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A homenagem da Câmara a João Pedro Stédile: efeitos de uma vaia paradoxalmente consagradora

Por Antonio Cechin e Jacques Távora Alfonsin

Na homenagem que a Câmara dos Deputados prestou a João Pedro Stédile, esta semana, conferindo-lhe a Medalha de Mérito Legislativo “por seus serviços prestados para a sociedade”, algumas vaias tentaram tirar o efeito dos aplausos entusiasmados que ele recebeu. Para quem acompanha o trabalho desse líder do MST, a trajetória dedicada, corajosa e perseverante que tem marcado sua luta em favor das/os trabalhadoras/es sem terra e à causa da reforma agrária, não é difícil identificar de quem partiu a grosseria e os motivos que a inspiraram.

A oposição que os latifundiários do país movem contra tudo o que possa afetar seus privilégios, acomodada historicamente na bancada ruralista do Congresso Nacional, não podia aceitar uma honraria como essa, que reconhece na pessoa do João Pedro tudo aquilo que serve de resposta e contestação à concentração desumana da propriedade da terra, por eles promovida, a um produtivismo que não se importa de matá-la, à sujeição estúpida desse bem de vida, reduzido à simples mercadoria, cujos frutos devem ser abortados se não derem bom lucro, ainda que isso custe a fome de milhões.

Foi uma vaia, portanto, que tentou abafar o ruído daquelas verdades ocultas pelo poder da grande propriedade rural, como a da conquista indiscriminada do nosso território, em conluio com transnacionais dedicadas à exploração agrícola, à venda de venenos, à fraude dos registros públicos, à manipulação das leis em benefício próprio, ainda que isso custe a violação dos nossos direitos sobre as áreas de fronteira, dos nossos mananciais, da segurança de posse das/os quilombolas e das/os índias/os.

Foi uma vaia ao discernimento crítico oportuno e necessário capaz de identificar todos aqueles fatores de injustiça social que estão acoplados a megaprojetos agroexportadores. Esses não distinguem a diferença fundamental que caracteriza um direito de propriedade, mesmo quando esse respeita só minimamente a sua função social, aquela que identifica a relação-pertença entre o dono e o seu bem, mas não esquece a relação-destino desse mesmo bem, a qual não pode ser garantida em prejuízo alheio. A pretexto de aumentar nossas divisas, esse tipo de exploração da terra não hesita em levar consigo a floresta, a água, a fauna e a flora que a natureza nos deu de graça.

Foi uma vaia partida dos abusos e dos tradicionais desvios de direito, de que não estão excluídos nenhum dos Poderes Públicos, sempre que sacrificam as/os sem-terra, sob a justifitiva de que, em defesa deles próprios (!?) a lei tem que ser respeitada, mesmo que isso custe a sua morte, como aconteceu o ano passado, em São Gabriel, com o assassinato do sem-terra Elton Brum da Silva.

Foi uma vaia partida de quem não se envergonha de obstruir qualquer tentativa do Executivo, ou do Congresso Nacional, de imporem a revisão dos índices de produtividade das terras do país, coisa defasada há décadas, nem de permitir a tramitação de qualquer projeto de lei tendente a punir a exploração do trabalho escravo. Se os meios para esconder essa sujeira exigir despistes do tipo criação de CPMIS contra as/os sem-terra, presença diária na mídia para a sua criminalização, nenhum escrúpulo seja considerado suficiente para impedi-los.

Foi uma vaia à justa indignação de que estão possuídas/os as/os brasileiras/os empenhadas em apoiar as reivindicações dos direitos humanos fundamentais do povo pobre do nosso país, em sindicatos, ONGs, Igrejas, espaços políticos alternativos onde ele ao menos é ouvido contra o coronelismo armado de jagunços, de manobras de bastidores empreendidas em Bancos, em órgãos Públicos, em “tenebrosas transações” como diz Chico Buarque.

Foi uma vaia, enfim, de vendilhões, bem como o daqueles que Jesus Cristo expulsou a relho de dentro do templo. Hoje, o templo da cidadania e da dignidade humana, que deveria estar sendo venerado reciprocamente, por todas/os brasileiras/os, a ponto de erradicar a pobreza, como diz a nossa Constituição Federal e recomenda o mais elementar princípio de bom senso, não alcança ser reconhecido por aquela gente que vaiou o João Pedro. Não poderia haver prova melhor, portanto, de que a homenagem que ele recebeu se justificou e foi mais do que merecida.

8 Comentários on “A homenagem da Câmara a João Pedro Stédile: efeitos de uma vaia paradoxalmente consagradora”

  1. #1 Remindo sauim
    on Dec 5th, 2010 at 9:08 am

    Daqui a algum tempo, teremos avenidas, praças prédios públicos com o nome de João Pedro Stédile, justas homenagens a um dos maiores brasileiros de todos os tempos, que dedicou sua vida ao MST.

  2. #2 edu
    on Dec 5th, 2010 at 10:16 am

    Todos os que ousam alertar os bois de sua condiçao miseravel de vida (fonte de lucros) faz inimigos crueis.

    Temos de levar em conta os BILHOES que rendem os pesticidas, hormonios e antibioticos usados na agropecuaria brasileira, TODOS os que lucram com esse crime contra a humanidade ODEIAM Stedile, por suas palavras plenas de conhecimento e amor pelo proximo.

    Gente que perdeu (ou nunca teve) os senso da palavra SOCIEDADE, veem Stedile como um entrave aos seus lucros criminosos.

    Stedile precisa de sustentaçao, e somente as pessoas que ele teima em alertar com seus textos e atitudes, podem fazer isso. Enquanto os “bois” nao estiverem maduros o suficiente para compreenderem a realidade, pessoas corajosas e de coraçao generoso como Stedile sofrerao ataques cada vez mais violentos e sanguinarios.

    Antes que alguem venha com o argumento peçonhento “mas ele nao é santo”, esclareço que nao pretendemos que NINGUEM seja santo, avalio atitudes positivas, que nao sao ofuscadas por esse ou aquele defeito (natural em todo ser humano). Portanto se Stedile limpou o nariz com o dedo ou bebeu demais numa festa ou…ou…ou…NAO IMPORTA!!!

    Nao é por acaso que a calunia, injuria e difamaçao sao consideradas CRIME, a forma mais usada para ofuscar grandes atitudes é difamar o sujeito que ousa pratica-las, como faz a midia interesseira no mundo inteiro, condena um cidadao pelo cisco no olho, deixando na obscuridade os seus comparsas que possuem TRAVES em seus olhos.

    Obrigado Stedile, por tua coragem e teu amor incondicional pelo ser humano.

  3. #3 joel
    on Dec 5th, 2010 at 10:21 am

    Tiradentes durante o Império era considerado um contraventor. Na República foi transformado em mártir. O dinheiro faz com que o latifúndio apresente-se como legalizado.

  4. #4 claudia cardoso
    on Dec 5th, 2010 at 12:53 pm

    Perfeito! As vaias foram o melhor atestado a favor de Stédile, porque incomodou/desacomodou o poder “naturalizado” de latifundiários e do agronegócio. Evidentemente, para a boa educação do ato, melhor teria sido que essa gente se ausentasse.
    Cada vez mais aparece a face da extrema-direita brasileira. Há menor ameaça a seus privilégios e lá se vai qualquer sinal civilizatório…

  5. #5 ana ali
    on Dec 5th, 2010 at 11:33 pm

    Pois o tiro saiu pela culatra: ESTAMOS MUITO MAIS FORTE !!!
    Força Stédile, estaremos JUNTOS sempre e cumprimentos, sinceros, pela distinção!!!
    Se a direitada se manifestou é porque se sente ameaçadas e sabe, muito bem a FORÇA QUE EMANA DO POVO.

  6. #6 Thomas Morus
    on Dec 5th, 2010 at 11:39 pm

    Latifúndio é monocultura. Gado, agora eucalipto, soja ou cana sempre destruindo a natureza e não sendo sustentável. O Governo não pode mais financiar a degradação ambiental.

  7. #7 Luis Armidoro
    on Dec 6th, 2010 at 8:13 am

    Ser vaiado por um bando de ruralistas reaças e atrasados (moralmente, economicamente e socialmente) é uma medida do prestígio e da dignidade deste cidadão que engrandece nossa República

  8. #8 Luis Armidoro
    on Dec 6th, 2010 at 10:48 am

    Caros Marco e amigos do RS

    Um link para o site do Luis Nassif (sobre uma reportagem do Valor Econômico) com informações sobre estados que aplicam menos de 12% das receitas na Saúde.

    O choque de”jestão” de Yeda Cruz Credo é infestar a população com doenças, para ver se morrem e parem de amolar

    http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-gasto-dos-estados-com-saude#more

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