Não lembro o ano exatamente. Deve ter sido na década de 1970. Eu acompanhava com fervor cívico, pelo rádio, em Passo Fundo, os jogos do Internacional. Lá na rua Lava-pés, 841, num acanhado puxado preenchido quase que totalmente pelo beliche que dividia com meu irmão e um heróico guarda-roupa de três portas. Os jogos do campeonato gaúcho, disputados no inverno, eram uma dureza. Afinal, eram os tempos de Daison Pontes, no Gaúcho, de Luiz Felipe e Cedenir , no Caxias. Não era moleza.
Neste ambiente adverso, Escurinho era um sinônimo de Esperança. Erigiu-se como lenda ao entrar no segundo tempo nos jogos e marcar no finalzinho, quando tudo parecia perdido. Lembro de um desses jogos. Inter e Atlético de Carazinho, em Carazinho, no estádio Paulo Coutinho. Jogo duro. Duríssimo. Até a entrada de Escurinho. Nos últimos instantes, o suspense alimentado pela transmissão só de rádio, Escurinho aparece como um anjo salvador para a torcida colorada e, claro, como um carrasco maldito para os adversários.
Escurinho construiu essa lenda de salvador nos momentos finais, quando tudo parecia perdido. Nunca o conheci pessoalmente. Vacaria, lateral esquerdo do Inter daqueles tempos, era meu tio na época. Mas isso me propiciou apenas um aperto de mão de Figueroa, no jogo de despedida deste, contra o Palestino do Chile, no Beira Rio. Foi o dia em que comecei a deixar Passo Fundo e conhecer o mundo.
Escurinho morreu, vítima de complicações provocadas pela diabete. Não importa. Escurinho foi sinônimo de Esperança. Quantas vezes, ouvido colado no rádio, na Passo Fundo ainda dos tempos da ditadura, quando a transmissão dos jogos de futebol constituía um mundo alienado e mágico ao mesmo tempo, Escurinho surgia como o sinal de que era possível reverter uma situação aparentemente impossível. Ele fez isso. Várias vezes. Mais ainda. Foi protagonista de uma das jogadas mais preciosas da história do futebol brasileiro, narrada no vídeo acima pela voz de Haroldo de Souza.
Ao saber da morte de Escurinho na noite desta terça feira lembrei apenas daquela gélida noite de inverno dos anos 70, quando, com o ouvido colado no rádio e enterrado embaixo das cobertas na cama de cima do beliche, conheci o significado do conceito de esperança. A derrota parecia inevitável. Até que Escurinho entrou em campo…

on Sep 28th, 2011 at 5:27 am
Helder X Simões
Cabeceadas históricas e gols nos últimos 45 minutos de suor com a camisa colorada, adeus glória da negritude futebolística, estrela eterna nosso SC INTERNACIONAL!!!!!
on Sep 28th, 2011 at 6:46 am
É Marco, o cara era uma “pedra no nosso sapato”, uma “reserva técnica” de “vocês”: entrava no final e quase sempre mudava o resultado com aqueles belos e plásticos gols de cabeça…
Paulo Muzell
on Sep 28th, 2011 at 6:49 am
Puxa, Marco, que pequena grande crônica. Me emocionei.
on Sep 28th, 2011 at 9:19 am
Fique com Deus Escurinho!
Grande ser humano e uma das grandes lembranças do extraordinário time colorado que reinou de 73 a 76!
on Sep 28th, 2011 at 9:39 am
Escurinho era realmente um deus. Nunca mereceu ser titular, mas era o cara das horas difíceis. Quantas vezes nos salvou? Quantos gols fez no tradicional adversário? Sinto enorme pena por ele ter sofrido tanto no final de sua vida. Nos deu muita alegria para merecer isso.
on Sep 28th, 2011 at 9:40 am
Ah, belíssimo texto. Fiquei comovido.
on Sep 28th, 2011 at 12:04 pm
A grande torcida colorada está muito triste com a partida de um grande homem e de um grande jogador, vitimado por um doença que lhe infringiu muito sofrimento e cada vez mais tornava sua existência um ato quase heróico de sobrevivência. Certamente, viverá para sempre na lembrança de todos os colorados, pois os ídolos não morrem.
on Sep 29th, 2011 at 8:20 am
Foi-se um dos últimos flhos da Ilhota. Um dos últimos jogadores-torcedores. Escurinho merece ser lembrado com essa palavra…esperança…que é tão doce aos ouvidos de quem dela precisa….linda coluna.
on Sep 29th, 2011 at 10:43 am
Eu me lembro de um jogo contra o Santos em 1976 em que o Escuro entrou no segundo tempo e marcou tres vezes e viramos um jogo durissimo no Morumbi para 3×1. E vários outros, um golaço de bicicleta contra o Coritiba em 1975,uma decisão de turno em um grenal em 76 quando uma cabeçada do Escurinho mandou a bola e o Cejas(grande goleiro do Gremio)para dentro do gol.O Escurinho apareceu na boca do túnel e provocou a invasão de campo por parte da torcida do Gremio na final de 1977 e a partida foi encerrada antes.Até de goleiro o Escurinho já jogou quando estava no Palmeiras substuindo o Leão expulso.
on Sep 29th, 2011 at 12:12 pm
puxa.. é de arrepiar.
on Sep 29th, 2011 at 7:25 pm
Foi um exemplo de jogador e de pessoa humana, sob a sua tutela o time Colorado teve certamente, o melhor momento de sua história. Suas cabeçadas no segundo tempo, ficarão eternas na lembrança deste time. Uma grande perda para um jovem de 61 anos. Sentimentos aos seus familiares.