Tales Cassiano Mença da Cruz sonha ser músico. Percussionista. O que ele, nos seus míseros 10 anos, ainda não sabe, é que o sonho já foi realizado. Sim, Tales já é um músico. E dos bons. Hoje à tarde, em pleno Palácio Piratini, com um público formado por altas autoridades, uma ministra, um governador, deputados, tal e coisa, Tales não errou uma só batida nos pratos que, na Orquestra Villa-Lobos, estão sob sua responsabilidade. E olha que o repertório não era pra qualquer um. Melodias marciais dos hinos Nacional e Rio-Grandense, duas ou três peças clássico-populares de Heitor Villa-Lobos e um samba de Gonzaguinha. Para completar, ainda ofereceram a Tales a companhia de um ator global que fazia uma leitura dramática enquanto ele tocava. “Lá vai o trem com o menino, lá vai a vida a rodar. Lá vai o trem sem destino, pro dia novo encontrar” declamava Werner Schunnemann ao som dos pratos de Tales.
Talvez por não se dar conta de que o menino podia ser ele, de que a falta de destino podia ser a pobreza em que ele vive, e nem que o dia novo pode ser a vitória sobre a miséria, Tales não se abalou.
É, Tales ainda não sabe, mas pouquíssimos são os músicos que conseguiriam tocar e vivenciar tudo isso sem estarem absolutamente concentrados. Pois ele tocou sorrindo, com expressão levíssima, pouco se importando se o cenário de seu espetáculo reunia obras de artistas do porte de Aldo Locatelli, Paul Landowski e Vasco Prado; muito menos se as soleiras e os rodapés foram esculpidos em mármore de Carrara. O que Tales já sabe, e isso todos nós que o assistíamos também ficamos sabendo, é que ele adora tocar seus pratos. E não importa se isso acontece na Vila Mapa, onde ele nasceu e ainda mora, ou num palácio.
Tales, acho que já disse, tem só 10 anos. Mas há três ele começou a freqüentar a oficina de percussão da escola pública Villa-Lobos onde sua mãe, Maria José, ganha a vida como faxineira. Ele tem dois irmãos um pouquinho mais velhos que também integram a orquestra. E o pai, Lisandro, faz bicos como auxiliar de pedreiro. É assim que a família Mença da Cruz vai vivendo seus dias numa das regiões mais pobres da periferia de Porto Alegre.
O ato que Tales transformou numa cerimônia comovente hoje à tarde, era o lançamento do braço gaúcho do programa Brasil Sem Miséria que, no Rio Grande do Sul, vai se chamar RS Mais Igual. Sim, quando foi eleita, a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff impôs a si mesma e ao país, um desafio grandioso: erradicar a pobreza absoluta, ou seja, fazer com que meninos pobres como Tales, encontrem como ele, um sonho para dar sentido à vida.
O Brasil Sem Miséria é o principal instrumento criado para alcançar este desafio. É um programa que está sob a coordenação do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome que, não por acaso, é comandado por Tereza Campello, uma mulher que, segundo disse o governador Tarso Genro na cerimônia de hoje à tarde “não é apenas um quadro político qualificadíssimo, mas um exemplo de militante humanista radical”.
Tereza é paulista, mas viveu boa parte de sua história política no Rio Grande do Sul. Quando foi chamada a se manifestar, não escondeu que estava emocionada. Por ver Tales, por estar de volta a uma terra que ama, a um palácio que freqüentou nos tempos em que assessorava o Governo de Olívio Dutra e à cidade onde moram alguns dos seus melhores amigos. Tereza chorou. Elegante e discretamente, mas chorou. Chorou ao citar a amiga Suzana Lisboa, que hoje completa 50 anos a mais do que Tales e que é símbolo de uma luta que, como a da pobreza, ainda não está acabada. Suzana era casada com Luiz Eurico Tejera Lisboa, seqüestrado, torturado e morto pela ditadura militar. E, como Tereza, ela luta para fechar algumas chagas que fazem do Brasil um país incompleto. Tereza luta contra a injustiça da concentração da renda nas mãos de uns poucos, o que faz com que tenhamos, ainda, 16 milhões de pobres absolutos.
Suzana luta contra a injustiça do não acerto de contas com a memória dos que deram a vida pela liberdade.
É, o Piratini hoje à tarde foi pura emoção. Com a arte de Tales, a saudade e as lutas de Tereza e Suzana. Foi assim que o Rio Grande do Sul assumiu hoje um o compromisso histórico de erradicar a pobreza absoluta. Quem estava lá saiu convencido: Tereza, Suzana e Tales, merecem ver este compromisso cumprido. Afinal, como dizia a música que os alunos da Vila Mapa tocaram no encerramento, a vida é bonita, é bonita e é bonita. (João Maneco)
Foto: Caco Argemi (Palácio Piratini)

on Jun 30th, 2011 at 11:28 pm
Conheço a orquestra do Tales. Sem quem é a Suzana e convivi alguns poucos momentos com Tereza. A hoje ministra é mulher de fibra, daquelas que quando fala contigo te olha nos olhos sendo direta e absolutamente franca.Grande caráter ela carrega. Muita saúde companheira!
on Jul 1st, 2011 at 10:25 am
Mas bah tchê. Dei uma passada larga por lá.
Até índio bagoal que nem eu deu umas fungadas.
Especial de primeira.
on Jul 1st, 2011 at 3:01 pm
Parabéns pelo seu texto. Um dos melhores que já li na internet. Você já está nos meus Favoritos
Quem me trouxe aqui foi http://somosandando.wordpress.com/2011/07/01/jornalismo-e-historia-por-tras-do-fato/
a quem agradeço esta oportunidade.
Titina
on Jul 1st, 2011 at 8:17 pm
Excelente texto Maneco. Sobre a Tereza, sou suspeito: é uma velha amiga e companheira e porque sobre seus ombros pesa a responsabilidade maior desta gigantesca tarefa, quase uma utopia!
Paulo Muzell
on Jul 2nd, 2011 at 5:35 am
Sempre penso que seria interessante se houvesse um programa com essas crianças e adolescentes que não fosse direcionado apenas ao ensino de música (percussão) e esportes.
Que tal um programa que lhes faça se interessar pelas ciências, por exemplo? Não seria lindo se, além de excelentes percussionistas, pudéssemos encontrar na periferia nosso primeiro Nobel de Física?