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O pacote natalino do governo Fo-Fo: projeto praticamente revoga o Plano Diretor

Por Paulo Muzell

Juan Jose Saer, num dos seus excelentes romances, observa com ironia que o último deus do Ocidente se encarnou e se fez crucificar com apenas trinta e três anos para, no fim de tudo, possibilitar às grandes lojas e supermercados a multiplicação de suas vendas no dia do seu aniversário. Ele observa, também, que as preces foram substituídas pelas compras a crédito; a veneração dos mártires pela idolatria e a busca de autógrafos de artistas e jogadores famosos.

Eu acrescentaria que a proximidade do final do ano e do natal originou na esfera pública um outro hábito também já consagrado. Um mau hábito, diga-se de passagem. Todos os anos – quase todos os governos das três esferas, municipal, estadual e federal – enviam às suas casas legislativas seus projetos mais importante e complexos. Os famosos “pacotes natalinos”. São vinte, trinta, quarenta ou até às vezes mais matérias, muitas delas de vital importância, que são examinadas e votadas em duas ou três semanas, de afogadilho. Objetivos óbvios do expediente: tempo curto, mínima discussão, rito sumário, eventual repercussão negativa junto à sociedade menor. Fica mais fácil, assim, aprovar “maldades” que atingem muitos e “bondades” que beneficiam muito poucos, invariavelmente os mesmos.

Os dois últimos prefeitos da capital, Fogaça e Fortunati (a famosa dupla Fo-Fo, infelizmente só o primeiro compõe e nenhum dos dois canta!) não foram exceção, pelo contrário, usaram e abusaram dos pacotes natalinos. E neste final de 2010 Fortunati repetiu o rito, entregando à Câmara em meados deste mês o seu primeiro lote e neste final de novembro o volume dois, a segundo parte do seu pacote.

O conteúdo dos projetos é mais ou menos o de sempre: mudanças administrativas, criação de alguns cargos, extinção de outros – quase sempre extinção de muitos de baixa remuneração e criação uns poucos de altos salários -, alteração em conselhos municipais, dentre outros. Pois no meio desta quase três dezenas de projetos – escondido numa montanha de papéis: ofícios, justificativas, pareceres, laudos e anexos – encontramos uma verdadeira “bomba”: o projeto de lei complementar 10.

A ementa informa que ele define índice de aproveitamento para projetos de reforma ou ampliação de centros esportivos, clubes, equipamentos administrativos, hospitais, hotéis, apart-hotéis, centros de eventos, centros comerciais, shopping centers, escolas, universidades e igrejas. Já nos inciso I, II e III do artigo 1º são fixados os índices de aproveitamento de 1,5, 2 e 3, respectivamente, dependendo da Unidade de Estruturação Urbana (UEU) onde se localiza o empreendimento. Na prática a elevação dos índices de aproveitamento dos terrenos permitirá que se amplie a área atual construída em 50%, 60% e até acima dos 100%!

Significa dizer que, por exemplo, se um shopping hoje instalado em uma zona com índice aproveitamento de 1,3, resolver ampliar suas instalações, dependendo da sua localização, poderá mais que duplicar sua área atual, sem pagar um tostão para adquirir índices construtivos e sem que a Prefeitura estabeleça condicionantes à aprovação dos projetos: limite de densidade demográfica, capacidade de suporte da infraestrutura (energia, água, esgoto, coleta de lixo) ou qualquer avaliação do impacto sobre o sistema viário, problemas ao trânsito, dentre outros.

Este projeto é um absurdo, uma irresponsabilidade, um verdadeiro escândalo. É a revogação do plano diretor recentemente aprovado, que estabeleceu outros parâmetros para o regime urbanístico – alturas das construções, taxas de ocupação e índices de aproveitamento dos terrenos -, supostamente com base em estudos técnicos. Como explicar que, poucos meses depois do início de sua vigência índices aprovados já não valem mais, são profundamente alterados num mero “canetaço”?

Esta barbaridade poderá ser requerida à Prefeitura até a data de 31 de dezembro de 2011 e tem uma única justificativa, extremamente lacônica: “estímulo ao evento Copa 2014”. Perguntamos: o que tem a ver a ampliação de um centro comercial, de uma escola, de uma universidade ou de uma igreja com a realização de um ou dois jogos da Copa que serão disputados em Porto Alegre no mês de junho de 2014? Por uma questão de pudor deveria o governo municipal encontrar uma justificativa mais plausível e convincente para realizar esta brutal transferência de patrimônio público para satisfazer os interesses da indústria da construção civil.

8 Comentários on “O pacote natalino do governo Fo-Fo: projeto praticamente revoga o Plano Diretor”

  1. #1 sindicalizado
    on Nov 25th, 2010 at 12:52 pm

    Ainda, ontem, o SIMPA teve de se aliar à bancada de oposição para barrar um desses presentinhos.
    Ele criava cargos de médio e alto escalão e suprimia atividades operacionais, pensando quem sabe na terceirização destas.
    Os cargos foram criados, mas um acordo possibilitou a não-supressão de vagas.
    É preciso estar sempre atento e forte…

  2. #2 Omar
    on Nov 25th, 2010 at 4:17 pm

    O executivo municipal pretende ser o Papai Noel de alguns empresários.
    Provavelmente esses empresários se comprometeram a retribuir com ovinhos na próxima Páscoa.

  3. #3 Sobradinho
    on Nov 26th, 2010 at 5:58 pm

    O que se vê no paço municipal de Porto Alegre e a turma do FO-FO que os mesmos agoram estão retribuindo a muitos empresários o toma lá da cá, ou seja, muitos empreendimentos (empreendedores) tem bancada a campanha de muitos Vereadores,Dep. Estaduais,Dep.Federais,Senadores em troca de favores, pelo que se vê o retorno se deu como Natal para os Empresários.

    Sem citar uma grande de rede de supermercados que banca a campanha política de muitos Agentes Públicos, em que a mesma também fica livre de obstáculos para seus grandes empreendimentos.

    É só consultar o TSE e verificar os valores repassados a muitos candidatos, aliás os mesmos tem o cuidado de distribuir dinheiro para todos os partidos.

    Infelizmente, enquanto não houver dinheiro público para campanhas políticas, a sociedade e o cidadão que paga impostos fica refém destes cidadãos que se tornam Políticos.

    Este é o resultado da política FO-FO em Porto Alegre.

  4. #4 Gabriel
    on Nov 27th, 2010 at 6:33 am

    Daqui a pouco estamos como São Paulo: se chove por 5 minutos, alaga tudo, porque está tudo cimentado.

  5. #5 jorge Loeffler
    on Nov 27th, 2010 at 10:20 am

    Com a devida vênia do titular deste blog não vou tocar no assunto proposto, Plano Diretior, pois noi primeiro parágrafo o autor disse verdades inconstestáveis e que demonstram como a maioria é idiota. O grande mal dos dias atuais é que as criaturas não se dão ao luxo de pensar ou filosofar, até por que hoje para tudo necessário graduação universitária, caso contrário o sujeito é taxado de apedeuta como fizeram com o meu Presidente.

  6. #6 Thomas Morus
    on Nov 27th, 2010 at 5:14 pm

    Ou também como São Paulo, onde o sol nunca chega na calçada, que vira puro limo. Os prédios são tão altos que as ruas viraram Canions. O Bairro Petrópolis já está assim. Pobre cidade, qual será a qualidade de vida das pessoas no futuro?

  7. #7 Ary
    on Nov 27th, 2010 at 6:38 pm

    Plano Diretor, Agenda 21, educação ambiental, legislação ambiental… Quem se importa com isso se no longo prazo estaremos todos mortos?

  8. #8 zé bronquinha
    on Nov 28th, 2010 at 10:10 am

    Ao amigo Paulo:
    Te informo algo que julgo importante. A vitória do Jaime Lerner na disputa licitatória do Cais Mauá já podia ser percebida bem antes do certame deflagrado. Em reunião de uma subrelatoria o palestrante privado apresentando e defendendo o Plano de Negócios (termo utilizado por ele) e uma projeção virtual do projeto a ser alí instalado, disse com todas as letras que isso era fruto da inspiração de Jaime Lerner e por seus sócios espanhóis. Sofia e Adelí estavam nessa reunião. Peça os anais e confira, e , de preferência, apresente ao MP.

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