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Céli Pinto: “Enfrentamos um processo de glorificação da despolitização”

Entrevistei ontem (27) para a próxima edição do Adverso, publicação da Adufrgs Sindical (Sindicato dos Professores das Instituições Federais de Ensino Superior de Porto Alegre) a cientista política Céli Pinto, professora do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na entrevista (disponibilizarei o link aqui assim que a entrevista for publicada), Céli Pinto analisa a atual conjuntura política do país a partir de três processos que vem ocorrendo simultaneamente: o julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), as eleições municipais e os trabalhos da Comissão da Verdade para investigar os crimes da ditadura.

A professora da UFRGS critica o processo de espetacularização do julgamento em curso no STF e identifica um preocupante quadro de esquizofrenia política no país com a degradação do quadro partidário, advertindo para os riscos da campanha sistemática contra a política e contra os políticos. Céli Pinto enxerga no horizonte uma configuração paradoxal que define como “o pior dos mundos”. Se por um lado os governos Lula e Dilma trazem consigo enormes avanços sociais, no plano de valores parece haver um avanço conservador:

“Há uma falta de vontade política de enfrentar mais de frente as forças conservadoras deste país. Essas forças conservadores ganham, por um lado, com o crescimento econômico e o aumento de consumo, e, por outro, há um avanço de valores conservadores, de avanço de valores das igrejas pentecostais e da igreja católica, dando o tom do que pode e do que não pode no país. Então, temos uma combinação que é o pior dos mundos. E esse pior dos mundos não é contra o desenvolvimento social. Nem a Igreja Católica nem os pentecostais são contra o aumento do consumo e de emprego. Muito menos a burguesia brasileira, desde que não haja aumento de poder das pessoas, que divida um pouco a imensa concentração de poder que há neste país”.

Como agravante, temos ainda uma campanha midiática diária e sistemática contra a política e os políticos, descrita assim por Céli Pinto:

“Enfrentamos um processo de despolitização e até de glorificação da despolitização que afirma que o que é político é ruim e o que não é político é bom. Esse discurso vem sendo repetido incessantemente, dia e noite. Em sempre disse para meus alunos e em entrevistas que eu não acreditava que a grande mídia dominava corações e mentes em lugar nenhum do mundo e muito menos no Brasil; que se dominasse o Lula não teria sido presidente da República ou o Olívio não teria sido governador aqui no Rio Grande do Sul. Mas, neste momento, eu acho que há uma influência sim, muito mais espalhada, menos política, mais na escala de valores, que está muito entranhada nas pessoas. Você pega um táxi, vai a um consultório, conversa com as pessoas e quase todas estão falando mal da política e dos políticos. Esse discurso é repetido à exaustão diariamente na mídia: os políticos são corruptos, não são sérios, não trabalham”.

Integrante da Comissão Estadual da Verdade no Rio Grande do Sul, ela define um dos principais objetivos desse trabalho: “queremos contar a história de quem foi preso, torturado, morto ou desaparecido e também apontar quem torturou e matou. Queremos mostrar que a tortura, a morte, o desaparecimento e a humilhação não foram exceções, mas sim uma política de Estado”.

Foto: Bruna Cabrera/Especial Palácio Piratini

8 Comentários on “Céli Pinto: “Enfrentamos um processo de glorificação da despolitização””

  1. #1 Nelson
    on Sep 28th, 2012 at 8:17 pm

    O sistema dominante assimilou em sua integralidade o ensinamento de Goebbels de que “uma mentira repetida cem vezes torna-se um verdade inquestionável”.
    E a tática é essa mesma: repetir determinada afirmação vezes sem fim, com pouquíssimo ou mesmo nenhum espaço para o contraponto, com o objetivo de que as pessoas a encasquetem de uma forma quase fanática. Assim, mesmo diante de evidências contrárias ao que encasquetaram, as pessoas só mudarão sua opinião com muita argumentação.
    Aí, meu camarada Marco, só com muita militância, coisa que veio se tornando mais e mais escassa nesses nossos dias. Então, não à toa prospera, como bem observa a professora, um “processo” de despolitização galopante.

  2. #2 Jorge Nogueira
    on Sep 29th, 2012 at 1:06 pm

    A insatisfação com a política dominante, que nada mais busca do que reproduzir o modelo sócio-econômico vigente, é um fenômeno que se alastra pelo mundo. Veja-se, por exemplo, a formação do movimento dos jovens indignados na Espanha e dos Ocupes nos EUA.

    Os setores eleitoralistas da esquerda obviamente enxergam essa perspectiva de forma negativa, pois acomodados na ordem do capital, são também alvos da fúria de tais movimentos, como o PSOE na Espanha.

    Os que não abandonaram o materialismo histórico e dialético, que não se deixaram levar pela geléia pós-moderna, percebem como positivo a luta das massas sendo colocada no centro e elevando o seu questionamento a um patamar anti-sistêmico. Nesse contexto conservador é apoiar as instituições políticas apodrecidas do capital, em vez de fazer o movimento para a sua derrubada.

    A omissão e os vacilos da esquerda nesse contexto é que podem favorecer uma alternativa política conservadora e autoritária, desperdiçando mais uma vez uma perspectiva de superação do capital e de emancipação do trabalho.

  3. #3 UM CULPADO
    on Sep 29th, 2012 at 7:34 pm

    A minha nassifucusfobética é clara: O PIG fez uma construação ideológica das esquerdas como se todo deasa já seria honesto, incorruptível, para depois fazer escândalo por qualquer tapiquinnha

  4. #4 O sabido é...
    on Sep 29th, 2012 at 7:42 pm

    [ Enfrentamos um processo de despolitização e até de glorificação da despolitização que afirma que o que é político é ruim e o que não é político é bom ] Quem tem poder político ganha salários dos mais magnífcos de todos e ainda. se quiser, ganhar muito mais por fora e a cachoeira não seca nunca. Quem não tiver, que fique lambendo os beiços.

  5. #5 Véio Zuza
    on Sep 30th, 2012 at 10:27 am

    “Seu Jorge”, omissão e vacilo é fazer o jogo da direita – prá não dizer extrema direita. Acha que um governo popular (Lula, Dilma e quetais) vai ser subustituído, num eventual crise “pós mensalão” por um governo revolucionário, com PSTU, PCO e outros afins???
    Ah ah ha
    Plagiando o baiano, se bobear, “Honduras é aqui”…

  6. #6 Jorge Nogueira
    on Oct 1st, 2012 at 9:54 pm

    Caro Zuza em momentos de agudização dos conflitos sociais normalmente se colocam frente a frente a reação e a revolução. Isso é histórico, meu caro!

    A grande parte da direita está dentro dos governos petistas e mesmo os que se encontram na “oposição” apóiam as medidas em benefício do capital e de ataques a classe trabalhadora. Só para ficar em um exemplo os tucanos aplaudiram as privatizações da infra-estrutura anunciadas pelo Governo Dilma recentemente.

    O inevitável aprofundamento da crise financeira no mundo e no Brasil vão aprofundar os conflitos de classes no nosso país. E, uma eventual vitória eleitoral dos demotucanos não poderá frear esse processo, da mesma maneira que a vitória do PP na Espanha, em um cenário de descrença da farsa eleitoral da burguesia, não está evitando o aumento da tensão social.

  7. #7 mineiro
    on Oct 8th, 2012 at 4:31 pm

    assino em baixo , é a nova tatica da direita maldita para retomar o poder. e o que é pior, os partidos e o governo sao os verdadeiros culpados , porque nao enfrentam esse poder maligno , borra de medo deles . porque o governo , o pt e outros aliados sao uns bandos de covardes . porque se eles enfrentassem esse poder midiatico golpista , com certeza nao estaria acontecendo isso , mas nao, eles se acovardam e a midia golpista munta. nesse ponto eles sao os verdadeiros culpados. porque no fundo eles querem aparecer no jn.

  8. #8 Felipe
    on Oct 11th, 2012 at 3:24 pm

    É, como se política fosse a coisa que só os partidos fazem… A técnica e o cotidiano é que são a política “real”. Quando se faz escolhas nunca se está livre de assumir um lado. Se o que é político é ruim, teremos de nos transformar em pedras. As alianças partidárias só ganham com a fetichização da política: primeiro desrelaciona toda ação do que se pensa, depois tenta gerir o ornitorrinco e, por fim, o ornitorrinco acaba mudando o que os aliados pensam e a política vai pro espaço.

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