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Orquídeas pelas esquinas sujas do centro

Por Ana Terz (*)

O centro de Porto Alegre está como o diabo gosta, bagunçado, sujo, sem fiscalização aparente de qualquer espécie, carros estacionados em local proibido disputando espaço com pedestres, vendedores de tudo que é bugiganga e distribuidores milhares de panfletos são facilmente identificados todos os dias naquela região. Comprando e vendendo tudo. Há também os motoqueiros, alguns andando sobre as calçadas. Todos com muita pressa. Tudo bem a cidade é dinâmica dizem, mas não poderia mudar para melhor? Ficar mais bonita, resguardando o que tem de melhor, o seu centro antigo com os poucos prédios históricos que restaram bem conservados? Em que pese alguma maquiagem como estão fazendo nas praças mais conhecidas, o charme da rua da Praia foi-se embora junto com seus antigos freqüentadores. Não é um lugar para amadores, gente idosa e sem pressa e com dificuldade de locomoção ou que busque informações de qualquer ordem. Sempre resta o Mercado Público e o chalé da Praça XV agora reformado e sob a polêmica do tatu-cola. Mas quem não mora no centro pode talvez se arriscar uma passagem pelo centro no sábado ou no domingo, mas aí está tudo fechado. Aproveitando o assunto qual a razão do Mercado Público não abrir aos domingos?

Mas antes que me perca em intermináveis elocubrações urbanas sobre a falta de planejamento e identidade visual da nossa cidade, cujas respostas exigem longas explicações nem sempre convincentes para quem acompanha a saga dessa cidade em busca de uma identidade além do Guaíba e do Grenal, tem um outro comércio estabelecido no centro e que vem crescendo a olhos vistos.É um assunto cabeludo pois envolve o comércio ilegal de espécies nativas pelos índios, sempre ladeado por mulheres e crianças jogadas nas esquinas sujas e poluídas como pequenas sobras de uma sociedade que se recusa a vê-los e muito menos aceitá-los.Já viu o tamanho da bronca né?

É fato que eles são inimputáveis, mas pelo que sei a legislação ambiental é rígida e essas plantas nativas não poderiam ser comercializadas dessa forma. E se forem espécies endêmicas ou ameaçadas de extinção? O comércio no centro é responsabilidade da Prefeitura? Sim ou não? E a FUNAI pelos índios. E as orquídeas? IBAMA, SEMA ou Smam? Ouço longo e significativo silêncio, ninguém se acusa. Mas também quem vai querer comprar essa bronca? Discutir os nossos homeless nativos ou expô-los como se fosse responsabilidade de algum general Custer eliminá-los da nossa geografia. Discutir sustentabilidade, meio ambiente na terra do agronegócio? Bem capaz! Além do que as pessoas adoram estas plantas e não se preocupam com a origem delas afinal somos um país tão luxuriante, tropical e bacana que não precisa pensar em desequilíbrio, meio ambiente, estas coisas chatas.

Pelo que me informei, eles, os índios podem extrair o necessário para sua sobrevivência e uso pessoal, de forma a manter seu modo de vida e tradições, mas quem fiscaliza isso? Se não fossem indígenas poderiam ser enquadrados no parágrafo único do artigo 46 da Lei 9605 de 1998 (a Lei dos Crimes Ambientais). Ou seja, incorre nas mesmas penas quem vende, expõe à venda, tem em depósito, transporta ou guarda madeira lenha, carvão ou outros produtos de origem vegetal, sem exigir a exibição de licença válida para todo tempo da viagem ou do armazenamento, outorgada pela autoridade competente. A Lei prevê detenção de seis meses a um ano e para a infração administrativa (prevista no artigo 47 do Decreto 6.514) há previsão de multa de R$ 300 reais por unidade comercializada. Vai encarar a bronca?

(*) Jornalista

8 Comentários on “Orquídeas pelas esquinas sujas do centro”

  1. #1 Marcel
    on Oct 19th, 2012 at 1:35 pm

    A jornalista que o escreveu está muito preocupada com a venda de plantas nativas por índias no centro. Pra ela, pouco importa a situação daquelas mulheres paupérrimas e, sobretudo, dos seus filhos, que não têm nem sapatos. Só interessam as plantas.
    Esse tipo de gente que coloca os animais e a natureza acima do homem me deixa a cada mais mais surpreso.
    Onde anda a preocupação com estas pessoas, e os trabalhadores do mercado público????
    Te liga jornalista, o mundo que existe não é só este que tu enxergas.
    Marcel

  2. #2 Maria
    on Oct 19th, 2012 at 1:56 pm

    Marcel, se prestares atenção o texto se refere, duas vezes para ser exata, sobre a situação destas “mulheres e crianças jogadas nas esquinas sujas e poluídas como pequenas sobras de uma sociedade que se recusa a vê-los e muito menos aceitá-los”.
    Não creio que uma questão suplante a outra, o enfoque é sócio ambiental.Pois o que leva estes os índios a venderem estas plantas? A lutarem por uma sobrevivência mesmo que miserável? Isso vai resolver ou melhorar a vida deles? De quem é a responsabilidade? As orquídeas não são as culpadas não.

  3. #3 Marcelo
    on Oct 19th, 2012 at 2:34 pm

    Excelente artigo. Ponto de vista sensível e inteligente. Ao contrário do que interpretou outro leitor, entendo que uma das maiores criticas do artigo esteja justamente na “invisibilidade” e no abandono dos indígenas, fatos que andam junto com a degradação ambiental.

  4. #4 Carolina
    on Oct 19th, 2012 at 3:32 pm

    Seguindo a lógica do Marcel, concluiríamos facilmente que a venda de bichos silvestres, de madeira, de palmito, de água, de terras públicas, de crianças (prostituição infantil) e outras práticas que podem trazer alívio à fome e gerar renda pra comprar calçados, deveriam ser discriminalizadas quando cometidas por indígenas, em virtude das paupérrimas condições em que vivem. Se estendermos o direito a qualquer cidadão que passa fome e não tem calçados (justo, não?), a venda de drogas também deveria ser relativizada, porque sustenta milhares de famílias
    paupérrimas… Roubo também sustenta muita gente miserável… Assim, veremos que todo tipo crime tem, ou pode ter, forte motivação na necessidade. Concluimos que ninguém deveria ser criminalizado por coisa alguma. O uso do velho “dois pesos, duas medidas” e políticas paternalistas e demagogas não servem e nunca serviram para solucionar os graves problemas das comunidades indígenas no mundo todo. O que precisa é, como a jornalista bem destaca, é que essas pessoas sejam auxiliadas a sair da condição marginal em que se encontram na sociedade, o que não se dará se continuarem a agir na criminalidade.

  5. #5 sil
    on Oct 19th, 2012 at 4:19 pm

    Esse é o tipo de “ecologia” burra.
    Mais vale a preocupação com a planta, do que com as pessoas que estão vendendo. Mais vale para essa moça tirar de circulação as plantas vendidas “ilegalmente” do que o valor que as índias recebem por elas, e que com isso conseguem alimentar sua família.

    Aliás, argumento burro poderá ser o meu….as orquídeas são deles, essa terra é deles….vai querer enquadrar lei?

    É um perigo que uma índia no centro vendendo orquídea vai ser a causadora da extinção da planta!!!

    Ai por favor…..

  6. #6 Carolina
    on Oct 24th, 2012 at 5:09 pm

    Nas discussões que envolvem indígenas não tarda alguém dizer aquela famosa frase “isso aqui é tudo deles, nós é que invadimos as terras deles”. Sugiro que a pessoa que faz essa “defesa” informe o endereço de sua residência pra FUNAI, para que seja reconhecida como área indígena e devidamente ocupada pelos legítimos donos. Não tem pior elemento na discussão da temática indígena do que “opiniões” de gente despreparada, ignorante e preconceituosa. Ecologia burra, Sra. Sil, vem da visão míope e tacanha de gente prepotente que se sente apta a discorrer sobre todo e qualquer assunto, como risco de extinção de orquídeas que sequer sabe identificar. Pra começar, eu recomendaria mais leitura ao Marcel e Sil, e com muita calma, porque parecem ter grande dificuldade em interpretar textos.

  7. #7 Gabriel
    on Nov 2nd, 2012 at 3:25 pm

    Não leve a mal (porque gosto deste blog), mas esse texto é um belo exemplo de por que eu detesto o jornalismo tupiniquim. Tem “pelo que sei” e “e se forem” que revelam a falta de pesquisa. Em todos os meios vejo os jornalistas confundirem seu trabalho com o de comentarista. O caso da Ford foi o mais emblemático para mim, porque ninguém foi capaz de discutir os números ou as políticas passadas (aqui ou no exterior). Pelo menos foste honesto em revelar as lacunas.

  8. #8 Vania Rokohl
    on Dec 18th, 2012 at 8:22 am

    Passo todos os dias no centro e vejo os Indios vendendo as orquideas ou outras plantas que é proíbido, já liguei para a prefeitura mas ninguém fáz nada. Acho estranho alguns leitores defenderem as “indias” que vivem em situação imprópria, mas poque os indios não trabalham? preferem ficar sentados nas esquinas vendendo plantas que são fruto de roubo, pois foram retiradas de matas de preservação.

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