O que define o discurso jornalístico? Já ouvi de mais de um jornalista experiente, não sem um misto de constrangimento e surpresa, que jornalista reporta, relata o que está acontecendo, como se tal operação fosse suscetível de um software que descrevesse a realidade de forma indiscutível. Quem já fez uma pauta jornalística na vida, uma só, sabe que isso não existe. Não há tal coisa como um relato objetivo de um acontecimento, com exceção de eventos banais que garantem a objetividade, não por sua característica, mas sim por sua relativa irrelevância: se o Chevette placas XX-4536 bateu num poste é possível sim descrever esse fato de forma objetiva, mas isso define o que seria um “discurso jornalístico”? O discurso jornalístico padece de uma arrogância cultural que talvez derive, em boa parte, de sua proximidade com o poder.
Há alguns filmes míticos sobre jornalismo e jornalistas que exibem um pouco as raízes dessa arrogância, filmes como Cidadão Kane (de Orson Welles) e a Montanha dos Sete Abutres (de Billy Wilder). Há tentações profundas que acompanham o trabalho jornalístico: a busca do “furo” a qualquer preço, a pretensão da exclusividade, a sedução do poder que é tão mais forte quanto mais perto dele se está. A combinação dessas tentações com o mito do relato objetivo produzem monstrengos dos mais variados tamanhos e naturezas. A transformação dos veículos de comunicação em grandes corporações só vem agravar esse quadro, com a consequente transformação dos e das jornalistas em empregados que não se reconhecem como tais. Quando transformados em celebridades, então, a situação só se agrava.

on Oct 23rd, 2011 at 2:53 pm
há uma dualidade nisto, pois enquanto o senso é de que o homem está
sendo deixado de lado em sua própria sociedade, os homens de papel passeiam livremente pelas páginas diárias contando histórias de pessoas de carne e osso e relembrando outras histórias em preto e branco.