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Por que fui calada?

A escritora e atriz Telma Scherer relata em seu blog o lamentável episódio ocorrido sexta-feira na Feira do Livro de Porto Alegre, quando foi vítima de uma ação truculenta por parte de integrantes da Brigada Militar no momento em que fazia uma performance artística em praça pública. Parece que estava “incomodando o comércio” na Feira. Se incomodou, fez muito bem, reforçando a idéia expressa no artigo de Marcelo Carneiro da Cunha, publicado aqui no RS Urgente (“A Feira precisa mudar”). Mas deixemos que a Telma conte o que aconteceu com ela. O vídeo abaixo também registra a ação da Brigada contra uma manifestação cultural num dos principais eventos culturais da cidade de Porto Alegre.

Por que fui calada?

Enquanto eu estava fazendo a minha performance, na Praça da Alfândega, fui cercada por aproximadamente dez policiais e retirada de lá contra a minha vontade.

Os policiais primeiro me levaram para fora da Praça, longe das luzes da Feira, acompanhada pelos brigadianos e duas motos, na presença de um grande público, amigos, leitores.

Perguntei o que estava acontecendo e disseram que eu precisava me identificar.

Depois me pegaram pelo braço e me puseram dentro de uma viatura com quatro policiais. Perguntei o que estava acontecendo e me disseram que eu estava sendo levada para fazer exames médicos. Eu chorava copiosamente pensando que, diante do público da Feira, eu era tratada como uma doente mental, bandida, criminosa, perturbadora da paz. E sem entender o que estava acontecendo, o que fiz de culpável.

Não fizeram qualquer exame. Apenas aguardei até que o vice-presidente da Feira chegou na delegacia e conversamos. Eu falei o óbvio: que a imagem poética é plurissignificativa, eu estava realizando uma manifestação artística, apenas, e em nenhum momento compreendi qual o crime que eu estava cometendo e nem o porque de ser retirada dessa forma.

Eu quis apenas expressar sentimentos relacionados à vivência que tive nos últimos meses, quando acumulei muitas contas e tive que deixar o apartamento onde morava. Formei com as contas uma imagem poética em três dimensões, pus meu corpo em cena e utilizei alguns objetos cênicos.

O público parece ter se identificado, pois foi muito receptivo e acolhedor. Foi por causa dele que fiquei até o fim. Agradeço às pessoas que se manifestaram apoiando-me e inclusive revoltando-se com aquela situação.

O público leitor. Foi para encontrá-lo que fiz minha performance. Ela não incentiva a leitura? O vice presidente da Câmara disse que o objetivo da Feira é incentivar a leitura, quando o perguntei.

É para o público que eu escrevo e pretendo escrever o melhor possível. Ainda que, às vezes, seja difícil encontrar um lugar adequado para isso.

Estou chocada e sem compreender o porque de toda essa truculência com uma escritora em praça pública. Ora, uma escritora conversando com o público em um evento literário de repente tem de ser retirada dessa forma, como se estivesse cometendo crimes hediondos? Cada um interpreta uma performance à sua maneira, se o chapéu caiu certeiro na consciência de quem se incomodou com a minha presença, não posso fazer mais do que dizer: essa interpretação é sua.

O pior foi ter de interromper a minha performance. Eu estava em cena. Já fui contratada tantas vezes para fazer performances de poesia pelos próprios promotores do evento. Se buscarem os guias da Feira dos anos anteriores verão que estive na programação de 2009, 2008, 2007… Em 2010, não enviei propostas de atividades simplesmente porque, no ano passado, cansei demais. Convidaram-me para o Feira Fora da Feira, aceitei, e estou fazendo performances nas comunidades, aos sábados. Já estive na Lomba do Pinheiro, na Tristeza e amanhã, abalada moralmente, humilhada e entristecida, irei até o Morro da Cruz cumprir a atividade do Feira Fora da Feira.

Por que fui calada?

(*) Escritora, atriz, licenciada em Filosofia na UFRGS e mestre em Literatura Comparada na UFRGS

Foto: Guto Maahs/Rumor da Casa

40 Comentários on “Por que fui calada?”

  1. #1 Remindo Sauim
    on Nov 14th, 2010 at 1:30 pm

    Só podia ser a brigada da Dona Yeda. Quanto despreparo,

  2. #2 Jens
    on Nov 14th, 2010 at 1:47 pm

    O fecho melancólico do governo Yeda, a comandante-em-chefe da BM: a cultura tratada como caso de política. Estarrecedor!

  3. #3 valeriobrl
    on Nov 14th, 2010 at 1:53 pm

    Pergunta retorica: a feira do livro acontece no RS? No RS, onde foi morto com um tiro nas costas Eltom Brum da Silva?

  4. #4 mano
    on Nov 14th, 2010 at 2:20 pm

    Vai ver que ela foi detida pois o conteúdo explícito era mais relevante que todos os livros expostos: falavam de uma singularidade, cara estrela efêmera. Já não curtia mais a Feira dos Livreiros, agora já era.
    RIP

  5. #5 Lucas
    on Nov 14th, 2010 at 3:31 pm

    Sou contra qualquer forma de violência e opressão.

    MAS…

    vamos ser coerentes e inteligentes em admitir que vivemos em uma sociedade que apenas tem a ilusão de ser livre. Não somos livres e nunca fomos. Exemplo rápido disso é que se você decide ir morar no exterior, não basta simplesmente pegar suas malas e ir.. você precisa dizer porque, quanto tempo pretende ficar, quais os contatos e tantas outras coisas. NÃO SOMOS LIVRES, TEMOS A IMPRESSÃO DE SER E DEU, NINGUÉM DISCUTE ISSO.

    acho meio imbecil alguém achar que pode fazer qualquer manifestação em um evento, sem que seja pedido ou avisado aos responsáveis.

    Dia desses, na feira mesmo, um senhor passeava com um megafone tocando qualquer música (não vou dizer que era sertanejo, pois certamente os desavisados vão dizer que isso não é arte e que portanto, se fosse chico buarque, estaria valendo) irritando todos os visitantes da feira. Era um som alto e estridente. Ele pode encarar como manifestação artítica, mas não era e afetava um evento maior. Os seguranças se aproximaram e cordialmente pediram que ele desligasse.

    Não comparo e não me interessa a abordagem que fizeram (se oprimiram ou se violentaram, eu repudio totalmente esse tipo de abordagem) mas cá pra nós, bom senso em avisar os organizadores de um evento que você pretende fazer uma ação é, no mínimo, educado.

    É arte? Sim, é arte o que você faz, mas ela não precisa ser desorganizada, instantânea e irresponsável. Se você já fez tantas outras feiras, mas um motivo pra saber que ninguém te calou, simplesmente questionaram o porque de algo que não estava programado. Talvez se alguém estranho entrasse na sua casa e começasse a cantar uma música, no mínimo, você questionaria o porque desse gesto.

    Não acho que ninguém calou ninguém. Acho muito radical um ponto de vista assim. Se você não enviou proposta em 2010, não tem problema, em 2011 a feira terá sua 57º edição.

    Mas isso é só uma opinião, de um outro lado da história.

  6. #6 Julio Silveira
    on Nov 14th, 2010 at 3:42 pm

    Fiquei estupefato com a ação, esses brigadianos parecem estar acostumados a lidar com animais. Deveriam aprender a diferenciar criminosos de cidadãos de bem, e mais importante terem aulas de cidadania e democracia.

  7. #7 jorge pimentel
    on Nov 14th, 2010 at 3:51 pm

    Uma atitude idiota comandada, seguramente, por um imbecil estrelado.

  8. #8 Jackson
    on Nov 14th, 2010 at 4:24 pm

    O despreparo da nossa Brigada Militar é gritante! Esperamos que, ao mínimo, os brigadianos envolvidos na situação sejam devidamente PUNIDOS!

  9. #9 Katarina
    on Nov 14th, 2010 at 4:46 pm

    Foste calada porque as trevas do RS seguem obscurecendo e incentivando a leitura de Dan Brown. Porque a Feira do Livro é um lixo a céu aberto. Porque a RBS, essa tênia cultural, sugou todo o sangue e nutrientes que ainda há. Mas os dias de escuridão, eu confio nisso, estão no fim. Um abração solidário e indignado, Telma. Toda solidariedade e muita, muita revolta. Uma BM dessas deveria ser motivo de vergonha corporativa. Falta de profissionalismo e estupidez.

  10. #10 Luiz
    on Nov 14th, 2010 at 5:00 pm

    A mente blindada desses brigadianos, oficiais e subalternos, se apresentou nesse evento artistico e literário, com o aval do finalizado desgoverno Yeda.

    Fica o triste fato ocorrido para se repensar se ainda nos dias de hoje se quer uma policia militarizada, truculenta e desrespeitadora das garantias fundamentais insculpidas na Carta Magna.

    O ocorrido mostra resquicio da ditadura militar encorporada nos acéfalos uniformizados, pois conduzir alguem sem haver motivação legal alguma é certamente um grande abuso de poder e de autoridade praticado desde o comando geral ao comandante da tal patrulha. . .

    Será que o Ministério Público tomará alguma atitude contra esse desrespeito do Poder Público “investido de Poder de Polícia” contra àquela cidadã? quero acreditar que sim. . .

    Tomára que o futuro governador eleito, em seu governo, tome uma atitude e cesse essas barbáries cometidas pela “Briósa” contra os cidadãos. . . .

  11. #11 Vivian Agnoletto
    on Nov 14th, 2010 at 6:04 pm

    Minha solidariedade.Realmente a BM já teve dias mais felizes.Dias de Olivio Dutra,quando as ordens eram de respeitar os cidadãos. Imagino que essa é uma radiografia do desgoverno) Yeda.
    Uma governadora que trata os mestres com desconsideração,não haveria de dar bons exemplos para seus comandados.Não é o primeiro episódo que fiquei sabendo do uso de força desnecessária e truculência dessa polícia,que remonta do tempo da ditadura.Se são pagos por nós,devíamos receber respeito e não cacetetes.

  12. #12 Modesto Fortuna
    on Nov 14th, 2010 at 6:45 pm

    Assisti ao vídeo inteiro e não encontrei truculência da Brigada em nenhum momento. De fato, os únicos gritando ali são a artista e seus amigos. Os brigadianos foram até bem estóicos; aos dois minutos eu já estava com vontade de esbofetear os detidos todos.

    Sou completamente contra a atitude tomada por seja lá quem chamou a Brigada. Não acho que performances devam ser interrompidas pela polícia. A desculpa de que a artista estava oferecendo álcool a menores é risível. Estou completamente solidário com a artista.

    Porém, a Brigada Militar só age quando acionada, e, caso a pessoa esteja incorrendo em alguma infração, não tem alternativa senão detê-la. (Se a Lei é imbecil, é outro problema, mas não compete à polícia interpretar a lei.) Se queriam gritar com alguém, que procurassem o responsável pela denúncia. Os brigadianos estavam apenas cumprindo a lei.

    Acho que enfrentar a polícia da maneira como as pessoas no vídeo fazem é infantil, histérico e mal-dirigido. O inimigo não são os soldados, é a mentalidade imbecil do porto-alegrense médio frequentador da Feira.

  13. #13 Ana Lúcia Tcatch
    on Nov 14th, 2010 at 7:00 pm

    Ah,que saudade do Olívio Dutra e do brilhante José Paulo Bisol!!!!!!

  14. #14 Gilmar Crestani
    on Nov 14th, 2010 at 7:30 pm

    Enquanto isso a Mônica Leal passeou pela feira sem ser reconhecida…

  15. #15 Advogado
    on Nov 14th, 2010 at 8:01 pm

    Primeiramente:

    Alguns questionamentos na área do Direito:

    1- DA AUSÊNCIA DE POSSIBILIDADE DE DEFESA.
    Pelo trecho do vídeo, pode-se observar que em nenhum momento ocorreu a possibilidade de defesa quanto ao alegado. MAS QUE ALEGADO? Isso é o que resta saber, nenhuma explicação foi dada.

    2- DA ALEGAÇÃO DE DESCUMPRIMENTO À AUTORIDADE POLICIAL
    A alegado “desacato”, ou “desobediência” à ordem policial decorreu da não ocorrência de FUNDADA SUSPEITA DA AUTORIDADE POLICIAL, requisito básico para a correta abordagem policial.

    3- Erro do policial em não informar do que a Autora estava sendo acusada.
    Ao policial militar é necessário uma aprofundada rotina de instruções a cerca DA MATÉRIA DE Direito COnstitucional, caso isso não ocorra, não será realizada uma correta abordagem, principalmente se tratando do público DIFERENCIADO DE ATORES, ARTISTAS, LEITORES, MENORES DE IDADE

    4- DOS DIREITOS CONSTITUCIONAIS
    Observa-se que desde o advento da CF asseguramos inúmeros princípios conquistados através de duras penas:
    DIREITO DE LIVRE EXPRESSÃO (compreende-se todos os meios de comunicação, quais sejam, internet, livros, manifestações pacíficas, etc…)
    PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA;
    PRINCÍPIO DA LEGALIDADE;
    PRINCÍPIO DA DIGNIDADE HUMANA;
    dentre outros…

    5- DA NECESSIDADE DE TESTEMUNHAS
    O fato notório ocorreu em “praça pública”, em um evento público, no qual a presença da manifestação LIVRE DE PENSAMENTO, e DE PROTESTO, deve ser mantida.
    O registro de ALTERAÇÕES , OU OCORRÊNCIAS POLICIAIS, DEVE SER FUNDADO PRINCIPALMENTE NO TEMOR SOCIAL, PRÁTICA DE DELITOS COM VIOLÊNCIAS, EM FlAGRANTE DELITO, ETC…, e não simplesmente no acionamento da Brigada Militar, afim de suprir INTERESSES de PARTICULARES, os quais NEM APARECEM PARA RECLAMAR, OU AFIRMAR O OCORRIDO.
    É MUITO CONSTRANGEDORA A SITUAÇÃO DO VÍDEO, ENFIM, DAS NOTÍCIAS E DE SUA DIVULGAÇÃO, PRINCIPALMENTE ADVINDO DA CRIAÇÃO DA “DESENFREADA PREVENÇÃO GERAL”. MAS, NO CASO EM ANÁLISE, PREVENÇÃO… DO QUE?

    6- JUSTIÇA, SIM, ABUSO, NÃO!

  16. #16 Katarina
    on Nov 14th, 2010 at 8:10 pm

    Se esse é o estoicismo da brigada, avalie o epicurismo…Que coisa. Vou chamar a Brigada para deter vizinhos que escutam BonJovy ou pagode de colete, agora? E a BM estará cumprindo seu dever, ao prender eles, só porque eu chamei. E quando a Mônica Leal aparece assim, caminhando, sem óculos, o que faço? Deixo sem mais, não chamo a BM e ela sequer irá detê-la? Mas sim.

  17. #17 claudia cardoso
    on Nov 14th, 2010 at 8:17 pm

    O que está faltando responder, é de quem partiu a ordem de prisão! O que deixa a situação muito mais perturbadora.
    E sugiro ao governador eleito Tarso Genro, que promova formações culturais obrigatórias para a tropa, além de exercício físico, de tiro e sei lá mais o que que realizam nos quarteis. Não é possível ver gente jovem, na corporação, tão idiotizada! E isso lá é ordem de se cumprir??? Só é cumpirda por pessoal sem noção.
    Toda a nossa solidariedade à artista e mestra Telma Scherer!

  18. #18 Bibiana Fernandes
    on Nov 14th, 2010 at 8:40 pm

    Isso é ridículo, absurdo, total abuso de autoridade e imenso despreparo da BM.
    Um bando de guri sem noção nem da Legislação.
    Pobre do Tarso, terá um grande trabalho para arrumar esta bagunça que está a segurança pública.
    Que estupidez.

  19. #19 Eason Nascimento
    on Nov 14th, 2010 at 9:16 pm

    As coisas estão neste pé no RS? No post acima uma denúncia de arbitrariedade contra o pessoal do teatro de rua. Agora com esta escritora. O Brasil inteiro tem que ser solidário com os gaúchos, porque a democracia está sendo extinta pelo andar da carruagem, nos logradouros públicos de Porto Alegre. A população não pode aceitar este tipo truculento de comportamente da polícia gaúcha.
    http;//easonfn.wordpress.com

  20. #20 Marcelo
    on Nov 14th, 2010 at 10:31 pm

    Se a organizacao da feira nao gostou da manifestacao dela, nao era melhor ter ido falar diretamente com ela ao invés de mandar a polícia?

  21. #21 Sátiro-Hupper
    on Nov 14th, 2010 at 10:36 pm

    Mônica o que? …quem é esta senhora? …faz o que da vida?

  22. #22 Ulisses Adirt
    on Nov 15th, 2010 at 1:21 am

    Puxa, Advogado, eu estava querendo saber exatamente esses pontos.

    Ah, acho q até vale comentar. No 4’37” o policial diz q ela está sendo levada pois desrespeitou o artigo 132 do código penal. Não entendo nada de leis, mas, só olhando rápido, já dá para ver q o infeliz só citou um número qualquer. O artigo 132 do CP diz q “Expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente” leva a uma pena de detenção. Pelo que foi possível entender do ocorrido, ninguém está sendo exposto a perigo direto ou iminente por causa da autora (e o policial fala até outra bobagem qquer). Isso não é mais problemático ainda?

  23. #23 Bona
    on Nov 15th, 2010 at 9:25 am

    O Europeu RS,que possui na sua linda sociedade Neonazistas,da o retrato de sua plenitude nas açoes de repressão a movimentos culturais e de artistas nas ruas da capital ,ha os que aplaudem.Fora isso a demosntração de viloencia a etnias existentes na capital e pelos morros metropolitanos,para o crescimento de malocas verticais.A farsa de uma sociedade que vive de aparencias baseada numa Europa, mas no pior estilo europeu xenofobo, como combater isso?Governador,não é so dele o problema, é da sociedade menos européia do rs…..

  24. #24 Bona
    on Nov 15th, 2010 at 9:35 am

    Um tal José Otavio Germano passou pela feira tb.

  25. #25 Jean Scharlau
    on Nov 15th, 2010 at 11:16 am

    Suponho que se um pobre vendedor de cerveja, água ou refri, com caixa de isopor a tiracolo, circulasse por ali expondo seu trabalho e oferecendo sua mercadoria, obteria tratamento semelhante (com a diferença de que teria muito menos público interessado e menos tempo de argumentação com os soldados).

    A organização da Feira do Livro, da ExpoInter, da Bienal, de qualquer Feira ou evento, não pode permitir que terceiros, quartos, quintos, sextos e assim por diante usem o evento para fazer sua feira ou mostra particular e isto é fácil de compreender e aceitar.

    Porém, como a Feira do Livro é um evento comercial E CULTURAL, que TOMA EMPRESTADA uma praça PÚBLICA, deveria ter um critério de intervenção que considerasse o aspecto cultural de ações não programadas, que agisse com urgência ao constatar incômodo ao público e vagarosamente quando o público aprecia a manifestação. Deveria usar também primeiro, segundo e preferencialmente o expediente cultural da ARGUMENTAÇÃO antes do expediente da COERÇÃO, aqui documentado, o qual deveria ser o último e somente usado em caso de comprovada necessidade.

    A falta, por alguém da administração, da orientação aos inscritos na Feira ou a opção inadequada de quem solicitou a intervenção militar preferencialmente à diplomática resultou nisto: um fato muito importante e elucidativo que mostra com suavidade à classe média – que dificilmente põe-se em lugar não permitido ou onde não é solicitada – como aqueles que têm pouco poder são normalmente tratados pelos que têm poder.

    Foi uma boa metáfora de como os pobres são diariamente tratados pelas classes médias, ainda que numa versão bastante suavizada.

    Parabéns à Telma Scherer e ao público que se envolveu em sua defesa. Parabéns aos soldados da Brigada, pois foram bastante convincentes, ainda que um pouco contidos. Parabéns à eminência que solicitou a repressão, por não ter aparecido – as eminências nunca aparecem mesmo nesses casos.

  26. #26 jorge Loeffler
    on Nov 15th, 2010 at 12:20 pm

    Como é que é?
    Prendem a escritora e deixam o narigurdo livre? Só por que amigo da chefona?
    Vergonha!

  27. #27 jorge Loeffler
    on Nov 15th, 2010 at 12:28 pm

    E mais o “puliça” de dona Yeda, desses que com trinta dias de ordem unida e continência aos “coronés” é colocado na rua sem a mínima formação necessária. O soldado quando questionado citou que ela o havia desobedecido citanto o arti. 132 do C.P.B. Só que tal artigo não trata de desodediência e sim de outro fato que não se configurava naquele momento. Penso que essa senhora deva procurar a autoridade policial daquele distrito, o Delegado de Polícia e oferecer queixa crime contra o dito “puliça” como incurso nas sanções da lei 4898. E se tal ocorrer ele vai dançar.

  28. #28 zé bronquinha
    on Nov 15th, 2010 at 12:37 pm

    É muito simples. Num momento de um certo capitalismo, embora terceiromundista, muitíssimo sofisticado, só tem vez e voz quem detiver aquilo que possuir valor de venda, que não é o caso da expressão artística em debate. Em POA os capitalistas estão tomado conta de todos os espaços públicos com o consentimento expresso das autoridades e com o consentimento tácito da população.

  29. #29 Daniel
    on Nov 15th, 2010 at 1:29 pm

    Não seja tão dogmático para com a arte! De onde você tirou que a arte não pode ser desorganizada, instantânea e irresponsável?!

    E sobretudo, de onde você tirou que para realizar uma performance artística num lugar público é necessário “avisar os organizadores”?!

    Está parecendo que a Feira se tornou maior que a praça e a inculcação geral fez o resto.

  30. #30 Valdir
    on Nov 15th, 2010 at 3:09 pm

    É que pra gente, classe média etc, a truculência da BM só aparece nessas horas, enventualmente. Mas vai lá no Quilombo dos Silva, vai lá na Cruzeiro pra tu ver essas coisas acontecerem diariamente. A BM não sabe agir de outro modo, nunca soube. Isso que aconteceu não é exceção. É a estrutura do ser da BM e dos Brigadianos. Bisol tentou mudar, deu no que deu.

  31. #31 Lucas
    on Nov 15th, 2010 at 6:14 pm

    hahah, leia melhor, eu disse que ela não precisa ser.. nunca disse que não pode ser… só acho uma mentalidade tacanha essa de que a arte precisa ser provocativa e desorganizada, Eita terceiro mundo da p*.

    “E sobretudo, de onde você tirou que para realizar uma performance artística num lugar público é necessário “avisar os organizadores”?!”Da onde eu disse que não somos livres. Só temos a ilusão de sermos, leu ali não?

    Abraços abraços, abraços!

  32. #32 Fernando
    on Nov 15th, 2010 at 6:19 pm

    Bom, confesso. Eu gosto de Bon Jovi, faz parte da minha adolescência. Aquela coisa dos 15, 16 anos cantando “Ill Be There For You” no ouvido de uma guria numa festinha regada a Cuba Libre. Pôxa Katarina, não faz essa coisa meio “idílica” da minha adolescência algo tão sem significado, risos. Tô brincando

    Depois, sigo batendo no mesmo prego. Assim como um cão Pit-Bull tem a violência no seus genes, a BM tem a truculência no seu DNA. Em QUALQUER situação que tu discute com um brigadiano tem a mesma situação, tu pode estar na tua, gelado feito um glaciar, e ele te diz, ao berros, naturalmente, “tu ta muito nervoso, vou te prender por desacato”.

    Eu ja perguntei para minha mãe(advogada), meu irmão(juiz), meus dois melhores amigos(advogados) como se confirgura desacato, cada um dá uma explicação diferente. Todos concordam numa coisa. Desacato tem que acabar, por ser algo absolutamente subjetivo. Se tu começar a bater palmas naquela situação da Feira do Livro, seria um ato de desacato por ironizar a ação policial, ou uma homenagem ao serviço do brigadiano? Estaria ridizcularizando a ação policial?

    Me lembro que logo que fui morar em Miami, vi uma viatura dar um “atraque” num daqueles Chevy`s enormes, da década de 70, com quatro figuras dentro. Eles disseram horrores aos policiais, mas barbaridades, em inglês e espanhol, que no Brasil certamente renderiam umas borrachadas e um processo por desacato. Com os braços encostados no carro enquanto eram revistados e não calavam a boca. Como não havia nada com eles, foram liberados, comentei o que vi com um vizinho, “tira” aposentado que me explicou. Não existe nada que defina “desacato” nos Estados Unidos, eles podem falar das mães e irmãs dos policiais, só não podem encostar um dedo neles, pois aí automaticamente, configura agressão.

    É hora de eliminar essa história de “desacato”, senão, vai faltar papel para tanto processo de brigadiano “desacatando” cidadãos por aí.

  33. #33 Marli
    on Nov 15th, 2010 at 10:06 pm

    Um réquiem para um governo que só soube desrespeitar o povo, seus educadores e seus artistas. A ex governadora em exercício se despede dessa forma melancólica. Até nunca mais yerda!

  34. #34 leandro
    on Nov 15th, 2010 at 10:29 pm

    a mesma BM herdada da ditadura que, salvo engano, será também a BM de Tarso. esta é a triste verdade, estamos diante de uma cultura de décadas, gerações…

  35. #35 Sandro Machado
    on Nov 15th, 2010 at 11:48 pm

    Minhas considerações a escritora, artista e mestre. Procurarei os seus livros de poesias publicados para ler. E, com todo o respeito do mundo, a senhorita é uma moça muito, mas muito bonita mesmo. Parabéns a este belo espaço democrático e socialista, por mais uma vez dar espaço a cultura e a toda forma de contestação ao autoritarismo, marca aliás, deste governo da direita que oxalá, esta quase terminando. Abraço forte a vc Marcos e a escritora que foi podada na sua liberdade de expressão e atuação. É ridículo o argumento que era um lugar privado. Ao que me consta, a feira do livro está situada em um praça, e como dizia CASTRO ALVES, o único dono das praças é o POVO, a significação maior do que é o verdadadeiro espaço público. A defesa da ação policial no vídeo, na boa, é papo de pessoas que no fundo são extremamente conservadoras e não tem coragem de admitir.

  36. #36 Fabiane
    on Nov 16th, 2010 at 12:22 pm

    E isso lá é jeito da polícia tratar as pessoas? É só chegar dizendo que vai levar, sabe-se lá para onde, e dizer que é policial que basta e o povo deve ficar calado porque senão é desacato???
    Quanto abuso de poder e falsa autoridade!!!
    Dê um certo poder a uma pessoa e verás seu verdadeiro caráter! No caso aí, a pessoa é a BM, truculenta e arrogante!!!

  37. #37 Eduardo
    on Nov 18th, 2010 at 2:16 pm

    Ia ser lindo se cada artista em busca de “meu público” fosse se instalar com casa de cachorro em cada evento que atrai as pessoas. Por que ela não pega a casa de cachorro e vai agora para a Praça da Alfândega, chama seu público e se apresenta. Se o público era o público dela, não precisa ser num lugar aonde as pessoas vão para se locomover, assistir a infinidade de programações oficiais e comprar seus livros. Ou não é feira de livros e sim feira de espetáculos livres?
    Como tem aproveitador nesse mundo e como tem aproveitador especialmente no mundo do teatro. Parem com a vitimologia e vão se olhar um pouco!

  38. #38 Eduardo
    on Nov 18th, 2010 at 2:19 pm

    Não acho que devessem ser esbofeteados, mas acho que deveriam sair do lugar onde estavam, identificar-se para a polícia e mostrar que são pessoas decentes que acatam as normas, que entendem que a polícia precisa identificar quem quer que esteja em confronto com as normas. Não é porque é artista, classe média, que tem o direito de exigir outro protocolo para si. Parabéns à Brigada por ter agido com essa artista do mesmo modo que age com outros que desafiam as regras, sejam pobres ou ricos. E, cá para nós, não vi em nenhum momento do vídeo a Brigada sendo violenta. Sejamos um pouco honestos e reconheçamos o oportunismo, a vontade deliberada de criar um fato!

  39. #39 Simone
    on Nov 18th, 2010 at 2:38 pm

    Truculência absurda! Mas e aí vai ficar por isso mesmo? Quem mandou tirar a atriz da praça? O fez com base em que argumento? Quem executou a ordem, realmente seguia uma ordem de superiores?

    Analisar a ação de militares que APENAS seguem ordens, significa mergulhar em águas profundas, ainda que ficando apenas nos primordios de nossa democracia à brasileira. Mas temos que encarar esta discussão!

    Aproveito para deixar outro recado, porque até hoje não encaramos de frente o que aconteceu durante a ditadura militar? Porque muitos dos envolvidos ainda estão vivos e na ativa?
    Creio que só iremos amadurecer como democracia quando estas discussões vierem à publico de maneira sincera e num debate que se propuser elevado política e intelectualmente.
    Enquanto isto não acontecer vamos ter que conviver com estas mentalidades tacanhas e reacionárias! O que irá repercurtir e reverberar em todos os níveis sociais: educação, cultura, segurança, etc, etc.

    O 171 (a popular enrrolação) do código 132 que o policial desencavou poderia ser enquandrado em que outra penalidade?

    Última colocação: só discordo da cinegrafista quando ela diz que “este é o retrato da cultura em Porto Alegre” também não é para tanto, nossa cultura vai muito bem, obrigada. Pode ser ainda melhor, é claro que pode, vamos trabalhar para isto.

    abraços

  40. #40 Soraya
    on Nov 19th, 2010 at 2:07 pm

    Como frequentadora “média imbecil porto-alegrense” acho que um espetáculo que dura mais de duas horas num dia de movimento num espaço chamado Feira do Livro de uma artista que se recusa a ir para um lugar em que atrapalhasse menos, no mínimo cansa a paciência de qualquer um, especialmente de uma banca de livros e as pessoas que queiram chegar nela. Se durasse uma meia horinha, uma hora, ainda vá. Não seria mesmo o caso de chamar seguranças e, após a recusa a sair, esperar pacientemente que a artista cansasse e só voltasse no outro dia. Também seria civilizado como na Europa, que não só ela, mas todos os artistas da cidade que quisessem plateia se instalassem na feira do livro. Também todos os ambulantes, também todos os distribuidores de panfletos, enfim, acho que provinciano é coibir essas pessoas de se instalarem na Feira do Livro. Seria super agradável para nós, frequentadores médios imbecis sermos abordados a cada metro quadrado por dois ou três espetáculos de teatro, de música, de declamação, de venda de bugigangas e de distribuição de panfletos. Claro, sendo pública a Praça deveria ser bem assim. Até lanço uma campanha: para que no ano que vem todos nós que queremos bradar alguma coisa ou vender alguma coisa ou divulgar um produto ou um político, invadamos a Feira do Livro e resistamos à polícia, se ela for chamada por esses ignorantes da Feira do Livro que acham que os frequentadores devam caminhar sem ser importunados por nós!

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