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O debate ausente na eleição em Porto Alegre

Uma ausência chamou a atenção no debate entre os candidatos à prefeitura de Porto Alegre, na noite desta quinta-feira, na TV-COM (RBS). As principais candidaturas de oposição (à esquerda) ao atual prefeito José Fortunati (PDT) não fizeram referência a alguns temas centrais no conceito de cidade em disputa, tais como a privatização de espaços públicos, o avanço furioso do setor imobiliário e a expulsão de setores pobres da população para a periferia da cidade. O grosso do debate, como vem ocorrendo até aqui, gira em torno de saber quem é o mais competente ou a mais competente, quem é o melhor gestor ou gestora, quem tem melhores relações com os governos estadual e federal. Não há um debate sobre um conceito de cidade.

As críticas a Fortunati concentram-se na área da saúde, pois essa é a área apontada nas pesquisas qualitativas como a mais problemática aos olhos da população. Segurança é outra. Mas os debates, nestas áreas, concentram-se basicamente em saber quem é mais competente para administrar ou, pior ainda, em questões de paternidade de obras. Este cenário representa uma grande vantagem para Fortunati, pois foge de temas problemáticos para a atual gestão. Enquanto o debate girar em torno de saber quem é mais competente ou quem trouxe o metrô ou a Copa para Porto Alegre, Fortunati nadará de braçada.

Disputa política, na melhor acepção da expressão (da qual a disputa eleitoral é uma modalidade, não a única), não é disputa de biografias ou de competências individuais. Esse é mais um sintoma da invasão indevida da iniciativa privada e do mercado na política. Obviamente, entre os governantes, há gestores melhores e gestores piores. Mas o que faz diferença são as escolhas políticas sobre um determinado modelo de sociedade, ou de cidade, agora no caso das eleições municipais.

Quais são os interesses que estão por trás das sucessivas alterações e “flexibilizações” no Plano Diretor de Porto Alegre? Quais são as normas ambientais que estão sendo desrespeitadas ou “flexibilizadas” para a construção de condomínios de luxo na zona sul da cidade? Qual o custo ambiental dessa expansão imobiliária? Quantas pessoas estão sendo removidas para áreas de periferia da cidade em função de obras da Copa? Elas estão de acordo com isso? Se não estão, onde está a voz dessas pessoas na campanha? Quantos espaços públicos foram entregues à iniciativa privada nos últimos anos e a que custo?

Fortunati disse no debate desta quinta-feira que o Orçamento Participativo foi fortalecido em sua gestão. Esses temas estão sendo debatidos nas reuniões do OP? Onde a cidade está sendo debatida? Na Câmara de Vereadores? Quem tem conhecimento das recentes alterações no Plano Diretor da cidade para “agilizar” as obras da Copa? O que significa exatamente essa “agilização”? Qual interesse está prevalecendo nestas mudanças: o público ou interesses privados? Não dá para debater tais questões centrando o discurso em problemas pontuais neste ou naquele setor ou promovendo duelos de competências individuais sobre quem é melhor gestor (a), quem é mais competente, quem vai reduzir o número de CCs ou outras particularidades do gênero.

Seria interessante um debate entre os candidatos que abordasse somente a questão imobiliária na cidade: o avanço de condomínios sobre morros e áreas verdes, a remoção de famílias para a periferia, a situação dos moradores de rua, a política para o solo urbano, o financiamento de campanhas por empresas privadas do setor. Já estamos na reta final da campanha, mas esse é um debate permanente, que ultrapassa o ambiente puramente eleitoral. Não faria mal que ele passasse a frequentar, um pouco ao menos, o debate entre os candidatos até o dia da votação. Um pouco menos de duelos entre candidatos a gerentes, um pouco mais de debate político em defesa do interesse público contra a voracidade privatista na cidade.

11 Comentários on “O debate ausente na eleição em Porto Alegre”

  1. #1 Denise Queiroz
    on Sep 21st, 2012 at 2:44 am

    Muito bom, Marco! Aliás as campanhas como um todo falham ao não lembrar que a principal função delas, na ausência de politização das questões cidadãs na escola e na mídia, é a de educar politicamente. E isso todas, algumas em maior grau, esqueceram.

  2. #2 Maria
    on Sep 21st, 2012 at 9:34 am

    A voracidade imobiliária está desfigurando a cidade, não existe planejamento com visão integrada da cidade que queremos para nosso futuro e muito menos para o nosso presente.A cidade é dinâmica, concordo mas não se pode ver apenas projetos pontuais. Apesar de arborizada Porto Alegre está se descaracterizando, perdendo o charme, onde o que se vê são prédios esquisitos de gosto duvidoso e muuuuito vidro para consumir ainda mais ar condicionado.O transporte não evoluiu, os carros tomam conta das ruas e pode-se estacionar onde bem quiser e aí corremos atrás de mais vagas, mais carros num processo sem fim.Prcisa-se de mais moradias, ótimos, mas sob que critérios? O Marco tem razão, nenhum dos candidatos que tanto amam a cidade vê ela como um organismo em movimento e em tranformação (para pior, eu creio, infelizmente).

  3. #3 Jeferson
    on Sep 21st, 2012 at 10:02 am

    Vou antecipar aqui quem vai ganhar essas eleições: as grandes construtoras. Sou ou não sou um adivinhão?

  4. #4 paulo muzell
    on Sep 21st, 2012 at 10:23 am

    Marco: acertastes na mosca. A discussão entre as principais candidaturas se resume à disputa de quem fará mais e melhor. O Fortunati, espertamente, apresenta algumas coisas que fez – poucas – e não presta conta do que não fez. O Villa diz, com razão que o PT fez melhor, mas nãio aborda questões centrais como a “destruição do plano diretor” e a que interesses serve. A Manuela, orientada pela turma do marketing e com assessores de direita só diz que com ela vai melhorar, ela é o novo, pelo menos em termos etários. Os candidatos dos partidos pequenos tentam puxar a discussão ideológica em termos gerais – criticando o Lula e a Dilma, que apesar dos pesares representam um avanço em relação ao que foi ou poderia ser uma continuidade do PSDB. E também, eles não tem tempo para abordar e ter propostas mais concretas para apresentar sobre as questões da cidade. Ou seja, o debate não enfrenta os temas que são importantes, centrais. Que cidade queremos? Para quem? Parabéns pelo texto!

  5. #5 Wilson Godoi
    on Sep 21st, 2012 at 11:44 am

    Prezado Marco, muito boa a tua percepção sobre a eleição em Porto Alegre e o que os candidatos como como “propostas” para a cidade.
    Sendo assim, já que, para a maioria dos candidatos, a melhor proposta é ser alinhado com esse ou com aquele, quero pedir a vênia dos eleitores portoalegrenses para também, ainda que de forma tardia, entrar nesta disputa eleitoral pois, como conheço pessoalmente o Tarso, o Villa, a Manuela, o Fortunati, o Olívio (tenho até foto com ele) e a Dilma – nesse caso meio de revesgueio (me permita o termo agauderiado mas é que o 20 de setembro foi ontem) – acho que serei o candidato com as melhores “propostas” para Porto Alegre.

  6. #6 Néia
    on Sep 21st, 2012 at 12:23 pm

    Marco, é isso mesmo! Fico pensando… será que alguém, além de uns poucos especialistas, está preocupado com o que está acontecendo com a nossa cidade? Acho as pessoas tão amortecidas, como que anestesiadas em relação a esses temas que são os principais numa disputa municipal. Os colegas municipários que, em tempos idos – leia-se governos petistas – eram tão instigantes nesse sentido, sempre cobrando e intervindo corretamente para que a cidade andasse no rumo certo, onde estarão? A última reação que vi foi da Arq. Ana Germani que escreveu uma crítica quando a pepsi pintou o anfiteatro por do sol com as cores da empresa. É muito pouco! Reclamam e denunciam situações absurdas que vem acontecendo… pra mim (!!!!) quando me encontram, como se assim estivessem cumprindo seu papel. Quando pergunto o que estão fazendo concretamente para acabar com isso, dizem que não há o que fazer pois o governo não considera nada nem ninguém. A coisa tá feia e vem se debruçando…

  7. #7 Tulio
    on Sep 21st, 2012 at 12:28 pm

    A realidade que se apresenta aos candidatos(as) é igual para todos e resultado de uma “evolução” geral da sociedade brasileira.

    Temos alguns pressupostos que compõem o cenário:

    1- Há dinheiro / recursos em todas as esferas (municipal, estadual, federal – especialmente), como nunca se viu antes;

    2 – As classes “C” e “D” deram saltos, em termos de poder auisitivo, edução, emprego, saúde, etc.

    3 – No entanto, tais saltos não foram acompanhados de um ganho “intelectual” digamos assim…
    - Exemplificando: o sujeito está ganhando mais, porém lhe falta o discernimento para identificar o que realmente vai lhe sair barato. Então ele compra uma “casa nova” lá na Juca Batista pelo mesmo preço de um ótimo apto (usado) mais próximo do Centro (ainda o grande atrator urbano de Porto Alegre). Porém esta decisão lhe custará, ao longo da vida, o preço de uma outra moradia, em termos de transporte e deslocamentos. Então ele adquire um automóvel de segunda mão, afinal está barato e o sistema de TC da capital não atende tão bem assim.

    4 – Forma-se deste modo, um ciclo vicioso de predação urbana, onde o cidadão quer “resolver seus problemas” e os políticos querem resolver os seus, resolvendo os do cidadão; e o setor privado que usufruir da solução do problema de ambos – pois este É o seu papel…

    5 – Concluindo, como sempre, serve a máxima: “cada povo possui os políticos que merece”.

    A cidade continuará ser destruída ainda por uma geração inteira…não importa o quanto se esforcem as pessoas em sentido contrário.

    Abr

  8. #8 paulo muzell
    on Sep 21st, 2012 at 1:39 pm

    Boa, Tulio, é isso aí mesmo!

  9. #9 Elisabete Otero
    on Sep 21st, 2012 at 6:15 pm

    Eu concordo muito com o Marco, o que ví durante esta campanha me pareceu “mais do mesmo”, ou seja muitas promessas pontuais, faltam propostas políticas, organizadoras e unificadoras do fazer do prefeito e dos candidatos a vereador, enfim, de um projeto de cidade.
    Penso que quando as campanhas começavam mais cedo, ou seja, o tempo era maior, era possível fazer campanhas mais consistentes.

  10. #10 Luís
    on Sep 21st, 2012 at 7:18 pm

    É isso… uma lástima para uma cidade que já foi referência internacional de democracia.

  11. #11 Dez causas para uma eventual vitória de Fortunati no primeiro turno | Blog do Prestes
    on Sep 28th, 2012 at 7:50 am

    [...] Campanhas despolitizadas: Isto já foi tema de um ótimo texto do Marco Weissheimer e também de análise do Daniel Cassol, esta pelo Twitter. As campanhas de Adão Villaverde e [...]

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