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Crise dos partidos no ajuste neoliberal

Tarso Genro (*)

Os partidos políticos, na sua forma atual, corresponderam a um largo período de desenvolvimento político e cultural nos países centrais. Eles foram “mimetizados”, imitados, nos países coloniais e neocoloniais, que avançavam e recuavam na conformação das suas democracias. A organização destes partidos, como organização de “parte” da sociedade, para aplicar um programa ao “todo” da nação -a partir de maiorias parlamentares ou eleições diretas para os executivos- fez avançar significativamente a democracia política.

O partido “parte”, neste contexto, também teve o contraponto do partido “todo”. Este requisita para si a representação universal, seja em nome da nacionalidade, com o nacional-chauvinismo de direita, que propõe um estado “total” para a nação; seja a partir da representação universal “classista”, com a suposta vocação do proletariado para dissolver, pela revolução, todas as classes para uma nova humanidade, num outro tipo de estado “total”. Todos os partidos – inclusive estes – também lastreados em certas leituras da cultura da modernidade, já apresentam rápidos sinais de superação.

Os verdadeiros partidos da modernidade contemporânea – ou pós-modernidade, se quiserem – não são mais exclusivamente os organismos tradicionais geradores de mandatos eleitorais. Estes perdem cada vez mais sua autenticidade programática e o seu nexo com a sua cultura e memória acumuladas. Como a orientação do “fazer” público vem migrando de forma gradual do terreno da subjetividade partidária para o espaço da objetividade economicista, há uma captura do “programa” dos partidos. Esta captura é feita pela força normativa do capital financeiro que, através das suas instituições, orienta as regras de “bronze” da economia financeira e reduz, crescentemente, a margem de opção política dos partidos.

A crise dos partidos não se origina, portanto, de “traições” de líderes políticos, mas ocorre principalmente pela redução da força constitutiva de todas as decisões na órbita da política. A política perde a capacidade de incidir sobre o já decidido no mundo das finanças, se as suas propostas não estiverem – inclusive as mais elementares – pelo menos em acordo com os caminhos oferecidos pelo poder do capital financeiro, a saber: os grandes bancos, as agências de risco, os bancos centrais.

O poder dos partidos esvazia-se e o poder do dinheiro incha. É um dinheiro falso, criado sem trabalho, mas é um poder verdadeiro, porque juridicamente apropriado por grupos, pessoas, setores sociais minoritários, que, quanto mais minoritários, mais concentram força. Estas minorias dominam, hoje, o núcleo real do capitalismo, que não está mais na produção de mercadorias, mas na produção artificial do dinheiro, configurado em supremo poder político.

Através do financiamento privado das campanhas eleitorais este poder se exacerba. Tanto sobre o mundo empresarial não dotado de bancos próprios, como sobre os partidos, que escolhem ou são coagidos a mercantilizar suas relações, para poderem sobreviver com mínima densidade eleitoral. Assim, a transformação de políticos em consultores e de consultores em políticos militantes não é, em princípio, uma questão de moralidade política. É um novo processo de formação de quadros e de reorganização programática dos partidos que, integrados nesta nova lógica, tendem a tornarem-se organismos amorais, perdendo sua autoridade perante filiados e apoiadores.

Os partidos políticos da modernidade contemporânea, hoje, são as grandes cadeias de comunicação. A informação, seja em rede, seja através das cadeias formais de comunicação, pode legitimar, pelo menos por certo tempo, qualquer política e qualquer liderança para promover as “reformas” que escolherem. Já são tão ou mais fortes que os partidos para determinar o “fazer” público. Não se trata de uma “maldade” ou uma atitude solerte dos jornalistas ou dos donos destes grupos. É que estas grandes cadeias são as instituições que podem realizar a mediação “total” entre os “programas” de ajuste da dívida pública para com os bancos, de um lado, e os partidos políticos fragmentados, de outro, que vêm perdendo, cada vez mais, a sua capacidade de criar hegemonias estáveis. A ascensão e queda do Berlusconi são o retrato de descartabilidade a que são submetidos, hoje, as lideranças que se conformam neste processo.

A reforma política, estabelecendo o financiamento público das campanhas, é o único antídoto à vista para esta situação crítica. Grande parte dos cronistas políticos fez nariz torcido para o apelo de Lula na Europa em anarquia financeira, pouco antes dele ter começado o seu tratamento médico. Lula fazia o apelo para que se recuperasse, perante as receitas do mercado, a força da política para buscar soluções políticas para a crise. Mas a saída foi a mesma de sempre: soluções “técnicas” que não levam em consideração a brutalidade dos seus efeitos, principalmente para os pobres de todas as raças e origens e os assalariados de baixa renda. Veremos o resultado.

(*) Governador do Rio Grande do Sul. Artigo publicado originalmente na Carta Maior.

12 Comentários on “Crise dos partidos no ajuste neoliberal”

  1. #1 Daniel
    on Nov 25th, 2011 at 9:22 pm

    Ao contrário da maior parte dos esquerdistas de hoje em dia, Tarso Genro é capaz de articular um pensamento, ainda que equivocado. Por isso merece a minha análise. O texto de Tarso é obviamente crivado pelas limitações da ocupação que ele ocupa: ele não consegue considerar o mundo social senão do o ponto de vista do poder estatal. Ele está certo quando constata a perda de margem de manobra dos partidos políticos e novamente acerta quando aponta que o poder do capital financeiro está na origem desse estreitamento de margem de ação. Ou seja, ele disse, em outros termos, que direita e esquerda hoje são em essência iguais – não é preciso ser gênio para constatar isso.

    Se acerta nos fenômenos superficiais, erra, entanto, no prognóstico, quando prega a volta ao passado: quando quer tomar de volta o poder dos mercados financeiros para os partidos. Ora, o capital só investe em mercados financeiros porque investir em trabalho é cada vez menos rentável – salvo trabalho semi-escravo no estilo chinês. Se relesse “O capital” (Marx), talvez Tarso pudesse entender: as forças produtivas se desenvolveram tanto – com microeletrônica, automatização, biotecnologia, etc. – que a composição orgânica do capital se deslocou drasticamente do trabalho vivo em direção ao trabalho morto. Em outras palavras, o maquinário substitui os trabalhadores como nunca antes, de forma que a extração de mais-valia é cada vez mais difícil (pois só o trabalho vivo produz mais-valia) – a consequência é a queda da taxa de lucro. O capital refugia-se então no mercado financeiro (capital fictício), não por maquiavelismo, mas porque é o único ninho onde ainda pode se reproduzir.

    O diagnóstico marxista está se confirmando sob os nosso narizes, mas os (ex) marxistas não enxergam. A volta ao passado pregada por Tarso é inviável simplesmente porque a base de extração de mais-valia (o trabalho) se torna supérflua com a revolução microeletrônica – e de onde mais vem as receitas do Estado senão da extração bem-sucedida de mais-valia? A autonomização dos mercados financeiros não é causa de crise, mas consequência da crise fundamental do trabalho abstrato.

    Quanto às “soluções técnicas” corretamente apontadas por Tarso como a essência das políticas anti-crise atuais, é de se perguntar por que então quis tomar o poder, se não as enfrenta jamais. O que foi o aumento da contribuição do IPE para os trabalhadores senão uma “solução técnica”? O que está sendo a negação do pagamento do piso nacional dos professores, com concomitante concessão de incentivos fiscais à alta burguesia e apelo à “temporalidade do orçamento” (a temporalidade do capital!), senão uma “solução técnica”? Estaria Tarso lamentando a própria impotência? Improvável, pois apesar do estreitamento da ação estatal, ela ainda existe, e há uma parcela de escolha no que faz; e ele escolhe não afastar-se um milímetro sequer das “soluções técnicas”.

    A limitação fundamental do texto de Tarso – sua visão estadocêntrica – faz que ele nem de longe perceba que a saída não está em voltar ao passado, mas em direção ao novo, e que esse novo está para além do Estado e dos partidos – mas talvez seja difícil pensar a si mesmo como supérfluo para qualquer mudança substancial no mundo, justamente quando se está em uma posição de “poder”. Enfrentando qualquer preconceito, talvez o movimento de contestação mais à altura dos tempos atuais, apesar de sua ingenuidade, seja o dos norte-americanos do Occupy Wall Street. Eles denunciam os mercados financeiros, mas combatem também os partidos políticos, recusam tanto Obama quanto os republicanos (ou qualquer outro).

    O que temos de atacar no século XXI é o coração do capitalismo: a organização social do fazer humano, ou a abolição do trabalho, como disse Marx em “A Ideologia Alemã”. A democracia só pode se realizar com a democratização radical das relações de produção e a abolição do valor como mediação social (e, portanto, da mais-valia) – usar as forças produtivas hiperdesenvolvidas para democratizar e ócio e garantir o acesso à riqueza social para todos – dissolvendo a “política” e a “economia” como esferas separadas da vida. E nisso os partidos políticos não tem nada a contribuir, pois essa separação é o seu fundamento. Nem mesmo como instância reformista, pois, como constatou Tarso, as políticas de regulação não funcionam mais, e, como ele não foi capaz de constatar, nem podem.

  2. #2 Jorge Nogueira
    on Nov 25th, 2011 at 11:08 pm

    Tarso reclama agora das consequências de uma concepção que ele próprio ajudou a elaborar e praticar: a acomodação dos partidos com base na classe trabalhadora na institucionalidade política montada da burguesia para a burguesia. Essa foi a traição!
    http://blogdomonjn.blogspot.com/2010/09/o-desgaste-da-democracia-representativa.html

    Acontece que dos anos 70 para cá as transformações estruturais do capital não só diminuíram o espaço para reformas no interior do capitalismo (que é a política defendida pelos revisionistas do marxismo) como passaram a exigir o desmonte das que foram realizadas. Soma-se a isso a queda dos regimes burocráticos (“socialistas”) que facilitou a aplicação de tal programa já que o capital não tinha mais motivos para concessão.

    A partir daí a esquerda que estava acomodada não só na institucionalidade como no próprio regime passou a aplicar os planos neoliberais não apenas porque são reféns do poder da burguesia e do Estado à seu serviço mas porque parcelas deles mesmos são amigos íntimos das classes dominantes ou eles próprios se tornaram burgueses. Strauss Kahn, só para citar um exemplo, foi agente da banca internacional, e é membro do PS francês.

    Mas o governador, no seu reformismo sem reformas, aponta como saída para um problema que ele próprio reconheceu como estrutural-social com o financiamento público de campanha. Apóio tal medida mas apontá-la como saída para a capitulação de setores da esquerda não faz o menor sentido.

  3. #3 andreegg
    on Nov 26th, 2011 at 4:04 pm

    Não sei se está funcionando o trackback, então deixo aqui o link de um texto que escrevi argumentando sobre a tese de Tarso Genro.

    http://andreegg.opsblog.org/2011/11/26/tarso-genro-o-financiamento-publico-de-campanha-como-panaceia-contra-o-fim-dos-partidos/

    Vejo que meu raciocínio vai numa linha próxima à argumentação do Jorge e do Daniel.

  4. #4 Daniel
    on Nov 26th, 2011 at 4:12 pm

    Leio na manchete de um jornal de hoje: “Tarso só recebe o CPERS se a greve terminar”. Não me venha ele dizer que não tem escolha, que se receber os professores os mercados desabarão. Não querer nem saber o que os professores que estão apenas exigindo o cumprimento da lei têm a dizer é uma escolha: uma escolha à direita, bem à direita. Uma esquerda assim torna a direita supérflua!

  5. #5 Raul
    on Nov 26th, 2011 at 8:32 pm

    Tá difícil de ler os comentários.
    Tem como aumentar o tamanho das letrinhas?

  6. #6 Tupamaro
    on Nov 27th, 2011 at 3:24 am

    Parabéns Daniel, deste uma aula de marxismo ao marxista (ou ex-marxista?) Tarso Genro. Realmente, o poder muda as pessoas! A “captura” (nas palavras do governador) do programa dos partidos de esquerda pelo capital financeiro não é de hoje. Este processo se iniciou no começo do século passado com o aburguesamento do Partido Social Democrata Alemão de Bebel, Kautsky e Hilferding (autor de “O Capital Financeiro” que junto com “O Capital” é uma das principais obras marxistas que desnudam o modo de produção capitalista).
    Este mesmo PSD alemão, aburguesado, que colaborou com a extrema direita alemã no assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Posteriormente, esta degeneração se espalhou para os demais partidos sociais democratas europeus. Então, a traição dos partidos que dizem defender os trabalhadores vem de longe, lá do século passado. Para quem conhece História, nada disso é surpresa.

  7. #7 Daniel
    on Nov 27th, 2011 at 12:36 pm

    O Tarso Genro está parecendo o FHC do PT, ou, no melhor, ele deve estar analisando a realidade do seu próprio partido.

  8. #8 Paulo José Ribeiro
    on Nov 27th, 2011 at 8:22 pm

    O Estado não tem dinheiro para pagar o piso. É simples. E o CPERS sabe disso, sempre soube. É simples matemática – dever ser por isso que o pessoal das humanas consideram a matemática uma ciência reacionária hehehe

  9. #9 zé bronquinha
    on Nov 28th, 2011 at 11:33 am

    O Tarso é uma figura muito comum dentro do espectro da esquerda.Começa namorando e casando com o stalinismo, sendo que algumas dessas teses ele nunca abandonou.Após um rompimento parcial com o Joseph ,procura pensadores teóricos que pavimentam seus caminhos na busca de justificativas para defender o melhorismo capitalista, pois seu superego lhe permite achar que ele e outros semelhantes, serão capazes de domesticar o capitalismo. Talvez o seu limite seja o capitalismo de estado do tipo chinês, que pratica parcerias com o capitalismo do mundo todo. Na vida prática dois exemplos: Apoio as criminosas mudanças do código florestal brasileiro, bem como a encampação do projeto de entregar o Cais Mauá para a iniciativa privada, antigo anseio dos especuladores da cidade, iniciado por Antonio Britto, tendo sequência com Yeda e agora com Tarso Genro.

  10. #10 Jorge Nogueira
    on Nov 28th, 2011 at 8:46 pm

    Paulo José Ribeiro, a lei do piso que o atual governador assinou previa que em caso de o Estado ou Município não ter condições financeiras de pagar o piso a União ajudaria.

    Durante a campanha o Tarso falava das facilidades que teríamos no Estado se fossem vencedores candidatos do mesmo partido “lá” e “aqui”. Pois agora ao invés de buscar diálogo e resolução com o governo federal ele buscou foi uma ação na justiça para protelar o pagamento do piso. E depois ainda acusa os professores de rompimento do diálogo…
    http://blogdomonjn.blogspot.com/2011/11/piso-dos-professores-falta-de-recurso.html

  11. #11 Paulo José Ribeiro
    on Nov 29th, 2011 at 12:29 pm

    Não sabia dessa possibilidade na lei. Obrigado, Jorge.
    Bem, aí já são outros quinhentos. Não parece ser a falta de recursos o problema, mas falta de vontade mesmo.

  12. #12 Leonel Santos
    on Nov 30th, 2011 at 9:53 am

    Exelente análise Daniel,poucos conseguem perceber que a análise marxista da realidade está “se confirmando sob nossos narizes”.

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