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Indústria do alumínio: a floresta virada em pó

Por Bruna Engel, do Núcleo Amigos da Terra Brasil

Violação aos direitos humanos e degradação da natureza andam juntos quando o tema é territórios ocupados pelas corporações de mineração e produção de alumínio. Tão útil e adaptado aos modos de vida moderno, por ser leve, macio e resistente, esse metal esconde um processo industrial penoso e degradante. A reportagem cinematográfica publicada aqui, produzida pelo Núcleo Amigos da Terra Brasil e realizada por André de Oliveira (Coletivo Catarse), revela casos de destruição social e ambiental que empresas transacionais provocam nos Estados do Pará e Maranhão, onde está concentrada mais de 80% da bauxita explorada no Brasil.

Ao percorrer todas as etapas do processo industrial (mineração da bauxita, transporte por mineroduto, refino da alumina e a redução desta para obtenção do alumínio), a equipe de repórteres flagra diversas ameaças aos povos tradicionais e aos trabalhadores da indústria, e dá voz aos afetados. São populações rurais de baixa renda e sem assistência dos poderes públicos – com exceção do Ministério Público Federal, que ainda exige o cumprimento das leis e busca assegurar as reparações aos povos afetados.

A maioria das comunidades, até que a destruição comece, desconhece as estratégicas de inserção e apropriação de territórios exercidos pelas corporações mineiras, assim como seus direitos e a legislação que rege as relações comerciais do setor no Brasil. Só depois dos danos causados é que passam a se organizar e lutar por melhores condições de vida. O mesmo acontece com os trabalhadores, que aliciados por oportunidades de trabalho não imaginam que estão sendo pagos para adoecerem e terem reduzido o tempo de vida laboral.

A pressão do capital
Com o avassalador ingresso das indústrias, a região de mineração passa a depender economicamente do empreendimento. O processo anterior à mina, de expropriação e compra de terras, gera especulação imobiliária inflacionando o valor da terra. Esse processo incentiva pequenos agricultores a venderem suas terras, seduzidos pelas quantias oferecidas (de grande monta para a realidade deles, mas de baixo impacto para o mercado imobiliário), e engrossar as periferias dessas pequenas cidades, com aumento da violência, prostituição, analfabetismo, entre outros graves problemas sociais.

Quando as empresas se instalam sobre essas áreas fatalmente cessa a atividade de extração sustentável dos recursos na floresta, porque extrativismo e mineração são atividades excludentes. A degradação ambiental provocada pela instalação e operação das fábricas também resulta em impactos na economia local: a contaminação de igarapés, lagos e rios por lama vermelha (rejeito tóxico da limpeza da bauxita) provoca mortandade de peixes e destrói a possibilidade de pesca artesanal; com a poluição pelo ar, as árvores frutíferas próximo das fábricas não dão frutos, os açaizais (principal fonte de renda das famílias camponesas da região) sofrem queda de produtividade, assim como outras culturas tradicionais das regiões.

Hidrelétricas e finaciamento público
A cadeia produtiva do alumínio é eletrointensiva, ou seja, necessita de grande quantidade de energia elétrica e de água para se viabilizar. Para a expansão da produção do alumínio, o governo federal vem promovendo a construção de novas barragens na Amazônia, entre elas Belo Monte, que cederá parte de sua energia para as indústrias eletrointensivas. Além disso, bancos públicos, como o BNDES, assumiram papel fundamental para o fortalecimento da cadeia produtiva.

O financiamento público, aliado ao reaquecimento do mercado internacional, impulsionou a expansão das fábricas da Alunorte/Albrás, Alumar e CBA, incluindo o financiamento de novos projetos de refinaria em Barcarena, maior pólo do setor, a 50 km de Belém. E as fábricas não se expandem sozinhas, junto com elas vem a abertura de novas lavras, a construção de novas usinas hidrelétricas e termelétricas, duplicação de ferrovias, minerodutos e etc. Ou seja, a degradação ambiental que foi registrada nesta reportagem cinematográfica.

A força da grana
A exportação do setor metalúrgico, pelos dados mais atualizados, de 2009, correspondeu a 2,1% da balança comercial. Por sua vez, as exportações influenciam em 2% do PIB nacional. O alumínio é uma das principais commodities brasileiras e o país é o 6º produtor mundial do metal, atrás da China, Rússia, Canadá, Austrália e Estados Unidos. O Brasil possui a terceira maior jazida de bauxita do mundo e é o quarto maior produtor mundial de alumina. Contando toda a cadeia, foram produzidas 26074,4 mil toneladas de bauxita, 8625,1 mil toneladas de alumina e 1690 mil toneladas de alumínio.

Em termos de negócio, a produção brasileira perde muito em valor agregado, pois só produz produtos primários, concentrando somente os processos mais agressivos ao meio ambiente. Exportamos, no máximo, lingotes de alumínio. Quando chegam nos outros países, para as etapas seguintes de transformação do metal, o alumínio para a valer quatro vezes mais.

(*) O Núcleo Amigos da Terra Brasil, em contato com organizações e movimentos locais, foi registrar esses conflitos com ribeirinhos para avaliar os impactos sociais e ambientais que a indústria do alumínio provoca desde à década de 80 no Brasil. Para isso, organizou visitas técnicas em pelo menos um local de cada etapa da cadeia produtiva. Essa reportagem, acompanha a pesquisa de campo e revela os casos de ameaças aos povos tradicionais e aos trabalhadores da indústria, dando voz aos afetados.

(**) Para ver a versão em inglês do documentário, clique aqui.

(***) Versão atualizada pela autora às 23h07min.

11 Comentários on “Indústria do alumínio: a floresta virada em pó”

  1. #1 Adroaldo
    on Dec 7th, 2011 at 6:13 pm

    Segundo a ANEEL somente 30%, no máximo, da energia produzida por Belo Monte será destinada à industria. Os 70% restante serão destinados ao consumo residencial. A Agência publica estes dados no seu sitio; aneel.gov.br. Onde posso encontrar informação que a indústria consumirá 70% da energia produzida em Belo Monte?

  2. #2 Ary
    on Dec 7th, 2011 at 6:31 pm

    E todo mundo fica feliz quando anunciam que o crescimento foi de “tantos por cento”. Funciona assim: a plataforma que possibilita o crescimento é insustentável. Para o crescimento, não existe lógica reversa. Por quê PAC e não PAD (Programa de Aceleração do Desenvolvimento)? Quanto à degradação da floresta, quem se importa? Lá só tem índio, pobre e bichos. E ainda acham um grande feito ter diminuído o desmatamento. Ignorantes!

  3. #3 Marco W.
    on Dec 7th, 2011 at 7:02 pm

    Adroaldo, sabe me dizer onde posso encontrar essa informação no site da Aneel. Estou atrás dela, mas não consegui encontrar. Se tiver o link, agradeço.

  4. #4 Vivian
    on Dec 7th, 2011 at 7:21 pm

    Li recentemente que o Japão aboliu há décadas a indústria do alumínio,não só porque a demanda de energia é muito grande,mas também pelos malefícios que provoca as pessoas e ao meio ambiente.Hoje produzem em diversas partes do mundo,inclusive no Brasil.Quem acaba ganhando é quem transforma o produto,sendo que todo ônus é nosso.Que pensa o governo sobre isso?

  5. #5 Ary
    on Dec 7th, 2011 at 9:40 pm

    Prezada Vivian, você tem razão. O que determina o tamanho dos países, hoje, não é mais o espaço físico e seus limites geográficos e sim o alcance comercial de suas indústrias. Se o Japão fosse depender apenas de seus recursos naturais, ele deveria ter apenas 5 milhões de habitantes, os EUA, 29 milhões, etc.

  6. #6 zé bronquinha
    on Dec 7th, 2011 at 9:48 pm

    -Todas as iniciativas em vista o desenvolvimento das forças produtivas de um país tem a ver com qualquer governo capitalista. Aqui no Brasil a busca insana por produzir em vista a exportações e ou atender a um mercado interno leva nosso país a cometer loucuras como é a construção de Belo Monte e também a elaboração de um novo Código Florestal que beneficia infratores do agronegócio, o uso insdiscriminado de OGM e agrotóxicos. Nem o PSDB seria tão rapina quanto os governos do PT, que de lambuja utilizam 49% de seus recursos orçamentários para pagar a banca nacional a rolagem de sua dívida interna. A cara do governo Dilma, igual a de Lula, é de ter emblemas carcomidos pelo tempo, desde o coronelismo nordestino, passando pelos “modernos” do agrobusiness. Sarney, Callheiros, Luiz Henrique e Blairo Maggi , fieis escudeiros deste governo que o digam.

  7. #7 Adroaldo
    on Dec 7th, 2011 at 10:04 pm

    O sitio da aneel está uma zona, mas quando ele voltar a funcionar corretamente siga os passos: http://www.aneel.gov.br; mapa do site; edital de gerações; 2009

  8. #8 Marco Aurélio Weissheimer
    on Dec 7th, 2011 at 10:12 pm

    Ok. Obrigado pela informação. A autora do texto entrou em contato comigo e pediu para modificar essa parte referente ao percentual destinado à indústria e ao consumo doméstico. Me disse que recebeu
    dados conflitantes e prefere não fixar um número por enquanto.

  9. #9 André de Oliveira
    on Dec 7th, 2011 at 10:14 pm

    Olá!

    Editei o texto junto com a Bruna, a autora. E, realmente, trocamos a informação. Segundo os dados oficiais são 30% e não 70% o que poderá ser absorvido pela indústria. Acabamos trocando no momento de editar o texto. Pedimos desculpas aos leitores e já solicitamos ao Marco que corrija a informação.

    Obrigado pela atenção.

    André de Oliveira
    repórter do Coletivo Catarse

  10. #10 oigres
    on Dec 8th, 2011 at 12:58 am

    O que fazem os órgão públicos governamentais (federal/estadual/municipal) do meio-ambiente? Cadê o Ministério Público (Fed/Est) para evitar o assassinato premeditado e continuado da nossa natureza essencial?
    Isso é o que os ‘desenvolvementistas’ sem alma chamam de desenvovimento sustentável?
    O que é, então, desenvolvimento não-sustentável? A bomba de Hiroshima?
    Parabéns ao Marco W. e à autora por dividir conosco esta genocida tragédia anunciada.
    Não podemos aceitar passivamente que a natureza vire pó tanto como nós ao morrermos.
    A natureza não merece!!!

  11. #11 janes salete
    on Dec 8th, 2011 at 9:11 am

    Estive em MG e pude constatar a destruição da natureza pela Vale.Aterrorizante!

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