só choradeira esse comentário, peço às “forças vivas” da política local: vamos considerar a CULTURA? (e aí, Tarso; e aí Manú – ou quem vier a ser Prefeita de PoA) !!!
on Nov 10th, 2010 at 8:22 pm
Faz um bom tempo que não vou a feira, mas uma coisa eu noto, e já a algum tempo, sempre o livro mais vendido é de um funcionário daquela rede, é do ex-jogador de futebol, é cozinheiro, é o filósofo do IAPI, agora será da mamãe(quero dizer que já estou com bola de cristal).Então aquela rede apita em tudo neste Estado e na feira do livro não seria diferente!!!
on Nov 11th, 2010 at 9:53 pm
A Feira simboliza a situação da cultura em Porto Alegre e no Estado do Rio Grande do Sul. Ela retrada o quanto o Estado do RS regrediu no campo da cultura nos multimos 8 anos, com o Rigotto, a Yeda e o Fogaça. A governadora do psdb ao escolher a Mônica Leal como secretária demonstrou o seu conceito sobre cultura. O que significa a banca da RBS no espaço central da feira? É o fim da picada.
on Dec 3rd, 2010 at 7:52 pm
Bem, “paçaram” pela Feira também muitas crianças que leram livros e compraram livros, como foi o caso dos meus alunos, que costumam escrever “passaram”. E viram e conversaram com seus escritores escolhidos. Incrível como nestes blogs se faz o mesmo que a grande Rede Baita Safadeza faz: falar o que bem lhe interessa sem o menor cuidado em saber se estão tomando o todo pelo detalhe que viveram. Pode ser que detalhe seja o meu caso, mas enfim. Pelo menos não generalizo. Um dos poetas que assistimos foi na rua, ao lado do quiosque e ele declamava seus poemas e respondia perguntas. Em várias coisas a Feira precisa mudar, mas o que mais precisaria mudar são estas pessoas que tentam se promover com a opinião contra a maré, e que, bom, sempre ganham um destaquezinho entre outros magoados.