Por Paulo Muzell
O avanço na redução da miséria e na diminuição das enormes desigualdades na distribuição da renda e da riqueza do país foi, sem nenhuma dúvida, o grande saldo positivo do ciclo dos oito anos do governo Lula. A redução do desemprego combinada com o aumento do mínimo e do salário médio real trouxe como conseqüência o aumento da participação dos salários na renda do Brasil. De forma ainda muito tímida foi iniciada a reversão de um quadro perverso que perdurava há mais de quatro décadas.
Um estudo do IPEA recentemente publicado revelou que o período de crescimento do país pós Segunda Guerra Mundial teve seu ápice no biênio 1959/60: a participação dos salários atingiu 57% da renda nacional. Ainda assim, uma participação abaixo da média dos países desenvolvidos onde, em média, a massa salarial representava mais de dois terços do PIB, beirando os 70%; os restantes 30% correspondiam à soma dos lucros, juros e aluguéis. Nas duas décadas seguintes – os anos sessenta e setenta – as elevadas taxas de crescimento se mantiveram, sendo fato novo o início da queda da participação dos salários na renda do país. Já as duas décadas seguintes, de 1980-2000 registraram baixo ritmo de crescimento e também redução dos salários que em 2000 representavam somente 40% da renda do país. Em quarenta anos os salários perderam uma fatia correspondente a 17% do total do PIB: a preços atuais uma redução no seu poder de compra da ordem de 600 bilhões de reais/ano. A partir de 2001 se inicia uma recuperação: os salários avançam 4% e atingem 44% da renda nacional no biênio 2008/2009. O avanço – modesto – significa um aumento no poder de compra dos salários de cerca de 140 bilhões/ano.
O estudo do IPEA revela, também, que apesar da recuperação dos investimentos públicos no país, especialmente na esfera federal e do aumento dos gastos em educação e saúde, o pagamento de juros no período 2001/2008 foi mais de duas vezes maior do que a soma dos investimentos e das despesas na área social.
Dados atuais do IPEA e do IBGE revelam que o quadro de enormes desigualdades persiste no país. A diferença entre o montante da renda do país apropriada pelos 10% mais ricos em relação aos 10% mais pobres que no Japão é de 4,3 vezes; nos EUA, país de grandes desigualdades é de 14 vezes. No Brasil atinge 68 vezes!! Mesmo o aumento do salário real e do mínimo esconde as enormes diferenças salariais existentes no país. No setor público a diferença entre o menor e o maior salário chega a ser superior a 100 vezes!
Lula deu apenas um pequeno passo na enorme tarefa de redução das desigualdades. O governo Dilma tem pela frente o desafio de prosseguir e de reduzir ainda mais as diferenças, consolidando a verdadeira cidadania. Uma das tarefas futuras – crucial – é a de melhor distribuir as receitas públicas entre as três esferas de governo. Realizar a esperada reforma tributária. Melhorar, também, a repartição dos recursos entre os municípios, especialmente o retorno do ICMS e do FPM, hoje com critérios absurdos de distribuição. Bom, mas este é tema para um próximo artigo.


on Jan 11th, 2011 at 8:00 am
Tem, realmente, muito chão pela frente.
Mas como diz a frase atribuída a Mao: “Uma caminhada de mil milhas começa sempre com o primeiro passo.”
on Jan 11th, 2011 at 8:38 am
O que passa pela cabeça de alguém ao se deparar com tamanha miséria enquanto se deleita no alto de sacadas luxuosas? A burguesia brasileira tem uma característica ímpar: ela não se contenta em ter uma vida excelente; é necessário que os demais tenham uma vida péssima. Só assim ela se realiza. Milionários, em outros países, se dedicam a causas nobres (doam fortunas para instituições de ensino, destinam recursos para preservar a natureza, fazem doações para ciência e pesquisa e incluem em seus testamentos universidades, centros de reabilitação, instituições de proteção animal e ambiental, etc…). Aqui no Brasil, ainda está para nascer alguém com esse perfil. Aqui temos um povo excelente mas, em contrapartida, a pior burguesia do mundo. São primitivos – na pior acepção da palavra, rasteiros, insensíveis, cruéis, vendilhões, criminosos, apátridas. Bandidos, mesmo!
on Jan 11th, 2011 at 3:23 pm
O projeto socialista-intervencionista não deu certo tanto aqui no brasil como em nenhum outro pais.
Este estado paternalista somente cria uma casta social (corporativista) dos dentro do estado e dos fora do estado ,uns que vivem do estado e outros que pagam a conta os de fora.
Tanto assim que a principal meta dos brasileiros e fazer concurso publico e se agarrar nas tetas do estado .
Pragmatismo reina na republica popular do brasil.
on Jan 12th, 2011 at 9:28 am
Uma foto que diz tudo. Ela é do tamanho do Brasil. Ela é a cara do Brasil. Um país socialmente brutal. A sociedade brasileira é uma sociedade individualista, que adquiriu o hábito do “jeitinho brasileiro”, do levar vantagem em tudo. Uma sociedade sem educação, sem cultura, onde a corrupção campeia no meio político, e, afora isso, é preciso que se tenha clareza que nossos políticos são produtos do atraso brasileiro, ainda estão no tempo dos privilégios e mordomias. Precisamos, efetivamente, repito, efetivamente repensar o nosso país, a partir da chegada de Cabral, da ocupação colonialista portuguesa, em que não se sabe quem mais aqui mandava, se o governo de Portugal ou a fé católica, em pleno período inquisitorial. Os portugueses vieram para trazer a “civilização”. A fé católica veio para “evangilizar”. Deu no que deu. Precisamos, portanto, sem qualquer fanatismo, sem hipocrisia, com visão ampla, passarmos nosso país a limpo. Aliás, isso se dizia bastante há algum tempo atrás, mas, é claro, não passava de demagogia. O tema é por demais sério para atos demagógicos.
on Jan 12th, 2011 at 8:08 pm
Aí estão Al faville X Al favela. Não precisa dizer mais.