Em um pequeno mas agudo artigo publicado no jornal Público, de Madri, o economista José Maniel mostra que, enquanto defende a ortodoxia liberal para apertar as rédeas dos demais países, os EUA aproveitam sua posição de domínio para dar um show da mais absoluta heterodoxia, com o objetivo de animar os mercados financeiros com uma injeção de liquidez de US$ 600 bilhões, esperando que isso acabe animando o pulso da conjuntura econômica em geral. Enquanto os estados da União Europeia tratam penosamente de apertar o cinto, os EUA emitem dinheiro para comprar sua própria dívida.]
Com tanto empenho para “sair da crise” está se perdendo de vista o horizonte de rracionalidade e falta de solidariedade que vinha sendo apontado pela atual globalização financeira. Neste mundo financeiramente globalizado, mas econômica e socialmente fragmentado, as urgências para “sair da crise” acabaram também eclipsando as críticas ao sistema monetário internacional e às práticas que motivaram essa crise.
Em princípio, considerou-se que a crise era o resultado lógico da dinâmica de funcionamento do capitalismo financeiro. Portanto, o objetivo de favorecer a estabilidade do sistema monetário internacional exigia questionar essa dinâmica estabelecendo novos mecanismos de regulação e controle que não chegaram a se concretizar de modo efetivo. O contexto que marcou a recente reunião do G-20 confirmou o desgoverno das finanças planetárias.
Pouco antes dessa reunião teoricamente orientada para coordenar as políticas dos países, os Estados Unidos, líder mundial das finanças, decidiu unilateralmente emitir 600 bilhões de dólares destinados a comprar sua própria dívida pública. Ou seja, quando os estados da União Europeia tratam penosamente de apertar o cinto e sanear suas dívidas, os EUA encomendam a seu próprio banco central a emissão de dinheiro para comprar suas próprias dívidas. Depois de tanto criticar Madoff e outros magos das finanças por emitir títulos sem respaldo ou contrapartida alguma, os EUA fazem o mesmo impunemente em uma escala muito maior para recomprar suas próprias dívidas.
Em resumo, enquanto defende a ortodoxia liberal para apertar as rédeas dos demais países, os EUA aproveitam sua posição de domínio para dar um show da mais absoluta heterodoxia, com o objetivo de animar os mercados financeiros com tal injeção de liquidez, esperando que, com isso, acabe animando também o pulso da conjuntura econômica em geral.
Estas medidas já não apontam para incentivar a demanda ou o emprego, mas sim para alimentar diretamente e sem rodeios esse coquetel explosivo de abundante liquidez barata e de desregulação e relaxamento da disciplina financeira que justamente originou a crise. Em vez de favorecer o investimento produtivo mediante estímulos keynesianos, está se preparando o caldo de cultivo propício para que prosperem novas bolhas que serão novamente fonte de instabilidade.

on Nov 28th, 2010 at 6:16 pm
Um liberal nunca é cego, mas hipócrita. Esse é o problema do liberalismo.
on Nov 29th, 2010 at 10:20 am
O problema todo é: que tipo de poder cessa esta disparidade de meios e estratégias pra “virar o jogo”, com mais clareza? ou seja, retomar os trilhos do destrambelho. O artigo mostra duas faces e duas movimentações: uma, a dos US que ignoram o resto do mundo e realimentam a fornalha, sem mexer uma palha do resto; outra, que acredita em retomada do equilibrio, possivelmente, de retomada do jogo especulativo, mas fazendo os mais fracos sangrarem (que algums chamam de “via responsável”. Há uma terceira via? O G20 não deu uma pista sobre o que fazer?
on Nov 29th, 2010 at 12:04 pm
Caros Marco e amigos do RS
O incrível é aguentar asneiras do PiG louvando a “excelência” (devem ter sido irônicos) de Meirelles no BC. Um sujeito destes, que aplica de modo pavloviano dogmas neoliberalóides, só tem crédito mesmo no PiG (ao lado do avatar do Partido Republicano – o psdb – os únicos locais do universo onde ainda de leva a sério estas bobagens do neo-liberalismo)