A tarifa de ônibus de Porto Alegre, recentemente fixada em 2,70 tornou-se uma das mais caras dentre todas capitais brasileiras, só sendo inferior à de São Paulo. Todas capitais da região Nordeste apresentam tarifas menores do que a nossa: São Luis, por exemplo, cobra apenas 1,30, Salvador 2,30. O Rio tem tarifa de 2,40, Belo Horizonte 2,45 e Florianópolis 2,20, para citar alguns exemplos.
Este último reajuste – duramente contestado e criticado por entidades do movimento comunitário e estudantil – atingiu 10,2%, bem acima da inflação do período. Repetiu-se neste último reajuste o que tem invariavelmente ocorrido nos aumentos de tarifas pós plano Real: eles são, sempre, superiores aos registrados nos índices de preços. Se tomarmos como parâmetro o IPCA, de julho de 1994 até janeiro deste ano, o aumento acumulado dos preços atingiu 275,8%; já a tarifa de ônibus da capital subiu 629,7%. A tarifa cresceu 94% acima da inflação, praticamente dobrou em termos reais. Ora, é evidente que todo cidadão porto-alegrense atento exige uma explicação, quer uma resposta: por que paga hoje quase duas vezes mais do que pagava em meados dos anos noventa?
Como o poder público – no nosso caso a Prefeitura através da sua empresa, a EPTC – não trata o tema com a transparência necessária e com suficiente nível de informações, resta apenas a alguns setores da sociedade – aqueles que mais sofrem os efeitos negativos dos aumentos abusivos – a mobilização e o protesto.
A análise dos dados do cálculo tarifário não deixa qualquer dúvida que a causa principal do aumento da tarifa, não só em Porto Alegre, mas em todo o Brasil é a redução do IPK, o famoso índice de passageiros por quilômetro. Na verdade ele informa para o sistema como um todo o número de pessoas utilizam o ônibus e que efetivamente pagam o custo do quilômetro rodado. Se um número maior de usuários pagarem, menor a tarifa; quanto menos, maior ela será.
Em Porto Alegre a diminuição do número de passageiros foi brutal na última década e meia: em meados dos anos noventa, eram transportados mais de 350 milhões/ ano; em 2010 foram apenas 230 milhões de viagens. Uma redução de 120 milhões passageiros transportados por ano! Em conseqüência o IPK “despencou: diminuiu quase 40%. Significa dizer que de cada 100 pagantes de outrora, temos hoje pouco mais de 60 suportando o custo. A conseqüência é que esses 60 restantes pagarão, mantido constante o custo/km, uma tarifa 63% maior. Dois terços do aumento real da passagem já tem uma explicação objetiva, que não deixa qualquer dúvida.
Uma primeira explicação foi encontrada: paga-se hoje bem mais e a principal causa é a brutal redução do número de usuários ao longo dos últimos anos. Resta, agora, responder a indagação seguinte: por que as pessoas estão andando menos de ônibus aqui em Porto Alegre? De várias hipóteses de possíveis respostas uma é óbvia, salta aos olhos: é porque o sistema perde eficiência, torna-se mais caro, e menos atraente, num perigoso circulo vicioso que no longo prazo poderá ter graves conseqüências. E pesquisas mostram que a principal causa da ineficiência é a redução da velocidade média de circulação do ônibus. Os corredores da nossa capital são velhos, estão em péssimo estado, necessitam de uma radical reformulação que viria através do programa “Bus Rapid Transit”. Um programa nacional, com recursos federais garantidos, anunciado pela SMT e a EPTC há muitos anos, com previsão de obras e investimentos vultosos que melhorariam significativamente a circulação dos coletivos nos corredores da cidade. Acontece que o programa consta há vários anos no orçamento municipal e não avançou um milímetro nesses seis anos do governo Fo-Fo. Vê-se que a Prefeitura tem culpa no cartório: não fez e também nunca explicou as razões de sua inércia. O prefeito e o seu secretário da Fazenda anunciam todos os anos superávits de centenas de milhões e os projetos importantes não são realizados, sequer iniciados. Perguntados sobre atrasos de obras e investimentos respondem vagamente: “é culpa da burocracia”. Fácil, não é mesmo?
Falta, também, explicar os restantes 31% do aumento real da tarifa que decorrem do aumento do custo do km rodado. Duvido que os combustíveis e a mão de obra – que respondem por cerca de dois terços do custo/km tenham tido no período significativos aumentos reais que possam justificar a elevada majoração do custo/km rodado. Caberia à Prefeitura em audiências públicas “abrir os dados do cálculo tarifário” aos interessados para que não pairem dúvidas que originam a justificada suspeita de possíveis manipulações dos preços dos itens da planilha.
Como vimos, a população anda cada vez menos de ônibus, a tarifa sobe estratosfericamente. Os ônibus circulam pela cidade cada vez mais vazios e o pior: em velocidade cada vez menor. A Prefeitura do governo Fo-Fo assiste a tudo isso passivamente, inerte, nada faz. O sistema vai de mal a pior. Já o empresário segue bem. Periodicamente pede e consegue junto ao poder público o reajuste da tarifa que lhe assegura embolsar integralmente seus rendimentos. Recebe uma taxa de lucro tabelada, garantida, embutida no cálculo tarifário. Sob o título “remuneração do capital” ele recebe o elevado retorno de 12% calculado sobre todo o capital empregado na sua empresa, seja fixo (valor dos ônibus, terrenos, instalações, equipamentos, etc) ou variável, o seja, o capital de giro necessário à movimentação do seu o negócio. Garante assim a continuidade de sua vidinha mansa e tranqüila.


on Feb 25th, 2011 at 12:28 pm
Correção: a tarifa de Florianópolis custa R$2,95, e não o valor que foi informado no texto (R$2,20).
on Feb 25th, 2011 at 1:57 pm
Quando passei a depender de ônibus para trabalhar (Centro x Agronomia) foi quando passei a sonhar com o carro próprio.
on Feb 25th, 2011 at 4:14 pm
Daniel: o comentário anterior foi incompleto e truncado, motivo pelo envio-o novamente. Realmente se pago em dinheiro o valor da tarifa é 2,95; pelas in formações que tenho constitui uma minoria dos usuários. A grande maioria, que utiliza a modalidade pré-pago tem um custo/bilhete de 2,20.
Paulo Muzell
on Feb 25th, 2011 at 4:28 pm
Muito bem explicado. Os horários são irregulares (apesar de prefeitura e empresas negarem com a maior cara de pau). Os coletivos, mesmos os carros novos, são sujos e o atendimento é péssimo.
Poderíamos sugerir, além do que o Paulo já colocou, para melhorar o nosso transporte coletivo sem aumento de tarifa a redução da taxa de lucro dos cretinos dos empresários.
on Feb 25th, 2011 at 4:29 pm
É Culpa da Burocracia?
Ou dos funcionários e administradores públicos que não tem as virtudes necessárias para o exercício da funcionalidade da burocracia?
Max Weber com sua Sociologia da Burocracia continua atualíssimo!
on Feb 25th, 2011 at 5:31 pm
Caro Paulo, o valor da tarifa de ônibus de Florianópolis é R$2,95 e é um dos mais caros do Brasil com talvez um dos piores serviços – e isso é importante que seja corretamente registrado. Nos últimos anos movimentos sociais, principalmente estudantes, se insurgiram contra esse abuso. Se uma “grande maioria” utiliza ou não a modalidade pré-paga, isto é uma questão para ser muito melhor verificada, e mesmo assim não creio que possamos incluir um direito social como contra-argumento ao fato de que o valor nominal da passagem é imoral e questionável. Ou então eu deveria supor que a grande maioria dos cidadãos de Porto Alegre não paga valor integral da passagem e que logo não há razão para indignação? Abraços!
on Feb 25th, 2011 at 8:13 pm
Apoiado, Daniel… em Floripa é uma vergonha. Por aqui, nem movimentos adianta. As “otoridades” e a PM são iguais ao Mubarak, do Egito. Baixam o pau de primeira.
on Feb 26th, 2011 at 2:45 pm
Em São Paulo vereadores do PT foram para a rua apoiar movimento contra o valor das passagens. Aqui em POA não vi nada disto. Porque será que não aparece nenhum deles para protestar? c
on Feb 26th, 2011 at 7:57 pm
Para justificar o aumento da passagem de ônibus em Porto Alegre, devemos levar em consideração os seguintes pontos, visto há necessidade de justificar:
As linhas de ônibus na cumprem a tabela de horários, a EPTC finge que acompanha o cumprimento do horário;
Os ônibus estão sempre sujos, falta limpeza adequada as suas necessidades, a exemplo do TRENSURB, quando realizada deixa muito a desejar, aliás alguns ônibus são somente limpos quando são tirados de circulação para renovação, são limpos e pintados com o intuito prevendo a sua venda;
As empresas bancam campanhas de políticos e partidos, assim o povo fica refém do Pref. que não toma as devidas providências quanto a qualidade do serviço prestado, serviço este público;
Não está disponível no site da EPTC as planilhas que provam o custo das empresas e os ítens utilizados na elaboração do preço da passagem;
Somente 30% da frota dispõe de ar condicionado, isto quando funciona, aliás é um artíficio para justificar, quando na verdade todos os ônibus poderiam dispor de tal serviço;
A EPTC alega que as isenções previstas em lei são motivos para o custo alto da passagem, também a mesma não dispõe de dados disponíveis no site, são somente números que as empresas dispõe e demonstram os dados ao seu modo, falta total de transparência e de justificativas;
Faça uma experiência em utilizar as linhas de ônibus em fim-de-semana e feriado, em que certamente o usuário vai se arrepender de ter saído para um passeio com a família;
Infelizmente essa é a política do transporte público proporcionado pela Pref. Mun. Porto Alegre através do Pref. Fortunatti.
on Feb 28th, 2011 at 8:52 am
Puxa, ônibus cada vez mas vazio se você não pega a linha T11 ou os Onibus que vão para a Zona Norte como Passo das Pedras, Nova Gleba, Etc.
Nestes ônibus a situação de nós, os passageiros, não é humana. Basta pegar um para sentir na pele.