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Branca de Neve e maçã-encantada nossa de cada dia

Por Fernando Falcão (*)

Uma tarde destas, eu brincava com minha filha no quintal de casa, quando ela manifestou o desejo de comer algo. Na exaustiva tentativa de fazê-la comer frutas, ofereci-lhe uma maçã. Como resposta recebi: não quero uma maçã, por que ela está envenenada! Logo percebi que ela estava fazendo uma alusão à maçã da estória da Branca-de-Neve e, automaticamente, respondi: Pode comer.Esta não é a maçã encantada. Em seguida pensei, provavelmente ela tem razão, esta maçã é capaz de conter mais veneno que a oferecida pela madastra à personagem da estória.

Por que isso me ocorreu? Ora, como comprovam as análises divulgadas periodicamente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) consumimos, todos os dias, alimentos contaminados com quantidades absurdas de veneno. Em “suaves” e contínuas prestações, a cada refeição, comemos a maçã-encantada nossa de cada dia.

Não é novidade nenhuma que somos os “campeões” mundiais no consumo de venenos agrícolas, contabilizando somente aqueles produtos avalizados pelos Ministérios do Meio Ambiente, Saúde e Agricultura. Ainda segundo a ANVISA, o crescimento do comércio de veneno legal, na agricultura brasileira, cresceu 190%, entre 2000 e 2010, contra um crescimento mundial de 90%. Mas a estória não pára por aí.

Além da aplicação de quantidades infinitamente superiores às necessárias, o que por si só já nos garante o título, parte de nossos produtores, não satisfeitos e valendo-se da histórica complacência para com o setor, compram e utilizam venenos contrabandeados, que não atendem aos quesitos de proteção previstos em Lei, isto é, garantias mínimas para reduzir o impacto dos venenos na saúde e no meio ambiente.

O desprezo do agronegócio por estas questões já é bastante conhecido. Afinal de contas, quem arca com os prejuízos é a sociedade e, em particular, aqueles indivíduos que venham a sofrer de doenças, muitas vezes crônicas, e de outros danos colaterais. Pesquisas recentes [1] dão conta da presença de venenos agrícolas na urina de professores de escolas rurais e de DDT, proibido no Brasil desde 1985, no leite materno de habitantes de Lucas do Rio Verde (MS), onde foi realizada a pesquisa. Isto também ocorreria em pelo menos outras 71 cidades.

Os prejuízos sociais se estendem se contabilizarmos os danos ambientais: contaminação do lençol freático, rios, lagos, solo, danos à fauna, etc. Um bom exemplo é o fato de que as cidades captam a água para consumo dos mesmos corpos hídricos que são utilizados e contaminados, ano após ano, pelo uso abusivo de agrotóxicos e o tratamento da água não considera e nem elimina a presença a destes venenos.

Nada disso é novidade, embora muito pouco seja dito sobre estes fatos nos meio de comunicação. No entanto meu objetivo aqui é chamar a atenção para um outro fato que, até hoje, não vi ser abordado. Muitos produtores recebem financiamento subsidiado para a viabilização de suas lavouras. Neste pacote está incluída a compra de agrotóxicos “legais” que, em tese, deveriam ser adquiridos e utilizados conforme receituário agronômico. Tudo muito bacana, não fosse o fato de que muitos deles, em vez de adquirir os venenos autorizados, adquirem produtos contrabandeados, a preços inferiores, porque são ilegais, embolsando parte dos recursos, lembrando, subsidiados, e aplicam nas lavouras venenos cujos efeitos são imprevisíveis.

Com isso, o dinheiro arrecadado com impostos, emprestado a juros subsidiados ao produtor é gasto no exterior, contamina o meio ambiente, causa danos à saúde de nossa população e coroando o processo, alimenta uma rede criminosa ligada ao contrabando, descaminho, lavagem de dinheiro, demandando mais dinheiro público para o combate à criminalidade, para a mitigação dos danos ambientais e para o sistema de saúde. Um negócio da China!

Em recente operação realizada pelo Poder Público (Polícia Federal, IBAMA, Polícia Rodoviária Federal e Brigada Militar) envolvendo cinco municípios gaúchos, foram identificados, em torno de 500 produtores rurais que mantiveram contato com uma única quadrilha, com um movimento financeiro estimado em torno de um milhão de reais/mês. Estes números são uma pequena parte do problema que, extrapolados, certamente alcançam números assustadores e que indicam se tratar de prática usual. Estamos tão doutrinados de que não se deve “tocar” nos setores “produtivos” que mesmo as campanhas contra o uso de agrotóxicos, as ONG’s e os próprios Ministérios Públicos nunca se lembram da contumaz ausência dos órgãos fiscalizadores ligados à agricultura (Ministério e Secretarias), cuja responsabilidade é claramente definida na Lei nº 7.802/1989 e no Decreto nº 4.074/2002 que regulamenta a Lei.

A gravidade da situação e a sua dimensão, parecem, com um pouco de otimismo, nos levar a crer que a sociedade brasileira começou a despertar de seu sono eterno. Iniciativas como a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, o documentário “O Veneno Está na Mesa” de Silvio Tendler e o Dossiê sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde no Brasil são alguns exemplos.

Em tempos de releituras, poderíamos entender o conto dos Irmãos Grim como uma paródia sobre os alimentos no futuro. Resta-nos saber se o “príncipe encantado” chegará a tempo de nos despertar. Para alguns, certamente, não.

[1] Dossiê sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde no Brasil. Associação Brasileira de Pós Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco), Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal do Ceará (UFCE) e a Fiocruz do Rio de Janeiro.

(*) Fernando Falcão é arquiteto

3 Comentários on “Branca de Neve e maçã-encantada nossa de cada dia”

  1. #1 Carlos
    on Apr 26th, 2012 at 10:01 am

    Texto lúcido e extremamente oportudo! O agronegócio age da mesma forma desde as Capitanias Hereditárias, apropria-se de terras, escraviza, desmata sem critérios, derrama toneladas de veneno sobre as lavoura, solo e recursos hídricos, utiliza a terra até a exaustão, tudo com subsídios do governo (financiados por todos nós!), depois descarta e abre novas frentes! Não é a necessidade de produzir mais alimentos que justifica alterações no Código Florestal, mas a incopetência premeditada do agronegócio para produzí-los, quando seu objetivo único é o lucro imediato somente justificado pela própria ganância e por uma duvidosa política de exportação de matéria prima de baixo valor agregado do governo. E se os serviços ambientais fossem contabilizados, o que seria desses grandes agricultores? Se os prejuizos causados pela atividade não fossem, como são, socializados entre todos nós?

  2. #2 Mauricio Vieira de Souza
    on Apr 26th, 2012 at 11:02 am

    Muito bem colocados os argumentos.
    Relembro que uma das formas de reagir a isso encontramos nas feiras de produtos integrais e orgânicos, em POA frequento 03 (não sei se há outras), 4ª feira no pátio da Sec. Agricult. e no sábado nesse mesmo local, na José Bonifácio e na igreja da Tristeza.
    Infelizmente que essa reação passa (ainda pesadamente em alguns produtos – mas a verdade que não em todos) pelo tamanho do bolso.
    Mas é aquilo, tem que gerar demanda para o mercado se expandir. E essa expansão (vemos nas feiras) tem muito da força do associativismo e do cooperativismo.
    Por fim, saiu em jornais locais que uma mesma compra de produtos, comparando produção conven. e organica, mostrou variação de 10 $ na feira conv., 20 $ na feira organica e 40 $ seção de organicos de supermercados.

    Abraço

    Mauricio

  3. #3 Jales Ribeiro
    on Jun 7th, 2012 at 2:48 pm

    Parabéns pelo texto. É instigador de profunda reflexão quanto a necessidade de uma política de meio ambiente neste país e, principalmente, a da educação ambiental obrigatória (necessidade) nas escolas de ensino fundamental e médio.
    Estas crianças e jovens é que sofrerão com os desmandos ambientais, mas com uma boa educação ambiental certamente poderão criar maneiras e modos mais conscienciosos e harmônicos nas políticas de desenvolvimento sem sacrificar tanto a biodiversidade e a saúde das pessoas. Como poderão perceber (principalmente nas crianças e jovens), a educação ambiental ajudar a humaniza mais as pessoas.
    Não serão as leis que efetivamente regularão o meio ambiente, mas uma educação permanente, coerente, esclarecedora dos porquês, pois é pelo convencimento consciencioso que será possível uma mudança de mentalidade, surgindo ai uma fiscalização mais efetiva.
    Já existe esse “pensamento” na sociedade como todo, ainda que implícito, não será difícil colocá-lo em prática pelos entes estatais e, principalmente, por cada um de nós.
    Mais vale pagar um pouco mais por alimentos saudáveis, do que pagar mais barato por alimentos que poderão trazer malefícios a saúde (o barato aqui não apenas sairá bem mais caro, como poderá encurtar a própria vida ou ter uma velhice cheia de complicações).
    Alimentos para todos, mas, por favor, sem veneno.

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