Por Cristina Soreanu Pecequilo (*)
Logo no início de 2011, os Estados Unidos (EUA) vivenciaram mais um episódio de violência em sua história política: o tiroteio na cidade de Tucson, Arizona, ocorrido no estacionamento de um supermercado no qual se realizava um encontro (o “Congresso em sua Esquina”) entre eleitores e a deputada democrata reeleita pelo estado, Gabrielle Giffords. Até o dia 9 de Janeiro, o ataque vitimara seis pessoas (incluindo um juiz federal republicano John Roll), enquanto outras doze, incluindo Giffords, permaneciam internadas.
Em 2010, o comitê de Giffords fora invadido durante a campanha, assim como a deputada recebera fortes críticas do candidato da oposição republicana, apoiado pelo Partido do Chá, Jesse Kelly. Kelly, em algumas declarações reproduzidas depois do atentado pelas agências de notícias (EFE, 09/01/2011), havia afirmado ser necessário “disparar um rifle automático M16 com Jesse Kelly” contra Giffords. Além disso, a deputada fora incluída em uma lista de vinte democratas, divulgada por Sarah Palin, que deveriam ser derrotados no pleito de meio de mandato. Bastante criticada, esta lista trazia representações gráficas destes candidatos como alvos de armas de fogo. No caso de Giffords, sua candidatura estava “na mira” por suas posições favoráveis à reforma de saúde de Obama e moderadas na imigração.
Tema controverso no Arizona, definido como “cenário de guerra” entre “os americanos e os outros” pelo governo republicano de Jan Brewer, a imigração e o tratamento dado a ilegais esteve (e está) no centro de uma disputa jurídica entre o Arizona e o governo federal. No núcleo da disputa, a lei estadual de 2010 que permitiria às autoridades do estado abordar, interrogar e deportar pessoas suspeitas de serem imigrantes ilegais. Estas recomendações eram inspiradas pelo “Ato Patriota”, editado em 2001, depois dos atentados de 11/09, com medidas de exceção para lidar com possíveis terroristas, ultrapassando limites de direitos civis.
Guardadas as proporções, o ataque a Giffords não pode ser resumido a estas divergências sobre imigração ou sistema de saúde, ou encarado de forma isolada. Também é possível que nas semanas subsequentes ao tiroteio desconstrua-se a hipótese inicial de que Giffords fora o alvo, ocorrendo um esvaziamento natural do caso. Mesmo assim, é fundamental que não se subestime ou esqueça o ocorrido. Motivações diversas, que perpassam o tecido social norte-americano, e que representam sentimentos de inadequação social, perda de lugar no mundo, medo da diferença, valorização da força, culto às armas e a paradoxal junção nacionalismo-antigoverno, permeiam mais este episódio. Seja na esfera política, como na social, a válvula de escape norte-americana é representada por eclosões periódicas de violência.
Representadas por eventos diferentes estas manifestações possuem a mesma raiz: a insatisfação dos que perpetram a violência com o que percebem como violações do modo de vida americano e que desejam a volta a um passado idealizado republicano no qual cada um era responsável por sua vida, segurança, educação e religião. A intervenção do Estado na vida do cidadão, as teorias conspiratórias que opõem o homem simples a um Executivo poderoso e onipresente, alimentam a polarização que conforma a agenda dos radicais do chá, atravessando grupos de interesse, movimentos religiosos e o cotidiano. Parafraseando a Declaração de Independência, nos EUA de hoje, alguns setores tentam difundir a ideia que a maioria dos norte-americanos está sendo pressionada a desistir de sua “busca pela felicidade e prosperidade” por culpa do Estado e, no extremo, por culpa de seu vizinho, principalmente se ele for representante de qualquer minoria, social, racial, étnica ou religiosa. Frente a esta ameaça permanente, aos inimigos deve-se oferecer a resistência.
Dentre os mais significativos eventos que se inserem neste quadro de “resistência” podem ser lembrados: Waco 1993, quando a confrontação entre autoridades federais (FBI, Guarda Nacional e ATF- Álcool, Tabaco e Armas de Fogo) e a seita religiosa liderada por David Koresh, resultou em um massacre de civis que resistiam ao cerco federal; Oklahoma City, 1995, atentado contra prédio federal realizado, oficialmente, por Timothy McVeigh, ligados a grupos fundamentalistas brancos; Columbine, 1999, quando os estudantes Eric Harris e Dylan Klebold dispararam contra seus colegas e professores.
Desempregados invadiram empresas nas quais trabalharam atirando contra pessoas com as quais conviveram, colégios sofreram ameaças similares a Columbine, seitas religiosas e grupos fundamentalistas fecharam-se em comunidades armadas, em exemplos que se não ganharam a mídia como seus antecessores, repetem-se. Opositores de políticas sociais, do aborto à educação sexual, à ação afirmativa, confrontam-se não só nas cortes de justiça, mas frontalmente em piquetes, ameaças de morte e ataques reais. Na arena política, poucos são os que desconhecem o assassinato dos Presidentes John Kennedy Jr em 1963, Abraham Lincoln 1865, William McKinley, 1901 (o atentado a Ronald Reagan em 1981), e de políticos como Robert Kennedy em 1968. Pela internet e pela mídia tradicional, o radicalismo, de ambos os lados, prevalece, sem deixar de mencionar a relativa apologia de filmes e livros com estes episódios de violência e a dramatização acrítica (e até romântica-idealizada) de indivíduos como serial killers e líderes de seitas e movimentos sectários, dentre outros.
No caso de Lincoln, pelo menos, o contexto era o da Guerra de Secessão (1861/1865), da confrontação entre o capitalismo industrial do Norte e a economia escravagista e agrária do Sul, representativa de uma guerra fratricida que levou à união nacional via modernização. Estamos diante de nova Guerra de Secessão que poderá ter o resultado oposto, o da regressão? De certa forma sim, uma vez que a reorganização social-econômica leva ao incremento da violência. Violência esta que, na realidade, sempre esteve presente no tecido social, mas que era tornada a exceção e não a regra, via sistema político e legitimação de políticas de inclusão e respeito à convivência mútua realizadas pelo Estado com o consentimento da população ou, quando necessário, pela imposição da legalidade (bastando lembrar nos anos 1960 quando o governo federal teve que intervir diretamente em estados do sul do país que se recusavam a respeitar as políticas de igualdade racial).
As reações ao atentado de Tucson, e a muitos dos episódios aqui rapidamente lembrados, revelam estes sintomas de divisão e o esgotamento do consenso anterior: enquanto observaram-se fortes condenações ao tiroteio, principalmente dos democratas e da Casa Branca, os críticos como Palin manifestaram suas condolências timidamente, e reações de apoio ao atirador puderam ser encontradas com preocupante frequência. Estas movimentações fazem parte do declínio e mudança com os quais o país não consegue lidar, e que leva à externalização de seus problemas por meio de ações econômicas e políticas unilaterais, independente do governo, e às guerras (Iraque, 1991, 2003, Afeganistão, 2001). Com ou sem 11/09, às vésperas de completar sua primeira década, os ciclos de confrontação norte-americanos revelam muito mais inimigos internos do que externos à democracia nacional. Neste contexto, Giffords é mais um símbolo das tensões pelas quais passam os EUA, e que não se consistiu na primeira, e nem será a última, destas, cada vez mais recorrentes e diversas, tragédias norte-americanas.
(*) Professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)


on Jan 10th, 2011 at 2:27 am
Na segunda metade do século passado, um pouco depois da grande guerra eles “inventaram” a guerra da Coréia e logo a seguir a guerra do Vietnam. Assim foi e assim sempre será até que o império venha a ruir. Lembro de uma série de artigos do jornalista Flavio Alcaraz Gomes, veiculados no Correio do Povo em que ele definia essa “civilização” como sendo “Os Romanos do século XX”. Eles têm um sistema político muito perigoso em que as campanhas eleitorais são sustentadas por doadores anônimos. Lá não se presta contas de doações de campanha. A indústria bélica tem boa parte dos parlamentares como sócios e produz demais, sendo, pois, necessário guerras constantes para consumir tal produção sob pena de gerar violento desemprego com todas as conseqüências sabidas. O endividamento deles e demasiado sério e hora mais hora menos o império vai ruir. Não será ao longo da história da humanidade o primeiro e nem o último a ter tal destino. O que ocorrerá então não me atrevo antever, pois ainda sou racional. Esquecia de mencionar que as religiões têm um papel nefasto lá como outrora tinham aqui, vide 1964. Hoje o império de Roma age em todos os quadrantes do mundo onde é aceito não mais de forma aberta, mas sim através da cria de Josmariá Escriva Balaguer que é a Opus Dei que hoje controla determinado partido político recentemente derrotado.
on Jan 10th, 2011 at 9:05 am
Parabéns, Cristina e Marco, por publicar esta excelente abordagem sobre os norte-americanos. Desde os tempos do “bang-bang”, “liberdade americana”, “modo de ser americano”, na verdade evidencia-se uma patologia do “quem manda sou eu” ou “sabe com quem estás falando”? Essa falsa superioridade que ostentam, querendo servir de modelo ao continente e ao velho mundo só poderia desencadear esse terrorismo, sempre querendo eliminar minorias (ou até maiorias) que ameacem seus planos aristocratas. É um verdadeiro apartheid (ou nazismo) na “terra da liberdade”!
on Jan 10th, 2011 at 9:09 am
É o processo de decomposição do organismo imperial. Os vermes começam a ficar cada vez mais visíveis.
Sugestão de leitura: http://doomar.blogspot.com/2011/01/china-vai-passar-os-eua.html#links
on Jan 10th, 2011 at 12:57 pm
O império americano irá ruir? Sem dúvida alguma. Quando? Boa pergunta…
Os Estados Unidos são um país jovem, tem pouco mais de 200 anos, e só se tornou potência após a II Guerra Mundial. Antes era um gigante frágil, quebrado pela Grande Depressão e subestimado militarmente.
Atravessou crises, guerras, sobreviveu aos assassinatos dos políticos ditos no artigo. De Bobby Kennedy, Martin Luther King e Malcom X. Se esfacelou numa guerra civil, teve sua experiência terceiro mundista nas décadas de 20/30, viveu à beira de uma revolução na década de 60, teve duas crises do petróleo, defenestrou Richard Nixon e botou George W. Bush no ostracismo.
Falo agora como alguém que morou quatro anos nos Estados Unidos, que viveu e trabalhou entre eles. Primeiramente, a devoção quase messiânica as idéias que formaram os Estados Unidos, as idéias iluministas de seus “founding fathers”, mesmo quando seus líderes jogaram , e ainda jogam, sua constituição no lixo.
Depois, o materialismo americano, por mais que façam a pose de religiosos. Ateus ou fanáticos cristãos de direita, o “Almighty Dollar” é o santo deles. O próprio Michael Moore em “Capitalismo – Uma História de Amor” ressalta o alto padrão de vida que seu pai gozava quando era operário da GM. Algo impensável para qualquer outro operário no mundo nas décadas de 50/60, “tínhamos dois carros, minha mãe não precisava trabalhar, moravamos num bairro agradável com casa própria, sem hipoteca, e ainda gozavamos uma semana de férias por ano em Nova York”. Na Europa arrrasada, no Japão bombardeado e na engessada União Soviética, isto era um sonho delirante.
Finalmente, o triunfalismo. Apesar dos pesares, das Coréias, Vietnãs e Iraques, dos fiascos históricos, todos os americanos tem uma sensação de vitória dentro de si. Qual vitória? A Guerra Fria, mais precisamente, a União Soviética. Me lembro de um colega de trabalho que foi ao Leste Europeu em férias, “quando desci em Moscou e vi um Pizza Hut, me senti como MacArthur em Tóquio”. Não resisti a piada, “quando um japonês te vê saindo da empresa dirigindo Honda deve se sentir em Pearl Harbor”.
Por que eles sobrevivem? Com tantos altos e baixos? Pela sua capacidade reinvenção. De inovação. Nas últimas décadas trocaram o modelo fordista de produçao(mandaram tudo para a China), pela revolução digital. Trocaram os potentes V8, pelos iPad`s e iPhone`s. Trocaram as centrais nucleares de Nova Jersey, pelos parques eólicos e painéis solares da Califórnia. A onda agora é a “indústria verde”, seja ela verdadeira, ou balela corporativa. Agora o capitalismo americano recuou, flertou com bancarrota total, mas a “passo de formiguinha”, vai se recuperando, e um novo ciclo de prosperidade americana irá surgir.
Um dia o ciclo de prosperidade americana irá acabar, a reinvenção irá minguar, outras potências irão despontar. Quando? Uma boa idéia é medir por quanto tempo os “impérios” europeus estiveram a frente do mundo. Não é algo nem para nossos netos…