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Israel e a invenção do povo judeu

Por Paulo Muzell

Marino Boeira, articulista e professor universitário gaúcho afirma, com toda razão, que se você quiser arrumar encrenca certa, escolha dois temas: a necessidade de submeter a mídia ao controle da sociedade e a violência e a opressão de Israel que vitima os palestinos. É incômodo e polêmica na certa.

Pois Sholomo Sand, professor de história da Universidade de Tel Aviv resolveu “topar a bronca” ao publicar “A invenção do povo judeu”, obra editada pela Benvirá no ano passado. O livro desmonta o mito que “justificou” a criação do estado de Israel como uma tardia volta dos judeus à “terra prometida”, depois de expulsos da Palestina quase dois mil anos atrás, no episódio da destruição do segundo templo pelos romanos em 70 dC. Após minuciosa pesquisa, Sand concluiu que não há nenhum indício ou prova documental de que os judeus tenham sido expulsos pelos romanos de Jerusalém ou da Palestina. Ele afirma que essa é uma falsa versão que tem origem na interpretação subjetiva de textos bíblicos (Velho Testamento). Foi fundamental construir o mito do judeu errante, perseguido, um povo único, com identidade étnico religiosa em busca de suas remotas origens.

Os judeus que vivem hoje em Israel e em outros países do mundo, segundo Sand, não tem origem única, mas múltipla. São povos que se converteram ao judaísmo em várias regiões: na bacia do Mediterrâneo e áreas vizinhas; no norte da África descenderam de pagãos convertidos (judaísmo seferdita). Há, também os judeus iemenitas, um terceiro ramo originado do reino Himiaritá, além dos judeus asquenazes, refugiados do reino Khazar, localizados na Europa do Leste.

O livro foi lançado tardiamente no Brasil, mais de três anos depois das primeiras edições européias e de Israel. Traduzido em vinte e uma línguas, como não poderia deixar de ser, teve grande repercussão. Cinco meses na lista dos mais vendidos em Israel, ganhou em 2009 na França o prestigioso “Prix Aujourdd’hui”. Reconhecimento e elogios de peso: Eric Hobsbawm, Tony Judt, Marcel Détienne, Edgar Morin e Noam Chomsky. É evidente que, em contrapartida, sobraram críticas, umas poucas amenas e equilibradas, a maioria delas duras, ásperas, apaixonadas, verdadeiros libelos contra. Professores universitários, rabinos, jornalistas com vastos espaços em grandes veículos da mídia nacional e internacional “bombardearam” o livro com grande fúria e energia.

As perseguições que vitimaram os judeus foram uma constante ao longo de séculos e séculos de história. O fanatismo religioso, não há qualquer dúvida, foi a principal causa. Mas não há como negar, também, que ao preservarem hábitos alimentares, costumes e língua própria, os judeus constituíram clãs, enclaves nas tribos e povos com quem compartilharam territórios. Essa não-integração, não há qualquer dúvida, contribuiu para alimentar e fortalecer o milenar sentimento antissemita.

A Primeira Cruzada propiciou uma explosão de antissemitismo na Europa. Entre 1096 e 1098 dezenas de milhares de judeus são mortos na Alemanha e na Europa Central. Matanças ocorrem nos anos de 1189 e 1190 na França e na Inglaterra. Em 1492 os reis católicos expulsam da Espanha quase 100 mil judeus, a maioria dos quais se refugia em Portugal, onde, alguns anos depois são vítimas do denominado Pogrom de Lisboa, “A Matança da Páscoa de 1506”. No final do século XIX tivemos o famoso caso Dreyfus, no qual um oficial francês, de origem judaica foi acusado de traição. O episódio, de repercussão internacional alimentou uma nova onde antissemita na França e na Europa. Emile Zola escreve o clássico “Je acuse”. Multidões marcham pelas ruas de Paris bradando “morte aos judeus!” Na Rússia tivemos três “ondas” de perseguições. A primeira, entre 1881 e 1884, teve como causa imediata o assassinato do Czar Alexandre II.

Entre 1903 e 1906 um novo e prolongado pogrom russo e, por fim, no início do processo revolucionário de 1917 ocorreu um novo massacre. Calcula-se que entre 1880 e 1920 mais de dois milhões de judeus russos abandonaram o país.

O mito de um povo judeu errante em busca de suas origens começa a ser construído na Alemanha a partir da segunda metade do século XIX. Intelectuais de origem judaica, influenciados pelo vigor do tardio nacionalismo alemão começam a construir a versão que foi fundamental para a criação do estado de Israel. Heinrich Graetz é o pioneiro e segundo Sholomo Sand ele “forjou” o modelo nacional da escrita da história dos judeus com “J” maiúsculo, ponto de partida para que outros pesquisadores, mais decididamente nacionalistas, deixassem de pensar a judeidade como uma civilização religiosa variada e rica para se tornar um “antigo povo-raça”, desenraizado, expulso de suas origens, o país de Canaã.

Moses Hess publica em 1862 a obra “Roma e Jerusalém” citando Graetz com entusiasmo. Observa Hess que a fonte dos conflitos entre judeus e não-judeus “reside no fato dos primeiros constituírem, desde sempre, um grupo hereditário diferente”. O “tipo judeu” teria permanecido o mesmo através dos séculos. E continua, com um pessimismo amargo: “De nada serve aos judeus negar suas origens fazendo-se batizar e se misturando às massas dos povos indo-germânicos ou mongóis. Os tipos judeus são indeléveis”. Graetz ratifica e complementa o pensamento de Hess, concluindo: “não se pode negar a existência de povos mortais, que desaparecem na história e de outros que são imortais. Nada permanece da raça helênica ou latina, que se fundiram a outras entidades humanas. A raça judaica, ela sim, conseguiu perdurar e sobreviver, estando a ponto de avivar o fogo da sua juventude bíblica milagrosa”. O povo judeu “é de fato um povo-messias, que, chegando o dia, salvará a humanidade inteira”.

Sand observa que a fonte do fortalecimento da teoria da raça nos grandes centros europeus foi a mesma que trouxe a revolução burguesa e o iluminismo com seus ideais de liberdade e igualdade entre todos.. A extraordinária evolução tecnológica e industrial do capitalismo cristalizou um sentimento de arrogância e de superioridade biológica e moral da Europa. Ironias da história.

Graetz, Hess e alguns outros autores constituíram o núcleo teórico das ideias que possibilitaram a construção do “mito sionista”, fundamental para a formação do estado de Israel, muitas décadas depois. E que explica o estranho fato da Universidade de Tel Aviv ter dois departamentos de história que funcionam como compartimentos estanques, isolados, sem nenhuma comunicação entre si. Temos uma “história de Israel” e a “outra”, a história geral. A história de Israel se fundamenta na interpretação de documentos bíblicos, especialmente do Velho Testamento, o Livro dos Livros, verdadeira “carteira de identidade” do povo judeu e “a prova de seu justo mandato sobre a terra de Israel”. Não temos aqui ciência e sim uma visão do passado elaborada através de interpretação subjetiva de milenares documentos religiosos. Com o que não concordaria, se vivo fosse, o irreverente Mark Twain. Ele não via com bons olhos a bíblia, em especial o Velho Testamento, para ele uma sucessão de violências, crimes, estupros cometidos por um Deus injusto, mesquinho, cruel e vingativo que: “punia crianças inocentes, o povo pelo pecado dos seus governantes e até as inofensivas cabras e ovelhas por desvios e erros cometidos por seus donos”.

Em 1948, favorecido por uma série de circunstâncias a ONU oficializou a criação do estado de Israel. Com uma constituição que deveria assegurar “igualdade perante a lei para todos seus cidadãos, liberdade de culto, sem quaisquer distinções ou discriminação de raça e cor, com total liberdade de ir e vir”. Sabe-se que nada disso ocorre. Israel é hoje uma etnocracia religiosa. Um quarto dos seus quase oito milhões de habitantes são palestinos, cidadãos de segunda linha, confinados, segregados, discriminados, vivendo em condições de extrema pobreza.

Em 1896 Theodor Herzl, um jornalista judeu austríaco que cobrira o caso Dreyfus para a imprensa europeia e ficara impactado pelo forte sentimento de ódio aos judeus na França e na Europa Central escreve “O estado judaico” e no ano seguinte organiza e preside o primeiro congresso sionista na Basiléia. Foram dois importantes passos para a consolidação de um movimento sionista internacional rumo à criação do estado de Israel. Estado tornado possível graças ao apoio econômico, político e militar de duas grandes potências – numa primeira etapa da Inglaterra e mais tarde dos Estados Unidos -, interessadas em criar um enclave seu numa região de vital importância estratégica pela sua privilegiada localização geográfica, próxima de grandes reservas de petróleo árabe.

14 Comentários on “Israel e a invenção do povo judeu”

  1. #1 Riclops
    on Aug 7th, 2012 at 11:03 pm

    Sabe o que eu vejo em matérias como essa? Apenas apontamento de problemas, mas nenhuma fagulha de sugestão para solução do conflito.

    Tem mais, os judeus, apesar da ocupação, estão fazendo avanços sociais em seu governo, que países como o Brasil nem sonham em ter, assim como em outras áreas, científicas e sociais.

  2. #2 Ary
    on Aug 8th, 2012 at 9:31 am

    Ainda será encontrado um documento oficial, datado de alguns séculos, provando que o professor Sholomo está errado e que o povo judeu é sim, o povo escolhido. Talvez algum disquete ou CD-Room gravado na época de JC. Já os documentos mais, foram escritos com caneta esferográfica no tempo em que não existiam tais canetas. Em forma de diário, por exemplo.

  3. #3 Carlos
    on Aug 8th, 2012 at 10:15 am

    Vou repetir o que já disse antes, e, aliás, o texto conduz a este conceito.
    Israel é hoje, o maior manicômio a céu aberto do planeta !!

  4. #4 Roberto
    on Aug 8th, 2012 at 10:29 am

    Pois é, Riclops, os projetos sociais do governo de Israel para seus habitantes de origem árabe são mesmo impressionantes, assim como seus avanços científicos e tecnológicos, principalmente no campo bélico e da construção civil em terras ocupadas. E tudo com dinheiro próprio e respeitando o direito internacional. Os judeus são mesmo um povo superior. E para acabar de vez com o Brasil, diz que estão planejando estabelecer cotas para árabes nas universidades e igualdade para mulheres na constituição.

  5. #5 Maria
    on Aug 8th, 2012 at 11:56 am

    Apontar avanços sociais e científicos em meio a ocupação dos territórios, onde palestinos vivem em condições similares a dos judeus em campos de concentração, é mais do que contradição, é ignorar o valor da vida destas pessoas que não têm nenhuma possibilidade de conquistar uma vida e um futuro decentes. É achar que alguns tem mais direitos que os outros e ignorar qualquer traço de solidariedade e humanidadade.Não é possível fazer este tipo de comparação sem cair em opções fascistas.

  6. #6 carlos roberto winckler
    on Aug 8th, 2012 at 11:59 am

    A solução já se sabe. Respeitar as resoluções da ONU, olimpicamente ignoradas por Israel que pratica politicas à beira do facismo nos territórios ocupados. Nota: não se pode utilizar a palavra ocupação na imprensa israelense!

  7. #7 Zé Bronquinha
    on Aug 8th, 2012 at 2:02 pm

    -Os avanços sociais em Israel que é só pra israelenses, é bancado pelos E.U.A. que tem nesse país sua acabeça de ponte principal no Oriente Médio, sustentando o sionismo nazifacista, assassino de palestinos. Estão encarcerados nas prisões isralenses nada menos que cinco mil presos políticos que ousaram fazer diferente que o regime racista determina, incluindo-se militares israelenses que se negaram em algum momento de ataque bélicos a matar inofensivos palestinos.

  8. #8 Carlos
    on Aug 8th, 2012 at 4:11 pm

    Quero complementar o meu cometário anterior, sobre o manicômio.
    O manicômio Israelense me faz lembrar outro, surgido na Alemanha, em torno de 1939.

  9. #9 paul kirk
    on Aug 12th, 2012 at 10:42 pm

    Muito bom, esclarecedor. Comentários sem argumentos só reforçam o que diz o texto. O livro já havia chamado atenção, não sabia que era recomendado por intelectuais respeitáveis como Hobsbawm e Chomsky!

  10. #10 Satcha
    on Aug 13th, 2012 at 9:30 pm

    Já que Mark Twain foi citado,aí vai outra,quando disseram quantos judeus habitavam os EUA naquele tempo-cerca de 2 milhoes,este respondeu:”Estranho…,parecem muito mais…”.Já para quem lê os editoriais do Haaretz,pode bem ver que perto das críticas que os israelenses fazem ao seu País,os comentários dos “especialistas em Oriente Médio” da Blogosfera sao brincadeira de criança.Até para criticar Israel os judeus sao melhores que seus piores críticos(à moda de P.Roth)

  11. #11 paulo muzell
    on Aug 14th, 2012 at 9:51 am

    Satcha: sobre o talento de cientistas, pesquisadores, escritores, intelectuais judeus não há nenhuma dúvida, é enorme: Freud, Einstein, Marx, Trostky, dentre muitos outros. O Philip Roth, que tu citastes, é pra mim o maior romancista americano vivo, e olha que a literatura americana tem uma lista enorme de grandes escritores. Mas o tema do meu texto é outro, e o da criação de um mito necessário à ocupação e à usurpação de um território, dois mil anos depois, mito que foi fundamental para emular e justificar a criação do estado de Israel.

  12. #12 moises eli magrisso
    on Aug 18th, 2012 at 7:41 am

    Aos que não aceitam a independência de Israel, a única democracia do oriente médio, vai uma sugestão para o nosso país: Porque não devolver para a Bolívia o Acre que foi vergonhosamente roubado e os bolivianos que lá viviam, foram expulsos, e os que ficaram, foram discriminados? Porque não devolver tambem a cidade de San Inácio que tambem foi roubada da Bolivia na década de 70 através de um acordo espúrio de demarcação de fronteira, e hoje é Santo Inácio?
    Porque não dar independência aos territórios de demarcação indígena dentro da Amazônia brasileira?
    Alguem que critica Israel e a vida dos palestinos já estiveram lá para ver como eles vivem? Eu já ví palestinos nos melhores hospitais e melhores universidades israelenses.
    Saibam tambem que na independencia da palestina em 1948, quando este povo já tinha o seu território, acharam que os judeus não tinha direito a nada, mataram milhares de israelenses, não só neste território, como em vários países árabes, e retiraram os palestinos da parte que cabia a Israel, com a intenção de invadir, matar todos os judeus, e tomar conta de tudo. Foram estes que abandonaram as suas casas, que vivem até hoje ás custas da ONU em campo de refugiados. Na verdade, são seus netos e bisnetos, que fumam narguilé o dia inteiro, não fazem nada, e a ONU sustenta eles até hoje. Os judeus que se libertaram dos campos de concentração, arregaçaram as mangas e começaram a trabalhar, mesmo doentes e desnutridos.
    Porque ninguem cita esta parte da História? não interessa não é? Parece ser melhor espalhar o ódio contra os judeus, para que esse povo sofra novamente os progrons e campos de concentração.
    os judeus trazem tecnologia, e as repartem. Exemplo disso, está este computador que foi inventado e aperfeiçoado por judeus. Para finalizar, quem nunca teve em Israel, não tem conhecimento suficiente para julgar como vivem os palestinos, e se tem alguns que discordam da história nas universidades, isso sempre existiu. O próprio ser humano é diferente um do outro, e cada um interpreta a história da forma que acredita. Estou curioso para saber se este blog terá a dignidade de publicar o que escrevi.

    MOISÉS ELI MAGRISSO

  13. #13 ABDALAH RAHAL
    on May 5th, 2013 at 9:28 pm

    O Direito de Israel existir,no Oriente Médio é Sagrado.Não devemos ignorar que o CRISTIANISMO e ISLAMISMO surgiram do JUDAISMO.

  14. #14 ABDALAH RAHAL
    on May 5th, 2013 at 9:50 pm

    A Desgraça da maioria das pessoas é o desconhecimento e a ignorância.Com relação a PALESTINA.Esta denominação foi dada pelos Romanos em alusão aos FILISTEUS,que eram inimigos mortais dos ISRAELITAS.Até antes de 1948 os JUDEUS era denominados PALESTINOS.Os árabes que habitavam na ANTIGA PALESTINA,não eram chamados PALESTINOS. A Nação Árabe,não era dividida com países fictícios como agora.A Divisão Geopolítica de hoje fora obra do Império Britânico,para melhor governar.No dia em que os ÁRABES aceitarem ISRAEL de fato e de direito com uma PAZ verdadeira.Com certeza o Oriente Médio um verdadeiro laboratório para o Mundo.Como fora AL ANDALUZ onde MUÇULMANOS,CRISTÃOS e JUDEUS viviam hamoniosamente.O maior inimigo do POVO ÁRABE,são seus governantes,que enriquecem com os DÓLARES advindos do petróleo em quanto milhões morrem de fome.Mas não ISRAEL,que transformou um Deserto em Jardim.A Não àrabe tem uma Superfície Territorial de mais 12 MILHÕES DE QUILOMETROS QUADRADOS e ISRAEL 22 MIL QUILÔMETROS QUADRADOS.O problema PALESTINO é para desviar atenção de milhões de famintos.Em quanto os governantes árabes investem na Europa e Estados Unidos.

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